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A morte misteriosa de Vieira de Mello
Texto e fotos: Giuseppe Bizzarri


Rio de Janeiro – Gilda Vieira de Mello é uma lúcida e enérgica brasileira de 86 anos. Gilda não acredita mais em ninguém, nem em Deus: seu filho, Sérgio Vieira de Mello, foi assassinado em Bagdá no dia 19 de agosto de 2003, junto com 21 funcionários da ONU era o alto comissário para os Diretos Humanos das Nações Unidas, mas foi enviado a Bagdá como representante especial de Kofi Annan, o secretário-geral, para preparar o processo de transição política após a ocupação americana do Iraque.

"Era mesmo Sérgio quem eles queriam atingir, a bomba explodiu exatamente na frente do escritório dele", diz Carolina Larriera, funcionária da ONU em Bagdá e companheira de Mello havia anos. Iam se casar e Sérgio provavelmente seria o próximo secretário-geral em Nova York. Um dos muitos mistérios que envolvem o episódio é que até hoje ninguém reivindicou essa ação terrorista, mas o atentado deu origem ao impasse inicial quanto ao papel da ONU na busca de uma solução para a situação no Iraque.

Foi a Casa Branca – como escreveu Sandro Cruz (“Qui a Tué Sergio Vieira de Mello”, Réseau Voltaire, 20/11/2003), diretor da agência IPI e da editora Timéli, de Genebra – que solicitou às Nações Unidas que Vieira de Mello fosse enviado a Bagdá; e isso confirmaria a tese de que foi assassinado por seguidores de Saddam Hussein ou da Al Qaeda. Mas, segundo Carolina Larriera, que foi uma das últimas pessoas a falar com Vieira de Mello, ele ficou com vida embaixo dos escombros por cerca de três horas sem ser socorrido. O conselheiro militar de Vieira de Mello, Jeff Davie, afirmou ter falado com ele durante sessenta a noventa minutos naquela situação junto com Ghassan Salamé (ex-ministro da Cultura no Líbano e conselheiro político de Vieira de Mello no Iraque), Carolina e Gabriel Pichon. O guarda-costas de Vieira de Mello. As declarações não conferem com as da certidão de óbito emitida pela ONU nem com a prestada pelo Exército americano a Gilda Vieira de Mello, nas quais se afirma que a morte aconteceu alguns minutos depois do atentado. As Nações Unidas afastaram imediatamente Carolina de Bagdá e recusaram, segundo ela, suas insistentes ofertas de cooperação nas investigações que sempre segundo Carolina, foram feitas rapidamente e sem acrescentar informações novas. Nesta entrevista com a mãe e a noiva de Vieira de Mello, ambas quebrando um longo período de silêncio, há elementos inquietantes sobre o atentado que matou o diplomata brasileiro.


A senhora está surpresa com os escândalos que estão acontecendo na ONU?
Carolina Larriera - Hoje não tenho nenhuma surpresa.

Não acha impossível que Kofi Annan não soubesse das fraudes em que o filho também ficou envolvido?
Carolina Larriera - Qualquer que seja a situação ou hipótese, se impõe uma investigação profunda para limpar a imagem da organização e, ao mesmo tempo, deslindar o atentado de Bagdá, para que não seja confundido com outros escândalos das Nações Unidas. Em 19 de agosto, Sérgio morreu e, em 19 de novembro do ano passado, numa votação histórica no Palácio de Vidro (como é chamado o prédio da ONU) em Nova York, os funcionários expressaram desconfiança em Kofi Annan. A Cabala poderia encontrar algumas coincidências numéricas com as duas datas, mas são ainda muito obscuros os mistérios do maior atentado da história da organização e de muitas outras coisas.

A jornalista Barbara Crossette, ex-chefe do New York Times na ONU, declarou ao jornal O Globo que as acusações contra Kofi Annan seriam parte de uma campanha contra a organização, conduzida pela direita republicana americana. A senhora concorda com isso?
Carolina Larriera - Pela natureza das acusações, diria que não. Crossette então poderia dizer, segundo esse raciocínio, que também o atentado contra a ONU em Bagdá seria uma manobra americana republicana. O mal-estar nas Nações Unidas começou depois da intervenção americana no Iraque. Os ataques são contra pessoas e não contra a organização. A ONU já passou por outros escândalos como aquele do avião abatido na África (6/4/1994), quando morreram assassinados os presidentes da Ruanda e Burundi durante o governo Clinton, mas nada aconteceu e ninguém falou em reformar a ONU, apesar de já se falar nessas reformas havia muito tempo. Estranho que isso esteja acontecendo durante a invasão do Iraque.

