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Se alguém conhecer
rock mais do que ele, que se apresente. Nesta conversa, Fábio Massari deixa entrever por que é tido como o maior conhecedor do assunto no país. Sabe de bandas não só de cada Estado brasileiro como do mundo todo, de lugares tão diferentes entre si como Islândia, Japão e Itália. Para ele o rock, que traz no espírito e na ponta da língua, é uma música que “fala contra alguma coisa, como fala de amor”.

Talvez por essa devoção ao rock, Massari merecesse o apelido que ganhou do colega Thunderbird num dos 4.380 dias em que trabalhou na MTV: Reverendo.



Entrevistadores:
André Bertoluci, Antonio Martinelli Jr., Dado Abreu, Rodolfo Torres e Sofia Amaral.
Fotos: Sofia Amaral. Animação: Ligia Morresi e Iraê Carvalho.



Rodolfo Torres - Gostaria que você falasse um pouco sobre a sua infância, as primeiras memórias.
Lembro de jogar futebol na rua numa época em que a gente podia brincar sossegado, andar de skate, bicicleta, o básico da infância da minha geração. Hoje está bem mais difícil para a molecada. Quando eu era moleque, o pessoal lá em casa ouvia uns disquinhos, música italiana, música clássica, um misto de coisas. Tenho algumas memórias radiofônicas, de sacar algumas músicas no rádio. Talvez a primeiríssima lembrança de rádio seja ouvir a Jovem Pan de manhã indo pra escola. Logo na seqüência, ouvi algumas coisas do tipo Mind Games, do John Lennon, e falei: "Rádio é um negócio louco, música...". É, desde moleque que o lance de música faz parte da minha vida.

Rodolfo Torres - A primeira referência de música que você tem é o Mind Games?
De rádio, as primeiras músicas que me vêem à cabeça são Mind Games e Somebody to Love , do Queen. Não sei por que, tenho a imagem radiofônica dessas músicas, se é que isso faz sentido. Os primeiros discos da minha coleção são dessa época. Eu tinha 10 anos, 1973, 1974, primeiro Secos e Molhados, porque era uma coisa da família e a gente via na televisão. Foi um dos primeiros discos que eu lembro ter chegado na minha mão. Depois, em 1974, o Alice Cooper tocou no Brasil e foi espetacular ver o cara na televisão, cobras e rock, cabeludo, esquisito. "Nossa, eu quero ir no show." Obviamente, ninguém me deixou ir, com 10 anos, mas o meu pai me trouxe o disco que considero o que começou minha coleção. Talvez não seja mesmo o primeiro, mas escolhi esse para ser o primeiro porque veio em um momento quase definitivo em que eu vi que tinha um mundo a descobrir, ir atrás de um disquinho, do rock, da música.

Dado Abreu- Qual disco do Alice Cooper?
O Muscle Of Love, gravado em 1973 que ele tocou aqui em 1974, acho que é o quinto disco da banda, um clássico. Na capa eles estão na porta de uma boate com mulheres, dinheiro, e na contracapa parados num chão cheio de sangue, tem um macaco simbolizando o monkey on my back, os problemas etc. É um disco que foi fundamental para mim em vários sentidos.

Fábio Massari e Zappa em seu estúdio em Hollywood.
Antonio Martinelli Jr. - Seus pais tinham uma ligação forte com música também?
Não, nada de grandes coleções, ouvia-se música pura e simplesmente pelo prazer, tinham ali a vitrolinha, sete polegadas italianos, Secos e Molhados, mais para lazer. Mas eu tive muito incentivo para minha coleção, o meu velho comprou vários Zappa para mim na Itália, porque ele é italiano, ia muito para lá. Durante um período, ele via os meus discos, batia e brincando dizia: "É tudo meu! Eu que comprei, eu que trouxe, descobri a loja, então é tudo meu!"

Antonio Martinelli Jr. - O que seus pais faziam?
Meu pai nasceu na África, mas é italiano e veio para cá com 16 anos, e minha mãe é brasileira, filha de italiano, formada em letras, deu aula, mas nunca exerceu exatamente. Ele é economista, trabalhou muito tempo com equipe de carro de corrida, com o Emerson Fittipaldi, kart, esse tipo de coisa, e depois enveredou mais para o lado da publicidade.

André Bertoluci - Voltando à coleção, além do que você ganhou, o que você comprou ainda moleque?
Uma das primeiríssimas coisas que comprei, aí por 1975, foi um cassete do Kraftwerk, Radio Activity . Eu estava andando de skate perto da casa de um amigo aqui no bairro do Pacaembu, e uma molecada um pouco mais velha alugou a casa ao lado e estava fazendo uma puta festa, uma puta barulheira, rolando um som muito esquisito, mas muito legal. Aí, eu subi no muro, eram uns caras de uns 18, 19 anos, e o garotão chegou, mostrou o cassete e contou onde tinha comprado, no Superbom da Pompéia. Peguei o skate, fui lá e comprei. Tenho só a caixinha do cassete, o cassete foi pro espaço, mas a caixinha ainda está aí.

