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“Percebi que aqui no Brasil a informação sobre Chiapas era mínima ou não existia. E mais: os zapatistas aparecem encapuzados e aqui, um encapuzado é um bandido”. Essa foi a conclusão a que chegou o antropólogo mexicano Alejandro M. Buenrostro y Arellano quando veio ao Brasil depois de ter passado quinze anos em Chiapas, estado do México, morando em comunidades zapatistas. Membro de um Comitê Civil de Diálogo, grupo zapatista com a função de divulgar o movimento e servir de ponte de informações entre os movimentos sociais do Brasil e da América Latina, ele resolveu criar o Xojobil - Centro de Documentação e Informação sobre os zapatistas. Em entrevista, ele conta um pouco da sua experiência com os indígenas e fala sobre o centro Xojobil.


Por Débora Pivotto

Alejandro
Para começar, acharia legal que você falasse um pouquinho da sua infância, onde nasceu e um pouco da sua formação.
Nasci em uma família católica, um pai muito honesto e trabalhador. A minha mãe foi uma pessoa muito ligada a questões religiosas como as congregações marianas. O meio em que convivi era muito católico.

Que cidade?
Nasci na Cidade do México. Morei lá durante minha infância e começo da minha juventude. Tive professores muito bons e amigos. A minha vida era muito relacionada ao colégio. Tive uma relação muito boa com os professores, que eram muito ligados à problemática indígena do México. Alguns deles tinham trabalhado com os índios Tarahumares da Serra do estado de Chihuahua, ao norte de México. E tive outro professor muito bom que participou na Guerra Cristera. Você sabe o que foi a Guerra Cristera?

Não, o que foi essa guerra?
Bom, lá no México, por volta de 1930, o presidente teve uma luta direta contra todos que fossem católicos. Quis acabar com as igrejas, padres, com tudo. Foi um momento difícil. As comunidades camponesas se organizaram já que não estavam de acordo com tudo aquilo. Participaram homens e mulheres de todas as famílias. São os chamados cristeros, assim chamados porque quando eram executados gritavam: “Viva Cristo Rey!”. Eles lutaram durante muitos anos e um dos meus professores foi cristero. Então, na hora das aulas, ele passava a experiência dele, de quando trabalhou com os cristeros e os problemas que as comunidades viveram. Ele me ensinou a lutar por alguma coisa, porque os cristeros lutaram para defender sua tradição católica cristã nas comunidades camponesas contra a repressão bárbara do governo. Isso foi a minha infância. Depois, começaram os estudos de filosofia.

Isso ainda na cidade do México?
É. Terminando os estudos de filosofia, decidi trabalhar com os indígenas. Nos anos 50, fiquei sabendo que algumas pessoas ligadas aos professores da escola estavam trabalhando com indígenas de Chiapas. Quis conhecer e depois fiquei trabalhando com os indígenas tseltales, de origem maia, em Chiapas.

E quando que você foi para Chiapas?
Em 1961, para começar a estudar a língua, e, em 1962, já comecei a trabalhar como professor numa escola.

Você dava aulas de quê? Alfabetizava?
Alfabetizava os adultos nos finais de semana e durante a semana, trabalhava em uma escolinha para crianças e jovens que queriam aprender alguma coisa.

Mas você alfabetizava na língua deles ou...
Quando comecei, estava aprendendo a língua deles. Para ensinar a ler e escrever, tentávamos o que podíamos, em espanhol e em tseltal. Depois que aprendi a língua, foi muito bonito, alguns alunos indígenas liam perfeitamente bem em espanhol e eu perguntava: “o que entendeu do que leu? Nada”. Então, foi muito interessante porque eu estava aprendendo o tseltal e, como as lições eram em um espanhol fácil, tentava traduzir para o tseltal. Quando começaram a descobrir o que estavam lendo, era uma alegria, uma experiência muito bonita porque os indígenas estavam ansiosos e com uma disposição enorme e aprenderam a ler rápido além de nos ensinarem . Foi uma troca. Assim foi como comecei em 1962, 1963 como professor e enquanto isso, nos fins de semana, visitava os indígenas onde moravam, o que significava caminhar muitos quilômetros na serra e como chove muito em Chiapas, as caminhadas eram difíceis, mas valia a pena porque pude conhecer a realidade indígena: onde eles moravam, como trabalhavam, que problemas tinham. E, durante a semana, trabalhava na escola, me relacionava com os pais de família e com as pessoas que viviam naquele pequeno povoado.

