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Entrevistadores: Andrea DiP, Antonio Martinelli Jr., Natalia Viana e Sofia Amaral. Animação: Ligia Morresi.



Natalia Viana - Laís, o seu pai é cineasta. Foi por influência dele (Jorge Bodanzky) que você se tornou cineasta?
Não dá pra falar que o fato de meu pai ser cineasta não influenciou, seria mentira. Por causa dele vivi um pouco os bastidores, o dia-a-dia, a conversa em casa, os dramas, as dificuldades... Acompanhei alguns trabalhos do meu pai, fui pequenininha em set de filmagem, assistia a toda aquela agitação, achava fascinante. Ele faz os filmes com amor, com prazer e, quando você vê alguém que faz uma coisa com prazer, termina se interessando.

Natalia Viana - Seu pai faz que tipo de filme? Ficção, documentário...
Ele fez ficção, depois se especializou em documentário e agora está com um projeto de longa. Uma retomada da ficção.

Natalia Viana - Mas suas lembranças da infância...

São das duas coisas, ficção e documentário. Nos anos 70, ele fez um filme que foi censurado, Iracema, uma Transa Amazônica. Como não podia ser exibido em lugar nenhum, por causa da censura, havia sessões fechadas desse filme em casa. Muita gente viu o filme assim naquela época. Até hoje encontro pessoas que falam: "Eu fui na sua casa assistir ao Iracema". E as pessoas não iam só assistir ao filme, eram encontros políticos também. Porque o tema do filme é muito provocativo, mostra o Brasil de um jeito que ninguém mostrava e foi um impacto pra elite intelectual da época descobrir esse Brasil, saber que ele estava sendo escondido. Isso puxava as discussões sobre o país.

Antonio Martinelli Jr. - Você nasceu e passou a infância toda aqui em São Paulo?
Toda aqui. Meu pai mora no Rio desde que se separou da minha mãe, já faz uns 25 anos. Mas eu sempre fiquei aqui.

Natalia Viana -Você estava contando como foi que se tornou cineasta...
Ah, sim. Então, no colegial fiz alguns cursos de vídeo, aprendi a operar a câmera, tinha prazer nisso. Mas acabei me interessando mesmo é pelo teatro, fui fazer teatro e o cinema voltou para minha vida quase por acidente. Prestei vestibular para rádio e televisão na Faap, mas, quando fui fazer a matrícula, não tinha vaga para o noturno, eu queria poder trabalhar e à noite só tinha vaga em cinema, e fui fazer cinema. Acabei achando o curso de cinema muito mais interessante. Eu só fui perceber depois, mas tinha mais a ver com aquilo que queria.

Antonio Martinelli Jr. - Você não pensava em fazer cinema?
Não. Queria trabalhar com vídeo. Sempre me perguntam o que é preciso para fazer cinema. Sempre recomendo a faculdade. Mas, além disso, acho que, pra fazer cinema, você tem de ter algo para dizer. Que história você quer contar? Seja no documentário ou na ficção, você tem um discurso, não é fazer só porque é bonito, porque é legal. Até porque é uma profissão sofrida, nesse aspecto aprendi com meu pai. É difícil, tem de acordar cedo, não ganha muito, não é só festa. Então, é dolorido emocionalmente e desgastante também, mas eu já sabia: "Isso eu já sei; então eu topo". Mas sempre achei importante o exercício de pensar que história você quer contar, logo do início já coloquei a meta de fazer um trabalho autoral por ano, fora da faculdade, e refletir, fazer, exibir e receber o retorno: deu certo, não deu certo; foi vaiado, foi aplaudido; gostou, não gostou; gostaram, mas entenderam outra coisa em vez daquilo que você queria dizer, é um exercício muito interessante. Então fui fazendo, um por ano, mesmo em vídeo. Fui fazer meu primeiro trabalho em película, como diretora, em 1994, quando ganhei com um roteiro um concurso da Secretaria de Estado da Cultura, o Prêmio Estímulo. Foi assim que pude fazer meu primeiro trabalho em película, um curta chamado Cartão Vermelho , que foi muito reconhecido e me abriu as portas do mercado profissional.

