Entrevistadores: Andrea
DiP, Antonio Martinelli Jr., Natalia Viana e Sofia Amaral.
Animação:
Ligia Morresi.
Natalia Viana - Laís, o seu pai é cineasta.
Foi por influência dele (Jorge Bodanzky) que você
se tornou cineasta?
Não dá pra falar que o fato de meu pai ser cineasta
não influenciou, seria mentira. Por causa dele vivi um
pouco os bastidores, o dia-a-dia, a conversa em casa, os dramas,
as dificuldades... Acompanhei alguns trabalhos do meu pai, fui
pequenininha em set de filmagem, assistia a toda aquela agitação,
achava fascinante. Ele faz os filmes com amor, com prazer e, quando
você vê alguém que faz uma coisa com prazer,
termina se interessando.
Natalia Viana - Seu pai faz que tipo de filme? Ficção,
documentário...
Ele fez ficção, depois se especializou em documentário
e agora está com um projeto de longa. Uma retomada da ficção.
Natalia Viana - Mas suas lembranças da infância...
São das duas coisas, ficção e documentário.
Nos anos 70, ele fez um filme que foi censurado, Iracema, uma
Transa Amazônica. Como não podia ser exibido em lugar
nenhum, por causa da censura, havia sessões fechadas desse
filme em casa. Muita gente viu o filme assim naquela época.
Até hoje encontro pessoas que falam: "Eu fui na sua
casa assistir ao Iracema". E as pessoas não iam só
assistir ao filme, eram encontros políticos também.
Porque o tema do filme é muito provocativo, mostra o Brasil
de um jeito que ninguém mostrava e foi um impacto pra elite
intelectual da época descobrir esse Brasil, saber que ele
estava sendo escondido. Isso puxava as discussões sobre
o país.
Antonio Martinelli Jr. - Você nasceu e passou a
infância toda aqui em São Paulo?
Toda aqui. Meu pai mora no Rio desde que se separou da minha mãe,
já faz uns 25 anos. Mas eu sempre fiquei aqui.
Natalia Viana -Você estava contando como foi que
se tornou cineasta...
Ah, sim. Então, no colegial fiz alguns cursos de vídeo,
aprendi a operar a câmera, tinha prazer nisso. Mas acabei
me interessando mesmo é pelo teatro, fui fazer teatro e
o cinema voltou para minha vida quase por acidente. Prestei vestibular
para rádio e televisão na Faap, mas, quando fui
fazer a matrícula, não tinha vaga para o noturno,
eu queria poder trabalhar e à noite só tinha vaga
em cinema, e fui fazer cinema. Acabei achando o curso de cinema
muito mais interessante. Eu só fui perceber depois, mas
tinha mais a ver com aquilo que queria.
Antonio Martinelli Jr. - Você não pensava
em fazer cinema?
Não. Queria trabalhar com vídeo. Sempre me perguntam
o que é preciso para fazer cinema. Sempre recomendo a faculdade.
Mas, além disso, acho que, pra fazer cinema, você
tem de ter algo para dizer. Que história você quer
contar? Seja no documentário ou na ficção,
você tem um discurso, não é fazer só
porque é bonito, porque é legal. Até porque
é uma profissão sofrida, nesse aspecto aprendi com
meu pai. É difícil, tem de acordar cedo, não
ganha muito, não é só festa. Então,
é dolorido emocionalmente e desgastante também,
mas eu já sabia: "Isso eu já sei; então
eu topo". Mas sempre achei importante o exercício
de pensar que história você quer contar, logo do
início já coloquei a meta de fazer um trabalho autoral
por ano, fora da faculdade, e refletir, fazer, exibir e receber
o retorno: deu certo, não deu certo; foi vaiado, foi aplaudido;
gostou, não gostou; gostaram, mas entenderam outra coisa
em vez daquilo que você queria dizer, é um exercício
muito interessante. Então fui fazendo, um por ano, mesmo
em vídeo. Fui fazer meu primeiro trabalho em película,
como diretora, em 1994, quando ganhei com um roteiro um concurso
da Secretaria de Estado da Cultura, o Prêmio Estímulo.
Foi assim que pude fazer meu primeiro trabalho em película,
um curta chamado
Cartão Vermelho 
,
que foi muito reconhecido e me abriu as portas do mercado profissional.
Natalia Viana - Você já tinha saído
da faculdade?
Não, ainda era aluna, até por isso muita gente pensa
que é um curta de faculdade, mas não é. Eu
estava na faculdade, mas foi um concurso completamente independente.