Segundo o jornal americano The Washington Post o ex-diretor executivo do programa da ONU Oil for Food Programme, Benon Sevan, teria sido acusado de haver recebido propinas de Saddam Hussein para vender petróleo iraquiano de 1997 a 2002. Sérgio Vieira de Mello e a sua equipe chegaram em 2003, vocês percebiam algo de estranho?
Carolina Larriera - Eram duas equipes totalmente independentes e distintas. Sevan tinha poder de decisão e não era residente no Iraque, vivia entre Nova York e Bagdá. O cargo de Sevan comportava contínuos contatos com fornecedores e Sérgio não era um contador, mas um negociador político na transição do governo iraquiano. A gente se cumprimentava formalmente, mas foi o próprio Sevan quem procurei para pedir ajuda na tentativa de resgatar Sérgio dos escombros.

Como assim?
Carolina Larriera - Pedi inutilmente ajuda a várias pessoas. Logo depois de falar com Sérgio nos escombros, procurei a mais alta autoridade da ONU que não estava ferida e que era o próprio Sevan, mas ele ficou impassível diante das minhas súplicas.

Sérgio Vieira de Mello podia salvar-se?
Carolina Larriera - Perto dele estava um outro ferido em condições piores, o nome dele é Gil Loescher, oficial da UNHCR - Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados que sobreviveu e foi se recuperando rapidamente. Por que Sérgio não foi socorrido? Ele se encontrava em condições melhores, estava muito lúcido, falava comigo em espanhol, em francês com o guarda-costas Gabriel Pichon e em inglês com um militar. Sérgio não estava ferido gravemente, pelo menos assim me parecia, ele me reconhecia.

Segundo a imprensa, Sérgio não queria ser protegido por militares americanos.
Carolina Larriera - Esta é a última foto de Sérgio no Iraque (mostra uma foto na qual se vê Vieira de Mello durante um treinamento, três dias antes do atentado, com um fuzil semi-automático, ao lado de um agente de segurança das Nações Unidas). Ainda acredita que ele não estivesse preocupado com a própria segurança? Sérgio tinha medo e não confiava em quem estava perto. As instruções de Nova York eram precisas, uma grande presença militar americana em volta do edifício da ONU não era recomendável, porque teria sido considerada pelos iraquianos uma forma de colaboração com as forças de ocupação. De fato, tínhamos só um pelotão de soldados.

Quando tiveram início os temores de Sérgio?
Carolina Larriera - Depois do atentado na embaixada da Jordânia ele estava muito preocupado. Dizia que todos podiam ser alvo de atentado terrorista. Além de tudo, já havia sofrido um atentado, mas a notícia só foi divulgada após sua morte, no jornal Al-Mustaqbal e também na BBC em uma entrevista com Fouad Hotait, editor desse jornal libanês. Segundo Hotait, na época Sérgio tinha pedido aos repórteres para não divulgarem a notícia. Estava viajando para Bagdá e tinha deixado a Arábia Saudita. Aconteceu no dia 5 de agosto de 2003. Lançaram contra o avião um foguete terra-ar e ele se salvou graças à habilidade do piloto.

Como funcionava a equipe de Sérgio?
Carolina Larriera - Sérgio, quando era chamado para operar no campo, organizava rapidamente um grupo de vinte pessoas. O nosso trabalho era sempre delicado (entre as missões de Vieira de Mello, a mais importante foi a intervenção da ONU no Timor Leste), e por isso a preocupação com a segurança era constante. Se pudesse, ele teria até contratado os contractors (agentes de segurança particulares existentes aos milhares no Iraque) para defender a ONU. A situação em Bagdá estava se precipitando e a ONU não tinha meios para se defender. No Timor havia 10.000 capacetes-azuis. No Iraque, somente um grupo civil sem nenhuma proteção. Segundo a Convenção de Genebra, a proteção da equipe da ONU estava nas mãos das forças de ocupação, nesse caso as americanas. Mas, ao mesmo tempo, havia um documento da ONU que dava instruções para não pedir a presença dos militares próximo ao edifício.