Quantas pessoas mais ou menos?
Podemos dizer que eram 50 casas, mas ali, moravam poucas famílias, 100 no máximo. O povoado estava na divisa de dois ejidos - dotação de terra em forma coletiva criada após a Revolução Mexicana para evitar tensões sociais agudas. O ejido San Sebastián e ejido San Jerônimo.

Quanto tempo você passou lá? E como viviam esses índios? Era agricultura de subsistência ou eles trabalhavam em fazendas de outras pessoas? Como era?
Foram quinze anos em que pude ver as várias realidades dos indígenas. Os que moravam em ejidos, trabalhavam em terras próprias e cultivavam sobretudo milho, feijão e, como é uma zona cafeeira, cultivavam café. Outros tinham pequenas propriedades que muitas vezes não davam nem para subsistência; então, para ter um pouco de milho e de feijão, trabalhavam para não-indígenas. E havia ainda outros que moravam nas fazendas numa situação, para dizer numa só palavra, feudal. Viviam dentro da fazenda e eram obrigados a trabalhar para os fazendeiros, ficavam um, dois ou três dias da semana, trabalhando um pouco nas terras para ter um pouco de milho para eles. Mas, se o fazendeiro precisava de algum serviço, eram obrigados a fazer. Podia ser qualquer dia, inclusive aos sábados e domingos. Estavam totalmente a serviço deles. A diferença entre o indígena que trabalhava em uma fazenda, do indígena de uma pequena propriedade e dos indígenas dos ejidos era enorme. Os indígenas dos ejidos eram pessoas livres, com dignidade, os pequenos proprietários eram mais resignados e os que estavam com os fazendeiros, totalmente sem identidade, com uma ambição de vida triste porque não se consideravam indígenas, eram discriminados, obrigados a trabalhar.

Atualmente como isso está distribuído? A maioria ainda trabalha nos ejidos ou nas fazendas?
Bom, isso foi de 1962 a 1970 e tantos. Agora estamos em 2004. A insurreição zapatista foi em 1994 e a insurreição aconteceu pela falta de terra e porque o governo do México acabou com o artigo 27 da Constituição que diz respeito às terras indígenas, às terras ejidales e às terras comunales, antigo regime coletivo de propriedade agrária. De tal forma que o Presidente da República daquele momento, Carlos Salinas, para poder estabelecer o tratado de livre comércio, o Nafta, teve de acabar com as terras comunales e com as terras ejidales . Esse era o requisito. Então, os indígenas ficaram numa situação muito difícil porque muitos que estavam trabalhando em ejidos não tinham suas terras reconhecidas oficialmente, vinham lutando há anos para que legalizassem as suas terras mas o governo não legalizou. E começa a disposição presidencial de acabar com esse artigo 27.

Esse artigo 27 que você fala é da Constituição conquistada pela revolução mexicana?
Isso. Um dos trunfos da revolução mexicana. O reconhecimento das terras ejidales para indígenas e camponeses e as terras comunales.

E para entrada no Nafta...
Acabaram com esse artigo e as conseqüências foram terríveis. Desde os anos 50, os indígenas que estavam em terras comunales ou terras ejidales, já estavam procurando terras na Selva Lacandona, localizada na região oriental do Estado de Chiapas porque crescia o número de indígenas e o número de habitantes. Nos anos 70, o presidente do México, Luis Álvarez decretou que toda essa região da Selva Lacandona com 665 mil hectares, pertenceria exclusivamente a um único grupo indígena, que estava em extinção, com umas 200 pessoas ao máximo e que todas as outras pessoas que estivessem dentro dessa Selva Lacandona não poderiam permanecer lá. Eram mais de 70 mil indígenas trabalhando desde os anos 50. Era toda uma farsa porque o que começou a entrar foram as transnacionais, grandes concessionárias para derrubar árvores e grandes fazendeiros de gado. A dificuldade na Selva Lacandona e a extinção do artigo 27, acabou com tudo. A insurreição zapatista tem todo um significado. Chegou um momento em que os indígenas disseram “Ya Basta” de tanta discriminação, tanta exploração, tanta injustiça.

