A tarde fria contrastava com os ânimos aquecidos de Sérgio
Bianchi em seu apartamento no centro de São Paulo. Revoltado
com o fracasso de bilheteria de seu último filme, Quanto
Vale ou É Por Quilo?, Bianchi, um cineasta de idéias
firmes, dispara para cima do governo Lula e afirma: "A única
coisa que dá dinheiro no Brasil hoje é a miséria".
Visivelmente cansado com os esquemas viciados do cinema nacional,
completa: "vou parar de fazer cinema". Espera-se que seja apenas
jogo de cena.
Entrevistadores:
Andréa DiP, Cazu, Diogo Ruic, Natalia
Viana, Sofia Amaral e Tatiana dos Santos. Fotos:
Cazu
Que massacre o filme, não? Que loucura...
Tatiana dos Santos - Como?
Ah, cronicamente (
Cronicamente Inviável,
filme anterior de Bianchi), as pessoas adoraram, tive 80 mil espectadores.
E de Quanto Vale (
Quanto Vale ou é Por Quilo, filme
atual de Bianchi), a mídia não está dando nada,
o filme está saindo de cartaz, foi mal lançado. Acho
que mexi com umas pessoas que não podia mexer. Não
entendi direito. Daqui a pouco eu entendo. Mas isso eu não
vou falar, vamos falar sobre o filme, vou ficar quieto.
Natalia Viana - A gente sempre começa perguntando sobre a
infância do entrevistado. Do começo mesmo.
Bom, interior do Paraná, Ponta Grossa, cidade tradicional
do Paraná antigo. Formado por famílias poderosas,
grande quantidade de imigrantes italianos e alemães, na minha
cidade tem um pouco também de poloneses e ucranianos e alguns
holandeses. Sou neto da excrescência das imigrações.
A minha família veio de um iugoslavo, uma suíça
e um argentino fugido. Meus avós ainda eram de tribos indígenas
diferentes e casaram entre si. Era a família dos artistas.
Meu pai e meu avô eram fotógrafos. Muitos artistas
ganhavam dinheiro naquela época como fotógrafos, tirando
fotos de família em estúdios de telhado de vidro.
Sou descendente disso. Classe média-baixa. Quando nasci,
tinha um avô que era classe média mais alta, mas perdeu
tudo. Alguns dos meus parentes tinham cultura. Lá não
tinha um mendigo. Quando aparecia um mendigo e batia na porta, todo
mundo acreditava que ninguém podia, na cabeça, por
exemplo, da minha vó suíça, estar caído
na rua passando privações, sem que fosse um poeta,
um sábio ou um mago. Se um mendigo aparecesse, ficava toda
a criançada sentada à mesa escutando o que ele tinha
para dizer. Sou fruto disso, vi minha primeira escada rolante aos
18 anos.
Tatiana dos Santos - Ficou lá até que idade?
Fiquei até os 16 anos, depois fui para Curitiba
onde eu tinha família e fiquei até 1968, daí
vim para São Paulo.
Sofia Amaral - Fez faculdade?
Várias faculdades e larguei todas. Terminei uma
aqui em São Paulo, a de Comunicações.
Tatiana Santos - Você tentou quantas antes?
Fiz 4 que não terminei: Economia, Engenharia Florestal,
Biologia e Ciências Sociais. Era época do movimento
estudantil. Aquela coisa de 1964, 68. Até esses dias, estava
conversando com uns historiadores da USP porque tenho uma visão
meio diferente do que aconteceu naquela época. Não
tinha nenhuma cultura profunda, tive uma família organizada,
escutava música clássica em casa. E a faculdade inteira,
tirando a minoria, era uma organização para estudar
o marxismo e o operário. Isso era o sistema. Não que
fosse a oposição, isso era a faculdade. Me lembro
que a gente fazia grupos de teatro brechtnianos. Fazia trabalho
com operários para ensinar a lei da mais-valia.
Natalia Viana - Quando isso?
Entre 1964 e 68.
Tatiana dos Santos - Você já ia para algum
lado na arte?
Não. Tinha uma ânsia por tudo. Imagina, estava
sozinho, podia fazer o que quisesse. Fiz revolução
desde usar sandália até cavanhaque e cabelo comprido.
Quando vim para São Paulo tinha uma efervescência cultural
total. Morava perto da rua dos Ingleses onde você podia assistir
o
Balcão, era uma coisa enlouquecida, tinha
Roda
Viva. As coisas do Zé Celso. Tinha o
underground,
os pré-punks. Era uma tribo de enlouquecidos, mudaram o mundo.
Andréa Dip - Você veio para São Paulo por causa
disso?
Vim para São Paulo por causa de uma cagada. O negócio
de jogar bolinha de gude para os cavalos (
da polícia)
tropeçarem (lá em Curitiba). Não optei pela
luta armada. Até jantei na semana passada com duas amigas
que não via há 40 anos e que fizeram a opção
pela luta armada. Uma é política agora do PT, mas
do PT cópia do PT. Jantamos juntos, foi uma coisa carinhosa.
Aí fiquei analisando o que a minha vida me negou por não
pactuar com isso, porque houve uma decisão. Em 68, todo mundo
que acreditava no mudar, fez opções. Na hora que teve
a cisão no poder federal, certas áreas que tinham
se mancomunado com os militares expulsaram as outras áreas.
