Nosso entrevistado é um homem gentil e de aspecto grave,
daquele tipo de repórter investigativo que não se
faz mais. Durante três horas de conversa, ficou claro porque
o jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto,
54 anos, vive há quase duas décadas sob a pressão
de vários processos judiciais. O motivo? Escrever em seu
Jornal Pessoal, formato tablóide, com tiragem de 2 mil exemplares,
o que ninguém mais tem coragem de publicar sobre os principais
conflitos da região amazônica, como a grilagem de terra,
a exploração ilegal de madeira e a conivência
do Judiciário com esses delitos. “ Antes o grileiro
tinha o seu parceiro no 38. Hoje os grileiros descobriram que o
Judiciário, por desconhecimento, insensibilidade, omissão
ou conivência, é o principal parceiro do grileiro na
Amazônia”.
Ganhador de quatro prêmios Esso, dois da Fenaj (Federação
Nacional dos Jornalistas Profissionais), e o maior prêmio
jornalístico da Itália (o prêmio Colombe d ’
Oro per la Pace), percorreu, ao longo de 38 anos de profissão,
diversas redações como do Estadão, Veja e Isto
É, e publicações alternativas, como dos extintos
jornais Opinião e Movimento. Tem 10 livros publicados, todos
sobre a Amazônia. Nesse momento, corre o risco de ser condenado
e ir para a cadeia. “Acho interessante que durante o regime
militar, fui jornalista por 19 anos e só fui processado uma
vez. Desde 1992, já foram 15 processos, além de mais
um na justiça eleitoral. Em pleno regime democrático,
sinto-me mais perseguido do que na ditadura.”
Belém, 27 de julho de 2004.
Entrevistadores:
Rogério Almeida, Guilherme Carvalho
e Nanani Albino. Fotos:
Nanani Albino.
Rogério
Almeida - Como foi o início de sua carreira?
Comecei no jornalismo em 1966, com 16 anos, em
A Província
do Pará. Aí fui
pro Rio de Janeiro,
onde trabalhei no
Correio da Manhã. Voltei então
para Belém, onde fiquei até janeiro de 1969. Quando
foi baixado o AI-5, eu era editor de
A Província do Pará,
depois de ter sido seu secretário de redação
por um período. Resolvi ir para São Paulo porque não
havia mais condição de trabalho em Belém. Trabalhei
no
Diário de S. Paulo e no
Diário da
Noite, que faziam parte dos
Diários Associados,
e participei da edição especial da revista
Realidade
sobre a Amazônia, que ganhou o Prêmio Esso de Reportagem
de 1971. Naquela época a edição foi de 450
mil exemplares. Uma edição de 400 páginas,
toda ela sobre a Amazônia. Uma edição antológica.
Trabalhei também na
Rádio Eldorado do grupo
Mesquita, do
Estadão. Depois voltei para Belém,
onde fui correspondente do
Estadão e da
Veja.
Guilherme Carvalho –
Quando foi esse
regresso?
Eu ia e voltava sempre. Nesse período era muito
inconstante. Voltei mesmo em fim de 1971. Fiquei aqui até
o fim de 1972, daí voltei para São Paulo, para o jornal
O Estado de S. Paulo , onde fiquei 17 anos, de 1971 a 1988.
Voltei para Belém no fim 1974,quando fiquei como correspondente.
Trabalhei no
Opinião, para mim, o maior jornal alternativo
daquela época. Trabalhei ainda no
Movimento e no
EX. Todas eram publicações alternativas.
Em seguida, trabalhei no
O Liberal (jornal de maior circulação
do Norte do país) e na T
V Liberal. Trabalhei na
Isto É e no
Jornal da República.
Aí, em 1987, comecei a fazer o
Jornal Pessoal. Antes
havia feito o
Informe Amazônico, que foi o embrião
do
Jornal Pessoal. Foram 12 números do
Informe
Amazônico. Antes, em 1975, havia feito o
Bandeira
3 , um tablóide semanal de 18 páginas.
Nanani Albino – Antes de entrar no Jornal Pessoal,
gostaria de voltar um pouco na sua trajetória. A Amazônia
é rica em história de intensa migração.
Gostaria de saber a história de sua família. Qual
é o seu movimento familiar?
Minha família é totalmente migratória.
Meu avô por parte de mãe é português.
Meu avô por parte de pai veio da seca do Nordeste para o Acre,
depois para o Pará. Por parte de mãe português
e acreano e cearense e acreano por parte de pai.
Nanani Albino – Sempre em Belém ou interior?
Eu nasci em Santarém e minha mãe também.
Meu pai e minha mãe se juntaram lá. Depois viemos
para cá.
Nanani Albino – O que fazia o seu pai?