Natalia Viana - Você já tinha saído da faculdade?
Não, ainda era aluna, até por isso muita gente pensa que é um curta de faculdade, mas não é. Eu estava na faculdade, mas foi um concurso completamente independente. Fiz o filme junto com muitos colegas do curso que depois foram fazer o Bicho também. Um dos motivos pelos quais recomendo fazer faculdade é justamente essa convivência de geração, de quem pensa cinema como você, quem está vivendo o mesmo momento. Porque cinema é trabalho de equipe. E para montar uma boa equipe não basta chamar o melhor profissional, porque são períodos grandes da vida que você passa com uma pessoa, é um casamento, então você precisa ter afinidade, mesmo. Saber falar a mesma língua, compreender a personalidade do outro, também influencia o trabalho.

Antonio Martinelli Jr. - Esse concurso te oferecia o quê?
Dinheiro. Era pouco dinheiro. Não lembro agora quanto, porque a moeda foi mudando tanto... Mas a gente pagou laboratório, pagou alimentação pra todo mundo, toda a parte técnica, equipamento... A gente fez bonitinho, em 35 mm, finalizou em 35 mm, som bacana... Deu pra fazer direito.

Antonio Martinelli Jr. - Porque essa questão econômica acaba brecando muita gente...
É. De uma certa forma, ainda é uma arte que pertence a uma elite econômica, aos que têm acesso aos recursos, porque é muito caro fazer cinema. Toda a tecnologia do cinema é importada, o negativo é importado, tudo é em dólar... E é muita gente trabalhando, um set de filmagem às vezes tem cem pessoas! Essas pessoas têm salários, o sindicato é rigoroso, tem de pagar, se tem hora extra tem de acertar, o cinema é indústria e não é. Não é em relação ao processo artístico, autoral, mas é indústria na maneira que se faz, não tem como não ser, senão não acontece.

Natalia Viana - Quanto tempo você levou para fazer Bicho de 7 Cabeças?
Da leitura do livro do Carrano até o filme estar pronto na sala de cinema, foram quatro anos. Foram dois anos e meio, três só pra conseguir o dinheiro. Isso que demora. Depois que você consegue o dinheiro, começa a montar a equipe. Do momento em que a gente estava com o dinheiro no banco até a cópia ficar pronta pra ser exibida no primeiro festival, foi muito rápido, quando a gente pensa em cinema brasileiro. Dezembro, a gente estava com o dinheiro, em outubro a cópia estava pronta. Claro, quem faz televisão fala: "Imagina, tanto tempo". Mas cinema é assim. Foi rápido, muito rápido, porque a finalização, no caso do Bicho, foi toda feita na Itália com um co-produtor italiano. Ele tinha interesse também, estava bancando tudo e tinha prazo, então tinha pressão, tinha que estar pronto.

Antonio Martinelli Jr. - O filme é uma co-produção então?

É uma co-produção Brasil-Itália.

Caraívas, BA.


Natalia Viana - Daquele seu primeiro curta até o Bicho, o que você fez?
Fiz um projeto de cinema itinerante chamado Cine Mambembe com o meu sócio, Luiz Bolognesi. O Luiz tinha feito o curta dele, em que trabalhei, eu tinha feito o Cartão Vermelho, e a gente não conseguia exibir porque o curta-metragem só é exibido em mostras, festivais, para um público muito restrito, não tem espaço. Então resolvemos que nós mesmos iríamos exibir. Montamos esse cinema itinerante e convidamos outros filmes de curta-metragem para participar dessas sessões.

Sofia Amaral - Mas itinerante como? Vocês levavam uma tela e projetavam o filme?
Isso mesmo. A gente levava a tela, era cinema itinerante, na praça.

Antonio Martinelli Jr. - Vocês passaram por onde com esse projeto?
Começamos na Grande São Paulo e escolhemos fazer sessões para um público que normalmente não tem acesso às salas de cinema, ou porque não tem cinema perto de casa, ou porque a pessoa não tem dinheiro pra pagar o ônibus, pagar o ingresso, que é caro. Então, a gente fazia sessões na praça e nas escolas, associações de bairro. E, quando era em lugar fechado, sempre havia também um debate. Foi um aprendizado enorme. Porque acho que fazer cinema também é exibir cinema. Claro que a gente resolveu fazer o projeto um pouco pela ansiedade de querer mostrar o próprio trabalho, mas depois isso ficou pra trás. Exibir o mesmo filme várias vezes é interessante porque você começa a compreender como é que o público reage, porque o público daqui gostou desse filme e não gostou do outro, aí você muda de lugar, inverte... Aí, você começa a analisar quem são essas pessoas, qual a realidade delas, a gente descobriu que esse "grande público", que a gente sempre fala como se fosse uma pessoa só, não é assim: tem coisas que funcionam aqui, não funcionam ali, outras que sempre funcionam... Aprendemos a fazer uma programação, organizar um evento, o ritual do cinema, fazer debate, ver como as pessoas entenderam... Olha, foi uma experiência maravilhosa. E pro público, de graça, sempre.