Daí optaram por luta armada, roubo a banco... Foi uma experiência,
lembro que estava na rua, gritei muito, organizei uma tomada de
uma biblioteca pública no Paraná. De repente via falta
de consistência, sempre fui muito rígido comigo. Tudo
bem que seja louco, divertido, palhaço, entendeu? Revolucionário
existencial ou não, mas se não tem alguma consistência,
não tem sentido e me senti com falta de consistência.
Eu era muito grande, tinha a voz muito forte, então comandei,
mas não era da direção do movimento estudantil.
Comandei para o nada. Vi que ia pagar um preço.
Cheguei na casa da minha tia e me vi na televisão sendo preso.
Vi uma coisa que não tinha consistência, tinha dúvidas
e vim para São Paulo em 1968.
Natalia Viana - Veio para cá sozinho, fugindo de
alguma coisa?
Foi um bando de coisas. Curitiba era uma cidade pequena
para mim já. Pelas vontades que tinha.
Natalia Viana - E onde você caiu aqui?
Teve uma época boa, sabe, morando 10 num apartamento.
Morei na Vila Buarque. Era uma cidade que tinha muito mais coisa
para conhecer. Fiz ECA (Escola de Comunicação e Artes
da Universidade de São Paulo), já gostava de cinema
Natalia Viana - Quando você foi fazer cinema já
pensava no que queria dizer com ele?
Não. Tanto que meus dois primeiros curtas parecem
coisas que não são minhas. Eles são completamente
belos. O segundo curta, em branco e preto, é uma história
do conto do Cortázar, do cara que vomita coelhos. É
uma sonata, belíssimo. Era quase a estética pela própria
estética. Depois, quando recebi a pressão de “como
você está fazendo filmes estéticos?!”,
“não pode!”, fui fazer um filme político
e fodi com tudo, entendeu?
Sofia Amaral - Que pressão foi essa?
A pressão da época, todos os meus colegas
faziam filmes políticos, entre aspas, partidários.
Tinha uns que não faziam. Por casualidade da vida caiu na
mão fazer um mais político. Voltei para o Paraná
depois de 1975 e quis trabalhar lá. Daí teve um quebra-pau
que não fiz, disseram que fiz e saiu na capa do jornal que
eu tinha destroçado um cara com uma barra de ferro. Fiquei
puto quando li no jornal e fui lá falar com o cara que não
tinha batido nele! Era muito inocente, e ele achava que eu tinha
feito algo contra ele. Quando viu que eu era um idiota que estava
sendo usado dentro do jogo político para tirar o poder dele,
disse irônico: “então, vai fazer um filme”.
Tinha o trabalho de um cara sobre os índios e ele passou
para mim. Fez um cheque na hora, pouco dinheiro, mas maravilha.
Fui ver a realidade e como tinha a carta do poder da época,
dizendo que podia entrar em tudo, eles me recebiam e me diverti.
Natalia Viana - Parece que foi ali que você tomou
um choque...
Não foi choque. Achei legal ver outros lados da
realidade. Porque no fundo o que era a reserva, era a FUNAI e o
governo federal que tinham uma serraria. Tiravam madeira e o cara
vendia.
Natalia Viana - Ficou lá quanto tempo? E onde era essa re
serva?
O filme foi mais de montagem. Era no norte do Paraná
onde os índios todos já eram “civilizados”.
Foi um filme forte na época e o mundo cultural me descobriu.
Fiz um filme que todo mundo fatura em cima do índio. Não
pegava coisas muito fortes. Fui filmar as autoridades e na hora
de falar, o cara punha texto oficial. Daí fiz autoridades
falsas, mas tão verdadeiras que até hoje ninguém
sabe qual era falsa e qual era verdadeira. Tem o bispo, o governador,
o sociólogo, o antropólogo, a socialite falando sobre
isso. Só que metade é falso. Foi divertido, o filme
ficou mais virulento, com ele ganhei Festival de Gramado, Brasília,
essa coisa toda. Ai entrei na colônia cinematográfica,
que eu não fazia parte. Já tinha um longa feito aqui
num castelo da Brigadeiro, mas era
underground total. Não
tinha nem roteiro.
Natalia Viana - Você fala “entrei para a comunidade
cinematográfica”, você foi “bem recebido”.
Como foi entrar dentro de um núcleo que também é
muito criticado?
Entrei no jogo dos cineastas. Fiz mais dois longas e fiz
o
Cronicamente, que aconteceu de novo. Agora nesse, apaguei
um pouco.
Sofia Amaral - Teve bastante critica também.
Teve tudo.
Sofia Amaral - Mas a maioria dos seus filmes sempre tem
defensores fervorosos...
Os defensores fervorosos lavaram as mãos. Ligava
e o cara dizia: “estou indo para Picinguaba, agora não
posso” (
risos). Acho que é o tema do filme
também. Alguns dizem que dei a cara para bater.
Natalia Viana - Vi os dois e gostei muito desse.