Fiz o filme junto com muitos colegas do curso que depois foram
fazer o
Bicho 
também. Um dos motivos pelos quais recomendo fazer faculdade
é justamente essa convivência de geração,
de quem pensa cinema como você, quem está vivendo
o mesmo momento. Porque cinema é trabalho de equipe. E
para montar uma boa equipe não basta chamar o melhor profissional,
porque são períodos grandes da vida que você
passa com uma pessoa, é um casamento, então você
precisa ter afinidade, mesmo. Saber falar a mesma língua,
compreender a personalidade do outro, também influencia
o trabalho.
Antonio Martinelli Jr. - Esse concurso te oferecia o quê?
Dinheiro. Era pouco dinheiro. Não lembro agora quanto,
porque a moeda foi mudando tanto... Mas a gente pagou laboratório,
pagou alimentação pra todo mundo, toda a parte técnica,
equipamento... A gente fez bonitinho, em 35 mm, finalizou em 35
mm, som bacana... Deu pra fazer direito.
Antonio Martinelli Jr. - Porque essa questão econômica
acaba brecando muita gente...
É. De uma certa forma, ainda é uma arte que pertence
a uma elite econômica, aos que têm acesso aos recursos,
porque é muito caro fazer cinema. Toda a tecnologia do
cinema é importada, o negativo é importado, tudo
é em dólar... E é muita gente trabalhando,
um set de filmagem às vezes tem cem pessoas! Essas pessoas
têm salários, o sindicato é rigoroso, tem
de pagar, se tem hora extra tem de acertar, o cinema é
indústria e não é. Não é em
relação ao processo artístico, autoral, mas
é indústria na maneira que se faz, não tem
como não ser, senão não acontece.
Natalia Viana - Quanto tempo você levou para fazer
Bicho de 7 Cabeças?
Da leitura do livro do Carrano até o filme estar pronto
na sala de cinema, foram quatro anos. Foram dois anos e meio,
três só pra conseguir o dinheiro. Isso que demora.
Depois que você consegue o dinheiro, começa a montar
a equipe. Do momento em que a gente estava com o dinheiro no banco
até a cópia ficar pronta pra ser exibida no primeiro
festival, foi muito rápido, quando a gente pensa em cinema
brasileiro. Dezembro, a gente estava com o dinheiro, em outubro
a cópia estava pronta. Claro, quem faz televisão
fala: "Imagina, tanto tempo". Mas cinema é assim.
Foi rápido, muito rápido, porque a finalização,
no caso do Bicho, foi toda feita na Itália com um co-produtor
italiano. Ele tinha interesse também, estava bancando tudo
e tinha prazo, então tinha pressão, tinha que estar
pronto.
Antonio Martinelli Jr. - O filme é uma co-produção
então?
É uma co-produção Brasil-Itália.
 |
| Caraívas, BA. |
Natalia Viana - Daquele seu primeiro curta até
o Bicho, o que você fez?
Fiz um projeto de cinema itinerante chamado Cine Mambembe com
o meu sócio, Luiz Bolognesi. O Luiz tinha feito o curta
dele, em que trabalhei, eu tinha feito o Cartão Vermelho,
e a gente não conseguia exibir porque o curta-metragem
só é exibido em mostras, festivais, para um público
muito restrito, não tem espaço. Então resolvemos
que nós mesmos iríamos exibir. Montamos esse cinema
itinerante e convidamos outros filmes de curta-metragem para participar
dessas sessões.
Sofia Amaral - Mas itinerante como? Vocês levavam
uma tela e projetavam o filme?
Isso mesmo. A gente levava a tela, era cinema itinerante, na praça.
Antonio Martinelli Jr. - Vocês passaram por onde
com esse projeto?
Começamos na Grande São Paulo e escolhemos fazer
sessões para um público que normalmente não
tem acesso às salas de cinema, ou porque não tem
cinema perto de casa, ou porque a pessoa não tem dinheiro
pra pagar o ônibus, pagar o ingresso, que é caro.
Então, a gente fazia sessões na praça e nas
escolas, associações de bairro. E, quando era em
lugar fechado, sempre havia também um debate. Foi um aprendizado
enorme. Porque acho que fazer cinema também é exibir
cinema. Claro que a gente resolveu fazer o projeto um pouco pela
ansiedade de querer mostrar o próprio trabalho, mas depois
isso ficou pra trás. Exibir o mesmo filme várias
vezes é interessante porque você começa a
compreender como é que o público reage, porque o
público daqui gostou desse filme e não gostou do
outro, aí você muda de lugar, inverte... Aí,
você começa a analisar quem são essas pessoas,
qual a realidade delas, a gente descobriu que esse "grande
público", que a gente sempre fala como se fosse uma
pessoa só, não é assim: tem coisas que funcionam
aqui, não funcionam ali, outras que sempre funcionam...