Natalia Viana - O que vocês exibiam?
No começo, só curta brasileiro, porque, na época do Collor, a gente viveu aquele desespero de não fazer cinema, mas, em compensação, a produção de curta estava no auge, muito forte e competente. Então escolhemos alguns, botamos no porta-mala do carro e fomos exibir o curta. Depois, na época do Bicho, a gente montou um equipamento maior, mais profissional, pra poder exibir longa, e aí passamos a exibir também longa-metragem.

Praça da Sé, São Paulo


Sofia Amaral - Então, vocês continuam com o projeto?
Agora não, porque decidimos dar uma parada para conseguir um verdadeiro patrocínio, porque sempre trabalhamos com pequenos patrocínios e não estava dando para cobrir os custos, os profissionais envolvidos têm família, não dá pra ser assim: "Esse mês tem, no outro não tem...". Parece simples, mas é um evento complexo, tem de apagar a luz da praça, tem de pedir autorização pra prefeitura, chamar a polícia, fazer divulgação, ir de um lugar pro outro... A gente iniciou o projeto na Grande São Paulo, viu que deu certo e resolveu viajar pelo Brasil, exibindo. E levamos uma câmara pra registrar essa viagem, pensando que esse seria um momento especial da vida da gente. Só que o resultado disso foi muito maior do que a gente imaginava... Porque durante as sessões escolhíamos algumas pessoas e convidávamos no dia seguinte pra um bate-papo com a câmara. E isso virou um documentário, Cine Mambembe - O Cinema Descobre o Brasil. Fizemos em vídeo e passamos pra película e esse acabou sendo nosso próximo filme que também participou de muitos festivais.

Andrea DiP - Foi em que época?
O documentário ficou pronto em 1999. E foi uma experiência maravilhosa porque, além de tudo isso que falei pra vocês, foi durante essa viagem, vivendo essa experiência, que o Luiz Bolognesi escreveu o roteiro do Bicho. A gente fez o Bicho pensando em exibi-lo na praça, pensando que o público tinha que gostar, não podia levantar e ir embora. E, ao mesmo tempo, fomos percebendo que o público - que a televisão sempre nivela por baixo, achando que não entende uma coisa sofisticada - estava ali, gostando de um curta sofisticado, as pessoas entendendo... A gente percebeu que era possível passar na praça uma coisa mais complexa, com conteúdo, respeitando determinados limites: por exemplo, não pode ser um filme muito experimental... A gente foi percebendo com quem a gente queria falar e como a gente queria falar. O roteiro nasceu desses sete meses de viagem no interior da Bahia, em Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Pará. A gente foi até Belém.

Natalia Viana - Então, o Bicho foi escrito para esse público amplo?
O que a gente focou primeiro no Bicho foi o público jovem: a gente queria falar com o público jovem por vários motivos. E, ao mesmo tempo, a gente queria falar também com o público adulto, e não só com a massa intelectual, mas também com um público que não vai ao cinema, não tem o repertório do cinema, mas que aceitaria que o filme parasse um certo momento para uma grande poesia do Arnaldo Antunes, a gente acreditava que eles iriam embarcar nisso. A gente estava aprendendo com esse público; não queria fazer um filme só pra passar pro público mais sofisticado de festivais. Queria também que o filme entrasse em cartaz na sala de cinema do shopping center, e fosse bem lá.

