Nascida em
Belo Horizonte e criada em Curitiba desde os dois anos, não
seria exagero chamá-la de pequena notável. Nem tanto
pela voz, como a outra, ou pela beleza e talento artístico,
que têm de sobra. Mas Letícia Sabatella se destaca mesmo
é pelo engajamento político, por sua luta em defesa
dos movimentos sociais, sobretudo o MST e a tribo indígena
craô, do Tocantins. A atriz participa, com outros artistas,
como Marcos Winter e Camila Pitanga, da ONG Humanos Direitos, que
tem como objetivo principal erradicar o trabalho escravo no país,
seja ao emprestar sua imagem para a causa ou comparecendo a julgamentos
de mandantes de assassinatos no campo. Nesse entrevista, Letícia
Sabatella discute temas polêmicos como religião e política,
além de reconhecer a responsabilidade da imprensa que,
em suas palavras, deixa "a maioria das pessoas desinformadas" sobre
a necessidade de uma Reforma Agrária no Brasil.
Entrevistadores:
Alessandro Tarso e Marcelo Salles. Fotos:
Alexandre Campbell e Marcelo Salles
Marcelo - Letícia, onde você
nasceu?
Nasci em Belo Horizonte.
Marcelo - E foi criada lá?
Não, fiquei lá por dois anos e depois meu
pai foi trabalhar numa usina em Volta Grande. Depois, fui para Curitiba,
onde fiquei até os 20 anos, mas sempre indo para Volta Grande,
sul de Minas, onde minha mãe tem família.
Alessandro Tarso - Você lembra da sua infância
em Minas?
Lembro, é engraçado, depois que a gente foi
pra Curitiba, sempre sonhava com o cheiro da represa de lá,
tinha muito bicho, como cobra, cachorro, coruja. Uma vez achei uma
cobra e dei pro meu pai de presente. Era muito legal. Sempre ficava
esperando a hora da gente sair e ir pra fazenda com meus primos.
Minha mãe, que foi criada na roça, tinha a iniciativa
de pegar um monte de crianças e subir rios, fazíamos
aventuras pela mata.
Alessandro Tarso - Sua mãe é viva?
É. Mora em Curitiba com meu pai. Meu pai sempre
foi aquela pessoa que, quando ia viajar pra algum lugar, pegava
semente de tulipa, por exemplo, e colocava pra germinar na geladeira,
gostava de ser meio cientista.
Alessandro Tarso - Seu pai é engenheiro, né?
Ele é engenheiro elétrico.
Alessandro Tarso - Mas ele não trabalha mais com
isso...
Trabalha, presta consultoria.
Alessandro Tarso - Ele tinha essa sensibilidade mesmo trabalhando
nessa área de exatas?
Foi ele quem me ensinou a não matar taturana e esses
bichos peçonhentos. Ele dizia pra sair do caminho do bicho
que não tinha problema.
Alessandro Tarso - E sua mãe é pedagoga. Você
acha que seu lado de contato com a natureza tem mais a influência
dela?
Acho que dos dois...
Alessandro Tarso - Eles são mineiros?
Não, meu pai é de Ponta Grossa, no Paraná
e minha mãe, de Itajubá. Meu pai foi estudar engenharia
lá e conheceu mamãe.
Marcelo Salles - Onde você estudou em Curitiba?
Num colégio chamado Stela Maris e depois no Positivo.
Fiquei em Curitiba até a faculdade de teatro, que fiz durante
dois anos na PUC. Aí, com vinte anos, vim para o Rio de Janeiro.
Alessandro Tarso - Você deve saber de uma crítica comum
sobre a cidade de Curitiba, que é uma cidade fria, com casas
geladas e pessoas gélidas. Você concorda com isso?
Não.
Alessandro Tarso - Por que? Você deve ter ouvido
já essa crítica...
São pessoas tímidas, não gélidas.
Acho que as casas são frias e as pessoas são quentes.
É que Curitiba tem uma coisa, até vou usar uma palavra
bem forte, segregadora, acho que é uma forma de proteção
e tem muitos núcleos (comunidade alemã, comunidade
italiana...). Tudo é muito conservador, por um lado é
muito legal, pois você conserva as raízes, a cultura.
E por outro, você fica meio rechaçando tudo que é
diferente, aquilo que é novo. Em relação a
quem vem de fora, as pessoas olham meio de rabo de olho num primeiro
instante. Mas você, ao entrar em contato com o ambiente familiar,
recebe muito acolhimento.