Rodolfo Torres - Você fez dois anos de engenharia e depois rádio e televisão, não é isso?
Isso. Estudei no Dante, escola tradicional de orientação italiana, clássica ou algo parecido, e com 17, 18 anos, quando acabei o colégio, em 1982, fiz dois anos e pouco de engenharia na FAAP, mas obviamente percebi o meu engano. Abandonei a faculdade aos 19 anos, fui para a Inglaterra, fiquei lá um ano e, quando voltei, fui fazer rádio e televisão na FAAP. A Inglaterra foi marcante para a minha formação profissional, ver os shows, conhecer bandas, descobrir coisas. Quando voltei, não sabia bem o que eu queria, mas sabia que o caminho era aquele: falar de música, mexer com música de algum jeito, e a faculdade ia por aí, pensava em formação pra poder trabalhar no que depois eu viria a chamar de jornalismo rock.

Antonio Martinelli Jr. - O que você viu de show lá?
Zappa , duas vezes, O David Gilmour, na turnê solo, o cara do Pink Floyd... Vi muita coisa, descobri lugares pequenos, bandas subterrâneas, fui em festival grande, o Monsters of Rock, original de 1984. Era muita novidade porque naquele tempo era difícil comprar discos e obter informações sobre rock aqui no Brasil.

Dado Abreu- Foi lá que começou esse lance de conhecer o alternativo?
Já vinha de um pouco antes, mas na Inglaterra percebi a importância desse mercado gigante de música alternativa, subterrânea. O interesse por discos foi evoluindo a partir dos 10 anos, na época do colégio, convivendo também com amigos que tinham esse interesse de ir em shows, comprar disco. E aí me interessei pelo lance de colecionar, não para fazer volume, "ah, quanto mais tiver, melhor...", de colecionar a minha onda mesmo, ir atrás das minhas manias, das minhas respostas, das minhas vontades. E isso também foi evoluindo. Teve pessoas ao longo do caminho que foram importantes para a minha formação. Tem dois caras, um aqui no Brasil e um italiano, que também me abriram muito os horizontes para descobrir banda e um pouco da mania de coleção e organização.

Antônio Martinelli Jr. - Quem são eles?
Bom, o brasileiro é um cara com quem, na virada dos anos 70 para os 80, eu convivia bastante, um amigo meu, Paulo Leocádio, hoje em dia é um fodão da Microsoft, está mais louco do que nunca. Ele estava quinze anos à frente do seu tempo, me abriu vários horizontes sonoros. Um megacolecionador. O outro cara é um italiano que também conheci no começo dos anos 80, nessa época de ir para a Inglaterra e tudo, Marco Lorenzini, outro malucão que já tinha visto show de todo mundo, gravado os piratas, feito umas mixagens malucas, era outro cara que estava séculos à frente do seu tempo e que também me iluminou.


Rodolfo Torres - Como seria, se é possível explicar, um "filtro Massari"?
Não faço a menor idéia. Como disse, sempre gostei de descobrir coisas, então ouço um pouco de tudo. O punk foi importantíssimo em todos os sentidos para a minha formação, também os psicodélicos e sons de outros países, como Islândia, Japão e Itália. Gosto de vários gêneros. Uma vez, numa entrevista, me falaram: "Você só gosta de coisa gringa...". Não é verdade! Eu adoro coisa brasileira, ouço, gosto de descobrir as bandas, acho que a independência brasileira é fortíssima, tem lugar para tudo aqui.

Rodolfo Torres - Qual seria uma boa banda hoje no Brasil?
Uma? Tem dezenas... Zé Maria, uma banda do Espírito Santo, é sensacional . Nação Zumbi é sensacional . Em cada Estado dá para destacar uma. Valverdes no sul, onde tem muita banda legal. Textículos de Mary em Pernambuco . Tem várias que merecem atenção.

Rodolfo Torres - Vamos falar do seu primeiro livro, Rumo à Estação Islândia. O que te fez ir para esse país, falar da música de lá?
Eu já tinha a idéia de fazer uma viagenzinha discográfica, ou seja, uma viagem ou um relato de viagem que tivesse os discos como protagonista. Estou sempre escrevendo um negócio que chamo de "O grande livro dos projetos de livro", que é tudo que eu acho legal, que penso em transformar em livro algum dia. Em 1998 tirei umas férias da televisão, fiquei dez dias na Islândia e decidi: "Ah, é aqui que vai rolar o projetinho". Aí, em 1999, tirei uma licença de cinco meses, fiquei dois meses e meio por lá, sem muita regra ou muita organização. O plano era: vou me largar na Islândia dois meses, cruzar com as pessoas, vou atrás de discos para a coleção, ouvir umas histórias, daí vejo o que acontece. E o livro é uma colagem dessas impressões de viagem, bate-papo com as pessoas e algumas análises bem subjetivas da onda musical de lá.

Rodolfo Torres - O primeiro livro é barra-pesada para sair?
Depois que sai, a gente vê que nem tanto. Por outro lado, tenho uma relação meio reverente com livros e literatura, e acho que não sei escrever direito, tem que praticar muito, precisa ter uma certa disciplina. Mas, como me disse o Luís Antônio Giron: "Ô, meu, escreve e foda-se a disciplina que vai sair". Mas acho que tomei cuidado, queria acertar de alguma maneira nesse primeiro livro. E fiquei contente. De vez em quando, dou uma olhada nele e me divirto. É bem honesto, é o que era para ser. Não é uma história da Islândia, não tem nada de jornalismo objetivo, são as impressões mesmo, a busca de discos para a coleção, é radicalmente subjetivo. Mas também é um panorama cronológico, vem ali dos anos 60, passa por um filme do punkrock que abre o caminho para a cena buscar outras direções, os selos, os sons eletrônicos, a promiscuidade de país pequeno em que "todo mundo toca com todo mundo".