Sérgio queria ir para Bagdá?
Carolina Larriera - Não. Ele não queria deixar o seu lugar de direção na UNHCHR (United Nations High Commissioner for Human Rights). Foi colocado contra a parede. Ele soube que era um dos candidatos através dos jornais. Todos eram contra: Sérgio sabia que era uma missão muito arriscada e na qual não acreditava. O Iraque entrou nas nossas vidas quando tínhamos outros planos: ele queria escrever e ter um filho. Planejamos a nossa vida no Brasil ele era profundamente brasileiro e comparava o sentimento de frustração dos iraquianos frente à ocupação americana com aquilo que teriam experimentado os brasileiros se tivessem encontrado tanques invasores em Copacabana.

Dona Gilda Vieira de Mello, qual sua opinião sobre o atentado?
Gilda Vieira de Mello - Disseram que o explosivo estava num caminhão, mas como é possível ninguém ter visto entrar esse veiculo fantasma dentro da área? Alguém deve ter notado esse caminhão se aproximar, mas isso não consta das atas das investigações. O explosivo, na realidade, poderia ter sido colocado em qualquer lugar: num caminhão, numa bicicleta ou numa mala, Algumas testemunhas disseram que era numa betoneira estacionada embaixo da janela do escritório dele.

Carolina Lariera - As Nações Unidas fizeram dois laudos, dos quais o segundo é quase secreto. O primeiro é muito superficial, não faz nenhuma referência às pessoas ouvidas e repete informações já conhecidas. No documento afirma-se que o atentado foi feito com um caminhão-bomba. Mas alguns especialistas disseram-me que a explosão foi do tipo "vertical" e não "horizontal" (como aconteceria com uma bomba). Falei com Isabel Noël, uma sobrevivente que estava no primeiro andar, onde explodiu a bomba. Ela me contou algo que ficou na minha cabeça até hoje. Ela e uma iraquiana, quando estavam trabalhando, perceberam um golpe muito forte no edifício, Noël perguntou surpresa o que era e a iraquiana respondeu: "É um caminhão sem o motorista". Após aquele momento, não se lembra de mais nada.

Existem outros inquéritos?
Carolina Larriera - Varias famílias, como nós, estão procurando abrir uma investigação independente que possa apurar o que aconteceu. Na França foi iniciada uma ação jurídica pelos advogados da italiana Laura Dolci-Kanaan, viúva de uma das vítimas.

O que aconteceu um dia depois da explosão?
Carolina Larriera - Voltei ao nosso apartamento e um funcionário da ONU disse que eu tinha de me afastar imediatamente de Bagdá, teria trinta minutos para pegar os meus objetos pessoais. Todas as nossas coisas foram encaixotadas e tomadas pela ONU. Até hoje não as recebi de volta. Eu disse que queria acompanhar o corpo de Sérgio no avião que o levaria até Genebra, mas me disseram que não era possível porque era um veículo de transporte. Insisti e no final aceitaram. Mas, na realidade, me enganaram, porque de Bagdá, sem passaporte, me colocaram num avião direto para Aman, depois Paris, e enfim Buenos Aires. Não cheguei a tempo de assistir à cerimonia no Brasil, onde prestaram honras de Estado a Sérgio.

Com objetos pessoais, documentos e todo o resto, o que aconteceu?
Carolina Larriera - Sumiu tudo, seja de nossos apartamentos em Bagdá ou em Genebra, incluindo o laptop de Sérgio. As chaves do apartamento na Suíça foram entregues à sua ex-esposa. O que ficou comigo são as nossas alianças de noivado, a dele recebi de um homem na morgue de Bagdá.

Depois o que ocorreu?
Carolina Larriera - Tentei falar com os investigadores da ONU, porque o FBI estava me procurando (os Estados Unidos consideram o Iraque como parte do seu território, então a jurisdição de investigação foi o FBI e não a CIA). Os investigadores me seguiram em Bagdá, Nova York, Genebra e conseguiram localizar-me em Buenos Aires.

O que eles queriam saber?
Carolina Larriera - Acho que queriam confirmar algo sobre o que eu poderia saber. Do jeito como insistiam, intuí que tinha algo de estranho.

Por que a senhora não queria falar com o FBI?
Carolina Larriera - Sou uma funcionária da ONU, sou leal e sabia que as Nações Unidas estavam investigando.