Antonio Martinelli Jr. - Você entrou em contato com o livro do Carrano quando e como?
Fui contratada para trabalhar no grupo de pesquisa de um outro diretor, o Roberto D'Ávila, que estava fazendo um documentário sobre a saúde mental no Brasil. E fiquei muito impressionada com a realidade que descobri, chocada. No Brasil, a gente ainda vive realidades de Idade Média no atendimento de saúde mental. Claro, existe o trabalho alternativo da saúde mental, mas muito pouca gente tem acesso. Saber que muitas pessoas, por falta de opção ou de informação, terminam caindo nesse... buraco da Alice. Sem volta, um grande pesadelo. Não só para a pessoa que foi internada, mas para a família também. E assisti a muitos documentários, visitei muitos lugares, li matérias de jornal e, no meio dessa pesquisa, encontrei o livro do Carrano. E fiquei muito impressionada porque o livro do Carrano é um desabafo, um depoimento dele, uma história que aconteceu com ele. Fiquei muito emocionada, identifiquei um grito naquele livro, senti necessidade de amplificar esse grito, achei que dava um filme fortíssimo que tinha que ser feito para conscientizar a população, fazer a mídia falar sobre isso... O filme foi abraçado pela luta antimanicomial, pelo Ministério da Saúde, participei de vários debates... Ainda participo, porque não tem fim, não é? E eu tinha desde o início essa consciência: é um filme-denúncia. Uma vez, um jornalista comentou que era um filme-denúncia, e alguém achou que isso iria me ofender. Não me ofende! Cinema também é pra isso. Claro que o cinema é diversão, é entretenimento, mas não é só isso. Nenhum filme é só isso. Alguma coisa vem junto, está embutida.

Natalia Viana - Você falou que queria falar com o público jovem e levar pra shopping. Foi por isso que você escolheu o Rodrigo Santoro para o papel principal?
Não, eu assisto à televisão pouco, não sabia nem quem era o Santoro (risos). Mas o Paulo Autran leu o roteiro e comentou que tinha feito a minissérie Hilda Furacão com o Rodrigo, que ele era um excelente profissional, muito inteligente, e que tinha tudo a ver com a personagem do Neto. E falou pra eu assistir à minissérie. Assisti e achei que ele tinha toda a razão! Porque o Rodrigo constrói o personagem com muita verdade e tem uma maneira de interpretar que combina muito com a linguagem do cinema. A sutileza, os olhares, não estar só na fala, o cinema não é só fala, só diálogo, o cinema está falando o tempo inteiro. E o Rodrigo é muito expressivo. Aí, eu mandei o roteiro pra ele, demorou um tempo para ele aceitar, negociar, tudo...

Foto: Marlene Bérgamo/Edd Viggiani


Sofia Amaral - E como você conseguiu um elenco tão estrelado em seu primeiro longa? Santoro, Cássia Kiss, as músicas do Arnaldo Antunes, a trilha original do Abujamra...
Sim, as canções do Arnaldo entraram na fase de roteiro, mas não foram feitas para o filme, já eram do trabalho solo dele. Eu tinha escutado, mostrei para o Luiz e ele gostou tanto, era tão casado com o que a gente estava fazendo, que a gente foi falar com ele. Apresentou, explicou e perguntou: "Arnaldo, você topa?" Ele respondeu: "Eu topo, vocês acertam na gravadora que de minha parte tudo bem". Depois eu ainda o chamei para fazer a trilha original, mas ele não podia na época e indicou o Abujamra, ele topou e ficou um trabalho lindo.

Antonio Martinelli Jr. - Como vocês amarraram tudo com a música do Geraldo Azevedo?
A música do Geraldo veio assim: na verdade, eu precisava de um título para o filme. Eu não queria manter o título do livro do Carrano, O Canto dos Malditos. Por vários motivos, a gente achava o título muito ardido para uma película, para o cinema. E depois poderia parecer um pouco filme de terror. Além disso, o filme é inspirado no livro do Carrano, mas não é bem a história dele e a gente precisava fazer essa diferença. O próprio perfil do personagem, do Neto, não é exatamente o Carrano. Você sente as diferenças.

Antonio Martinelli Jr. - O livro é até muito mais forte.
O livro é mais forte. A gente teve que amenizar algumas coisas também. E aí começou o drama do título. Quando você busca título, começa a ler tudo. Peguei os CDs em casa, fiquei lendo letra de música. E encontrei Bicho de 7 Cabeças. A letra da música fala de uma história de amor de homem e mulher, mas no filme vira uma história de amor e ódio entre pai e filho. É uma releitura da música. Aí: Bicho de 7 Cabeças. Foi assim que nasceu. Convidamos o Zeca Baleiro para gravar e o André Abujamra coordenou.

Natalia Viana - Então, você foi convencendo as pessoas de pouquinho em pouquinho, já que não era ainda um nome tão conhecido...
Sim, acho que cinema é assim, a gente vai lá, apresenta... E era um projeto forte, quem lia percebia a força dele. A Cássia foi assim, de supetão, fez uma leitura de roteiro e falou: "Quero fazer". E ela sabia que era o meu primeiro filme. Foi corajosa, mergulhou de cabeça.