Rodolfo Torres - Aquela coisa de te chamar de "Reverendo", ou "Fábio Sabetudo Massari" não incomoda?
Se você se incomodar com cada uma dessas coisas, você fica louco, véio. O "Reverendo" foi o Thunderbird, ele que apareceu com isso aí do "Reverendo". Ele falava: "Pô, Massari, você parece com o meu pai, cara". Eu falava: "Porra, cara, com o seu pai?" Daí, um dia, ele lançou o "Reverendo" e ficou, então a culpa é dele, não minha.

André Bertoluci - O "homem-enciclopédia", não é?
Então... A galera da rádio... Jargões ou motes que acabam virando apelido ou algo parecido.

Sofia Amaral - Quanto tempo você ficou na MTV?
Eu fiquei de 1991 até o começo deste ano. Doze anos. Uma vida, não é? Nem casado você fica doze anos, fica? Não sei... É muito tempo. Ainda está meio "quente" para mim. É legal, a relação está aberta no sentido de que não pedi para renovar o contrato, eu estava a fim de fazer o livrinho novo...

André Bertoluci - A passagem do rádio para a televisão foi...
Foi tranqüila. Quem me indicou para a televisão foi uma pessoa que tinha trabalhado comigo na 89, e eu comecei na MTV nas internas, no departamento de programação. Mas aí algumas pessoas já sabiam quem eu era, por causa do Rock Report, da 89... Eu era o programador do Thunder, Lado B, Clássicos e mais alguma coisa. Um dia, o Thunder não foi gravar e aí o diretor na época, o Tite, falou: "Massa, vai lá e faz essa porra". Essa foi a primeira vez em que entrei no ar. Era um Rock Blocks, um programa de dobradinhas de clipes. Aí, a galera viu que não teve nenhum grande trauma, que eu me dei bem com a câmera, e acabei virando apresentador.

Dado Abreu - O Mondo Massari era um projeto seu?
O Mondo Massari era um projetinho que eu gostava muito. Quando voltei da licença da Islândia, propus o programa: "Mondo, mundo, sons de vários lugares"... Eu botava uma fé no projeto, acreditava, mas a televisão apostou "médio"... Tanto é que durou só um ano. Talvez devessem apostar mais porque editorialmente a idéia do programa é bem interessante, aproveita a onda de MTVs do mundo inteiro, tem som legal rolando em tudo quanto é lugar e os clipes são engraçadíssimos, tem uns russos que você passa mal de dar risada. Achei que a televisão poderia ter apostado mais nisso, mas entendo também como funciona a coisa da grade de programação, enfim...

Antonio Martinelli Jr. - Ainda não falamos muito da experiência do rádio, que é o tema do seu segundo livro, Emissões Noturnas. Quando você entrou no rádio?
Na 89 FM, foi em 1987. Estava no 2o ano da Faculdade de Comunicações e o Sérgio Groisman era meu professor, não lembro de qual matéria. Eu era o desgraçado, levava os discos mais radicais, fazia uns programetes, uns textos poéticos, devia encher muito o saco da galera. Uma vez, em uma festa, o Serginho falou: "Pô, vou te levar lá pra 89". Aí, uma semana depois, me ligaram da rádio e comecei como estagiário de promoção no final de 1987, saía na rua pra distribuir coisas, pendurar faixa, atender telefone, o começo de quem faz rádio. De 1987 até 1990, mais ou menos, trabalhei lá dentro, fiz umas entrevistas, produzi alguma coisa, co-produzi com a galera, foram me abrindo espaço e, em 1991, passei a fazer o Rock Report, o meu programa de autor.

Rodolfo Torres - E como surgiu a idéia de contar a experiência em um livro?
Eu queria prestar uma homenagem ao rádio, que foi importante para a minha formação, acho legal como veículo e percebo que tem menos interesse para as gerações mais novas. O rádio é sensacional, tem a magia dessa irmandade meio abstrata das pessoas em condições diferentes ouvindo a mesma coisa. Mexendo ali nos meus projetinhos, topei com os arquivos do Rock Report e veio a idéia: "Ah! É isso, conto a história do Rock Report, e faço uma homenagem a um período legal do rádio". Tinha uns duzentos cassetes, um monte de coisa datilografada, entrevistas tiradas do papel, algumas ainda nem traduzidas, umas fotinhos. O livro é uma colagem cronológica do que foi o programa, com destaque pra umas vinte e tantas entrevistas.

André Bertoluci - Não tem a entrevista do Zappa?
Não coloquei, porque esse é um outro projeto do grande livro de projetos de livro. Só botei a fotinho dele ali de aperitivo, uma ou outra vez o cito nas programações, mas ele não entrou no livro de propósito, fica para depois. A entrevista com o Zappa é profissionalmente a coisa mais legal que fiz, porque sempre fui fã do cara, acompanhei muito tempo etc. E em 1991 surgiu a oportunidade de entrevistar o cara, foi sensacional, acabei fazendo por minha conta a entrevista, tentei vender o peixe para a MTV, e não interessou na época... Aí, fui por minha conta, fiz uma hora e meia de entrevista, botei no Rock Report e depois a revista Bizz publicou também. É nessa entrevista que o Zappa conta que ia se candidatar à presidência dos Estados Unidos, mas, no final daquele mesmo ano, anunciou que estava doente e daí morreu um ano e pouco depois.