Aprendemos a fazer uma programação, organizar um
evento, o ritual do cinema, fazer debate, ver como as pessoas
entenderam... Olha, foi uma experiência maravilhosa. E pro
público, de graça, sempre.
Natalia Viana - O que vocês exibiam?
No começo, só curta brasileiro, porque, na época
do Collor, a gente viveu aquele desespero de não fazer
cinema, mas, em compensação, a produção
de curta estava no auge, muito forte e competente. Então
escolhemos alguns, botamos no porta-mala do carro e fomos exibir
o curta. Depois, na época do Bicho, a gente montou um equipamento
maior, mais profissional, pra poder exibir longa, e aí
passamos a exibir também longa-metragem.
 |
| Praça da Sé, São Paulo |
Sofia Amaral - Então, vocês continuam com
o projeto?
Agora não, porque decidimos dar uma parada para conseguir
um verdadeiro patrocínio, porque sempre trabalhamos com
pequenos patrocínios e não estava dando para cobrir
os custos, os profissionais envolvidos têm família,
não dá pra ser assim: "Esse mês tem,
no outro não tem...". Parece simples, mas é
um evento complexo, tem de apagar a luz da praça, tem de
pedir autorização pra prefeitura, chamar a polícia,
fazer divulgação, ir de um lugar pro outro... A
gente iniciou o projeto na Grande São Paulo, viu que deu
certo e resolveu viajar pelo Brasil, exibindo. E levamos uma câmara
pra registrar essa viagem, pensando que esse seria um momento
especial da vida da gente. Só que o resultado disso foi
muito maior do que a gente imaginava... Porque durante as sessões
escolhíamos algumas pessoas e convidávamos no dia
seguinte pra um bate-papo com a câmara. E isso virou um
documentário, Cine Mambembe - O Cinema Descobre o Brasil.
Fizemos em vídeo e passamos pra película e esse
acabou sendo nosso próximo filme que também participou
de muitos festivais.
Andrea DiP - Foi em que época?
O documentário ficou pronto em 1999. E foi uma experiência
maravilhosa porque, além de tudo isso que falei pra vocês,
foi durante essa viagem, vivendo essa experiência, que o
Luiz Bolognesi escreveu o roteiro do Bicho. A gente fez o Bicho
pensando em exibi-lo na praça, pensando que o público
tinha que gostar, não podia levantar e ir embora. E, ao
mesmo tempo, fomos percebendo que o público - que a televisão
sempre nivela por baixo, achando que não entende uma coisa
sofisticada - estava ali, gostando de um curta sofisticado, as
pessoas entendendo... A gente percebeu que era possível
passar na praça uma coisa mais complexa, com conteúdo,
respeitando determinados limites: por exemplo, não pode
ser um filme muito experimental... A gente foi percebendo com
quem a gente queria falar e como a gente queria falar. O roteiro
nasceu desses sete meses de viagem no interior da Bahia, em Sergipe,
Alagoas, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Pará.
A gente foi até Belém.
Natalia Viana - Então, o Bicho foi escrito para
esse público amplo?
O que a gente focou primeiro no Bicho foi o público jovem:
a gente queria falar com o público jovem por vários
motivos. E, ao mesmo tempo, a gente queria falar também
com o público adulto, e não só com a massa
intelectual, mas também com um público que não
vai ao cinema, não tem o repertório do cinema, mas
que aceitaria que o filme parasse um certo momento para uma grande
poesia do Arnaldo Antunes, a gente acreditava que eles iriam embarcar
nisso. A gente estava aprendendo com esse público; não
queria fazer um filme só pra passar pro público
mais sofisticado de festivais. Queria também que o filme
entrasse em cartaz na sala de cinema do shopping center, e fosse
bem lá.
Antonio Martinelli Jr. - Você entrou em contato
com o livro do Carrano quando e como?
Fui contratada para trabalhar no grupo de pesquisa de um outro
diretor, o Roberto D'Ávila, que estava fazendo um documentário
sobre a saúde mental no Brasil. E fiquei muito impressionada
com a realidade que descobri, chocada. No Brasil, a gente ainda
vive realidades de Idade Média no atendimento de saúde
mental. Claro, existe o trabalho alternativo da saúde mental,
mas muito pouca gente tem acesso. Saber que muitas pessoas, por
falta de opção ou de informação, terminam
caindo nesse... buraco da Alice. Sem volta, um grande pesadelo.