Andrea DiP - E quando a Itália entrou na história?
Entrou alguns meses antes da filmagem.

Andrea DiP - Já estava com o elenco montado?
O Othon Bastos e o Rodrigo já estavam no elenco, a Cássia não.

Foto: Marlene Bérgamo/Edd Viggiani


Antonio Martinelli Jr. - Aqui, você teve apoio de quem?
No Brasil são três produtoras de São Paulo: a Buriti Filmes, que é do Luiz e minha, a Gullane Filmes, que é dos irmãos Gullane, e a Dezenove Som e Imagens, da Sara Silveira, que tinha contato com um produtor italiano da Fabrica Cinema, uma instituição mantida pela Benetton que co-produz filmes de países do Terceiro Mundo de diretores estreantes, que também entrou no filme. Então encaixou direitinho. Além disso, aqui no Brasil tivemos patrocínio através das leis Rouanet e Audiovisual, sendo a Eletrobrás e a Petrobrás as principais investidoras.

Antonio Martinelli Jr. - Essa parte de captação é muito difícil mesmo?
É muito difícil mesmo! Ainda é hoje. Claro que a lei já está completando dez anos, melhorou muito. Mas ainda tem muita coisa pra mudar e também a gente tem de pensar que não dá para viver só da lei do incentivo. Qual o grande defeito dessa lei não só para o cinema, mas para a cultura em geral? Quem decide o que vai ser feito é o diretor de marketing. Como você faz uma política cinematográfica de um país a partir da cabeça de diretores de marketing que estão pensando apenas em vender seus próprios produtos? Eles não têm a consciência, mas são os verdadeiros ministros da cultura, e a cultura de um país é a memória de um país. Depois, o tempo passa, você olha pra trás, e quem eram aquelas pessoas daquela geração? Eles fizeram esses filmes, essas músicas, essas peças de teatro. A produção cultural está se tornando a cara dos diretores de marketing e isso é equivocado. Ainda bem que nesse final de ano estão acontecendo concursos públicos do Ministério da Cultura, da Agência Nacional de Cinema, da prefeitura de São Paulo, para vídeo, curta, média e longa. Claro que são projetos de longa de 800.000 a 1 milhão, baixo orçamento para diretor estreante. Mas aí a pessoa recebe o dinheiro do concurso e faz o filme.

Antonio Martinelli Jr. - Você acha que esse tipo de apoio está trazendo gente nova mesmo, iniciante...
Iniciante é difícil, como iniciante, sofri muito. O lado artístico rolou muito bem, mas com a grana foi péssimo: "Quem é você? Vou pôr dinheiro no primeiro filme da menina?" E esse filme, esse tema ardido: "Botar minha marca aqui? Deus me livre". Então ouvi muito "não". Por isso é importante haver esses concursos, o primeiro filme é complicadíssimo! O segundo também é muito difícil. Você realmente entrar no meio, ser respeitado...

Antonio Martinelli Jr. - Mas tem todo um pessoal de peso que vai lá e faz cinema e ganha dinheiro com cinema. Parece que as verbas não são bem distribuídas, você não sente isso?

Claro, por isso que esses concursos são importantes. Têm cotas para diretores estreantes, no mínimo três, quatro, tem de ter. Ou mesmo concursos só para diretor estreante. Isso é política cinematográfica. Não estava tendo isso no governo anterior, a gente só tinha a lei de incentivo que você mesmo tem de ir lá na empresa e correr atrás. Não tinha uma política e agora tem. Mas é pouco dinheiro para muita gente. Entendo que os cineastas mais velhos queiram garantir que o dinheiro do cinema continue chegando para eles. Claro, eles precisam continuar filmando, pelo amor de Deus, também quero continuar filmando com a idade deles. Mas acho que tem de ter uma visão mais democrática, pensando na renovação, sem dúvida nenhuma. É fundamental para a cinematografia do país essa reciclagem.