Alessandro Tarso - Então, a impressão que
tenho é justamente de que existe, um certo clima de acolhimento
dentro das famílias, mas o problema é ter acesso a
essas famílias...
Mas você acha que aqui no Rio é diferente?
Alessandro Tarso - Acho que em relação ao
público, é bem diferente. Porque em Curitiba essa
questão é levada para o público.
Engraçado, quando fui na tribo
craô
e ficamos um dia na casa de um indigenista, que era completamente
ligado à tribo e exercia um tipo de função
diplomática, ele nos preparou para entender os costumes daquela
tribo como, por exemplo, chegar na casa das pessoas. e respeitar
as diferenças que seriam encontradas. No terceiro dia, teve
o ritual de batismo, quando você recebe um nome e esse nome
é dado por uma pessoa. A partir desse momento, sua mãe
passa a ser a mãe daquela pessoa, seu pai passa a ser o pai
daquela pessoa, você vai dormir na casa de sua nova família
e tem esse acolhimento. Antigamente eles levavam isso ao extremo.
Quando chegava uma pessoa de uma outra tribo, ficava durante um
dia inteiro fora da tribo para que a tribo se acostumasse com aquela
pessoa e a pessoa também se acostumasse com a energia da
tribo. Talvez alguns lugares, como em Curitiba, que tem tantas tradições,
uma cidade mais do interior do país, tenham um pouco dessa
prática. Em outros lugares talvez você tenha uma aparência
de intimidade que você não tem. No final das contas,
acho que o ser humano precisa de um espaço a ser respeitado.
Eu percebo que aqui no Rio tem muita tradição também,
acho que o carioca tem uma prática mais ágil e calorosa,
com certeza.
Alessandro Tarso - O que você mais gosta de Curitiba?
Da pureza das pessoas. Não estou idealizando o curitibano,
mas acho que tem uma ingenuidade em relação a certas
coisas. Acho bacana as pessoas que ficam enraizadas num certo lugar.
Gosto de encontrar os parques, as culturas, como a minha avó
que tem 94 anos. Fomos ao parque da Ucrânia, onde você
entra em contato com aquelas tradições, tem a história
de João e Maria, tem uma casinha onde se conta essa história
para as crianças. Além disso tem amigos meus que foram
fundamentais, que são pessoas que participam de movimentos
sociais contra trabalho escravo, tem todo um trabalho ecológico
que é feito. Na feirinha
hippie, tem a Efigênia,
que faz um trabalho artesanal com papéis de bala, o Raul
Cruz, que morreu e deixou um trabalho belíssimo e fazia um
teatro sagrado. Lembro que aos domingos às nove horas da
manhã o
Guairão ficava lotado de pessoas
da periferia para o concerto da orquestra sinfônica do Paraná.
Marcelo Salles - Foi em Curitiba que você esteve
pela primeira vez numa peça de teatro?
Foi, tinha catorze anos, num grupo amador chamado
Alma
Nua.
Marcelo Salles - Você sempre teve certeza de que
queria ser atriz?
Não. Eu fazia balé até então
e fiquei pensando o que iria fazer da vida, estava cansada de fazer
balé e fui experimentar fazer teatro no colégio Dom
Bosco. Gostei e comecei a estudar muito.
Alessandro Tarso - Aconteceu alguma coisa que tenha te influenciado
a se decidiu pela carreira artística?
Acho que a própria atividade do teatro, fazer parte
de um grupo amador, o diálogo que existia ali, o espaço
de criação, de expressão, era uma respiração
que na adolescência era muito necessária.
Marcelo Salles - Você não chegou a terminar
a faculdade, né?
Não, estudo muito por conta própria. Sempre
que penso em voltar pra faculdade de teatro, acabo me envolvendo
com algum curso. Aliás, estou fazendo um curso com Léris
Colombaione, que é um mestre maravilhoso de palhaçaria.
Aqui no Rio existem muitas oportunidades de estudar, fazer oficinas,
que preenchem um pouco o espaço da faculdade. Estou fazendo
um documentário sobre um palhaço da tribo
craô.
Daí comecei a estudar mais essa arte e conheci pessoas maravilhosas
no Brasil inteiro. O teatro de anônimos aqui do Rio. Tudo
relacionado a palhaço, me interessa.
Marcelo Salles - E por que seu interesse por palhaços?