Meu pai era precoce. Começou a trabalhar no Nordeste
com meu avô, que era comerciante, com oito anos, carregava
semente de algodão. Meu avô voltou para a Amazônia
e meu pai dava aula de inglês e era fotógrafo. Foi
o primeiro locutor esportivo em Santarém, com 14 anos. Fundou
o jornal
Baixo Amazonas. Depois foi presidente da Congregação
Mariana e secretário do prefeito da cidade. Como o prefeito
era muito inibido, era ele quem fazia os discursos, o que lhe rendeu
o apelido de “papagaio do prefeito”. Iniciou a primeira
campanha para a industrialização da juta, fibra que
havia sido trazida pelos japoneses para o Baixo Amazonas com sementes
da Ásia. Como era muito audacioso, escreveu para Getúlio
Vargas e conseguiu uma audiência com o presidente, no Palácio
do Catete, Rio no Janeiro, na época sede do governo. O presidente
liberou a importação das máquinas para a industrialização
da juta. As máquinas vieram da Inglaterra e meu pai começou
a montar a fábrica. Em 1954, ele foi deputado estadual pelo
PTB, com a quinta maior votação do Estado. A família
o acompanhou para Belém quando assumiu o cargo. Ele fez carreira
como deputado pelo PTB, daí integrou a comissão de
planejamento da SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização
Econômica da Amazônia).
Rogério Almeida - O embrião da SUDAM?
Não era o embrião do SUDAM. A SPVEA foi criada
em 1953, por Vargas e estava ligada estava ligada à visão
da substituição de importações; já
a Sudam vinha executar uma política colonial, baseada no
fornecimento de matérias primas e insumos básicos,
começando com a pecuária de corte. Ela deveria continuar,
mas desapareceu em 1966, no regime militar. Bem, meu pai trabalhou
na SPVEA, depois foi prefeito de Santarém, pelo MDB (atual
PMDB).
Rogério Almeida - Então o senhor não
teve problemas para estudar, já que era de classe média?
A nossa vida foi um pouco incerta. Depois que meu avô
perdeu tudo com a seca meu pai ficou pobre e eu estudava em escola
pública. Num dado momento, meu pai começou a enriquecer
como empresário e comerciante. Chegou a ter três fábricas,
duas delas de fibras, a Tecejuta, em Santarém, e a Tecefátima,
no município de Capanema, e a Cerâmica Marajó.
Nessa época éramos de classe média alta. Pude
ter um bom estudo. Meu maior patrimônio era uma conta corrente
em aberto na Livraria Martins. Podia tirar o que quisesse.
Guilherme Carvalho - Quantos irmãos?
Somos sete. Seis homens e uma mulher.
Guilherme Carvalho –
Como foi o episódio
que ocorreu com teu pai durante a ditadura?
Naquele tempo, o Pará só tinha 83 municípios.
Dos 83, o MDB, de oposição, só elegeu dois:
em Santa Isabel, um pequeno município, e Santarém,
o segundo mais importante município do Estado. Meu pai tinha
conseguido uma vitória grande sobre a Arena, com uma margem
de 65% dos votos. Ele já havia sido “garfado”
duas vezes no “mapismo” (a fraude que era praticada
quando se fechava a apuração dos votos). Então,
desde o início ele ficou atravessado. A Arena tinha o controle
político e ele tentou uma composição com o
governador Alacid Nunes. Sob o pretexto de irregularidades nas contas
dele, meu pai foi afastado pela Câmara Municipal, onde era
minoria. Tinha apenas três representantes do total de nove.
Afastado, a Câmara resolveu pela sua cassação.
Ele entrou na Justiça no município de Óbidos,
o juiz era Christo Alves, que veio a ser desembargador depois. Ele
concedeu mandado de segurança para a reintegração
do meu pai no cargo. No dia da execução do mandado
de segurança, Alacid enviou uma tropa com 150 homens da PM
com ordem de não permitir a posse. Papai teve apoio do deputado
mais votado da região, o brigadeiro Haroldo Veloso, que tinha
sido líder da revoltas de Jacareacanga e Aragarças
contra Juscelino kubistchek e era da ala radical da Aeronáutica,
embora fosse da Arena. Ele disse que ia liderar a passeata para
papai reassumir a prefeitura. Quando a passeata saiu, às
cinco horas da tarde, para a prefeitura, a PM começou a atirar.
Morreram três pessoas. Papai teve que fugir e recebeu a cobertura
do brigadeiro Paulo Vítor, que se deslocou para lá
com tropas, em avião da Aeronáutica. Isso aconteceu
em 1968. Ele conseguiu fugir e depois teve o mandato cassado. Talvez
seja o único político cassado duas vezes. Primeiro
o mandato e depois os direitos políticos. E Santarém
foi declarada área de Segurança Nacional, não
pôde mais eleger seu prefeito.