Débora Pivotto - O que você acha do Gil como ministro da Cultura?
Confesso que fiquei muito assustada quando ele foi nomeado. Bem assustada. Porque até dentro do PT já tinham pessoas muito inteiradas de quais eram as principais questões do cinema. E, quando entrou o Gil com a equipe dele de outro partido, deu um certo desânimo: "Ah, ter que começar a discutir tudo de novo"... Mas a equipe que ele colocou na área do audiovisual é competente como há muito tempo não tínhamos. Estou otimista, há muito tempo que não tinha um agito na área cinematográfica como agora. Todo mundo ou está desenvolvendo projeto, ou está com dinheiro para ajudar na produção, ou é filme de estreante que vai fazer com baixo orçamento, ou o dinheiro para a finalização, ou - o que é mais interessante - que está tendo hoje que não tinha antigamente, que é o dinheiro para a comercialização dos filmes, está tendo uma visão de fato de onde é necessário botar quanto de dinheiro, e o Ministério da Cultura está trabalhando assim. Fora uma grande briga que eles estão comprando, uma briga boa, que é começar a discussão da relação cinema e televisão. A Agência Nacional de Cinema vai passar a ser Agência Nacional de Cinema e Audiovisual. Tudo integrado. Essa conversa tem de ter. A gente não pode fugir disso.

Sofia Amaral - Por quê?
Porque cinema e televisão têm ligações fortes. Por exemplo, na época do lançamento de O Bicho, a gente tinha pouco dinheiro para marketing. E precisava anunciar, como qualquer produto: "Olha, está em cartaz, vai assistir". A gente comprou um comercial de quinze segundos no Jornal Nacional. Tudo bem, tem um certo impacto, a gente comprou. Mas O Bicho comprou anúncio da mesma forma que a Nike comprou. Pagamos a mesma coisa. Não pode, a televisão é uma concessão pública. Então, esse tipo de diálogo tem deter. Tem de ter a promoção do cinema brasileiro na televisão, ou tem de ter algum tipo de taxação porque eles passam filme americano e não vão passar o brasileiro, ou vão passar o brasileiro e vão comprar com preço de mercado e não com preço de favor. Então são conversas ardidas, complicadas e delicadas, mas que estão se iniciando. Isso, eu acredito, é a função do Ministério da Cultura.

Natalia Viana - Era essa mesmo a minha pergunta: além do dinheiro, o que mais precisa ser feito para o cinema?
Hoje, a gente vive um drama porque têm poucas salas de cinema no Brasil para o tamanho do Brasil. Só 9 por cento das cidades do Brasil têm salas de cinema. É muito pouco. No Estado de São Paulo, que é muito rico, a gente tem seiscentos municípios, só cem deles têm salas de cinema. Precisamos aumentar esse parque de salas de exibição, pensar também em trabalhos de exibição alternativa...

Antonio Martinelli Jr. - Essa questão da distribuição também é um problema, não é? Não poder ir assistir a um filme brasileiro em São Carlos...
Exatamente. Por que o que acontece provavelmente em São Carlos? Deve ter aquele esquema multiplex ligado às grandes distribuidoras americanas, que são as chamadas majors. As majors estão acostumadas a mandar um filme novo por semana e a sala de cinema vive disso, da novidade. Quando o cinema brasileiro tem a sorte de estar abraçado com uma major - como o Bicho, que a Columbia distribuiu -, aí consegue entrar em alguns cinemas multiplex. Sem a Columbia, se chego lá e peço para exibir meu filme, o cara diz: "Olha, seu filme é superlegal, super]bacana, eu gosto de você, mas não posso exibir seu filme porque as distribuidoras chegam aqui toda semana com um filme novo e, se minha sala está ocupada com o seu filme, elas vão dizer: "Então, você escolhe se quer exibir esse filme do teu amigo ou o meu. Se você exibir o meu, eu te dou o novo Titanic que está para sair, senão você fica sem Titanic". Então, é um problema econômico, pra você chegar em uma sala de cinema tem de ter um distribuidor que banque o seu filme. Então, o que é importante? Você priorizar distribuidoras nacionais, profissionais, focadas no cinema brasileiro. Hoje, a gente tem uma distribuidora nacional que é a Rio Filme, que é pública, mas está só distribuindo produções do Rio de Janeiro. Até então, ela distribuía Brasil. Você tem distribuidoras nacionais como a Lumière, a Mais Filmes, que pegam alguns filmes brasileiros, mas é pouco em relação à quantidade de filmes. Além disso, o filme médio americano chega aqui com um dinheiro para marketing absurdo! E a gente não tem como competir sem dinheiro para marketing, para a comercialização. Então, o cinema brasileiro tem de compreender que essa indústria funciona quando completa o ciclo: o público tem de saber que o filme está em cartaz para ir às salas de cinema. Se não acontecer isso, não tem nem como fazer propaganda boca a boca. O primeiro final de semana de um filme é vital, e aí ainda não tem boca a boca. Eu falei pra você que o filme é bom, aí você vai lá e vê. Mas como eu fui parar no cinema primeiro? Vi um outdoor, um comercial na televisão, escutei no rádio, sei lá. O marketing para o cinema hoje é um ponto importantíssimo.