Fui pra tribo com o Ângelo (
ex-marido) e
uns amigos. A gente queria fazer uma peça que abordasse a
questão indígena de alguma forma. Fomos pesquisar,
estudamos os mitos, fomos batizados, vimos vários rituais
maravilhosos, desde o nascimento de uma criança até
a morte de um velho. Foi muito bacana. Fizemos uma peça sobre
isso chamada
ZÉ. Quando fui na tribo, eles me falaram
que existia ator por lá, que era o palhaço
Hotxuá.
É uma tradição milenar. A criança nasce,
recebe um nome que vem de uma linhagem de palhaços e ela
vai ser criada para ser palhaço.
Marcelo Salles - E qual a função de um palhaço
numa tribo?
É a de manter a tribo com a auto-estima elevada
e a integridade das pessoas, fazer as pessoas ficarem felizes quando
estão passando por alguma adversidade. A função
é a de regenerador do humor.
Alessandro Tarso - Um bobo da corte.
Um bobo da corte. Também tem a função
de desautorizar, de brincar com a autoridade. É uma função
importantíssima. Pelo avesso, pelo ridículo, ele mostra
o que é necessário para viver em harmonia. O que é
preciso fazer para conseguir manter a estrutura da tribo organizada.
Alessandro Tarso - E está difícil de terminar
o documentário?
Tá, porque é muita coisa bacana pra fazer.
Tenho um material bárbaro. Agora queria fazer uma entrevista
com o Léris e trazer os
craôs para um festival
de palhaço. Estou tentando ainda.
Alessandro Tarso - É de onde essa tribo?
É do Estado de Tocantins. Eles eram do Maranhão,
migraram na década de 40 e estão na maior área
preservada de cerrado do mundo.
Alessandro Tarso - Mas é uma iniciativa pessoal,
não existe financiamento?
Existe. Os índios estavam precisando de trabalhos
que resgatassem a sua cultura. Aí chamei uma amiga minha,
a Leila Hipólito, que é cineasta e morava aqui no
meu prédio e eles mostraram tudo o que tinha na tribo e a
Leila falou: “peraí, eu nunca vi nada sobre ator. A
gente já viu documentário sobre tudo, dança,
isso e aquilo, mas nunca sobre ator”. O documentário
é dos
craô, o direito autoral é deles.
Temos o apoio do Ministério da Cultura e da Eletrobrás,
além de outras instituições. Dentro desse patrocínio
tem um valor que é pra gente dar pra tribo quando for visitar,
já é uma renda pra tribo.
Marcelo Salles - E qual a sua função: pesquisadora,
repórter...?
Comecei produzindo, pesquisando e dirijo também.
Marcelo Salles - É sua primeira experiência
em direção?
É, a Leila acabou desistindo porque tinha outras
coisas pra fazer. E tenho de fazer porque eles estão cobrando.
Estão sempre ligando, perguntando: “e aí?”
Acabei pegando para fazer. Como tinha as idéias, o conteúdo
e realizado a pesquisa durante todo o tempo, era muito difícil
passar o trabalho para um diretor. Não tinha nenhum interesse
em dirigir, acabou acontecendo.
Alessandro Tarso - Queria que você falasse um pouco
de suas leituras. Alguma obra literária te marcou e o que
você está lendo agora?
O último livro que li foi
Sufis - Oração
em Movimento, um livro de uma bailarina também sobre
os sufis, além de dois livros sobre Gandhi.
Alessandro Tarso - O que te chamou a atenção
nele?
A cidadania e a santidade. É uma pessoa que acreditava
que pela prática de sua relativa noção do que
é a verdade, o amor, a justiça, você pode atingir
a verdade última, o amor maior e a justiça verdadeira.
Ele fez algo que ninguém fez pela humanidade, nem grandes
nomes bíblicos, que foi a independência de um país.
Um povo inteiro enxergou nele um líder, que conseguiu a liberdade
de um país com a não-violência.
Alessandro Tarso - Você não vê nenhum
tipo de conflito entre política e religião?
Não. Por que?
Alessandro Tarso - Porque para uma boa parte da esquerda,
a religião continua sendo uma espécie de ópio.
Acho que toda religião pode ser trabalhada ideologicamente
por um lado negativo e aí pode se transformar em ópio.
Mas isso não quer dizer que não exista verdade ali.
Quando você se relaciona com ela, pode ser libertadora, mobilizadora
e transformadora. Quando estudava para fazer uma personagem judia
fui a uma sinagoga e tinha uma preparação para o ano
novo judaico. Aí fui a uma lojinha de comida integral de
uma amiga minha e ela falou: “experimenta isso aqui”.