Em 1994, o movimento ficou conhecido mundialmente pelo levante, mas a história do movimento vem de muito antes?
Ah, muito antes. Em 1974, houve o primeiro Congresso Nacional Indígena em San Cristóbal para que os indígenas pudessem debater problemas como a terra, a exploração nas fazendas, a injustiça através da política e dos municípios, a falta de educação e saúde. Era uma exploração terrível que estavam vivendo nos chamados municípios oficiais, governados por prefeitos, e onde não se faz nada pelos indígenas. Nenhum serviço de saúde, de educação nem de água potável, nada. Então, para os indígenas, o governo não significa mais que exploração e injustiça. Por isso, os zapatistas chamam o governo de mau governo.

Aqui no Brasil, a idéia que temos de indígenas é que são tribos e culturas muito diferentes. Não há uma união entre eles. Pelo que percebo, no México é muito diferente. No movimento zapatista, os índios são unidos, são várias “tribos”? Não sei se é a palavra...
Não é a palavra. No Brasil, chamam tribos porque são pequenas aldeias de determinados grupos indígenas que falam uma língua diferente da outra e que vivem um tipo de vida de coleta, de caça e de pesca. No México não, são 12 milhões de indígenas e esses indígenas estão em toda a República Mexicana e nos outros Estados também, mas principalmente em Chiapas, onde são muito mais numerosos. Mas todos os indígenas são camponeses porque são descendentes daquele grande império maia, do império asteca e de outros impérios. O império maia tem na Guatemala e em Chiapas todas aquelas pirâmides que mostram o que eram aquelas civilizações e agora são monumentos nacionais. Para o governo atual, o índio morto é o máximo. As pirâmides são muito exploradas turisticamente mas o índio vivo é um problema para o México.

E hoje, quantos são os municípios autônomos?
São 40 municípios autônomos em Chiapas. Mas existem outros municípios autônomos no Estado de Oaxaca. E em outras partes estão se fundando municípios autônomos. Porque eles representam todo um esforço dos indígenas de um determinado território em busca da solução dos problemas de suas vidas. As comunidades zapatistas tomaram nas próprias mãos os seus destinos, defendendo seus interesses e direitos, praticando tudo aquilo que representa suas aspirações, construindo um modelo alternativo a partir das próprias necessidades, dos próprios recursos e da solidariedade local, nacional e internacional. Elas buscam ter suas próprias estruturas de governo, sua Justiça e coordenação dos serviços básicos.

Eles vivem sem depender do governo oficial?
Sim, porque o governo oficial não faz nada para eles. Então, eles têm que se ajudar da seguinte forma: “nós preparamos os professores e educamos as crianças. Nós nos preparamos como promotores de saúde e atendemos os problemas de saúde. Nós mesmos tentamos projetos de produção”. Então, se tem café, eles mesmos organizam cooperativas e vendem o café.

Festa do nascimento de Caracóis e Juntas e bom governo zapatista - Agosto de 2003
Saúde e educação, tudo depende deles?
Totalmente. Esses municípios autônomos começaram a ser reconhecidos em 1995. Não oficialmente, mas publicamente. O governo reluta em reconhecê-los. Depois desse congresso em 1974, os indígenas começaram a se organizar e a se preparar com a assessoria de professores voluntários. Os municípios não eram municípios autônomos, mas eles se preparavam como professores para poderem educar as crianças em todas aquelas aldeias perdidas nas montanhas. No nosso caso, ajudamos a formar esse congresso indígena e depois apoiávamos aqueles que queriam ser professores. No caso de problemas de saúde, médicos e enfermeiros voluntários orientavam os indígenas. Com essa assessoria, os promotores de saúde trabalhavam em todas essas aldeias. Mas isso existia desde 1970. Agora já são reconhecidos como municípios autônomos, tornaram-se públicos. E atualmente esses municípios autônomos estão organizados em Caracóis, que são territórios onde se concentram os municípios autônomos. Atualmente são 5 Caracóis que estão funcionando. E dentro desse território, existe uma Junta do Bom Governo, formada por representantes de cada município autônomo. A Junta existe para prestar serviço ao interior ao Caracol. No seu interior, funciona a coordenação de todos os municípios. A coordenação da educação, da saúde, dos projetos produtivos, das atividades das mulheres e assim por diante. Também tentam resolver problemas e conflitos que podem existir entre um município e outro, entre uma aldeia e outra, a Junta tem a função de tentar resolver esses conflitos.