Débora Pivotto - Você é a favor da contrapartida social que provocou tanta polêmica entre os cineastas?
Eu sou a favor, sim, da contrapartida social, acho que o cinema é dinheiro público e ele tem de chegar ao grande público, não só aos que têm grana para comprar o ingresso. Muitos cineastas falam que a contrapartida social é a própria obra. Eu acho que não, entendo a contrapartida social como a obra chegando ao grande público. E não só cinema brasileiro tem de chegar a esse público. Vejo o cinema como educação também. Tem de ter o circuito alternativo, a possibilidade de passar uma mostra de cinema alemão, se possível na periferia. Por que só quem estudou num colégio bacana é que vai poder assistir à mostra de cinema alemão? O Centro Cultural São Paulo volta e meia faz umas mostras bem interessantes e tem público.

Natalia Viana - O cinema brasileiro hoje está buscando redescobrir o Brasil, como fez seu pai com Iracema?
Hoje, o cinema brasileiro está plural nos gêneros. A gente não tem só o cinema denúncia, como o Bicho, ou aquele que fala da realidade social, como Cidade de Deus, Carandiru. Também tem, por exemplo, Lisbela e o Prisioneiro, que é um filme maravilhoso, lindo. E por que o cinema brasileiro está fazendo sucesso? Porque é muito gostoso a gente ver nesse espaço sagrado que é a tela do cinema a nossa cultura, a nossa língua, não tem de ler legenda, você observa melhor o trabalho dos atores, tem orgulho, se identifica... E esse processo da tela de cinema como espelho da vida, isso é tão forte, tem um impacto tão grande. E também tem a responsabilidade do cineasta, do cinema autoral. Quantas vezes vocês não ouviram alguém fala "tal filme mudou a minha vida"? Porque o cinema tem esse poder. É através dele que o brasileiro pode se ver na tela, ver a realidade que não aparece nas novelas ou no telejornal, e nosso público está gostando dessa possibilidade. Por isso, tanto impacto de filmes como Cidade de Deus e Carandiru.

Antonio Martinelli Jr. - Para você, quando começou essa retomada do cinema brasileiro?
Carlota Joaquina é um marco da retomada, sem dúvida nenhuma. Por mérito da Carla Camurati. Ela foi muito corajosa, fez o filme em uma época em que ainda não havia as leis de incentivo. Pôs as cópias debaixo do braço e viajou o Brasil inteiro para exibir esse filme. E foi superimportante esse boca a boca de que tem vida inteligente no cinema. Agora, é claro que a retomada é uma retomada de uma época em que não se fazia nada. Não se fazia nada por quê? Por que não tinha cineasta querendo fazer filme? Não. Não tinha era dinheiro. Agora que tem dinheiro, e está sendo bem distribuído, naturalmente começam a aparecer projetos de impacto também. E isso precisa continuar. Porque, cada vez que acontece uma interrupção como essa que antecedeu o que chamamos de retomada, depois tem de começar tudo outra vez. E lá se vão de novo dois, três anos para formar profissionais, descobrir como a máquina funciona. Agora, por exemplo, estamos vivendo uma etapa que é nova: aprendendo como lançar um filme brasileiro nas salas de cinema. Não é a mesma coisa que lançar um filme americano, é outro perfil, são outras características. É diferente. A gente aprende e também quebra a cara. Por exemplo, o Casseta e Planeta teve dinheiro, tem a Globo, mídia na televisão, e o filme foi muito abaixo da expectativa, do que foi investido. Não tem fórmula. O que também é muito legal, estamos vivendo essa descoberta.