Eu disse que não ia experimentar porque não estava
comendo. Aí ela disse: “que coincidência, hoje
é dia de jejuar na minha religião” e descobri
que ela era judia. Ela me convidou para a comemoração
de ano novo e foi ótimo. Nessa comemoração
começou a construção do meu personagem. Conheci
um rabino bastante progressista, o Nilton Bonder. Ele decodificou
os radicais da palavra INRI e falou que significava que o passado
ia formando o presente para um futuro melhor. Muitas vezes, nosso
povo oscila em adorar um Deus verdadeiro, que quer transformar essa
realidade em algo melhor e idolatrar um Deus do estabelecido, do
conformismo. Eu acredito no Deus que transforma a realidade. A utopia
existe pra gente mentalizar algo possível, algo para ser
buscado. Como diz o Gandhi, a gente só vai encontrar a verdade
quando praticá-la, quando for ao encontro dela.
Alessandro Tarso - Você assiste novela na TV?
Assisto. Tem épocas que não vejo televisão.
Às vezes, fico também um tempão sem ir ao cinema
ou ao teatro e fico mais lendo.
Alessandro Tarso - Você está fazendo algum
trabalho atualmente?
Vou fazer “Hoje é dia de Maria” novamente.
Alessandro Tarso - Você é funcionária
da Globo?
Agora estou contratada da Globo.
Alessandro Tarso - É um tipo de
contrato de exclusividade?
Para dramaturgia, sim.
Marcelo Salles - Tem tipos de contrato que você nem
pode dar entrevista a outras emissoras, né?
Quando a emissora vai utilizar a imagem de uma atriz da
Globo, pede autorização.
Marcelo Salles - Antes desse contrato,
como era seu trabalho lá?
Costumava assinar contrato por obra. Agora tenho um contrato
de três anos e está tudo certo. Estou fazendo um trabalho
ótimo em que estudo pra caramba voz e trabalho de corpo.
A direção é primorosa.
Marcelo Salles - Você participa ONG Humanos Direitos.
Quem mais participa?
Marcos Winter, que é presidente, Padre Ricardo Rezende,
Chico Dias (ator), Camila Pitanga (atriz), Dira Paes (atriz), Carla
Marins (atriz), Leonardo Vieira (ator), Osmar Prado (ator), tem
um monte de gente.
Marcelo Salles - Eu li o manifesto de vocês na internet.
Vocês começam criticando o Bush e que uma certa passividade
tomou conta das ruas, escritórios, bares etc. E o texto diz
que precisamos fazer alguma coisa, não se sabe direito o
quê. Pra você, o que seria?
Naquele momento, fizemos um boicote a produtos norte-americanos,
além de uma passeata e uma campanha na televisão.
Acho que, em cada momento, você descobre o que precisa ser
feito.
Marcelo Salles - Essa campanha era sobre o quê?
Foi contra a guerra do Iraque. A gente se conhecia de algum
modo e todos conheciam o Padre Ricardo Rezende, que fazia um trabalho
na região do Pará. Na época, eu estava grávida
e várias pessoas estavam dispostas a emprestar suas imagens
a causas relacionadas aos direitos humanos. Em 2003, quando o Lula
foi eleito, o Marcos Winter montou um grupo para estudarmos assuntos
relacionados às questões que ferem os Direitos Humanos
em nosso país. A gente foi se aprofundando em várias
teses de mestrado e doutorado sobre o trabalho escravo, atuando
com pessoas que combatem o trabalho escravo e o trabalho infantil.
A questão da terra entrou na época porque era muito
forte. Fomos nos dispondo a presenciar julgamentos de mandantes
(de crimes agrários). Começamos a mobilizar também
outros formadores de opinião, outros atores, assistentes
sociais e pessoas que quisessem emprestar sua imagem para essas
causas, não só para enfeitar revistas de moda.
Alessandro Tarso - Como esse engajamento se reflete no trabalho
de vocês?
Olha, existe uma interferência porque você
entra em contato com o Brasil verdadeiro. Isso te ajuda a fazer
qualquer personagem. Quando você vai pro julgamento dos mandantes
do crime do marido da dona Geraldina, dos filhos dela, você
vê a luta dessas pessoas, vai no sindicato lá em Rondon
do Pará e entra em contato com pessoas que sofrem ameaças
de morte, como a dona Maria Joel ou com o Frei Henri, que veio da
França para atuar nessa região. Quando você
entra em contato com essas pessoas, você se enriquece. Claro
que não é para melhorar como atriz, mas é só
ganho, você ganha em humanidade e consciência. Isso
pra qualquer artista é fundamental.