Muita gente gostou. Acho que chegou a hora. O cinema brasileiro
é matéria de ninguém. Mercado não tem,
mesmo essas quantidades de milhões de espectadores dos
blockbusters,
é mentira. O dinheiro é público por meio de
incentivo fiscal. São sempre coisas muito difíceis
de ter um parâmetro. Agora com o artigo 3, as distribuidoras
americanas podem investir também, quer dizer, investir com
dinheiro nosso. Virou uma bandalheira, tudo para cumprir o ideário
neoliberal. É obvio que é necessário criar
uma indústria. Há a necessidade de que se o filme
foi financiado com dinheiro publico, volte ao povo. Isso é
a necessidade básica, ética e moral. Agora nos últimos
3 anos, teve a Ancinav, a coisa foi feita para dar errado.
Natalia Viana - Não foi uma tentativa de regulamentar?
Foi uma tentativa de não dar em nada. Na hora que
li a coisa, “bom, lá vem o truque”, porque faz
parte da política de agora. A política de agora não
é assim? Pós-cinico. O PSDB inventou o cinismo e o
PT é o pós-cinico. É cínico ao cubo.
E não cai a ficha.
Natalia Viana - São boas intenções que não
passam?
Não é que não passa. A própria
direção de quem está querendo fazer é
da Globo. É patético. A Globo não quer, ela
tem um interesse econômico. Ela não vai querer dividir
o lucro dela. O cinema americano vem para cá e é um
braço do império na invasão cultural, mas é
um negócio. O Estado brasileiro tem obrigação
de taxar adequadamente a entrada do produto americano, defender
a nossa cultura e nossos valores. Que tenha as boas comédias,
o
starsystem daqui também. O problema é que
tudo se faz dentro do esquema pós-cínico para que
pareça que há uma indústria. E aí tem
os escoteiros formados pela massa de cineastas que vai a qualquer
seminário, ou debate. Não cai a ficha do jogo maior
e as coisas não dão em nada porque três indivíduos
do Cinema Novo ligados à Globo, obrigados pelo seu próprio
emprego, resolvem dizer que é dirigismo cultural. Estou cada
vez mais achando que burguesia pode ser de direita ou de esquerda
e cada um defende o seu interesse. Agora esse interesse vira uma
loucura que até se ganha uma montanha de dinheiro fazendo
festival e levando filme grátis para o povo.
A única coisa que dá dinheiro hoje no Brasil
é a miséria. A miséria é o nosso produto.
Largamos a bunda da mulata, o futebol e vamos vender miséria.
Por isso quis fazer esse filme. Falam: “você está
fazendo a mesma coisa”. Sim, por que não? Não
estou sendo passivo. Estou colocando todas as contradições
e o filme foi muito bem pensado. Tivemos reuniões de suar.
Não quis dar o receituário e acho que não dei.
Natalia Viana - Mas você esperava que esse tapão fosse...
Não me incomodava que as pessoas lesadas, disléxicas,
burras que escrevem, falassem mal. Tirando Inácio Araújo,
que acho muito inteligente, apesar da relação ruim
que tivemos no passado e que ele ficou ressentido. Ele é
um boboca porque gosto das coisas que ele escreve e ele virou o
mais contra possível. O que me assustou um pouco foi uma
espécie de omissão de gente muito inteligente.
Natália Viana - Mas é que o seu filme toca
naquele negócio da esquerda. E agora? O poder é uma
porcaria, quero mudar alguma coisa vou lá e, bom, faço
um trabalho numa ONG. Ele mexe com a esquerda de hoje em dia. Para
onde a esquerda está tentando ir.
Não é só a esquerda, as ONGs não
são todas de esquerda. O PSDB tem muitas. Tem gente de tudo
que é jeito. Virou uma forma de viver burguesmente como fazer
toalhinha, doce, montar loja de vídeo. Mas não sou
contra isso. Meu filme não coloca isso. Não foi uma
maldade desumana contra o ato de ser caridoso. Isso é uma
bobagem. Sou contra usar como produto o ser humano... Isso na escravatura
deu a cagada que deu. Vi um negócio três meses atrás
que enfim os historiadores alemães puderam falar porque o
povo alemão não foi contra o extermínio de
seis milhões de pessoas. Porque o povo alemão veio
de uma hiper inflação, de uma primeira guerra mundial
e o proletariado alemão estava em uma profunda miséria.
Todo o lucro dessas seis milhões de pessoas mortas foi canalizado
para um sistema socialista de atendimento à população.
Entendeu? Ô gente! Se antena!
Tatiana dos Santos - Mas você coloca todas as ONGs
no mesmo balaio!
Isso é uma bobagem. Não coloco no mesmo balaio.
Coloco o jogo mercantil. Não quer dizer que todas são
ruins ou todas são boas. Sou contra ganhar dinheiro em cima
disso. Aí vem o negócio da religião, das igrejas
crentes. São vinte e duas e cada uma acha que a sua está
certa e a outra não. Não vou discutir isso. Isso é
primário! Acho que o jogo é errado. Não se
ganha dinheiro da miséria, é feio, bruto. Deve-se
usar a energia para outras coisas: pressionar o Estado para funcionar,
por um bom colégio, por ter divisão de renda eqüitativa.
Lavar a alma com as boas intenções, estou fora.