Antonio Martinelli Jr. - E além do livro do Zappa tem outros projetos?
Tem uma onda com a Itália que me interessa, mas ainda estou acertando o desenho da coisa, tem muita coisa boa de som na Itália.

Rodolfo Torres - Seu lance agora é só escrever livro?
Acho que o filão livro de música por aqui é muito mal explorado, esta parte da estante é só livro de música (mostra). Acho surpreendente aqui no Brasil, com tanta banda legal, uma cultura musical fodida, você contar nos dedos as biografias. Os Titãs, que são uma banda consagradíssima, precisaram de vinte anos pra ter dois livros: um que é uma colagem de releases lançado há alguns anos e uma biografia. Os Paralamas ganharam o primeiro livro agora. Não tem uma coletânea que reúna a produção jornalístico-musical brasileira, acho uma pena. Então, a minha onda é tentar inventar um jeito de lançar algumas dessas coisas, e esse livro, para mim, é uma espécie de cobaia editorial, fiz sozinho, muito sozinho, pra ver onde pega, onde não pega, o que é mais difícil, o que é mais fácil.

André Bertoluci - Eu ia fazer uma provocação, porque o Zappa tem aquela frase do jornalismo rock, "feito por imbecis para imbecis"...
Quando entrevistei o Zappa, cutuquei pra ouvir ele falando a frase, dei o começo e ele emendou o resto.

André Bertoluci - O que você acha do jornalismo rock brasileiro?
Acho que a gente não tem essa tradição, essa cultura, o crítico musical não é levado muito a sério, é um tipo de texto que quase nunca é encarado como produção literária. Em outros países, tem toda uma tradição de jornalistas que enveredaram por esse caminho e produziram literatura de verdade, influente do ponto de vista de estilo, mas por aqui foram sempre desacreditados, com exceção de algumas figuras meio isoladas, heróicas, como o Pepe Escobar, que influenciou um monte de gente, ou o Fernando Naporano. Também atrapalham as rusgas e tretas de crítico com músico, as clássicas frases, como "respeito é bom e conserva os dentes", que o Paralamas falou para um crítico, o Nasi chegou a dar porrada em jornalista. Eu brigo pra que a coisa seja percebida como atividade cultural bacana, mostrar que se produz boa literatura falando de música pop, rock.

André Bertoluci - O que você acha dos cadernos culturais dos jornalões?
O pior nos cadernos de cultura dos jornalões é que parece que o mundo da música se resume a três pessoas, ou quatro, isso é muito esquisito, está atrelado diretamente ao lançamento do tal disco no tal dia, o show, o DVD, e é empobrecedor. Acho que o problema maior é o jornalismo de release mesmo, o jornalismo do factóide. Restringe muito o universo das pessoas, didaticamente é ruim o que essa galera está fazendo, porque a gente acaba acreditando que a música vive de três ou quatro bandas, três ou quatro pessoas, o que definitivamente não é verdade.

Rodolfo Torres - E qual sua opinião sobre a MTV de agora?
Acho que qualquer coisa que eu disser virá carregada de doze anos de casa, quer dizer, é uma vida passada ali dentro. Tenho uma visão quase surrealista do que é a MTV brasileira, acho que no bom sentido, nesse caso. A programação, lógico, se comparar com dez anos atrás, é realmente diferente. De uns tempos pra cá, as pessoas apontam a popularização da MTV, mas acho que a MTV muda e ao mesmo tempo fica muito parecida com o que ela sempre foi. É que nem McDonald's, você pode inventar um sanduba novo com uns dois temperos novos e ainda é McDonald's, é o mesmo gosto, é a mesma embalagem, a MTV é isso. A cada ano, estão reformulando a programação, tem uma ou outra coisa diferente, mas ainda é a MTV plasticamente e num certo sentido, editorialmente, que quer falar com o público "x", vai atrás de pesquisas. Hoje em dia é muito mais profissional do que já foi, tem compromissos publicitários, comerciais, empresariais, mas acho que fala direito com o público que se dispõe a falar, os mais jovens. Obviamente tenho várias críticas a fazer, mas também não posso reclamar, porque pude fazer muitas dessas críticas lá dentro, há uns dois anos. Num dos especiais da MTV, cheguei a falar que a MTV era o inimigo! Poucas televisões iriam deixar alguém falar isso no ar, lógico que isso foi dito em um contexto, o que eu disse foi que, pra minha formação mais punk etc., porra, a MTV é o inimigo.

André Bertoluci - Você foi o primeiro a passar as imagens do Jello Biafra cantando "MTV get off the air".
A MTV americana não faria isso nem de brincadeira. Quer dizer, a MTV brasileira cumpre seu papel direitinho.

Rodolfo Torres - Mais duas coisinhas. Primeiro, a qualidade caiu. Confere?
Não, não sei, a gente tá falando do que, qualidade musical? Porque acho que tem menos a ver com música e mais a ver com marketing, publicidade, esse tipo de coisa. As pessoas falam: "Ah! Os VJs novos, isso é marketing, a Coca-Cola bancou um ano de caça VJ". Mas isso tem a ver com o lado publicitário, mercadológico, eles falam que estão buscando um caminho para falar com um público mais jovem. De um tempo pra cá, buscam uma cara um pouco mais de televisão mesmo, no sentido de que tem programas de entretenimento, auditório, e não mais só videoclipe, exatamente.