Tem uma comunicação com os governos oficiais?
Os governos oficiais sabem que existem esses municípios autônomos, não estão impedindo essa realidade, mas, às vezes, por qualquer conflito, o Exército chega e acaba com esses municípios. Acaba com as casinhas, onde estão as “autoridades”, digamos. E tratam de agir para que os municípios autônomos saiam de onde estão. Mas os indígenas falam que eles podem destruir o que quiserem, porque os municípios autônomos estão em seus corações. Então, não tem problema. Eles estão organizados, os militares chegam e destróem. Isso dá mais força para que os indígenas tomem consciência de sua realidade, unam-se e lutem. Também tem o problema dos chamados paramilitares. Aqueles indígenas comprados pelo Exército mexicano e pelo governo para criar conflitos dentro das comunidades e dos municípios autônomos. Eles já mataram muitas pessoas. Mas os indígenas querem resolver os problemas pelo diálogo, não querem guerra. As Juntas de Bom Governo coordenam as atividades desses municípios autônomos, procuram resolver os problemas comunitários, os conflitos, e, publicamente, entram em relação com o presidente da República, o governador e prefeitos dos municípios oficiais. E se os militares querem falar com os indígenas dos municípios autônomos, sabem que a Junta do Bom Governo os representa.

E como se formam essas juntas? São pessoas eleitas? É um tipo de democracia?
Elas são eleitas pelos municípios autônomos. É democracia direta. Quando você chega a um município autônomo no México, estive em setembro de 2003, tem um cartaz que diz: “Aqui é um município autônomo. Aqui o povo é que manda, as autoridades obedecem”. Assim está escrito. E assim é.

Subcomandante Marcos, 1995
Foto: Raul Ortega
Eu queria que o senhor falasse sobre o subcomandante Marcos. O senhor acha que tem uma mitificação dele por parte da imprensa? Qual o seu papel no movimento?
Bom, se você perguntar para um indígena o que ele pensa sobre o subcomandante Marcos, eles respondem que “ele come igual nós, mora igual nós, dorme igual nós”. A resposta está mostrando que o subcomandante Marcos se identificou com a vida indígena e é reconhecido como indígena por eles. Quando o subcomandante Marcos chegou a Chiapas, veio com a idéia de um revolucionário, de querer convencer os indígenas que tinham que fazer uma revolução com armas. Mas, em alguns anos, ele não conseguiu fazer nada. Então, chegou um momento em que Marcos e seus colegas aprenderam que era importante conhecer a realidade indígena, as línguas indígenas e a cultura indígena. E chegaram à conclusão de que os indígenas estavam muito bem organizados e que não era necessário que eles organizassem essas pessoas. Que eles já estavam acostumados a lutar. Essa luta por educação, pela terra, contra a discriminação. Então, um dos grandes trunfos do zapatismo é que eles conseguiram que os revolucionários como o comandante Marcos compreendessem que a luta indígena existia e os revolucionários respeitaram isso.