Alessandro Tarso - Você acha que a arte pode e deve
ser engajada. A arte tem uma função social?
Tem. Nada melhor do que conhecer a comunidade em que estou
inserida para fazer uma novela. Mesmo que não vá fazer
o Che Guevara, sabe? Que seja uma prostituta, uma dondoca, não
sei, de algum modo é muito útil ter noção
da realidade por que passa a sociedade.
Marcelo Salles - Você acha que hoje, de modo geral,
os artistas têm essa visão engajada?
Ah, tem pessoas e pessoas. Tenho esperança de que
estamos construindo um país ainda mais consciente, mas tem
ainda altos e baixos.
Marcelo Salles - Quando era a época da ditadura,
parecia que tinha uma posição muito clara da classe
artística, talvez porque naquela época era mais fácil
identificar o inimigo. Hoje não se sabe muito bem, algumas
pessoas dizem que é o neoliberalismo, outras não sabem
bem para onde direcionar suas forças. Por isso estou te perguntando
sobre a classe artística. Estou te perguntando porque você
está na classe, vê de dentro. Eu, que vejo de fora,
diria que a maioria dos artistas não está tentando
transformar alguma coisa. O que você acha?
Acho que as pessoas se engajam naquilo em que elas acreditam.
Existem pessoas participando de outras coisas. O meu envolvimento
com as causas é um envolvimento pessoal. Não dá
pra pegar todo mundo e mandar acreditar numa só coisa. Mas
acho que tem um ponto que poderia ter mais atenção
num país como o nosso que é a Reforma Agrária.
Quando vejo a questão da violência aqui no Rio ,acho
que você tem de perceber, embora seja complexo, que para diminuir
a violência aqui no Rio, por exemplo, para o cara que mora
no Leblon, é essencial uma distribuição mais
igualitária de renda, terra, educação e saúde.
Isso tudo começa com uma Reforma Agrária bem feita.
O MST agora deu um exemplo de cidadania maravilhoso pra sociedade.
E isso não foi divulgado a contento.
Alessandro Tarso - Você fala da Marcha?
Da Marcha. Foi lindo aquilo, doze mil pessoas. Estive com
eles na audiência com o presidente, na apresentação
dos pedidos. É tão claro, tinha tanta coerência.
O que estava se pedindo ali, abrangia o mundo. Era pela justiça
social ampla. Pensavam em todos os brasileiros e coisas para o mundo,
não era restrito a quem está inscrito no MST.
Marcelo Salles - Eram vários pontos, né?
Vários pontos. A começar pela Reforma Agrária
para resolver uma questão social mais abrangente. É
isso que tem de ser entendido pelo morador de Ipanema, pela pessoa
que mora lá em Curitiba, sabe? A Reforma Agrária precisa
de um movimento de apoio da sociedade civil mais amplo pra acontecer.
Acho que a gente tem um governo aberto a isso. Talvez ele não
tenha a força, sozinho, pra fazer isso. Ele precisa da adesão
popular pra que isso aconteça. Os movimentos populares e
a sociedade civil têm que fazer com que isso ocorra.
Alessandro Tarso - Então, já que você
tocou no assunto, a pergunta inevitável: qual a sua avaliação
do governo Lula?
Então, a gente ainda está com sede de um
governo popular, mas não dá pra acreditar que seria
fácil. A revolução que tem de ser feita no
nosso país precisa de uma entrega vital. Neste país
existem pessoas trabalhando como escravos, pessoas sendo ameaçadas
de morte, pessoas morrendo. Então, quem entrar para modificar
isso precisa se entregar de corpo e alma. Mas vejo que existe uma
vontade política. Tivemos uma outra audiência com o
presidente sobre a questão da disputa de terra no Pará,
a questão da impunidade do trabalho escravo e a necessidade
da Reforma Agrária na região e senti a disponibilidade
para que isso aconteça. Algumas medidas políticas
estão sendo implementadas e existe uma vontade para que seja
feito e precisa de pressão popular. Não tem governo
que consiga fazer a transformação que a gente quer
sem essa pressão. Ainda é nossa oportunidade histórica
e a gente tem de ajudar esse governo a escrever essa história.
Estou sendo super otimista mas acho que ainda é um governo
de transição.
Marcelo Salles - O governo fica esperando o respaldo da
população?
É o que tem de acontecer porque a pressão
vem de tantos lugares. E como vem de cima, tem que vir pressão
de baixo.