Não só para a pessoa que foi internada, mas para
a família também. E assisti a muitos documentários,
visitei muitos lugares, li matérias de jornal e, no meio
dessa pesquisa, encontrei o livro do Carrano. E fiquei muito impressionada
porque o livro do Carrano é um desabafo, um depoimento
dele, uma história que aconteceu com ele. Fiquei muito
emocionada, identifiquei um grito naquele livro, senti necessidade
de amplificar esse grito, achei que dava um filme fortíssimo
que tinha que ser feito para conscientizar a população,
fazer a mídia falar sobre isso... O filme foi abraçado
pela luta antimanicomial, pelo Ministério da Saúde,
participei de vários debates... Ainda participo, porque
não tem fim, não é? E eu tinha desde o início
essa consciência: é um filme-denúncia. Uma
vez, um jornalista comentou que era um filme-denúncia,
e alguém achou que isso iria me ofender. Não me
ofende! Cinema também é pra isso. Claro que o cinema
é diversão, é entretenimento, mas não
é só isso. Nenhum filme é só isso.
Alguma coisa vem junto, está embutida.
Natalia Viana - Você falou que queria falar com
o público jovem e levar pra shopping. Foi por isso que
você escolheu o Rodrigo Santoro para o papel principal?
Não, eu assisto à televisão pouco, não
sabia nem quem era o Santoro (risos). Mas o Paulo Autran leu o
roteiro e comentou que tinha feito a minissérie Hilda Furacão
com o Rodrigo, que ele era um excelente profissional, muito inteligente,
e que tinha tudo a ver com a personagem do Neto. E falou pra eu
assistir à minissérie. Assisti e achei que ele tinha
toda a razão! Porque o Rodrigo constrói o personagem
com muita verdade e tem uma maneira de interpretar que combina
muito com a linguagem do cinema. A sutileza, os olhares, não
estar só na fala, o cinema não é só
fala, só diálogo, o cinema está falando o
tempo inteiro. E o Rodrigo é muito expressivo. Aí,
eu mandei o roteiro pra ele, demorou um tempo para ele aceitar,
negociar, tudo...
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| Foto: Marlene Bérgamo/Edd Viggiani |
Sofia Amaral - E como você conseguiu um elenco tão
estrelado em seu primeiro longa? Santoro, Cássia Kiss,
as músicas do Arnaldo Antunes, a trilha original do Abujamra...
Sim, as canções do Arnaldo entraram na fase de roteiro,
mas não foram feitas para o filme, já eram do trabalho
solo dele. Eu tinha escutado, mostrei para o Luiz e ele gostou
tanto, era tão casado com o que a gente estava fazendo,
que a gente foi falar com ele. Apresentou, explicou e perguntou:
"Arnaldo, você topa?" Ele respondeu: "Eu
topo, vocês acertam na gravadora que de minha parte tudo
bem". Depois eu ainda o chamei para fazer a trilha original,
mas ele não podia na época e indicou o Abujamra,
ele topou e ficou um trabalho lindo.
Antonio Martinelli Jr. - Como vocês amarraram tudo
com a música do Geraldo Azevedo?
A música do Geraldo veio assim: na verdade, eu precisava
de um título para o filme. Eu não queria manter
o título do livro do Carrano, O Canto dos Malditos. Por
vários motivos, a gente achava o título muito ardido
para uma película, para o cinema. E depois poderia parecer
um pouco filme de terror. Além disso, o filme é
inspirado no livro do Carrano, mas não é bem a história
dele e a gente precisava fazer essa diferença. O próprio
perfil do personagem, do Neto, não é exatamente
o Carrano. Você sente as diferenças.
Antonio Martinelli Jr. - O livro é até muito
mais forte.
O livro é mais forte. A gente teve que amenizar algumas
coisas também. E aí começou o drama do título.
Quando você busca título, começa a ler tudo.
Peguei os CDs em casa, fiquei lendo letra de música. E
encontrei Bicho de 7 Cabeças. A letra da música
fala de uma história de amor de homem e mulher, mas no
filme vira uma história de amor e ódio entre pai
e filho. É uma releitura da música. Aí: Bicho
de 7 Cabeças. Foi assim que nasceu. Convidamos o Zeca Baleiro
para gravar e o André Abujamra coordenou.
Natalia Viana - Então, você foi convencendo
as pessoas de pouquinho em pouquinho, já que não
era ainda um nome tão conhecido...
Sim, acho que cinema é assim, a gente vai lá, apresenta...
E era um projeto forte, quem lia percebia a força dele.
A Cássia foi assim, de supetão, fez uma leitura
de roteiro e falou: "Quero fazer". E ela sabia que era
o meu primeiro filme. Foi corajosa, mergulhou de cabeça.