Rogério
Almeida – Como foi a sua saída para o Sudeste. Foi
convite de algum meio de comunicação de lá
ou uma iniciativa sua?
Vi que aqui não dava mais. A imprensa estava acomodada.
Fui primeiro para o Rio de Janeiro. Parte de minha família
morava lá e mesmo sem contato nenhum consegui trabalhar no
Correio da Manhã, na última fase de D. Niomar.
A gente já começava a ver o início da decadência
do jornal que havia sido o mais importante da República.
Por problema de família, voltei para Belém. Fiquei
indo e vindo um certo período. Até que fiquei em Belém
por mais tempo e participei de uma série de transformações
em
A Província do Pará. A primeira página
dessa época era só de telegramas nacionais e internacionais.
Fizemos chamadas de primeira página, introduzimos suplementos.
Aí veio o AI- 5. Li a íntegra na redação,
fim de noite. Vi que não tinha como ficar mais em Belém.
Rogério Almeida - Do Pará, quem assinou foi o Jarbas
Passarinho?
Passarinho era o ministro do Pará, autor da célebre
frase sobre “jogar fora os escrúpulos da consciência”
para poder assinar o AI-5. É a frase mais infeliz de Passarinho.
Vi que não tinha chance, que os donos de jornais iriam aceitar
a censura, determinada por via telefônica, como aceitaram
mais tarde. No dia 2 de janeiro de 1969, fui para São Paulo
e ainda peguei a decadência dos
Diários Associados,
do
Diário de S. Paulo, que durante um certo período
foi um dos mais importantes de São Paulo. Chegamos a criar
ainda um suplemento de vanguarda aos domingos. Nesse período
o que me interessava era o cosmopolitismo, sociologia cultural e
sociologia política. Meu sonho era passar um tempo fora,
sair do Brasil. Estava fazendo mestrado em política na USP,
com Oliveiros Ferreira. Minha tese era mostrar que às vezes
o pensamento conservador pode ser mais modernizador do que o pensamento
de esquerda e analisava os intelectuais das décadas de 20
e 30 no Brasil. Fui entrevistar o presidente da Associação
dos Empresários da Amazônia, na antiga sede da Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, que
era no Viaduto Maria Paula, o Eduardo Celestino Ribeiro, bandeirante
típico, dono da Cetenco Engenharia. No meio da entrevista,
ele começou a falar da Amazônia que bandeirantes como
ele estavam criando. Na medida em que ele falava (já havia
escrito dois livros sobre isso), EU entrava em pânico. Dizia
para mim mesmo: se ele conseguir fazer isso, a minha Amazônia,
na qual nasci e havia vivido a maior parte da minha vida, desaparece.
Era o auge da pecuária de corte. Decidi voltar para a Amazônia.
Nanani Albino - Era a contradição de sua tese?
Não é contradição. É
aplicação histórica. Aquelas tendências
modernizadoras dos anos 20 e 30 se tornaram conservadoras. Avalio
que há uma diferença entre conservadorismo e reacionarismo.
Meu marco teórico na época era Karl Manheimm. Eu dizia
que às vezes a reação contra a mudança
exerce um papel muito importante de oxigenação das
idéias (daí a importância do pluralismo e da
tolerância). Isso ocorreu com o fim do feudalismo na Europa.
O pensamento dos nobres da oligarquia fez-se mágico. Assim,
surgiu uma literatura fantástica, muito rica. Eles escapavam
da realidade para o mundo da imaginação. Isso é
bom para gerar controvérsia. Um ambiente mais democrático.
Foi isso que ocorreu com os intelectuais de 20 e 30 chamados de
direita: Oliveira Vianna, Azevedo Amaral, Lourival Fontes. Todos
estão atentos a Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Júnior,
Sérgio Buarque de Holanda. E esquecendo essa vertente, incluindo
Gilberto Freyre, que conheciam o Brasil melhor dos que os de esquerda.
Os pensadores conservadores, como Paulo Prado, conheciam muito o
Brasil.
Rogério Almeida – E os conservadores de hoje, conhecem?
Acho que não conhecem mais.
Nanani Albino – O que desconhecem?
O brasileiro continua a viver como caranguejo, arranhando
o litoral, para usar a imagem quinhentista. Do ponto de vista do
pensamento, a imagem vale até hoje. É sempre o pensamento
do litoral voltado para fora do Brasil. O Brasil não conhece
o Brasil. A penetração para o sertão, a corrida
para o Oeste, mais destrói do que conscientiza. A descoberta
do Brasil não passa de movimentos espasmódicos e cheios
de exotismo. É o descobridor querendo que a paisagem original
seja de acordo com a visão do colonizador. Isso me levou
a desistir da grande imprensa. Houve um momento importantíssimo
para mim, principalmente entre 1971 e 1979. Quem quiser escrever
a história da Amazônia tem que obrigatoriamente consultar
o jornal
O Estado de S. Paulo nesse período. A história
da Amazônia desse período está no
Estadão.