Marcelo Salles - Mas quando essa pressão chega, não
parece que vem uma reação muito forte? Por exemplo,
ontem na Bolívia o povo foi às ruas e derrubou o presidente
que queria entregar o gás natural e o petróleo. No
Equador, há um mês, o povo foi às ruas e derrubou
o presidente que não fez as mudanças que havia prometido
. No Brasil, por ocasião da Reforma da Previdência,
o povo foi a Brasília e quebrou uma janela. E a mídia
inteira, em massa, acusou os manifestantes de baderneiros...
Bem, a mídia também pegou pelo lado da pancadaria
nessa última marcha do MST, que foi coisa de gente infiltrada,
não se iniciou pelo movimento. O movimento, pelo contrário,
ajudou a acabar com a confusão e, de algum modo, a marcha
foi bem sucedida. Cerca de 90% daquilo que eles pediram, o presidente
se comprometeu a fazer. E no momento em que Lula se pronunciou,
ele não criminalizou o movimento. O governo não criminalizou
mas a maior parte da imprensa sim.
Marcelo Salles - Na sua opinião,
por que isso acontece?
Você que é jornalista me responda.
Marcelo Salles - Não, justamente por isso. Estou
apenas te entrevistando. O Marcelo Yuka, por exemplo, declarou que
o MST tem um sistema de educação belíssimo
que a mídia não divulga...
É verdade. Eles mudaram uma lei voltada para educação
rural da criança no campo, de modo que eles não precisam
mais usar a cartilha da cidade onde moram. Nessa última Marcha,
quando estava andando no meio do acampamento, as pessoas vinham
me pedir autógrafo com livro de filosofia ou outro qualquer
bem interessante. Deu pra ver como eles têm progredido em
consciência ecológica. Às vezes, vejo algumas
pessoas exigindo uma educação do MST que
a priori
eles não recebem.
Marcelo Salles - Mas você não respondeu a minha
pergunta...
Com relação à imprensa, durante muito
tempo, a existência de trabalho escravo não foi divulgada.
A gente tem de ver quem sustenta a imprensa.
Alessandro Tarso - Você disse que ainda tem esperança.
Você vê que o Lula tem vontade, mas o fato é
que vontade não é suficiente e ele talvez tivesse
que ter mais do que isso. Você acha que ele tem o direito
de ter apenas vontade?
Acho que ele precisa agir e nós precisamos tomar
atitude. Não elegi um governo pra ficar sentada esperando.
Acho que ainda não somos um país de esquerda. Podemos
estar caminhando para isso.
Marcelo Salles - Você esteve presente
na comemoração do aniversário do Brasil de
Fato, em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial. Você
acredita na imprensa alternativa, acha que pode ser um caminho viável
para combater essa desinformação?
Um dos caminhos. Um outro seria a gente fazer os caras
da imprensa oficial ficarem mais bonzinhos.
Marcelo Salles - E você acha que é possível
fazer isso conversando, filosofando?
Por que, você está sugerindo outra coisa?
Marcelo Salles - Não. Só queria saber se você
acredita mesmo que é possível mostrando que a Reforma
Agrária é importante para reduzir a violência?
Vamos tentar, né? Eu também não sou
a salvadora da humanidade. Mas as coisas começam assim mesmo,
né?
Alessandro Tarso - Você não faz mais publicidade,
né?
Não.
Alessandro Tarso - Isso é uma posição
taxativa?
É.
Alessandro Tarso - Por que?
Não gosto.
Marcelo Salles - Mas nunca fez?
Já.
Alessandro Tarso - Não gosta do
quê?
Não gosto de fazer.
Marcelo Salles - Você encara como estar vendendo uma mentira,
uma ilusão?
Alessandro Tarso - É a questão do consumo
ou do trabalho em si?
Não gosto, não acho legal. Não acho
legal falar uma coisa que não é verdade, em que eu
não acredito. Não gosto de desgastar minha palavra
com uma coisa que não é essencial.
Alessandro Tarso - Você recebe propostas?
Recebo. Propostas muito boas. Mas é uma loucura,
me chamaram para fazer um comercial num banco e tinha um amigo meu
que trabalhou nesse banco durante vinte anos. O que eu ia receber
pra fazer esse comercial, ele não ganhou em vinte anos trabalhando
oito horas por dia.
Alessandro Tarso - E aí...