Andrea DiP - E quando a Itália entrou na história?
Entrou alguns meses antes da filmagem.
Andrea DiP - Já estava com o elenco montado?
O Othon Bastos e o Rodrigo já estavam no elenco, a Cássia
não.
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| Foto:
Marlene Bérgamo/Edd Viggiani |
Antonio Martinelli Jr. - Aqui, você teve apoio de
quem?
No Brasil são três produtoras de São Paulo:
a Buriti Filmes, que é do Luiz e minha, a Gullane Filmes,
que é dos irmãos Gullane, e a Dezenove Som e Imagens,
da Sara Silveira, que tinha contato com um produtor italiano da
Fabrica Cinema, uma instituição mantida pela Benetton
que co-produz filmes de países do Terceiro Mundo de diretores
estreantes, que também entrou no filme. Então encaixou
direitinho. Além disso, aqui no Brasil tivemos patrocínio
através das leis Rouanet e Audiovisual, sendo a Eletrobrás
e a Petrobrás as principais investidoras.
Antonio Martinelli Jr. - Essa parte de captação
é muito difícil mesmo?
É muito difícil mesmo! Ainda é hoje. Claro
que a lei já está completando dez anos, melhorou
muito. Mas ainda tem muita coisa pra mudar e também a gente
tem de pensar que não dá para viver só da
lei do incentivo. Qual o grande defeito dessa lei não só
para o cinema, mas para a cultura em geral? Quem decide o que
vai ser feito é o diretor de marketing. Como você
faz uma política cinematográfica de um país
a partir da cabeça de diretores de marketing que estão
pensando apenas em vender seus próprios produtos? Eles
não têm a consciência, mas são os verdadeiros
ministros da cultura, e a cultura de um país é a
memória de um país. Depois, o tempo passa, você
olha pra trás, e quem eram aquelas pessoas daquela geração?
Eles fizeram esses filmes, essas músicas, essas peças
de teatro. A produção cultural está se tornando
a cara dos diretores de marketing e isso é equivocado.
Ainda bem que nesse final de ano estão acontecendo concursos
públicos do Ministério da Cultura, da Agência
Nacional de Cinema, da prefeitura de São Paulo, para vídeo,
curta, média e longa. Claro que são projetos de
longa de 800.000 a 1 milhão, baixo orçamento para
diretor estreante. Mas aí a pessoa recebe o dinheiro do
concurso e faz o filme.
Antonio Martinelli Jr. - Você acha que esse tipo
de apoio está trazendo gente nova mesmo, iniciante...
Iniciante é difícil, como iniciante, sofri muito.
O lado artístico rolou muito bem, mas com a grana foi péssimo:
"Quem é você? Vou pôr dinheiro no primeiro
filme da menina?" E esse filme, esse tema ardido: "Botar
minha marca aqui? Deus me livre". Então ouvi muito
"não". Por isso é importante haver esses
concursos, o primeiro filme é complicadíssimo! O
segundo também é muito difícil. Você
realmente entrar no meio, ser respeitado...
Antonio Martinelli Jr. - Mas tem todo um pessoal de peso que vai
lá e faz cinema e ganha dinheiro com cinema. Parece que
as verbas não são bem distribuídas, você
não sente isso?
Claro, por isso que esses concursos são importantes. Têm
cotas para diretores estreantes, no mínimo três,
quatro, tem de ter. Ou mesmo concursos só para diretor
estreante. Isso é política cinematográfica.
Não estava tendo isso no governo anterior, a gente só
tinha a lei de incentivo que você mesmo tem de ir lá
na empresa e correr atrás. Não tinha uma política
e agora tem. Mas é pouco dinheiro para muita gente. Entendo
que os cineastas mais velhos queiram garantir que o dinheiro do
cinema continue chegando para eles. Claro, eles precisam continuar
filmando, pelo amor de Deus, também quero continuar filmando
com a idade deles. Mas acho que tem de ter uma visão mais
democrática, pensando na renovação, sem dúvida
nenhuma. É fundamental para a cinematografia do país
essa reciclagem.
Débora Pivotto - O que você acha do Gil como
ministro da Cultura?