Só não era uma luta com armas, mas era uma luta.
Isso. E o subcomandante Marcos entendeu. Uma conquista importante do subcomandante foi a concretização do diálogo intercultural entre os indígenas. Ele conseguiu entender a cultura indígena porque ele foi aceito pelos indígenas como indígena. Isso é muito difícil, mas ele conseguiu. E convenceu os indígenas de que era preciso uma operação muito mais drástica e preparou os indígenas militarmente. Foi sua função. Mas ele reconhece que é autoridade militar, mas autoridade política não, essa é dos indígenas. O papel dele é transmitir essa cultura indígena a toda a sociedade civil do México e do mundo inteiro. Por isso tantos comunicados. Todos os escritos. Através da Internet, ele entrou em comunicação com todo o mundo. Se não fosse por esse papel do subcomandante Marcos, o governo do México acabaria com os indígenas. Foi tal a pressão da sociedade mexicana e da sociedade mundial que levou o governo mexicano a aceitá-los. Então vieram os Acordos de San Andrés e ele virou um mito, um símbolo. E o que ocorre sempre é que você vai direto aos mitos e esquece da realidade. Qual é a realidade? Os indígenas estão organizados para resolver os problemas e a proposta dos zapatistas não é resolver unicamente o problema de terra ou de educação. A relação entre governante e governado tem que mudar. Não pode ser de dominação. Por isso falaram “Ya Basta!”. São pessoas que querem dialogar e querem juntos resolver os problemas que estamos tendo. Que não venham impor as coisas, vamos resolver todos. Essa é a proposta dos zapatistas. Eles usaram as armas somente durante 12 dias, em 1994. E até agora não usaram as armas para mais nada, mas têm as armas. Estão armados, são um exército conhecido e reconhecido internacionalmente. Mas não são guerrilheiros. Porque o guerrilheiro tradicional está provocando a desestabilização do país e ataca em diferentes lugares. Os zapatistas não fazem isso. Não são guerrilheiros. Eles tomaram as armas pra dizer: “Nós existimos e queremos resolver os problemas, temos que dialogar”.

O que são esses acordos de San Andrés?
Os acordos foram um resultado do diálogo do governo com representantes do movimento zapatista em 1995. Os zapatistas convocaram todos os indígenas e formou-se um fórum nacional indígena com a participação também de acadêmicos, representantes de organizações camponesas e organizações indígenas. Entre eles, debateram o que seriam os direitos e a cultura indígena. Quando os zapatistas chegaram pra conversar com os delegados do governo, eles já estavam preparados com o pensamento de todos os indígenas e de toda a sociedade civil. Estavam muito bem assessorados por acadêmicos e juizes. Então chegaram e propuseram como seria a defesa dos direitos e da cultura dos indígenas. E é interessantíssimo como trabalharam com todos os outros indígenas, o que originou o Fórum Nacional Indígena e como houve uma participação da sociedade civil nesses acordos. O que está acontecendo nos municípios autônomos é o que está escrito nos acordos de San Andrés. Eles não estão inventando nada. Porque eles falam, o governo não tem palavra, nós temos. Se o governo não quer reconhecer esses acordos que assinou, nós reconhecemos porque somos homens verdadeiros e temos que realizar isso. É a única opção deles.

E por parte do governo não houve o cumprimento desses acordos?
Não.

Nem do atual presidente?
Não. Em 2001, os legisladores de todos os Estados foram convocados pra que estudassem esses acordos de San Andrés. E os legisladores propuseram uma lei totalmente contra os acordos. E o presidente Fox promulgou, reconhecendo uma Lei sobre Direitos e Cultura Indígena.