André Bertoluci - A molecada mais nova será que não gostaria de ouvir outras coisas?
Sim, claro, sou da teoria de que você tem que mostrar coisas, tem que ilustrar, iluminar, apontar caminhos e sair da fórmula repetitiva. Eu particularmente tenho essa visão, acho parecido sempre, muda pra ficar meio igual, são as bandas que estão sendo lançadas, é o oba-oba do momento, porque é isso também que alimenta o mercado de publicidade, é assim que funciona.

André Bertoluci - O que você tem ouvido atualmente?
Um pouco de tudo, cara, banda japonesa, banda mexicana. Algumas das coisas mais loucas do mundo vêm do Japão. Uma produção incrível, em volume, qualidade, e tem uma seara assim de guitarras barulhentas japonesas incríveis.

André Bertoluci - E brasileiro...
Brasileiro, um pouco de tudo, estou sempre em contato com as bandas novas, o subterrâneo ou algo parecido, desde Thee Bucher's Orchestra até o Zé Maria, as bandas do Recife, Devotos, Nação Zumbi, tô sempre indo nos showzinhos. Esse fim de semana mesmo fui num showzinho aqui em São Paulo engraçadíssimo, uma banda chamada Plitzie, o cara que era do Holly Three, sub, underground divertidíssimo, muito legal. O que acho bacana é que esses circuitos subterrâneos descobriram há um tempinho que existe vida saudável longe das corporações. Estão fazendo show, lançando disco, promovendo festivais, encontros, tem banda que vai tocar fora, Forgotten Boys, manja, um monte de banda legal. Isso abre caminhos e, dependendo do tipo de projeto da banda, é tudo muito viável, tem banda aí de Goiás que lança discos legais independentemente, faz turnê fora do Brasil, vende disco pra tudo quanto é lugar, tem o seu clipe, está aí na vida, na batalha. As pessoas perceberam que o objetivo final não precisa ser um contrato com uma grande gravadora, muito pelo contrário, tem gente que sabe que, quanto mais se afasta dali, mais saudável vive artisticamente. E isso muda tudo, porque a grande gravadora tem a grana pra apostar em três ou quatro bandas, beleza, esses três ou quatro estão bem na fita, mas será que vale a pena? Acho que o underground brasileiro está mostrando que tem um outro caminho aí.

André Bertoluci - Depois de Recife, você enxerga algum movimento novo?
Em vários lugares, Goiânia é engraçada pra essa seara de rock alternativo, rola um monte de festival lá, tem um monte de banda, o selo Monstro, que é importante aí pro cenário. Porto Alegre é sempre muito bacana, tem um monte de gente fazendo, produzindo, isso que é o mais importante.

André Bertoluci - E internacionalmente, fora Seattle, teve algum outro movimento?
Pelo menos de lugar assim, como Seattle, não sei se rolou. Cidade do México, talvez, cara, porque o México tem um monte de banda boa. Detroit agora, White Stripes , Nova York talvez, Strokes , Yeah-Yeah-Yeahs e Raptures. Tem os suecos aí também, imagina, quem diria que a gente iria ouvir tanta banda sueca como hoje em dia. Mas sou um pouco mais cético com relação a falar em novo rock quando se fala dessas bandas, acho conversa, tipo dia do rock. Para mim, tem banda bacana e banda não bacana. Só.

Rodolfo Torres - O rock já falou o que tinha pra falar?
Acho que o rock fala de coisas que se pode passar a vida inteira falando. Tem o lado da contravenção, de ir contra o sistema, é legal isso, a gente vai ter sempre contra o que reclamar, ou falar de amor, o rock vai poder sempre falar desse tipo de coisa.

André Bertoluci - Vamos falar um pouco de MPB. O que você acha do Caetano Veloso?
Porra, bicho. Entrevistei o Caetano Veloso no ano passado e foi bem legal, bem engraçado. Até um tempo atrás, não me via fazendo essa entrevista, não é muito a minha onda. Mas o Caetano é ícone, não é? E eu não teria dado a brecha de não ter ouvido o trabalho do cara para saber qual que é. Teve aquele período do punk, de achar que tudo que o cara fez foi uma bosta, mas, enfim, depois de um determinado momento, você tem a compreensão de que o cara foi importante, fez discos fundamentais. E gostei, por exemplo, desse disco que ele fez com o Mautner recentemente, é legal pra caralho.

Antonio Marinelli Jr. - E os outros, tipo Chico, Gil, você gosta?
Eu sempre gostei mais de Raul Seixas, Zé Ramalho, Mutantes , Secos e Molhados , enfim. Mas aí é óbvio que no cruzamento dessas pessoas se descobre também coisas legais. Acho que o primeiro disco da Gal é bom pra cacete. Quer dizer, com o tempo eu fui me reeducando pra ouvir esse pessoal.

André Bertoluci - Você foi a algum show do Raul Seixas?
Fui nuns dois ou três. Fui no último com o Marcelo Nova, no Olympia, que foi muito legal, muito emocionante. Para o bem e para o mal, porque, por um lado, foi muito legal ver o cara ali, todo mundo cantando todas as músicas. O Marcelo Nova que é meu camarada. O lado negativo é que você via que o cara não ia durar muito, morreu logo depois. Vi vários Camisa-de-Vênus também. Infelizmente, não peguei o período de ver Mutantes, essa galera. Peguei ali a primeira formação do 14 Bis, depois O Terço, Cor do Som, mas perdi essa safra bacana dos brasileiros. Daí, acabei vendo os punks, Cólera, Camisa, Ira, essas coisas...