Natalia Viana - Mas o que incomoda essa classe média é
que quem faz filme como Cidade de Deus e Carandiru está falando
sobre a miséria.
Se vocês querem discutir sobre moral, então
vamos. O Gilberto Dimenstein fez um debate comigo e veio com a questão
da moral. Falo assim: “bom, aceito que sou errado desde que
o senhor coloque sua caixa contábil no meu nome para que
eu saiba se o senhor é bom”. Não é isso?
É questão de polícia! Se legitimo o uso do
miserável como mercado, tudo bem. Então, viva a escravatura!
O filme ia se chamar
Maravilhas da Escravatura, tirei esse
nome porque achei ofensivo. Então que seja. É a característica
tribal da cultura brasileira? Então que seja. Estou fora.
Não acho que é mercado, não pode ser mercado.
Sei mais ou menos isso porque fui numa reunião com senhoras
sobre gente na rua. Fui lá para ver que é isso. No
meio da conversa, ninguém sabia qual era o departamento da
prefeitura para isso, nem do Estado e do governo federal. Então
estou fora. Elas querem se sentir boas! Existe o bem intrínseco
ou o mal intrínseco? Não sei. O povo alemão
da Segunda Guerra Mundial devia achar que estava fazendo o bem.
Não sei. Foram achando que os outros eram os inimigos. Não
quero discutir. Isso é truque para não pensar no que
o filme diz, que é muito mais sobre as razões da marginalidade.
Não fala só sobre ONG. Não tem nem a palavra
ONG. É que, de repente, lá vem aquele chato dizendo
que todas as nossas boas intenções são furadas.
Porque nossas boas intenções fazem com que haja a
permanência do desastre. Vi coisas que você não
acredita. Alta burguesia leiloando colarzinho de gatinho, de diamantes!
 |
| Lázaro Ramos - cena do filme:
Quanto Vale ou É por Quilo |
Sofia Amaral - Você entrou nesse mundo da caridade
e o que você viu?
Tenho duas coisas ficcionais no meu filme. O resto é
minha forma de ver a realidade. Tenho o personagem do Lázaro
Ramos, nunca conheci um bandido articulado, inteligente e moralista
como ele. Nem sei se existe.
Sofia Amaral- Marcinho VP!
Umas pessoas disseram que tem gente do PCC que pensa assim.
Não sei, não mantenho contato com esse tipo de pessoa.
Acho que ele é um bandido sim. Outra é a história
da Ana, a atriz principal, que puxei um pouco dos primeiros petistas,
pessoas visionárias mesmo. Ela gosta de criança, quer
resolver, é contra a corrupção e vai onde tem
que ir, mas o final dela também é ficção.
O resto é tudo coisa que observei, por mais absurdas que
sejam.
Tatiana dos Santos - Numa cena do filme acontece uma festança.
Você viu festas assim?
Fui para Praga na Transparência, que é uma
ONG internacional contra a corrupção. Não sei
como é que eles funcionam. Mas era uma grande festa, isso
posso falar.
Sofia Amaral - Nenhuma ONG veio reclamar? No filme, aparece
o logo da ABRINQ...
Isso é uma coisa de direção de arte,
alguém já reclamou que aparecia a ONG dele, mas é
coisa de direção de arte. O que vocês acham?
Tatiana dos Santos - Acho que você tratou de um tema
muito difícil e que não deu uma outra...
Saída? Não é minha obrigação.
Pensa. Aliás, dei dois finais. Podia ter um terceiro, um
quarto, um quinto.
Tatiana dos Santos - Mas a pergunta é para saber o que você
acha?
Se tem saída? Acho que a minha obrigação
não é mostrar saída.
Cazú - Te cobraram saída no Cronicamente Inviável,
né?
Mas não é minha obrigação dar
a saída. Tudo bem, tem filmes que dão saídas,
não tem? Dá redenção. Meu filme é
para pensar. E se eu não souber a saída? Burro não
sou. E se a minha inteligência não consegue?
Diogo Ruic - Acho que as pessoas se acostumaram um pouco com cinema
americano, né?
Da redenção. O estuprador também tem
as razões dele.
Andrea Dip - Ou então ele morre.
Diogo Ruic- Na verdade, filmes que deixam uma certa incógnita
no final, a tendência é que a pessoa saía um
pouco cutucada.
Pode ser, o Zanin disse que o filme foi mal feito, é
uma mentira profunda, pode ser tudo, mas mal feito ele não
é.
Sofia Amaral - Quanto demorou para rodar o filme desde a
idéia?
Sempre demoro uns cinco anos. Neste, demorei quatro.
Natalia Viana -Tinha um outro final, não é?
Tinha um terceiro. Não foi bem elaborado, mas era
cínico.
Tatiana dos Santos - Entra também o bem e o mal que podem
andar juntos não é?
As pessoas sabem por dentro de si o que é bem e
o que é mal. O problema é que existe esse sistema
capitalista que você tem de ter dinheiro. Então, se
uma coisa dá dinheiro, todo mundo discute. É que nem
essa história da floresta amazônica, a Marina Silva
chora porque agora está sendo desmatado muito mais do que
antes, mas ela está rodeada de pessoas com boas intenções.