Em nenhum outro lugar a história da Amazônia é
mais visível. Isso foi um trabalho paulatino de convencimento
da direção
Nanani Albino – Isso se deve a quê? Por que
você estava lá?
Quando fui para o
Estadão, não havia
um só paraense na redação, nem de qualquer
outra parte da Amazônia. Várias coincidências
fizeram aproximar -me do dono do jornal, Júlio Mesquita Neto.
Em alguns momentos ele precisou de determinadas coisas que forneci,
inclusive escrever editorial. Naquela época fiz a “heresia”
de entrar na sala do doutor Júlio, na qual ninguém
entrava. Não tinha muito respeito pela sacralidade do “aquário”
(ambiente da direção do jornal) do chefe. O
Estadão
tinha a mácula do Estado Novo, quando o governo entrou no
Estadão e o administrou. A propósito, o
Estadão
melhorou tecnicamente nesse período. A marca do liberalismo
do
Estadão dessa época era não aceitar
censura. A rede de informação do
Estadão
era bem fraca. Sob a liderança do Raul Martins Bastos, do
Departamento de Sucursais e Correspondentes, que naquela época
não tinha muita importância, ajudei a fazer a mudança
de toda a rede de correspondentes do jornal no país. Havia
pessoas que trabalhavam no jornal fazia muito tempo, e entraram
numa rotina que era pobre para o jornalismo.
Rogério Almeida – Quem veio cobrir a Guerrilha?
Nós tínhamos feito o levantamento e faltava apenas
a senha, que viria a ser a ACISO - Ação Cívico
Social do Exército, que arrancava dentes da população
carente e outras coisas, além do que o repórter enviado
era tido como de confiança do governo. Os oito parágrafos
iniciais eram dedicados a essa história da ACISO, o resto
era só a história da guerrilha, a única que
furou a muralha da censura no período. Depois disso, se decidiu
que o
Estadão ia ser o grande jornal da Amazônia.
O plano, aprovado pessoalmente pelo doutor Júlio, era para
eu vir para cá e montar a sucursal, a primeira sucursal verdadeiramente
regional do jornal. Fizemos uma grande reunião com todos
os correspondentes da região, e logo acertamos que São
Paulo não mexeria em nosso texto. A nossa idéia era
depurar a visão exótica da Amazônia. Permitir
que a Amazônia verdadeira emergisse na grande imprensa.
Rogério Almeida – Como foi a decisão da direção?
A gente apresentou o projeto e foi aprovado.
Rogério Almeida – Ainda é exótico o olhar
da grande imprensa sobre a Amazônia?
Hoje a cobertura da grande imprensa é muito pior
do que na época do regime militar. A grande imprensa vê
a Amazônia como o lugar onde ocorrem os fatos insólitos,
originais e inéditos. Eles não conseguem fazer uma
cobertura sistemática.
Nanani Albino – Quem são “eles”?
Toda a grande imprensa. Na época nós tínhamos
a sucursal do
Estadão, da
Veja,
Manchete.
Todos os grandes jornais tinham correspondentes.
Rogério
Almeida – Não é contraditório quando
a Amazônia é pauta em todo canto do mundo?
É um interesse estandardizado. É o que se quer que
seja a Amazônia. Essa é a regra para a Amazônia.
Para acompanhar a Amazônia bem, é preciso uma boa estrutura,
gente bem paga e qualificada. Eles não querem isso. Exemplo
disso é Klester Cavalcanti, repórter da Veja. Ele
apareceu um dia dizendo que foi seqüestrado, embora o caso
nunca tenha sido bem elucidado, provavelmente pelos grileiros de
terras. Ele foi retirado de Belém logo em seguida como se
fosse uma operação de guerra. Uma história
cheia de contradição. Dois terços da matéria
que saiu em Veja era sobre o seqüestro dele. O que ele escreveu
sobre grilagem de terras não justificava de jeito nenhum
qualquer ato hostil. Era muito menos do que qualquer um aqui da
terra já havia escrito várias vezes. Ele saiu como
o Indiana Jones, de volta à metrópole cosmopolita
depois de aventuras na jungle feroz e primitiva.
(
Leia
a resposta do jornalista Klester, a tréplica de Lúcio
Flávio e a continuação da discussão
aqui)
Guilherme Carvalho – Nesse caso o seu Jornal Pessoal
surge para se contrapor a isso?
Como disse, fiquei 17 anos no
Estadão.
Existe uma regra que se você sobrevive a 15 anos na empresa,
você é
indemitível , para usar um neologismo.