Aí eu não fiz. Também não acreditava
no que eu ia dizer. Você vai vender seu melhor sorriso e não
é verdade. E é porque sou conhecida, se fosse um personagem,
mas não, é a Letícia Sabatella que interessa
ao produto. Aí é mais grave, é o seu nome.
Agora, vejo pessoas que fazem bem. É uma postura pessoal.
Não consigo fazer bem, sonho, choro.
Alessandro Tarso - Você é uma pessoa que tem
um discurso político, um engajamento e, ao mesmo tempo, trabalha
na Globo, que além de ser uma empresa idônea, profissional,
é uma empresa que a gente sabe que tem um passado duvidoso,
um envolvimento político negativo. Isso te incomoda? Como
é lidar com essa questão, como você administra
essa contradição?
Por exemplo, Furnas é uma empresa que dizimou os
índios
avacanoeiros. Os novos diretores de Furnas,
reconhecendo o que se fez na época, fizeram um documentário,
além de projetos sociais, ecológicos, de resgate da
cultura,fazendo um
mea-culpa. Então, a gente está
num mundo que veio antes da gente. Tem a Igreja Católica,
que participou da Inquisição, que participou de guerras
e promoveu atrocidades. A gente está dentro de um sistema
que é muito diabólico. Tudo que, de algum modo, foi
construído nesse sistema, as estruturas empresariais, comerciais
e mercadológicas estão dentro de uma estrutura que
coloca as instituições em primeiro plano, o ser humano
e as questões sociais pra trás e a alma das pessoas
dentro de cubinhos compartimentados, oprimindo mesmo o que há
de mais essencial no ser humano. A gente faz parte de um mundo assim.
Você já pensou em se suicidar por causa disso? Eu já.
Mas cheguei à conclusão de que existe um caminho beija-flor
de você construir a luz dentro disso, de construir dentro
do possível essa utopia de transformação, desse
outro caminho possível. Desse mundo que se faz através
de pressões sobre as grandes quantidades de lucro e ganância.
Alessandro Tarso - Como o Foucault falava, micropolítica...
Começa aí, acho que tem coisas muito possíveis.
Não acho que a Globo deva ser a única televisão,
o único meio de expressão, um monopólio. Acho
que não é necessário. Não precisa ser
assim. Mas acho que ali tem espaço pra uma dramaturgia de
qualidade, tem diretores bons, artistas reais, não tem só
pessoas interessadas em ter casas, carrões, em ser a estrela
máxima do Brasil. Tem artistas de fato ali. E, por enquanto,
são artistas que me interessa muito trabalhar junto com eles.
Mas não tenho também a vontade de estar só
trabalhando ali. Por isso, também busco trabalhar em outros
lugares, acho legal dar a contrapartida social, poder cuidar da
minha sobrevivência e, ao mesmo tempo, emprestar minha imagem
pra outras causas e construir outra realidade, pra fazer como no
livro “A águia e a galinha”. do Leonardo Boff,
que é outra pessoa que eu leio. Você deve se permitir
alçar esse vôo de águia, que é uma dimensão
que a gente tem, e também ter seu cotidiano de galinha.
Alessandro Tarso - E você pode escolher as coisas
na Globo?
Posso, eu escolho.
Alessandro Tarso - Isso é uma maneira de você
filtrar?
É um jogo. Tem horas que você cede e tem vezes
que você consegue. Ali tem pessoas com as quais eu aprendi
para caramba. Alguns trabalhos que não concordei em fazer,
não fiz. Teve momentos que até negociei. Vamos suspender
meu contrato, não vou fazer esse trabalho, não recebo,
e depois quando for trabalhar de novo, meu contrato volta a entrar
em vigor.
Marcelo Salles - Você pode citar um exemplo?
Uma novela.
Marcelo Salles - Por que?
Por vários motivos, não foi só um
caso. Mas acho que você vai tentando construir o cidadão.
Acho que também eu não sou tão coerente. Estou
ainda buscando essa coerência.
Marcelo Salles - Voltando ao MST. Um dos pontos entre as
reivindicações era a democratização
da comunicação. O que você pensa disso?
Acho isso super saudável para um país do
nosso tamanho.
Alessandro Tarso - Você trabalhou
no filme Chatô. E a gente sabe pela imprensa que
teve uma série de problemas, foi colocada em questão
a integridade do trabalho. Queria saber o que você pode dizer
sobre isso. Durante o trabalho, você percebeu alguma coisa
do ponto de vista administrativo que justifique essas críticas?