Tenho raiva disso porque não cai a ficha que o projeto dela,
a tática dela, a estratégia dela, a filosofia dela,
seja o que ela faz, gera maior desmatamento? Qual é o objetivo
principal? É não desmatar. Então, se ela não
consegue, pede demissão. Senão fica conivente, né?
Aí é o que me assusta. Historicamente, vai ser: na
gestão dela, desmatou mais. Não venha com essa conversa,
entendeu? Não me venha com essa conversa que o governo de
agora é a favor do pobre. Nesta gestão, os bancos
lucram mais. Está mais aberto o capitalismo. Acho que essa
turma do PL, PP, não tenho nada contra, é aquilo que
eles são. O Bertolt Brecht tem um poema:
“
Então eu vou te dar um bom paredão, vou
te dar um tiro com uma boa bala... num bom fuzil”.
Cazú - Você acha que isso que você está
falando, desses números, dessas coisas do PT, era uma crônica
anunciada?
Vou ser sincero: tinha uma parte de mim que achava que
era uma pequena burguesia ensandecida pelo poder. Mas eu concordava
com a maioria dos textos. Acho que muita gente concordava.
Natalia Viana - Você, como a gente passa um pouco
na Caros Amigos, sabe do jogo que está por trás disso.
Como é que você faz pra arrecadar fundo, sabe do histórico
de quem está dando dinheiro?
Essa é a tática do Gilberto Dimenstein: você
também pegou dinheiro das estatais para fazer seu filme?
Sim!
Natalia Viana - Como é que você faz para se livrar
disso?
Não é para se livrar disso. Você não
consegue pensar não sendo moral? Tudo é moral na sua
cabeça? Você faz análise? É religiosa?
Suicídio? Gilete? Acho uma loucura. Por que isso?
Natalia Viana - Porque dá pra separar, não?
Acho que tem a Petrobrás, o BNDES, Furnas, os Correios,
você quer dizer se eu aceito propina? Não, porque não
sei como fazer, inclusive porque não gosto do clima. Nem
é o problema da coisa, nem é moral. Sabe, aquela coisa,
tudo vale a pena se a alma não é pequena. É,
quem sabe é alguma coisa
blasé da minha alma..
E eles nem me propõem porque eles cagam de medo, eles sabem
que saio de lá contando para todo mundo. Sou bocarra. Esse
é o sistema de fazer filmes. Se uso dinheiro inadequadamente
no filme? Não. Agora, é um sistema criado. Fui contra
esse tipo de lei de incentivo. Acho que tinha de vir uma dotação
do governo. As pessoas quiseram brincar de neoliberalismo e liberar
a taxação do capital privado como se ele fosse entrar.
E o capital privado não entrou, entendeu? Você acha
que no começo não fui em peregrinação
em tudo que é indústria? Aí chegavam pra mim
e falavam: “Sérgio, tem renúncia fiscal muito
mais interessante”. Aí ficou o Estado para manter a
necessidade de haver o cinema. A coisa ficou muito confusa porque
era um projeto para restringir a entrada dos americanos e criar
uma indústria nossa. E agora?
Natalia Viana - Você acha que o seu filme teria mais
público...
Teria, claro, mas não tem como. Não estou
fazendo um filme de entretenimento, estou tendo 30 mil espectadores.
No lançamento do “Cronicamente”, tirei o Estado,
consegui enganar o Estado, não deixar eles interferirem e
consegui 80 mil. Se tivesse alguma coisa a favor, teria muito mais.
Claro que não seriam dois ou três milhões. Também
concordo que as multidões não estão a fim de
sofrer. Você acha que sou igual, então?
Natalia Viana - Acho que sofre.
O cinema é caro, quem sofre são os moralistas,
né? Você quer encontrar Jesus? Eu quero encontrar Jesus!
Natalia Viana - Em Cronicamente Inviável, falta
um substantivo ali, a gente vê o filme e tem a impressão
de que o Brasil é cronicamente inviável.
Nunca pensei nisso. Fiz o filme curtindo a inviabilidade.
Essa coisa da brasilidade me irritava profundamente, a hegemonia
da brasilidade, brasilidade é Rio de Janeiro, Bahia, Nordeste.
Sou do sul e sou brasileiro, meus pais também, quer dizer,
o Brasil é multirracial. Quando fui a Belém do Pará
pela primeira vez na minha vida, vi que lá é uma outra
coisa que não é Rio, não é Nordeste,
não é Minas não é o sul e não
é São Paulo. Quis provocar essa loucura, principalmente,
os baianos. Eles são muito monarquistas, aristocratas e escravocratas.
Não suporto escravocrata. Nunca imaginei que as pessoas fossem
ler o filme como uma coisa assim: o Brasil é inviável.
Sabe, sempre tem um inimigo que é de direita que, aliás
nunca conheci, há poucas pessoas realmente de direita. O
cara da esquerda fala assim: “não, mas sou da esquerda
e aquela esquerda ali é direita, daí vira coisa de
crente”. Já conversou com crente? Crente é assim.
Andrea Dip - A direita é o diabo.
Não sou a favor, não curto a direita..
Cazú - Qual o orçamento que você teve para fazer
esse filme?
Foi médio orçamento. Custou um pouco mais
caro do que o
Cronicamente.