Antonio Martinelli Jr. - O que você viu de muito bom nessa fase de retomada?
Eu adoro Beto Brant. Tenho muito orgulho de ver o cinema dele. De saber que é um cara que chegou com uma linguagem diferente, que faz um trabalho de ator que é impressionante. Ele tem sangue nas veias, sabe? Também gosto muito do filme Madame Satã, o primeiro longa do Karim Aïnouz, acho um filme muito ousado, com um trabalho lindo do Lázaro Ramos. Tenho a sensação de estar chegando no cinema junto com pessoas que admiro, como o Karim, que eu nem sabia quem era antes do filme. Também adorei Cidade de Deus por vários motivos: o filme é forte, o trabalho com o elenco, como ele foi formado, não tem atores conhecidos. E o filme é bom e deu certo, independentemente disso. Porque muitos falam: é só com ator global que vai dar certo. Não, não é. Porque tem muito filme com ator global que foi um fracasso. Quando me perguntam do Rodrigo Santoro, tenho de dizer que eu já sabia que ter um ator global no elenco não significa sucesso. O filme tem de ser bom, se o filme é bom, a coisa acontece. E acho que Cidade de Deus é mais forte ainda porque depois veio a série da Globo, Cidade dos Homens, que cinco anos atrás nunca se imaginaria na televisão. Uma série tão ousada, com atores desconhecidos, com esse tema, a linguagem. E fez sucesso. É o cinema influenciando a televisão, melhorando a televisão, porque o cinema pode ser mais ousado.

Antonio Martinelli Jr. - Quem são suas maiores influências como cineasta?
Um filme que me causou muito impacto é A Hora da Estrela, da Suzana Amaral. Quando vi esse filme, fiquei impressionada com o respeito, a personagem, a delicadeza, a atuação dos atores. Para mim, foi um marco. É o cinema que gosto, admiro, que me dá prazer. Também gosto dos filmes do Ettore Scola, de Fellini. Por outro lado, Guerra nas Estrelas também me influenciou, assisti com dez anos pela primeira vez e mudou a minha vida. Enfim, também tem influências que não são do cinema: a música que você está ouvindo, o lugar em que mora, os amigos que tem, os livros que leu, o salão de dança que freqüentou.

Sofia Amaral - Você dirigiu os atores também no Bicho de 7 Cabeças?
Tive um preparador de elenco antes do set, o Sérgio Penna, que foi importantíssimo. Eu estava muito preocupada justamente com a sutileza da interpretação, porque é muito fácil cair na caricatura quando se fala no universo da loucura. E isso era o oposto do discurso do filme. Eu queria justamente humanizar, mostrar que faz parte do nosso dia-a-dia, está do nosso lado o tempo inteiro, a gente tem de saber conviver com isso, respeitar o diferente. Então, o trabalho do Penna teve esse respeito e muita poesia.

Sofia Amaral - Todos são atores?
Todos são atores. O elenco de ponta a ponta são atores, todos contratados. Não é documentário.

Natalia Viana - Uma vez lançado, o filme superou muito a expectativa?
Claro, não é? Eu olho para trás e falo: não acredito que deu certo, aconteceu e, dessa forma, foi tão bonito. Mas isso foi fruto de trabalho de muita gente. Não aconteceu do nada, ninguém ficou quieto, esperando o telefone tocar. Mesmo a Columbia não aconteceu do nada, a Columbia não ligou para a gente. Íamos lá desde a fase do roteiro. E eles diziam: "Legal, mas volta aqui depois" Daí, o filme está pronto: "Ah, legal, mais volta depois". Daí, vai pra festival e ganha prêmio: "Mas volta aqui depois". Eu falei: "Nossa!" Não tinha fim. Eles foram entrar já com a data de lançamento pré-marcada. Foi tudo muito esforço, muito trabalho, dedicação.

Débora Pivotto - E o próximo filme? Já tem?
Tenho, tenho o próximo longa de ficção. O Luiz e eu ganhamos um concurso para o desenvolvimento de um projeto. Ainda está na fase do argumento, não tem o roteiro. Agora vamos poder parar uns dois, três meses, e fazer a pesquisa. Elaborar o roteiro e já iniciar a fase de orçamento e desenvolvimento do projeto. Se der tudo certo, vamos filmar em 2005 para sair em 2006.

Natalia Viana - E o argumento, você vai contar?
Claro, claro. O filme se chama União Fraterna, ainda um título provisório, e se passa num salão de baile da terceira idade.

Sofia Amaral - O União Fraterna, da Lapa?
Não necessariamente lá, mais é inspirado. Exatamente. Vocês conhecem? Mas terceira idade. A história acontece em uma única noite nesses bailes. É nesse mundo que vou estar mergulhando.

Antonio Martinelli Jr. - E teatro? Ainda pode rolar de novo?
Eu fiz um pouquinho só de teatro, mas gosto muito. Quando você vê um teatro bom, é uma experiência que marca a vida. Agora fui convidada para dirigir uma peça com a Maria Luíza Mendonça. Ainda estamos iniciando. Mas estou bem animada com a possibilidade de fazer teatro.



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