Rodolfo Torres - Você se sente meio entediado hoje em dia com o que está se apresentando?
Nada, eu acho que cada vez tem mais coisa legal, o advento da eletrônica também contribuiu, deu um tempero, abriu alguns caminhos. Tem muita coisa boa rolando. Por isso a minha briga, entre aspas, contra os jornalões, contra a tal da grande corporação, seja em rádio ou em televisão, é pra que se ampliem os horizontes das pessoas. Acho que o jornalismo cultural tem obrigação de apontar caminhos. Não dar exatamente respostas, mas colocar perguntas, estimular as pessoas a descobrir bandas novas, searas novas, fazer conexões, mostrar por que surgiram isso e aquilo, amarrar um pouco historicamente as coisas. Eu vejo uma garotada mais nova que não ouviu nada do que se fez de 1995 pra trás, não tem interesse em ouvir, não sabe que o que está ouvindo agora tem eventualmente uma conexão com alguma coisa dali... Tem gente que pensa que de Nirvana pra trás não existe vida, sabe? Então acho que a briga tem que ser por aí, tem que ter uma obrigação de ilustrar um pouco as pessoas: "Olha, tem muita coisa boa rolando".

Dado Abreu - Ouvi você falando de entrevistas pitorescas que não estão no livro, como o PIL. O que aconteceu? O Johnny Rotten teve aqueles surtos de sempre?
Teve um puta surto maluco. A gente foi buscar o PIL pra entrevista e o cara chegou na televisão já tretando com todo mundo, queria uma cama, começou a chiar, xingou uma galera. A gente já esperava porque faz parte do folclore dele, mas também enche o saco. Logo que você começa a trabalhar com os artistas, fica meio reverente, "oh, artista...", mas depois de um tempo é tudo igual. Se o cara folgar, vai ouvir na mesma altura que qualquer um. E com o Johnny Rotten foi assim: "Então sai fora, vamos todo mundo lá pra fora! Puta bate-boca na rua". Essas coisas rolam, né? Artista é gente que nem a gente. Tem dia que o cara deve ficar de saco cheio. Tem várias dessas. A primeira vez que eu entrevistei Beastie Boys foi muito difícil no começo, um dos caras tava estranho, respondendo atravessado, meio que tirando uma. Daí fui virando a entrevista, fui deixando o cara de lado até ele sair do quadro. Ele percebeu, levantou e foi embora. O resto da galera ficou e aí rolou uma puta entrevista legal. Tem que ter um jogo de cintura e sacar o que dá pra fazer. Mas às vezes não tem o que fazer.

André Bertolucci - Qual é o filme da história da música pra você?
Putz... O Woodstock é foda. Também é um dos primeiros que você vê, então acaba sendo marcante. O de Monterrey é legal. Os filmes dos grandes festivais são importantes pra começar. Tem um pouco de tudo. Do Gimme Shelter dos Stones. Esses filmes são legais. Mas aí tem o Punk Rock Movie, que foi feito bem na época do punk mesmo, pelo Don Lets, que era o DJ ali do clube onde as bandas punks tocavam. Ele veio pro Brasil com aquele Big Audio Dynamite, o cara do Clash... O filme foi feito originalmente em super-8, documentando o surgimento do punk rock na Inglaterra, e é um filme seminal, meio toscão, mas muito legal.

Bono Vox e Fábio Massari - Arquivo Pessoal
Rodolfo Torres - E a entrevista que você fez com o Bono e o Larry Müllen do U2? Você não acha que Bono foi covarde ao não se pronunciar contra essa guerra no Iraque? Afinal, ele defende causas...
Ficou meio estranho. Mas acho que a tentativa dele agora é deixar um pouco essas coisas de lado e voltar a ser simplesmente o cara da banda de rock, deixar a onda de salvar o mundo um pouco de lado. Pô, a entrevista com os caras foi sensacional, primeiro porque revela que, mesmo no âmbito das grandes bandas, dá para você ter uma certa camaradagem. Acho que é um pouco o jeito de o U2 trabalhar. O Paul McGuiness é um megapoderoso empresário da banda, puta fodão lá, manda na Irlanda etc. Ele, a equipe e a banda têm um jeito irlandês, uma coisa mafiosa no bom sentido, de que, se você consegue chegar perto, é muito bem tratado, os caras fazem questão de lhe tratar como um semelhante. Jantam junto, trocam uma idéia. E, nesse tipo de atividade, lidar com esse tipo de banda faz toda a diferença do mundo. A primeira entrevista que fiz com eles foi na Espanha, antes de eles virem para cá, foi muito bacana. Eu já tinha ido para a Irlanda, sempre gostei de umas coisas de lá, tinha entrevistado uns músicos que começaram com o U2 no subúrbio de Dublin, amigos pessoais do Bono. Um dos caras falou: "Pô, você entrevistou o Gavin?" "Lógico." Estabeleceu-se ali uma camaradagem. Quando os caras vieram para o Brasil para tocar aqui, rolou um episódio curioso em Jacarepaguá, em uma coletiva lá no autódromo. O pessoal da equipe do U2 me viu ali, me reconheceu e, na hora que a banda chegou, o Bono desceu as escadarias para me cumprimentar. Isso é o tipo de coisa que não é toda banda que faz e mostra um pouco como é o jeito de os caras trabalharem. Muito diferente, por exemplo, de uma entrevista com os Rolling Stones. Enfim, ninguém te trata mal, mas é uma coisa muito mais pragmática. "Olha, você tem oito minutos de entrevista, quando der seis minutos eu bato no seu ombro, com oito a gente desliga a câmera." É assim, é desse jeito. Mais ou menos assim. Quatro mulheres tomavam conta.