Cazú - Você não teve a divulgação
que teve no Cronicamente?
Não consegui escapar da
Riofilmes, que
é uma brincadeira de horror. Eles mataram o filme, aí
você reclama, briga, e eles matam ainda mais. Agora não
tem mais relação, eles mataram e vão matar
até o final.
Cazú - No seu ou no de todo mundo que eles põem a
mão?
Não sei, não senti uma aversão ao
conteúdo do filme. Acho que é atitude suicida. E não
é funcionário público, o diretor é o
Wilker, que é da Globo, pode ter uma conspiração,
mas não assim tradicional. O Wilker chegar a se infiltrar
na distribuidora de cinema independente brasileiro para destruir
tudo porque a Globo ganha, entendeu? Mas acho muito estranho dar
para a raposa as galinhas, né?
Natalia Viana - Mas o que eles fizeram exatamente?
A incompetência é muito mais nefasta do que a postura
ideológica burguesa das pessoas. Acho muito chique você
ser filho de burguês e passar o dia inteiro discutindo linhas
políticas e lutar pelo poder que acredita. A incompetência
básica é um desastre e basicamente eles são
incompetentes. Fiquei correndo atrás para consertar coisas
como atriz deixada no aeroporto, não dá pra fazer
tudo, era muito complexo, então dançou. Acho que é
isso e também pode ter um pouco de que não gostaram
tanto do filme.
Natalia Viana - Por que você não teve alternativa?
Na época que estava produzindo o filme, todo mundo
me dando dinheiro das estatais, uma maravilha, vocês viram
o site (
http://www.quantovaleoueporquilo.com.br)?
Tem todas as estatais, tirando a Petrobrás, que foi competente,
não estou defendendo a Petrobrás por nenhuma razão,
a não ser que eles foram sérios. Eu me embananava
na burocracia e neste governo botaram mais quinhentas pessoas pra
trabalhar no cinema, é um inferno, cada um com um carimbinho
e pilhas, pilhas de papel.
Andréa DiP - Essa é a parte mais chata?
Agora virou só isso, não tem mais nada. Vou
parar de fazer cinema.
Natalia Viana - Você não vai mais fazer filmes?
Assim, não. Pra acordar todo dia às cinco
horas da manha, ficar um ano sem sair de casa pra botar a papelada
em ordem, pra não dançar? Ter de montar uma firma
virtual, superfaturar o filme. Sabe como é que faz? Superfatura,
aluga um salão enorme e sem espaço pra passar o filme.
Fico contra tudo que já falei. Não tem como, não
tenho saída.
Natalia Viana - Então, nesse momento você não
tem projeto?
Estou muito atrapalhado. Me sinto na obrigação
de fazer esse filme circular, ele só passou aqui. Fui convidado
para um festival em Nova York. Tenho espaço lá fora
também.
Tatiana dos Santos - O filme tem três semanas?
Quatro, mas já dançou.
Cazu - É que se não vira na primeira semana, já
tiram, né?
Não, ficou quatro, mas já dançou.
Já está em uma sessão em um, uma sessão
noutro, uma sessão noutro. Semana que vem vai ficar só
em um.
Tatiana dos Santos - Nós viemos para cá de
metrô e nos dois vagões que entramos, tinha o cartaz
do filme.
Essa coisa do metrô é legal. É grátis.
Acho bem inteligente. Mas você acha que a maioria das pessoas
que mora lá na zona leste tem dinheiro para ir ao shopping?
Isso aí é muito mais grave, cinema virou shopping.
Natalia Viana - Pra quem você queria mostrar esse filme?
Pra mamãe. Pra titia. Alguém me falou isso:
“você faz filme para os seus amigos”.
Natalia Viana - Não falei isso. Você tem vontade
que alguém veja...
Já tive experiência com platéia popular,
no
Cronicamente o pessoal curte muito bem. Acho que tem
de limar este preconceito, que é uma coisa de elite brasileira
e muito prática. Você não dá colégio
e depois chega e diz: “mas isso o povo não vê,
o povo vai entender o seu filme? Você está fazendo
filme para os seus pares, Você é da elite”.
Agora vou dar para o filme para pequenas ONGs que pegam o filme
de graça e ganham algum dinheirinho para levar para a periferia...
Se vocês vão começar a me deprimir, eu deprimo
vocês. Cadê a gilete?! Traz a gilete! Ah, também
não tem essa, faço o filme que tem de fazer, porque
tem de ter. Não sei se o seu filme é ruim, aí
não tem que ter, mas se seu filme tem alguma coisa a dizer,
daí sim.
Cazu - Você assiste filmes?
Não entro num cinema faz dois anos. Eu não
saio de casa.
Cazu - Mas ali, naquele aparelhinho ali?
Às vezes, muito cansado, às dez da noite,
ligo a televisão para ver coisa norte-americana. Aliás,
cheguei a uma conclusão muito interessante porque nunca via
essas coisas da cultura do império. Via coisas do cinema
e era gozado. Antes das torres caírem lá nos Estados
Unidos, os
sitcoms americanos eram terrorismos, explosões,
massas mortas, genocídios. Aquela coisa bem embalada americana.
com muita emoção e no final a redenção
ou o bandido mau. Mas liberal, partido democrata americano, não
conservador, Bush. Existiam todas as razões do terrorista
ser o terrorista que ele era, só que ele fazia mal pra sociedade.