Quando pedi demissão, o doutor Júlio me ligou. Ele
se sentia desconfortável, eu vim com um compromisso dele.
Pedi demissão porque não acreditava mais que o
Estadão
pudesse fazer uma cobertura decente da Amazônia, como havia
feito no passado.
Nanani Albino – O que havia mudado?
Tinha mudado o seguinte, vou citar um exemplo: eu estava
fazendo uma cobertura sobre um assunto. No melhor dia a matéria
não saiu. Liguei para o editor de São Paulo e perguntei
o que estava acontecendo. Ele falou que havia dado dois dias seguidos
de Amazônia e que precisava dar uma matéria de Fortaleza.
Vi que o
Estadão não voltaria mais a ser
o que era. Quando saí, depois de 22 anos na grande imprensa,
sabia que não tinha volta. Meu compromisso era com a Amazônia.
Escrever o que a grande imprensa não escrevia. Eu já
tinha iniciado o
Jornal Pessoal, em setembro de 1987.
Rogério Almeida – Você ainda estava no Liberal?
Eu ainda estava em
O Liberal. Começou exatamente
por causa da morte de Paulo Fontelles, que foi deputado estadual
pelo PMDB e advogado que defendia os posseiros no sul do Pará.
Ele não conseguiu se eleger deputado federal. Seria reeleito
fácil se saísse deputado estadual. Aí ele assumiu
o vínculo com o PC do B. Três dias antes a gente havia
participado de um debate no Instituto Lauro Sodré, do qual
fez parte Luiz Pinguelli, que ficou pouco tempo na Eletrobrás,
porque ele não tem voto, Lula o demitiu para colocar o Silas
Randeau.
Rogério Almeida - Por pressão do PMDB?
Da ala conservadora do PMDB e porque o Pinguelli queria
executar o programa do PT para energia. Mas o PT já tinha
mudado e não queria mais o programa de energia.
Rogério Almeida – Pinguelli é a maior autoridade
de energia no
Brasil?
Não digo que é a maior, mas digo que é
uma grande autoridade, é respeitado por todas as pessoas.
O que o PT fez com ele foi uma coisa indecente. Decidiu demiti-lo
sem que ele nem fosse consultado. Como fez com o Christovam Buarque.
Bem, voltando ao episódio Paulo Fontelles, nós estávamos
no debate, Paulo e eu, depois conversamos longamente. Parecia um
desabafo dele. Três dias depois, quando estava fazendo uma
cobertura na Sudam, um colega que cobria polícia informou
que ele havia sido morto. Vi o corpo dele quando ainda estava no
carro. Ele estava no banco do carona. Ainda com o cigarro na mão.
Foram três tiros de mestre dados na cabeça dele. Morreu
na hora, sem a menor possibilidade de reação. Foi
no dia 10 de junho de 1987. Uma regra não escrita do crime
de encomenda dizia que quem estava em Belém estava a salvo.
Era a sede dos poderes institucionais. Agora, no sertão,
não; era a lei da selva. Em Belém, os pistoleiros
respeitavam. O caso do Paulo foi o primeiro crime político
na região metropolitana de Belém. Eu disse que a gente
tinha que impedir que o crime ficasse impune. Só assim seria
possível frear uma escalada, como viria a ocorrer. No ano
seguinte, foi morto o advogado João Batista, em pleno exercício
de seu mandato de deputado estadual. Passei três meses investigando.
Escrevi uma matéria, que veio a ganhar o prêmio da
FENAJ, no ano de seu lançamento. Escrevia nessa época
a coluna Repórter 70, a mais influente do jornal
O Liberal,
apresentava um programa de entrevistas na
TV Liberal e
tinha minha própria coluna assinada no jornal. Na época
do assassinato do Paulo, o dono da empresa tinha acabado de morrer,
o Romulo Maiorana. Entreguei a matéria para a Rosângela
Maiorana Kzan, que depois viria a entrar com cinco ações
na Justiça contra mim. Ela falou que a matéria era
impressionante, só que tinha um problema: denunciava as pessoas
mais ricas do Pará: o Joaquim Fonseca, que se dizia o maior
armador fluvial do mundo, e o Jair Bernadino de Souza, da Belauto,
a maior revendedora de automóveis. Ela disse que não
podia publicar a matéria porque citava dois dos maiores anunciantes
do jornal. Sugeri que ia fazer um jornal, ela falou que imprimiria
o meu jornal de graça, contanto que não citasse isso.
Depois, entraram com uma ação na justiça para
que citasse onde era a impressão do
Jornal Pessoal,
para intimidar as gráficas, que realmente se amedrontavam.
No segundo número, foi uma denúncia de um rombo de
30 milhões de dólares no Banco da Amazônia (BASA),
que nenhum jornal publicava, pelo presidente interino do banco,
que era o advogado de
O Liberal, Augusto Barreira Pereira.