Tinha muita qualidade o tempo todo. Fiz um personagem super
pequeno. Mas o que vi, foi uma equipe de produção
super competente, talvez tenha consumido uma soma grande de dinheiro.
Aí conversando com o Guilherme (
Fontes, diretor de Chatô,
O Rei do Brasil), que é um doce para conversar, vi que
ele ficou bem deprimido com tudo. Depois o caso foi pra Justiça
e nada foi provado e ele ainda teve o direito de arrecadar mais
dinheiro. Do ponto de vista legal, acho que não aconteceu
nada errado. Talvez ele tenha se valido de alguma possibilidade
que legalmente ele poderia ter e tenha tirado proveito disso como
começar o filme com parte do orçamento para depois
pressionar outros patrocinadores para conseguir mais dinheiro.
Alessandro Tarso - Qual a situação atual do
filme?
Acho que o Guilherme estava terminando de fazê-lo,
o que vi do filme era muito bom. Em relação ao meu
pagamento, facilitei ao máximo pra ele, porque chegou uma
hora em que ele não tinha como pagar as outras pessoas. Disse
que ele poderia me pagar quando pudesse. Da minha parte, fiz isso.
Marcelo Salles - Da última vez que ele esteve na
Petrobrás, disse que o filme estava pronto e só faltava
finalizar. Mas estava lá na gerência de patrocínio
pra pegar mais dinheiro...
É, isso é uma loucura, porque foi muito dinheiro
ali. Na verdade, me dá calafrios tanto dinheiro assim pra
fazer um documentário. Aí eu vejo como cinema é
caro. Não tenho vontade de viver de cinema, tenho vontade
de fazer personagens, mas não de depender disso, dá
um desespero, porque é muito caro. Dói. Uma ilha de
edição, mexer com isso, é assustador.
Alessandro Tarso - Li numa entrevista que você dizia
ter sido assaltada.
Sim, fui assaltada três vezes, mas sem violência.
Uma vez, estava com duas amigas no carro, tinha acabado de vir de
uma aula de ioga em Botafogo, que faço sempre na hora do
almoço, tem um engarrafamento terrível, os carros
com os vidros abertos, a gente com o pé pra cima. Daí
chegaram três caras com uns dezoito anos, acho até
que estavam com uniforme de presídio. Chegaram gritando:
“Passa a grana aí!”. A gente “Hã?
Peraí, isso é jeito de falar? Peraí, calma”.
Aí eles: “Ih, foi mal”. Eu disse: “Espera
aí, eu tô pegando”. Eles: “Não,
não precisa”.
Marcelo Salles - Te reconheceram?
Não. Nessa hora, eles nem me reconheceram. Eu estava
irreconhecível, estava acabada. Outro dia, estava andando
também em Copacabana estava saindo do teatro SESC de Copacabana
e estava indo pra igrejinha onde o padre Ricardo morava, íamos
fazer uma reunião do MUD [Movimento Direitos Humanos]. Estava
indo pela praia, toda desorganizada, com a bolsa aberta, com uns
terços na mão, falando ao telefone. Aí passei
por entre dois caras, deviam ter uns 18, 19 anos. Um deles estava
cheirando cola. Um deles ficou me olhando. Daí falei: “Tudo
bem?”. E depois senti meu coração bater mais
acelerado, senti que ia ser assaltada. Aí quando foi diminuindo
o movimento, num lugar mais isolado, eles foram se aproximando.
Fui sentindo um frio na espinha e perguntei “E aí,
tudo bem?”. Aí eles ficaram me olhando e disseram:
“Peraí, conheço você de algum lugar. Eu
disse: “Eu também. Bonito você, qual é
seu nome? Você é artista, não é? Aí
comecei a perguntar um monte de coisa. Aí fomos conversando
até a igrejinha, quando eles me perguntaram se não
tinha medo de andar sozinha por aí. Perguntei: “Medo
de quê, de ser assaltada?”. “Não... Nunca
te assaltaram?”, eles perguntaram. “Já tentaram”.
“E aí?”. A gente foi conversando e ficamos amigos,
somos amigos até hoje. “E vocês, o que fazem?
“Você não sabe?”. “Imagino... Mas
vocês não são ligados ao tráfico, né?”
“Somos também”. “Ah, por que, gente, deixa
disso, não vale a pena, vamos ver minha peça, estou
ali no SESC de Copacabana, e comecei a falar. Antes de ir embora,
um deles falou: “Você faz um favor pra mim? Dá
um autógrafo pra minha mãe? Há muito tempo
ela não tem motivo pra ter orgulho de mim”.
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