O senhor é membro do Comitê Civil de Diálogo. O que é isso?
Existe essa insurreição do Exército Zapatista de Libertação Nacional, um grupo que decidiu pegar em armas. Mas todos os indígenas estão organizados, a idéia que devemos ter dos indígenas do México e de Chiapas é que existem muitas organizações, não só o exército zapatista. E uma dessas organizações decidiu pegar em armas e se chama Exército Zapatista de Libertação Nacional. Em 1997, os zapatistas convocaram a formação da Frente Zapatista de Libertação Nacional. Não é exército, é frente para todos aqueles mexicanos que não se dizem organizados e que se dizem interessados no movimento zapatista. E essa frente está organizada em comitês civis de diálogo. E estes podem ser quantos forem possíveis. Se seis pessoas quiserem formar um comitê civil de diálogo, perfeito. Se são dez, perfeito. Qual é a idéia? Que os que estão dentro de um partido ou de um sindicato lutem por um México melhor, mais democrático e mais justo. Mas, os que não estão organizados, que formem os comitês civis de diálogo, que têm a função de divulgar o movimento zapatista. Pra eles, ser zapatista não é só se preocupar com a problemática dos índios no México, mas saber identificar injustiças dentro do seu próprio grupo social. Se é estudante, entender como está a situação do estudante. E, dentro de um bairro, como está a situação do bairro. Porque os zapatistas falam: se você quer ser zapatista, não é necessário que você venha às montanhas do México para estar conosco. Nós aqui nos viramos para solucionar os problemas que estamos vivendo. O importante é que vocês busquem respostas para os conflitos que estão vivendo e que vocês sejam capazes de falar “Ya Basta”. Eu faço parte de um comitê civil de diálogo na cidade de Morelia, onde estava morando antes de chegar aqui. Maria José, uma brasileira de Guarulhos, e eu trabalhamos muitos anos no Estado de Michoacán com indígenas e camponeses durante uns quinze anos. Depois de tanto tempo no México, Maria José pensou que seria bom descansar um pouco de todo esse trabalho já que somos da terceira idade e não é fácil trabalhar diretamente nas montanhas e na selva com a idade que temos. Como eu era de um comitê civil de diálogo, percebi que aqui no Brasil a informação sobre Chiapas era mínima ou não existia. E mais: os zapatistas aparecem encapuzados e aqui, um encapuzado é um bandido. Tentei saber se existia algum grupo relacionado com o movimento e consegui conhecer um grupo, o Comitê de Solidariedade com as Comunidades Zapatistas em São Paulo, que se reunia todas as semanas e me convidaram. Comecei a conhecê-los e eram grupos de pessoas de bairros, universitários, de partidos como o PT, pessoal de igreja evangélica, grupos de punks. Era um grupo interessante. Participei com eles de várias reuniões mas a informação era mínima e nasceu a necessidade de informar toda essa gente. Entrei em contato com o professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, de Geografia da USP, e ele percebeu que tínhamos documentos muito bons de intelectuais mexicanos. E falou que tínhamos que tornar aquilo conhecido. Eu achei que seria tirar cópias das informações, mas ele falou: “não, vamos fazer um livro” e foi quando surgiu “Chiapas, construindo a esperança”, que é uma coletânea de textos de intelectuais mexicanos muito esclarecedora sobre o movimento zapatista. Nesse mesmo livro, participaram comentaristas brasileiros, o português José Saramago e o escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán. E depois apareceu esse novo livro: “As raízes do fenômeno Chiapas” porque os alunos e professores queriam entender um pouco o movimento zapatista, perguntavam várias coisas que eram relacionadas com a cultura indígena. Como tenho essa experiência e conheço aquela cultura, perguntaram pra mim: “você não tem nada escrito sobre isso?”. Eu disse: “tenho, mas em espanhol”. Começaram a ler e disseram que os brasileiros também precisavam daquilo. Foi então que nasceu esse segundo livro. E veio todo esse movimento. A publicação desses dois livros e agora o centro de documentação e informação Xojobil.

Por que Xojobil?
Xojobil significa arco-íris. Para os indígenas, o arco-íris é um símbolo porque nele você percebe que ele está de um lado e de outro, mas você não sabe onde ele nasce. Só sabe que ele está nas duas partes. A idéia é que o arco-íris é uma ponte para a comunicação de saberes e tarefas. Então, se esse centro tem esse nome é porque queremos estabelecer essa ponte de informação aqui no Brasil e em toda a América Latina, informando o que está acontecendo com o movimento indígena no México e fazer com que os movimentos do Brasil sejam conhecidos no México. Uma informação documentada, que explique as causas e ilumine os fatos com teoria para que os brasileiros não tenham uma visão dos zapatistas como guerrilheiros.

Então não é só do movimento zapatista?
A primeira preocupação é essa documentação sobre o movimento zapatista. Porque sabemos que a documentação do Movimento dos Sem Terra existe dentro do próprio movimento. Não estamos preocupados agora em ter toda essa documentação. O que interessa é que a documentação que existe sobre o movimento zapatista e as organizações camponesas e indígenas do México sejam reunidas. A documentação que não temos, é necessário saber onde encontrá-la. Temos aqui alguns livros e os que não temos, tentaremos obter uma cópia. Essa é a primeira preocupação, mas a idéia é que a Xojobil seja útil para esse diálogo com o Brasil e toda a América.