O Liberal não publicava porque um dos envolvidos
era o procurador dele, e
A Província do Pará
não publicava porque outro dos envolvidos era o famoso Billy
Blanco, irmão do Milton Trindade, superintendente da empresa.
Rogério Almeida - O compositor?
O compositor se beneficiou, são as fraquezas da
alma. Aí
O Liberal disse que não imprimiria
o jornal. Passei para a segunda gráfica, das 11 pelas quais
o
Jornal Pessoal já passou. Em seguida, publiquei
uma denúncia de uso de cocaína bem antes da escalada
da droga, sobre a penetração da cocaína na
alta sociedade. Envolvia uma pessoa que era amiga do dono dessa
segunda gráfica, que não podia imprimir por causa
disso. O que avaliei é que se o
Jornal Pessoal não
saísse, mesmo saindo pouco, com pouca circulação,
determinadas matérias nunca seriam publicadas na imprensa
local e nacional. Local por causa dos compromissos, nacional pelo
desinteresse. O
Jornal Pessoal se mantém nessa trincheira.
Se não sair no Pessoal, provavelmente não sai em nenhum
lugar.
Nanani Albino – Você sofre ameaças?
Além de situações constrangedoras
de perda de amizades, há ameaças anônimas. Na
primeira você fica em desespero. Depois aprende a filtrar
as ameaças que são sérias dos trotes. É
preciso tratar com seriedade o assunto. Tem gente que é vítima
de brincadeiras de humor negro e se diz perseguida. Houve um momento
em que os telefonemas anônimos não vinham para mim.
Foi feito um para o diretor de redação de
O Liberal,
que era o Cláudio Augusto de Sá Leal, que já
morreu. Dizia a voz: “Doutor, prepare a manchete de amanhã:
Assassinado Lúcio Flávio Pinto”. Descobri de
onde vinham as ameaças. Isso foi em 1985, o Jader Barbalho
era o governador do Estado. liguei para ele, informei-o e lhe disse
que se fosse investigar saberia de onde estava vindo. Comuniquei-lhe
que estava com uma carta para ser enviada para o dono do
Estado
de S. Paulo, contando que as ameaças de morte estavam
vindo dele. Depois do impacto, o Jader reagiu, disse que a carta
seria usada pelos seus inimigos para tentar prejudicá-lo.
Retruquei que eu é que estava sendo ameaçado de ser
destruído. Ele pediu 24 horas para desmontar o esquema. No
dia seguinte, ligou dizendo que era verdade e que ele havia desmontado
o esquema.
Guilherme Carvalho – Os caras estavam mesmo interessados
em assassinar você?
O Jader apurou minha denúncia e desfez qualquer
esquema que pudesse ser montado contra mim afirmando, numa reunião
com seu esquema de segurança, literalmente, que “cortaria
o saco” de quem pretendesse me fazer mal. Na época,
eu estava fazendo a primeira denúncia de corrupção
do Jader. Foi por isso a reação. A denúncia
estava muito bem documentada. Eles não tinham como rebater.
Foi o momento mais crítico. Por ironia, dizem que protejo
o Jader.
Nanani Albino- Por que dizem isso?
Eu e o Jader estudamos na mesma época no Colégio
Paes de Carvalho. Da turma, fui o único que não subiu
com o Jader. O resto todo subiu. Quando o Jader estava formando
o primeiro secretariado dele, me chamou na sede do IDESP (Instituto
de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará, órgão
extinto no governo Almir Gabriel, do PSDB). Estavam ele e o Roberto
Ferreira, que seria o secretário da Fazenda. Ele perguntou
o que eu queria ser no governo dele. Nessa época eu escrevia
muito sobre terras, ele sugeriu a presidência do Iterpa (Instituto
de Terras do Pará). Falei que não, ele sugeriu que
eu fosse o coordenador do Conselho Superior de Desenvolvimento,
que seria o órgão-chave da administração
dele, mas se reuniu uma vez. Falei que não queria nada, que
seguiria jornalista e crítico dele.
Guilherme Carvalho -Você responde a quantos processos
e qual a natureza deles?-
Acho interessante que durante o regime militar (1964-1985),
fui jornalista por 19 anos e só fui processado uma vez. O
caso foi por causa do suplemento Encarte, que editava em
O Liberal.