Aí explodia, até que a realidade supera a ficção.
Daí vincularam o cinema com a própria obsessão.
Agora, qual é a nossa loucura brasileira? É a esquerda
reunida e debatida, o debate, a nossa característica cultural.
E vamos faturar nos pobres.
Cazu - Aquele 24 Horas é a nova Guerra Fria.
Pega aquele
CSI,
Los Angeles, Without a Trace.
São os desvarios psicológicos do ser humano, 50 por
cento é pedofilia. A câmera entra no ânus do
guri de doze anos que foi estuprado. A bala entra e a câmera
vai junto com a bala. Que desvario e depois reclamam que tem um
conservador como o Bush. Claro que vai ter. É isso que as
pessoas não estão entendendo, essa loucura do PT.
Os velhos com mais idade do que eu, porque eu tinha dezesseis anos
na ditadura, os mais velhos que têm setenta anos, dizem: “a
ditadura tem de vir porque era melhor”. Porque para eles era
melhor. Eles ganhavam melhor, a miséria não era tão
grande. O que você chama com todo esse mar de lama? Já
aconteceu na América Latina. Tudo ditadura militar. Chama,
por que é tudo cíclico. O ser humano é cíclico,
ninguém promove a revolução. A revolução
vem quando menos se espera.
Cazu - Acho que agora o caminho é outro, acho que
é a democracia militar como o Chávez.
Tá vendo?
Cazu - Mudou um pouco a terminologia, só. Agora, ele é
eleito mas é um militar.
Não sei como é que é. Só sei
que se continuar nessa brincadeira de milhões de debates
e um grupo só que quer o poder e não resolverem o
básico, é isso. Não sei o que pode vir, não
dá para fazer prognóstico. Mas bem desagradável
essa história.
Natalia Viana - Nossa! Muito desagradável.
Por que, destruiu teu mito?
Natalia Viana - É, destruiu.
Ser de esquerda é ser feliz, participar das passeatas,
discutir marxismo.
Natalia Viana - E o seu mito, não destruiu nem um pouco?
Não acreditei nisso. Achar alguém pra ser
feliz pro resto da vida, isso é uma coisa de cinema americano
da minha geração, a ideologia que eles vendiam era
muito isso, era Doris Day, a retenção sexual até
encontrar alguém, aí encontrava, toca música,
sente aquele clima, aí fica feliz pro resto da vida. É
um bom mito. Agora, eu gosto da Lúcia Murat , do Beto Brant,
que faz um bom cinema comercial... Acho que os dois são políticos...
Gosto do Murilo Sales, dos políticos, dos que falam coisas
um pouco mais na área social e gosto do Hugo Carvana, nem
sei se ele tá fazendo ainda... Ele tinha aquelas ótimas
comédias cariocas, acho que ele nem está mais fazendo.
Natalia Viana - Você acha que vem alguma coisa dessa nova
geração?
Acho que sempre tem gente boa no cinema brasileiro. É
que não é assim, né? Tem ebulição
e faz dois anos que não vou ao cinema, não posso falar.
Acabou?
Natalia Viana - Projetos futuros você falou que não,
né?
Não tenho nada ainda. Tenho algumas idéias
que gostaria de fazer, primeiro: fazer meio sobre como eu vejo 64,
68, 72. Mas aí...
Natalia Viana - Você não quer nem falar, né?
Não, é porcaria se eu falar... porque não
sei de que jeito vou falar sobre isso, mas estive em vários
momentos, são vários lugares. Eu estava na invasão
do CRUSP, acompanhei com um mínimo de inteligência,
posso falar um pouco sobre isso. Tem outra coisa que também
gostaria de fazer que é sobre música brasileira, estou
curtindo cada vez mais. Não a de quatro anos pra cá.
Quando eu pego táxis com velhos, tem muitas coisas legais.
Bom, poderia falar sobre as várias épocas do Brasil
em cima da própria música, mas isso já foi
feito. Agora, comprei e vou ler uma série de uns dez livros
da nova literatura brasileira que uma amiga me indicou. Vou ler
pra ver se alguma coisa me emociona, além disso, tenho uma
história que é uma cidade perfeita. Uma cidadezinha
do interior que dá tudo certo. Tipo
science fiction.
Uma pedra cai do céu, no dia seguinte todo mundo faz
the rigth thing, a coisa certa. Os que tinham tendência
a natureza, fazem a natureza fazem as ruas são limpas, os
rios são limpos, as relações são perfeitas,
o cara que tinha uma tara por criança começa a comer
as crianças, o outro que tem uma tara por não sei
quê vai pra lá, sabe? E aí... é tudo
limpo, fica tudo limpo.
Tatiana dos Santos - Talvez se transforme no seu filme mais
crítico.
Fica pior ainda.
Diogo Ruic - E pra esse você dá um final?
Não... Falta consistência, eu já pensei
várias vezes...
Andréa DiP - Mas aí seria lindo na concepção
geral ou seria lindo na visão de cada um?
Não, de cada um, a loucura era essa. Cada um...
não tem mais controle social, o que é um lugar que
não tem mais controle social. É perigoso, também.