Confesso que fiquei muito assustada quando ele foi nomeado. Bem
assustada. Porque até dentro do PT já tinham pessoas
muito inteiradas de quais eram as principais questões do
cinema. E, quando entrou o Gil com a equipe dele de outro partido,
deu um certo desânimo: "Ah, ter que começar
a discutir tudo de novo"... Mas a equipe que ele colocou
na área do audiovisual é competente como há
muito tempo não tínhamos. Estou otimista, há
muito tempo que não tinha um agito na área cinematográfica
como agora. Todo mundo ou está desenvolvendo projeto, ou
está com dinheiro para ajudar na produção,
ou é filme de estreante que vai fazer com baixo orçamento,
ou o dinheiro para a finalização, ou - o que é
mais interessante - que está tendo hoje que não
tinha antigamente, que é o dinheiro para a comercialização
dos filmes, está tendo uma visão de fato de onde
é necessário botar quanto de dinheiro, e o Ministério
da Cultura está trabalhando assim. Fora uma grande briga
que eles estão comprando, uma briga boa, que é começar
a discussão da relação cinema e televisão.
A Agência Nacional de Cinema vai passar a ser Agência
Nacional de Cinema e Audiovisual. Tudo integrado. Essa conversa
tem de ter. A gente não pode fugir disso.
Sofia Amaral - Por quê?
Porque cinema e televisão têm ligações
fortes. Por exemplo, na época do lançamento de O
Bicho, a gente tinha pouco dinheiro para marketing. E precisava
anunciar, como qualquer produto: "Olha, está em cartaz,
vai assistir". A gente comprou um comercial de quinze segundos
no Jornal Nacional. Tudo bem, tem um certo impacto, a gente comprou.
Mas O Bicho comprou anúncio da mesma forma que a Nike comprou.
Pagamos a mesma coisa. Não pode, a televisão é
uma concessão pública. Então, esse tipo de
diálogo tem deter. Tem de ter a promoção
do cinema brasileiro na televisão, ou tem de ter algum
tipo de taxação porque eles passam filme americano
e não vão passar o brasileiro, ou vão passar
o brasileiro e vão comprar com preço de mercado
e não com preço de favor. Então são
conversas ardidas, complicadas e delicadas, mas que estão
se iniciando. Isso, eu acredito, é a função
do Ministério da Cultura.
Natalia Viana - Era essa mesmo a minha pergunta: além
do dinheiro, o que mais precisa ser feito para o cinema?
Hoje, a gente vive um drama porque têm poucas salas de cinema
no Brasil para o tamanho do Brasil. Só 9 por cento das
cidades do Brasil têm salas de cinema. É muito pouco.
No Estado de São Paulo, que é muito rico, a gente
tem seiscentos municípios, só cem deles têm
salas de cinema. Precisamos aumentar esse parque de salas de exibição,
pensar também em trabalhos de exibição alternativa...
Antonio Martinelli Jr. - Essa questão da distribuição
também é um problema, não é? Não
poder ir assistir a um filme brasileiro em São Carlos...
Exatamente. Por que o que acontece provavelmente em São
Carlos? Deve ter aquele esquema multiplex ligado às grandes
distribuidoras americanas, que são as chamadas majors.
As majors estão acostumadas a mandar um filme novo por
semana e a sala de cinema vive disso, da novidade. Quando o cinema
brasileiro tem a sorte de estar abraçado com uma major
- como o Bicho, que a Columbia distribuiu -, aí consegue
entrar em alguns cinemas multiplex. Sem a Columbia, se chego lá
e peço para exibir meu filme, o cara diz: "Olha, seu
filme é superlegal, super]bacana, eu gosto de você,
mas não posso exibir seu filme porque as distribuidoras
chegam aqui toda semana com um filme novo e, se minha sala está
ocupada com o seu filme, elas vão dizer: "Então,
você escolhe se quer exibir esse filme do teu amigo ou o
meu. Se você exibir o meu, eu te dou o novo Titanic que
está para sair, senão você fica sem Titanic".
Então, é um problema econômico, pra você
chegar em uma sala de cinema tem de ter um distribuidor que banque
o seu filme. Então, o que é importante? Você
priorizar distribuidoras nacionais, profissionais, focadas no
cinema brasileiro. Hoje, a gente tem uma distribuidora nacional
que é a Rio Filme, que é pública, mas está
só distribuindo produções do Rio de Janeiro.
Até então, ela distribuía Brasil. Você
tem distribuidoras nacionais como a Lumière, a Mais Filmes,
que pegam alguns filmes brasileiros, mas é pouco em relação
à quantidade de filmes. Além disso, o filme médio
americano chega aqui com um dinheiro para marketing absurdo! E
a gente não tem como competir sem dinheiro para marketing,
para a comercialização. Então, o cinema brasileiro
tem de compreender que essa indústria funciona quando completa
o ciclo: o público tem de saber que o filme está
em cartaz para ir às salas de cinema. Se não acontecer
isso, não tem nem como fazer propaganda boca a boca. O
primeiro final de semana de um filme é vital, e aí
ainda não tem boca a boca. Eu falei pra você que
o filme é bom, aí você vai lá e vê.