E além de livros e documentos, vocês também reúnem artigos de jornais?
Sim. A Maria José recebe notícias todos os dias pela Internet sobre o movimento zapatista e a realidade do México e as traduzimos. É impossível traduzir tudo, mas a idéia é traduzir pelo menos o mais importante. Esses acordos de San Andrés, a tradução é uma coisa muito interessante. Ilumina e esclarece o movimento zapatista.

Vai sair em livro?
É a idéia, esperamos que sim. Já temos quase todo traduzido.

O Centro é autônomo?
A idéia é essa, um centro autônomo e auto-suficiente. Estamos dispostos a orientar para pesquisas e referências bibliográficas. Então, aqui vamos ter toda essa documentação. Mas estamos à disposição pra orientar essas pesquisas e o pessoal que chega aqui e está precisando de orientação, vamos solicitar que remunerem esse serviço para conseguirmos ser auto-suficientes. Não é um plano de lucro, mas de auto-suficiência. Estamos agora para lançar uma campanha para adquirir livros. Estamos querendo toda a documentação que existe aqui no Brasil. Por exemplo, na USP, existem livros sobre Chiapas. Os livros que temos aqui só existem aqui. São livros lançados recentemente lá no México. Aqui no Brasil não são conhecidos. Temos também atividades e palestras. Estamos conseguindo vender os livros Chiapas, Construindo a Esperança e As Raízes do Fenômeno Chiapas”. As vendas do Chiapas, Construindo a Esperança não são para obter recursos para o centro, mas para mandar para Chiapas porque os direitos autorais estão destinados para as comunidades indígenas.

Mas, atualmente, você é quem sustenta o Centro?
Sim. Com a idéia de que num dado momento, consigamos ser auto-suficientes. A idéia é facilitar o trabalho de pesquisadores e estudantes e divulgar o zapatismo. Está dentro do espírito da Frente Zapatista de Libertação Nacional e do Comitê Civil de Diálogo. Estamos experimentando aqui no Brasil o que significa ser da frente zapatista e o que significa ser do Comitê Civil de Diálogo. Ainda não estamos constituídos como comitê civil de diálogo. Nós somos, aqui no Brasil, um grupo simpatizante que deseja divulgar esse movimento. E, ao mesmo tempo, pensar na realidade do Brasil, e tentar, com os princípios dos zapatistas, entender o que seria o melhor para o Brasil.

No site, também vai haver material disponível?
Sim. Se houver interesse num livro, acessando o endereço http://www.geocities.com/xojobil/, você vai encontrar a capa, a contracapa e dados sobre o livro. As pessoas vão ter mais oportunidades de saber que livros existem aqui. É importante entender que temos a preocupação de que todos os que trabalham aqui estejam conhecendo o processo desse movimento. Pouco a pouco pretendemos ter reuniões onde possamos assistir a um filme ou fazer uma leitura e comentar notícias.

Sites Zapatistas

Xojobil - Centro de Documentação e Informação
http://www.geocities.com/xojobil/

Congresso Nacional Indígena
http://www.laneta.apc.org/cni/

Ya basta- Todos os comunicados desde janeiro de 1994.
http://www.ezln.org

Subcomandante Marcos - http://www.patriagrande.net/mexico/ezln/

Frente Zapatista de Libertação Nacional
http://www.fzln.org.mx

2001: A odisséia zapatista
http://lapagina.de/odiseazapatista

Somos viento
Intercambio de informações sobre o zapatismo
http://www.somosviento.net/

Guia Zapatista
http://www.eco.utexas.edu/faculty/Cleaver/zapsincyber.html

Comitê de apoio a Chiapas
http://www.laneta.apc.org/zonanorte/

http://www.chiapas.hpg.ig.com.br/index.html

Exército Zapatista de Libertação Nacional
http://www.ezln.org

Frente Zapatista de Libertação Nacional
http://www.fzln.org.mx/



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