A senhora entrou em contato com os investigadores da ONU?
Carolina Larriera - Tentei várias vezes, mas nunca recebi uma resposta deles. Enviei até um e-mail ao diretor das investigações, Marti Ahtisaari. Escrevi que estava totalmente à disposição para contribuir no trabalho da investigação, mas ninguém me respondeu.

Sérgio Vieira de Mello era amigo de Kofi Annan?
Carolina Larriera - Não eram amigos, tinham uma relação amigável, mas sempre num plano formal. Sérgio sempre chamou Annan “SG”, secretário-geral .

Dona Gilda, por que seu filho foi sepultado na Suíça?
Gilda Vieira de Mello - Eu não sabia de nada e foi feito tudo sem o meu consentimento. Um jornal escreveu que foi feito um conselho de família para decidir, mas não é verdade. Sérgio era do Rio de Janeiro e pertencia a uma antiga família brasileira. Hoje não posso nem visitar o túmulo dele, foi assim que resolveu sua ex-esposa, apesar de meu filho ser separado legalmente e estava para assinar o divórcio. Havia quinze anos que não viviam juntos. O corpo dele foi roubado. Sepultaram-no no Cemitério dos Reis, mas ele não teria gostado, era uma pessoa muito simples.

A senhora recebeu outra certidão de óbito de seu filho?
Gilda Ribeiro de Mello - Há menos de um mês que o Itamaraty me enviou uma certidão feita pelo embaixador brasileiro em Aman. As outras que recebi das Nações Unidas eram somente xerox. Estão incompletas e, além de tudo, estão escritas coisas erradas, por exemplo, que Sérgio morreu imediatamente, e que não era separado da ex-esposa. Mas sobretudo se presume que não foi feita autópsia, quando em caso de homicídio essa é uma prática internacionalmente obrigatória. Na primeira certidão faltava até uma página e na segunda não tinha o carimbo das Nações Unidas. Todos os documentos foram examinados por quatro advogados brasileiros e todos afirmaram que não são válidos. Antes de viajar para o Iraque, Sérgio tinha assinado um documento na ONU, ignorado pelos superiores dele, com o qual nomeava a irmã dele, minha filha, responsável por tudo no caso de sua morte. Infelizmente, a ONU resolveu ter como referência somente a ex-mulher dele, que não parece estar muito interessada em saber como foi a morte de Sérgio.

Como Sérgio via os Estados Unidos?
Carolina Larriera - Sérgio não tinha preconceito com os Estados Unidos, mas prestava muita atenção a eles, estava preocupado com aquilo que era "a nova restauração mundial".

Podia-se considerar Sérgio um homem de esquerda?
Carolina Larriera - Basicamente, sim, mas eu diria, sobretudo um humanista. Em 1968 estudou filosofia na Sorbonne e ficou envolvido com o "Maio Francês", mas uma coisa ele tinha entendido: não queria cometer os mesmos erros dos outros. Sabia que com os punhos fechados não teria alcançado os objetivos dele. Não gostava de brigar. Era um diplomata ativo e não estático.

Tinha inimigos?
Carolina Larriera - Sérgio engolia muitos sapos, os digeria e ia para a frente. Coisa que outra pessoa nunca teria feito. Ele olhava as situações numa outra perspectiva. Tentava aproximar-se gradualmente das causas e por isso era um grande negociador. Não brigava nem com os piores inimigos.

Sérgio Vieira de Mello era um reformador dentro das Nações Unidas?
Carolina Larriera - Sérgio já tinha mudado muitas coisas dentro da UNHCHR. Tinha encaminhado um plano para modernizar a grande máquina dos direitos humanos. Estava modificando a estrutura para deixá-la mais dinâmica e capaz de operar mais eficazmente. Com certeza, se chegasse a secretário-geral, teria mudado algumas coisas. Uma vez ele me disse que ainda tinha algumas esperanças no segundo mandato do secretário-geral (Kofi Annan foi eleito pela segunda vez em 2002), que teria mais uma oportunidade para alcançar aquilo que não conseguiu no primeiro mandato com respeito à urgência de atualizar a estrutura da ONU.

A senhora está escrevendo algo sobre a vida de Sérgio de Mello?
Carolina Larriera - A professora Samantha Power, da Harvard University, e ganhadora do Prêmio Pulitzer, me contatou para colaborar na elaboração de uma biografia verdadeira sobre a vida de Sérgio.



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