Keitch Richards e Fábio Massari - Arquivo Pessoal
André Bertoluci - Indústria...
Indústria mesmo. Mas isso também pode ser quebrado, quer dizer, quando a gente fez os Rolling Stones, estava combinado que era eu sozinho com os quatro. Mas eles tinham armado o set de um jeito que obrigava as equipes a fazer as entrevistas de um modo muito frio. Você faz as suas perguntas para a câmera que só pega o cara respondendo, aí você edita. Puta, isso é muito chato, mas é uma prática que rola em televisão. Na hora que eu vi que com o Mick Jagger era assim, colei nas empresárias e falei: "Olha, para nós isso é ruim. A graça é a gente estar junto do artista. Senão, pego as imagens da MTV gringa e foda-se". Mas elas viram que a entrevista com o Mick Jagger foi bem legal e também as entrevistas com os outros dois, o Charlie Watts e o Ron Wood. Aí, uma delas chegou para mim e falou: "Você se importa de ser o último?" "Não, não me importo." Pô, os caras rearrumaram o set inteiro só para eu poder fazer a entrevista no mesmo sofá do Keith Richards, tá ligado? É muito doido. O diferencial está nas pessoas, no fim das contas. O cara me viu, parecia meu amigo de vinte anos: "Pô, legal".

Rodolfo Torres - Ele estava bêbado?
Loucão. Keith Richards, né? Ele estava com uma bebida que parecia Fanta, mas certamente não era Fanta. Era laranja nuclear. E gente finíssima, assim. Essas entrevistas grandes revelam muito das bandas, do jeito de elas trabalharem.

André Bertoluci - Como a Internet - o software de baixar música - afetou a sua vida?
Não afetou, cara. Eu não sou apocalíptico de achar que tudo na Internet é uma merda, mas também não sou ultra-integrado, aquele que faz tudo pela Internet. Acho legal a praticidade, a velocidade, a disponibilidade... É óbvio que a coisa funciona. Agora, para a coleção e para o meu convívio com a música, não afetou quase nada, continuo comprando CD e vinil. Acho que tem um pouco a ver com a minha formação. Gosto da coisa do contato, tenho o fetiche do livro, do objeto. Prefiro ler um livro ou ouvir um disquinho ou rádio. Rádio na Internet é uma coisa legal, você tem um milhão de opções que no dial ali você não tem. Rádio da China, umas transmissões malucas. Mas acho que a Internet tem a virtude de provocar uma briga com a indústria musical. Se deu certo ou não, se o Napster perdeu, foda-se. O que importa é que veio para atrapalhar. E o que atrapalha gera frutos, é muito bom.

Antonio Martinelli Jr. - Você escuta samba, música clássica, hip hop?
Hip hop gosto. Gosto das coisas mais esquisitas, tipo Anti-Pop Consortium, Company Flow, os mais experimentais, mais herméticos, digamos... Samba, acho legal, mas não vou atrás, não tenho tanto interesse... Um samba de raiz, acho legal descobrir, ouvir Jorge Ben, os clássicos, acho fascinante, mas não é exatamente a minha praia. Também tem várias coisas que eu não ouço, de samba também. O lado mais popular ou popularesco.

André Bertoluci - Axé.
Essas coisas eu não ouço. Nem sei direito como são. E alguma coisa de jazz também ouço. Gosto mais das coisas da chamada vanguarda, os híbridos, o free jazz, Miles Davis, as esquisitices, umas fusões.

Rodolfo Torres - Você prefere rock brasileiro em português ou em inglês?
Gosto em português. Acho que o desafio é a composição em português e, quando a gente acerta, fica muito bacana. Tem várias pessoas que fazem isso bem. Por exemplo, uma banda baiana chamada Doutor Cascadura. Os caras fazem rock tipo Stones, Black Crowes, em português, é um achado. É uma banda independente, tem três discos lançados. Tem também uma banda do sul chamada, é um nome curioso, não sei se vocês conhecem: Os The Dharma Lovers. Na verdade, é só um casal, os caras moram num mosteiro lá, são uns malucos e fazem um folk psicodélico em português que é sensacional. Mas não tenho nada contra a banda cantar em inglês também, é uma opção estética. Às vezes, as referências e as idéias têm a ver com esse mercado internacional e a galera canta em inglês e dá o recado. Mas prefiro quando o pessoal tenta compor e fazer em português.

André Bertoluci - Vou dar mais uma sacaneada só. E os Tribalistas?
Vou ser muito sincero, cara. Não ouvi. Só ouvi a música famosa. E não acho ruim, entendo porque vendeu tanto. Ótima música pop. Música para tocar em rádio, para fazer sucesso mesmo. É que já preferi nem ouvir, entendeu? Porque não tenho muita paciência, acho um pouco chato o hype, o oba-oba em cima desse tipo de coisa, incomoda. Então, para não julgar, não ouvi. Quem sou eu? Arnaldo Antunes, Marisa Monte, porra. É que definitivamente não é a minha praia, é fácil se tornar irritante uma coisa do tipo "Já sei namorar...", é foda, é muito foda. O pior é que de repente você vai dar um rolê ali em Barcelona, passa em algum lugar e tá tocando isso aí, bicho. A primeira coisa que eu ouvi num bar lá foi Skank.