Denunciei o processo de tortura que uns presos sofreram após
uma fuga. Eles eram levados de barco para “interrogatório”
na ilha de Cotijuba. Na lancha
Martada Conceição
houve a fuga e jogaram na baía o tenente responsável
pela tortura, Teodorico Rodrigues. Fizemos as fotos da tortura,
publicamos. O governador da época era o Aloysio Chaves, que
mandou investigar as denúncias. O chefe do inquérito
era o então major Antonio Carlos (depois coronel da PM e
secretário de Segurança Pública). Ele me chama
de lado e informa que todos os jornalistas que foram lá haviam
admitido que as fotos tinham sido montadas. Desmentiram tudo o que
haviam feito. E que o interesse da polícia era pegar o repórter
policial Paulo Ronaldo. O Paulo foi um célebre repórter,
tinha sido eleito deputado estadual pela oposição.
Ele era muito popular e tinha tido uma votação estrondosa.
A polícia era louca para pegá-lo. Eu e o Paulo fomos
indiciados na Lei de Segurança Nacional por incitarmos a
sociedade contra as autoridades. Depois o crime foi desqualificado
na justiça militar e o processo arquivado na justiça
comum. Desde 1992, quando a Rosângela Maiorana Kzan entrou
com a primeira ação, das cinco que moveu contra mim,
já foram 15 processos, além de mais um na justiça
eleitoral. Em pleno regime democrático, sinto-me mais perseguido
do que na ditadura.
Rogério Almeida - O que se passa?
A Justiça está sendo usada como instrumento
de quadrilhas. Vejamos uma coisa absurda. A história da maior
grilagem da humanidade usa como autor um certo Carlos Medeiros.
Todo mundo sabe que o Carlos Medeiros não existe. Foi forjado
por uma quadrilha de advogados e corretores de terras. Foi inventado
por um advogado que morreu recentemente. Eles vão aos cartórios
com os juízes e desembargadores em nome de uma pessoa que
não existe. Já escrevi várias vezes no
Jornal
Pessoal que a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) exigisse
do advogado a apresentação em carne e osso do cliente,
o Carlos Medeiros. E caso o advogado não apresentasse no
prazo de uma semana, cassasse a licença do advogado. A Justiça,
hoje, por ser o poder menos fiscalizado, se tornou um poder terrível.
Rogério Almeida - Desse rosário de processos,
nove são sobre grilagem de terras?
Nove são de grilagem de terras e extração
de madeira na Terra do Meio, lá no Xingu. Cinco são
da dona do
Liberal, a Rosângela Maiorana Kzan. Chegou
ao cúmulo de ela entrar com ação cível
para me proibir de falar o nome dela para sempre. Fiz a seguinte
pergunta no Tribunal: caso ela ganhe, como vai ser a execução
da sentença? Vão mandar um censor do Tribunal? Vou
ter que submeter o
Jornal Pessoal a um censor do Tribunal?
É um absurdo. A ação prospera até hoje.
Guilherme Carvalho - A Justiça paraense nesse caso,
ou o Judiciário de um modo geral, está servindo como
instrumento para que a ação dessas quadrilhas de grilagens
de terras proliferem?
Veja o caso da desembargadora Maria do Céu Duarte.
Ela se sentiu ofendida por um artigo meu no qual reproduzia trecho
de uma decisão dela. Disse que a ofensa era agravada pelo
fato de eu ter colocado aspas na declaração dela,
denotando intenção de ofensa.
Rogério Almeida – Para tentar ser didático.
São três os atores que o processam. Os dois desembargadores,
a Maiorana e o pessoal da grilagem de terras.
E tem a figura intolerante do prefeito de Belém,
que também é dono de uma ação, Edmilson
Rodrigues (PT/PA). A ação é porque ele dava
dinheiro para um escroque, um crápula do jornalismo para
defender a prefeitura e garantir uma coluna com pseudônimo,
que era o “Décio Malho”. Usando essa gazua, ele
ofendia todas as pessoas inimputavelmente. Mostrei que o PT, que
vinha para estabelecer a moralidade, estava usando o dinheiro público
para chantagem.
Rogério Almeida- Qual era o jornal?
Jornal Popular.
Rogério Almeida – Ainda existe?
Existe, mas sem o seu criador, que morreu, perdeu eficácia.
Quando o prefeito deixou de pagar o jornal, o jornal deixou de falar
bem dele. No processo, uso a figura jurídica da exceção
da verdade. Ou seja, a possibilidade de provar que tudo que estou
dizendo é verdade. E as pessoas não deixam. A primeira
sentença que me condenou foi manuscrita. Tinha 54 páginas.
Foi dada por uma juíza que jamais havia dado uma sentença
parecida. Você visualizando notava que não era a mesma
letra. Há uma regra da lavratura de sentença que diz
que se o juiz começar a manuscrever a sentença, tem
que fazer do principio ao fim, rubricar cada página e assinar
no final. A juíza não fez isso. Pedi perícia.
Afirmava que não havia sido a juíza quem havia escrito
aquela sentença. Pedi perícia grafotécnica
e grafológica. Era mais de um modelo de letra.