Não sei ainda, não tenho idéia. Nem tenho tempo
pra isso, acredita? Tô ralando pra caralho.
Cazu - Você acha que a nossa geração tá
muito moralista?
Não conheço vocês direito.
Cazu - Não, a geração.
Não, mas... fui em dois debates agora em que pude
ver alguma coisa e dessa garotada que fica em volta de mim, mas
também ficam em volta porque me acham jóia, ou é
sexo. Adoro uma coisa apetitosa, jovem. Agora, o que vi nos debates
do
Cronicamente, tinha um tipo de geração.
Agora, tem gente mais brava que vi nos debates, de tudo que é
tipo, gente mais brava. Senti uma burguesia, uma garotada burguesa,
que não são vocês, mas que dá pra sentir
quando é representante da futura elite, né?
Cazu - Bom, você foi pra São Francisco debater...
Foi lá que senti vários grupos: um grupo
que é anárquico, mas eles não tinham cara de
filhos da elite, que tinha senso de humor, eram divertidos porque
eram mais inteligentes, mas eram classe média mais baixa.
E tinha o outro grupo que era comportado, tava nessa coisa da ONG,
do dinheiro, que eram os reformistas de agora e ainda tinha um pessoal
que ficou a meu favor, eram de esquerda igualzinho às pessoas
da minha geração sem tirar nem por. Quer dizer, o
texto ali era mais de acordo comigo agora, mas saí de lá
pensando: “meu deus...”. Até brinquei com eles:
daqui a vinte anos, quando eu estiver velho, caquético, com
oitenta anos, e vocês forem deputados, você me vão
me dar uma pensão, né? Não sou contra o PT,
eu to falando mal do PT porque virou saco de pancada. Acho que a
grande cagada deles foi essa sacanagem de usar esperança,
mudança como moeda vagabunda. Isso realmente...
Diogo Ruic - O PT vendeu a fome pra se eleger.
Não é só isso. É assim: o texto
é correto e a distância do texto pro comportamento
é pós-cínico, é absurdo e é só
permanência no poder e arrivismo comportamental de classe.
Também sofri esse processo nos últimos dez anos e
sei que foi duro, mas sempre transitei em todas as áreas.
Desde a bagunça daqui, da putaria, até gente de alta
classe. Então, nunca fiquei longe do prazer de figos egípcios
ou de comida francesa, você me entende? Sempre circulei por
tudo, o que é muito perigoso. O dia em que você descobre
o poder do linho egípcio, não vai querer pôr
alguma coisa no teu corpo que não seja o linho. É
do ser humano isso. As pessoas ficam contra a Daslu, mas no dia
em que botar aquelas roupas lá não vai querer botar
outra roupa. Porque elas são melhores, por isso são
mais caras. E o PT viu isso. A grande pessoa pecaminosa foi a Eleonora
Mendes Caldeira, com o marido Rossetti. Fizeram aquele jantar, chamaram
o Lula e a mulher dele e fizeram um acordo, chegaram e disseram
“vocês também podem ser chiques”. Todo
mundo pode ser chique. E eles viraram chiques, você não
viu a transformação? A mulher dele, inclusive, virou
uma mulher bonita. O que a Marta faz o contrário, né?
A Marta está cansada do chiquê, ela quer a breguice,
né? Então, desce a ladeira pra ter adrenalina, pra
dar um sentido na vida dela. Agora, o que esqueceram é que
eles não são isso, não é monarquia,
né? Eles estão sendo pra cumprir o texto de quem votou
neles, né? Que é um texto de um pouco mais de dignidade
geral, só que colocaram isso como moeda falsa, passou pro
povo e não volta nunca mais. Só vai fazer nascer uma
direita moralista. Aquela que em 64 foi pras ruas. Todo mundo fala
das passeatas da esquerda; ninguém fala dos 200 mil que foram
pra rua pedindo que os militares interviessem. E se tornou o mesmo
processo, é complicado. Esse equilíbrio entre direita
e esquerda, burguês de direita, burguês de esquerda
na luta pelo poder... Agora, o que o PT não deveria era ter
mentido. Não deveria ter usado o truque, chegaria ao poder
do mesmo jeito se ele continuasse na linha daquela coisa meio cristã...
Sofia Amaral - Mas você acha que já era intenção
deles?
Não sei, como eu vou saber? Não sei se no
fundo era um cinismo assim, tipo, Ivanovitch. Não, acho que
é fiança, é a luta pelo poder em si. Contaminou.
Nem acho que é essa coisa de mudar o plano econômico.
Tatiana dos Santos - No começo da entrevista você
disse que não votava...
Eu voto.
Tatiana dos Santos - Nulo?
E nulo não é uma opção, moça?
Qual é a sua?
Natalia Viana - Há quanto tempo você vota nulo?
Não, é mentira, não votei sempre nulo,
não. Já votei no Lula. Não me lembro se nessa
última ou na outra. Votei no Suplicy uma vez, ou duas. Já
votei no PSDB. Ah, eu voto como todo mundo vota, o voto é
secreto, cada um vota naquilo que acha que é o melhor na
hora. Há vários momentos que acho que é nulo
mesmo.
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