Rodolfo Torres - Já aconteceu de você estar em outro país, escutar uma música brasileira e sentir vergonha?
Não, imagina. Tem que ter orgulho da música brasileira, cara. Tem coisa que não é minha praia, mas a gente não precisa se envergonhar, não. Muito pelo contrário, tem um certo controle de qualidade pop que, enfim...

André Bertoluci - E o Rei (Roberto Carlos)?
O Rei é engraçado, não é? Eu vi os filmes quando era moleque. Daí transcende a coisa musical, é mais uma figura. Mas já cansei de ver o Chico Buarque em aeroporto, vi uma vez na Itália, parecia o Pelé, cara. Na moral com todo mundo. Atencioso. Até em uma loja de disco em Bolonha encontrei um cara que conhecia tudo de música brasileira, falou do Lenine, sacava tudo. Essa galera faz música de qualidade. Foi engraçado na Islândia. Logo no começo, eu dei o primeiro disco do Otto para um cara, um camarada. Um dia, eu estou descendo a rua, uma puta loja de disco enorme, estava tocando Otto, alto para caralho. Na Islândia, aquele frio: "Puta que o pariu, Otto,cara!" Sempre que viajo, levo uns disquinhos. Eletrônico, rock, pra ir passando pras pessoas, apresentar uns sons diferentes.

Rodolfo Torres - Sabe aquele filme de um garoto de 13 anos que acompanha uma banda de rock... Quase Famosos... Um jornalista mais velho fala pra ele: "Olha, você vai estar no meio dos caras legais, mas você não é um cara legal". Você acha que é realmente isso?
Eu entendo o que ele quer dizer com isso, você não é um deles. Você é um jornalista, não um pop star. Quem falou isso foi um legendário jornalista aparecido chamado Lester Bangs, que é o ícone dessa seara aí. Acho que é mais ou menos isso mesmo. Por exemplo, se fosse outra pessoa entrevistar os Stones, ia ser a mesma coisa, ele está dando entrevista pra MTV, não pra mim. Se vou eu, que gosto bastante e conheço, ou se vai x ou y pra entrevistar, o Mick Jagger tá cagando e andando! Você é mais um, representa o teu veículo... Claro que às vezes dá pra quebrar um pouco essa barreira, estabelecer uma camaradagem, mas a gente não tem que ter ilusões, a gente não é da mesma turma. Os caras legais são os caras da banda. Eles são os artistas. A gente faz um outro trabalho.

Rodolfo Torres - Quem são os caras que são seus camaradas, entre aspas, nesse mundo, as bandas de fora...
É difícil, né? Sei lá, os Ramones eu cruzei umas quatro ou cinco vezes, então, rola uma camaradagem um pouco maior do que com um cara que você nunca viu, nunca cruzou. Depende muito da intensidade do encontro, de quanto tempo você tem, se você tem condições de fazer uma entrevista legal. Às vezes, você está entrevistando um cara, tem trinta pessoas em volta, uma puta pressão, câmera, correria, empresário dizendo: "Não pergunta aquilo!" Aqui é mais fácil. Clemente e os Inocentes, Marcelo Nova, esses são camaradas, lógico.

Rodolfo Torres - Quais são seus planos?
Bom, a idéia é continuar escrevendo livros. Projetos de rádio existem há algum tempo. Desde que eu saí da 89 não trabalhei mais em rádio, só fui como convidado. Até porque rolou uma ressaca, porque comecei como estagiário e nos últimos anos passei a ser o chefe, diretor artístico. Isso é uma roubada, no bom e no mau sentido. Você é o chefe, é o boss, mas daí você se envolve com coisas que não são exatamente musicais. Publicidade, marketing, ibope... Sapo, sapo…
E o chefe é o cara que manda embora... Mandar gente embora é ruim! Quando saí da rádio, queria ficar só de ouvinte. Mas, de um tempinho pra cá, está rolando essa reaproximação, o livro deu uma pilha extra, então os projetos de rádio podem acontecer. A porta também está aberta para a televisão, ficamos de conversar de novo. Nada definido, só a idéia de fazer mais livros nesse próximo ano.

André Bertolucci - Você continua ouvindo rádio?
Lógico, gosto de rádio, de ouvir no carro, adoro rádio de notícias. AM é engraçado, outro dia eu dei uma entrevista de duas horas na rádio América, foi a glória! Legal pra caralho! E por telefone, manja? Rádio tem esse fascínio que é legal.



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Se você gostou da entrevista, dê sua opinião em até 20 palavras. Vamos escolher uma opinião e o vencedor ganhará os dois livros de Fábio Massari autografados.

A opinião do ganhador, será publicada nesta seção no dia 17/1/04.


Os Livros

Emissões Noturnas - cadernos radiofônicos de FM - Editora Grinta Cultural
O mais recente livro de Massari, trata do registro do programa Rock Report, transmitido pela 89 FM, entre 91 e 96. O livro traz as entrevistas que Massari fazia, ponto alto de seus programas. A seleção musical também valia a pena.


 

Rumo à estação Islândia - Editora Conrad
O título é uma referência à obra de Edmund Wilson, um livro sobre música. São centenas de bandas comentadas, disco a disco, a maioria delas cantando em impenetrável islandês, e quase todas brilhantes e desconhecidas. Massari perambulou por todas as vielas do rock e do pop da Islândia, com seu olhar crítico (no melhor dos sentidos) e faro de colecionador.
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