Mas como eu fui parar no cinema primeiro? Vi um outdoor, um comercial
na televisão, escutei no rádio, sei lá. O
marketing para o cinema hoje é um ponto importantíssimo.
Débora Pivotto - Você é a favor da
contrapartida social que provocou tanta polêmica entre os
cineastas?
Eu sou a favor, sim, da contrapartida social, acho que o cinema
é dinheiro público e ele tem de chegar ao grande
público, não só aos que têm grana para
comprar o ingresso. Muitos cineastas falam que a contrapartida
social é a própria obra. Eu acho que não,
entendo a contrapartida social como a obra chegando ao grande
público. E não só cinema brasileiro tem de
chegar a esse público. Vejo o cinema como educação
também. Tem de ter o circuito alternativo, a possibilidade
de passar uma mostra de cinema alemão, se possível
na periferia. Por que só quem estudou num colégio
bacana é que vai poder assistir à mostra de cinema
alemão? O Centro Cultural São Paulo volta e meia
faz umas mostras bem interessantes e tem público.
Natalia Viana - O cinema brasileiro hoje está buscando
redescobrir o Brasil, como fez seu pai com Iracema?
Hoje, o cinema brasileiro está plural nos gêneros.
A gente não tem só o cinema denúncia, como
o Bicho, ou aquele que fala da realidade social, como Cidade de
Deus, Carandiru. Também tem, por exemplo, Lisbela e o Prisioneiro,
que é um filme maravilhoso, lindo. E por que o cinema brasileiro
está fazendo sucesso? Porque é muito gostoso a gente
ver nesse espaço sagrado que é a tela do cinema
a nossa cultura, a nossa língua, não tem de ler
legenda, você observa melhor o trabalho dos atores, tem
orgulho, se identifica... E esse processo da tela de cinema como
espelho da vida, isso é tão forte, tem um impacto
tão grande. E também tem a responsabilidade do cineasta,
do cinema autoral. Quantas vezes vocês não ouviram
alguém fala "tal filme mudou a minha vida"? Porque
o cinema tem esse poder. É através dele que o brasileiro
pode se ver na tela, ver a realidade que não aparece nas
novelas ou no telejornal, e nosso público está gostando
dessa possibilidade. Por isso, tanto impacto de filmes como Cidade
de Deus e Carandiru.
Antonio Martinelli Jr. - Para você, quando começou
essa retomada do cinema brasileiro?
Carlota Joaquina é um marco da retomada, sem dúvida
nenhuma. Por mérito da Carla Camurati. Ela foi muito corajosa,
fez o filme em uma época em que ainda não havia
as leis de incentivo. Pôs as cópias debaixo do braço
e viajou o Brasil inteiro para exibir esse filme. E foi superimportante
esse boca a boca de que tem vida inteligente no cinema. Agora,
é claro que a retomada é uma retomada de uma época
em que não se fazia nada. Não se fazia nada por
quê? Por que não tinha cineasta querendo fazer filme?
Não. Não tinha era dinheiro. Agora que tem dinheiro,
e está sendo bem distribuído, naturalmente começam
a aparecer projetos de impacto também. E isso precisa continuar.
Porque, cada vez que acontece uma interrupção como
essa que antecedeu o que chamamos de retomada, depois tem de começar
tudo outra vez. E lá se vão de novo dois, três
anos para formar profissionais, descobrir como a máquina
funciona. Agora, por exemplo, estamos vivendo uma etapa que é
nova: aprendendo como lançar um filme brasileiro nas salas
de cinema. Não é a mesma coisa que lançar
um filme americano, é outro perfil, são outras características.
É diferente. A gente aprende e também quebra a cara.
Por exemplo, o Casseta e Planeta teve dinheiro, tem a Globo, mídia
na televisão, e o filme foi muito abaixo da expectativa,
do que foi investido. Não tem fórmula. O que também
é muito legal, estamos vivendo essa descoberta.
Antonio Martinelli Jr. - O que você viu de muito
bom nessa fase de retomada?
Eu adoro Beto Brant. Tenho muito orgulho de ver o cinema dele.
De saber que é um cara que chegou com uma linguagem diferente,
que faz um trabalho de ator que é impressionante. Ele tem
sangue nas veias, sabe? Também gosto muito do filme Madame
Satã, o primeiro longa do Karim Aïnouz, acho um filme
muito ousado, com um trabalho lindo do Lázaro Ramos. Tenho
a sensação de estar chegando no cinema junto com
pessoas que admiro, como o Karim, que eu nem sabia quem era antes
do filme. Também adorei Cidade de Deus por vários
motivos: o filme é forte, o trabalho com o elenco, como
ele foi formado, não tem atores conhecidos. E o filme é
bom e deu certo, independentemente disso. Porque muitos falam:
é só com ator global que vai dar certo. Não,
não é. Porque tem muito filme com ator global que
foi um fracasso. Quando me perguntam do Rodrigo Santoro, tenho
de dizer que eu já sabia que ter um ator global no elenco
não significa sucesso. O filme tem de ser bom, se o filme
é bom, a coisa acontece. E acho que Cidade de Deus é
mais forte ainda porque depois veio a série da Globo, Cidade
dos Homens, que cinco anos atrás nunca se imaginaria na
televisão. Uma série tão ousada, com atores
desconhecidos, com esse tema, a linguagem. E fez sucesso. É
o cinema influenciando a televisão, melhorando a televisão,
porque o cinema pode ser mais ousado.
Antonio Martinelli Jr. - Quem são suas maiores
influências como cineasta?
Um filme que me causou muito impacto é A Hora da Estrela,
da Suzana Amaral. Quando vi esse filme, fiquei impressionada com
o respeito, a personagem, a delicadeza, a atuação
dos atores. Para mim, foi um marco. É o cinema que gosto,
admiro, que me dá prazer. Também gosto dos filmes
do Ettore Scola, de Fellini. Por outro lado, Guerra nas Estrelas
também me influenciou, assisti com dez anos pela primeira
vez e mudou a minha vida. Enfim, também tem influências
que não são do cinema: a música que você
está ouvindo, o lugar em que mora, os amigos que tem, os
livros que leu, o salão de dança que freqüentou.
Sofia Amaral - Você dirigiu os atores também
no Bicho de 7 Cabeças?
Tive um preparador de elenco antes do set, o Sérgio Penna,
que foi importantíssimo. Eu estava muito preocupada justamente
com a sutileza da interpretação, porque é
muito fácil cair na caricatura quando se fala no universo
da loucura. E isso era o oposto do discurso do filme. Eu queria
justamente humanizar, mostrar que faz parte do nosso dia-a-dia,
está do nosso lado o tempo inteiro, a gente tem de saber
conviver com isso, respeitar o diferente. Então, o trabalho
do Penna teve esse respeito e muita poesia.
Sofia Amaral - Todos são atores?
Todos são atores. O elenco de ponta a ponta são
atores, todos contratados. Não é documentário.
Natalia Viana - Uma vez lançado, o filme superou
muito a expectativa?
Claro, não é? Eu olho para trás e falo: não
acredito que deu certo, aconteceu e, dessa forma, foi tão
bonito. Mas isso foi fruto de trabalho de muita gente. Não
aconteceu do nada, ninguém ficou quieto, esperando o telefone
tocar. Mesmo a Columbia não aconteceu do nada, a Columbia
não ligou para a gente. Íamos lá desde a
fase do roteiro. E eles diziam: "Legal, mas volta aqui depois"
Daí, o filme está pronto: "Ah, legal, mais
volta depois". Daí, vai pra festival e ganha prêmio:
"Mas volta aqui depois". Eu falei: "Nossa!"
Não tinha fim. Eles foram entrar já com a data de
lançamento pré-marcada. Foi tudo muito esforço,
muito trabalho, dedicação.
Débora Pivotto - E o próximo filme? Já
tem?
Tenho, tenho o próximo longa de ficção. O
Luiz e eu ganhamos um concurso para o desenvolvimento de um projeto.
Ainda está na fase do argumento, não tem o roteiro.
Agora vamos poder parar uns dois, três meses, e fazer a
pesquisa. Elaborar o roteiro e já iniciar a fase de orçamento
e desenvolvimento do projeto. Se der tudo certo, vamos filmar
em 2005 para sair em 2006.
Natalia Viana - E o argumento, você vai contar?
Claro, claro. O filme se chama União Fraterna, ainda um
título provisório, e se passa num salão de
baile da terceira idade.
Sofia Amaral - O União Fraterna, da Lapa?
Não necessariamente lá, mais é inspirado.
Exatamente. Vocês conhecem? Mas terceira idade. A história
acontece em uma única noite nesses bailes. É nesse
mundo que vou estar mergulhando.
Antonio Martinelli Jr. - E teatro? Ainda pode rolar de
novo?
Eu fiz um pouquinho só de teatro, mas gosto muito. Quando
você vê um teatro bom, é uma experiência
que marca a vida. Agora fui convidada para dirigir uma peça
com a Maria Luíza Mendonça. Ainda estamos iniciando.
Mas estou bem animada com a possibilidade de fazer teatro.
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