Rogério Almeida – Qual foi a acusação?
Foi na ação da Rosângela Maiorana,
por crime de imprensa.
Rogério Almeida – O que a motivou a processar
você?
Mostrei a briga entre os irmãos Maiorana. Mostrei
que havia uma dissensão entre os irmãos. Que eles
estavam usando o mesmo funcionário para criar duas empresas
para fazer no Amapá a mesma coisa para um e outro, sem que
um soubesse da iniciativa do outro, em negócios pessoais
paralelos ao da empresa. Estavam criando empresa satélite
para um e para outro. Depois o funcionário foi demitido por
justa causa. Acho importante dizer que em nenhuma das 15 ações
qualquer dos autores usou o direito de resposta. Ninguém
quis exercer o direito de reposta no meu jornal ou em outro espaço,
inclusive um servidor público, como é o desembargador.
Por que eles não prestam contas? Publico qualquer tipo de
carta.
Nanani Albino –Você tem alguma condenação?
O primeiro caso foi esse da Rosângela Maiorana. O
segundo foi o do desembargador João Alberto Paiva. No primeiro
pedi a perícia. Acabou não sendo feita a perícia.
A desembargadora que autorizou a perícia foi alvo de uma
campanha contra ela no jornal
O Liberal. Tentei esclarecer
o caso. Não tive espaço nem no jornal oponente, o
Diário do Pará (propriedade do deputado federal
Jader Barbalho). O próprio Jader interferiu para a não
publicação da explicação, quando o pai
dele já havia autorizado.
Rogério Almeida- Tem um problema também com
os órgãos de imprensa aqui no Pará?
Tem. No
O Liberal sou proibido de sair. A coisa
é tão séria, que fui fazer uma palestra num
cursinho. O dono resolveu anunciar no jornal
O Liberal,
pagando nos classificados. Nem anúncio pago com o meu nome
sai no
Liberal. A pedido meu, numa das audiências,
a juíza interrogou Rosângela Maiorana se era verdade
que o meu nome era proibido de sair no jornal. Ela respondeu que
não. Que no dia em que eu morrer, sai. Quanto ódio,
meu Deus!
Rogério Almeida – Como é a história
mais recente de sua batalha processual, a da condenação
do processo movido pelo desembargador Paiva?
Em 1996, o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) propôs,
na comarca de Altamira, uma ação de anulação
e cancelamento dos registros imobiliários que havia ali em
nome da Incenxil (Indústria, Comércio, Exportação
e Navegação do Xingu). A Incenxil era uma empresa
de Altamira, que foi comprada pela Rondon Agropecuária, do
grupo C. R. Almeida. O que havia de ativo na Incenxil? Registros
de posse, com uma cadeia dominial longa, mas que não mostrava
a origem da titulação. Cadeia dominial são
os registros sucessivos que o imóvel tem no cartório.
A propriedade privada só se caracteriza quando o domínio
da terra sai do patrimônio público para o particular.
O primeiro registro, de 1923, tinha a seguinte informação:
“ título hábil”, mas sem informar qual
era o título. Evidentemente que era uma cadeia dominial incompleta.
Rogério Almeida – Altamira ainda é o
maior município em extensão territorial do mundo?
Ainda é o maior município. No “chute”,
uns 150 mil quilômetros quadrados. O Iterpa pediu para o juiz
Torquato Alencar uma tutela antecipada. O que é isso? Autorizar
que na margem do registro constasse, com autorização
do juiz, que essa terra está
sub-judice por causa
da ação de cancelamento proposta pelo Iterpa. Para
que isso? Para alertar terceiros de boa fé. Qualquer pessoa
que quisesse comprar essas terras iria saber que a terra estava
sob litígio. Assim, qualquer comprador seria de má
fé. Sem direito a indenização. O juiz deu a
tutela antecipada. A empresa recorreu em Belém. O agravo
foi para o desembargador João Alberto Paiva. Ele decidiu,
em liminar, sem examinar o mérito da questão, que
as terras são “inquestionavelmente de propriedade particular”.
A liminar é dada quando o direito é evidente (sem
maior indagação) e há iminência de dano
irreparável. Como, se o Iterpa entrou com o pedido de anulação
e cancelamento dos registros imobiliários que havia no cartório
de Altamira da Incenxil? O desembargador deixou de ouvir o Ministério
Público. São 5 milhões de hectares. São
duas vezes e meia a área da Bélgica. Todos os órgãos
públicos, federais e estaduais, dizem que a terra é
pública. Avalio que o juiz deveria ter tido cautela na questão.
Quatro meses depois da decisão, o Ministério Público
se manifestou contrariamente.
Nanani Albino – Você fez alguma crítica
sobre o desembargador ou somente sobre a decisão dele?
A minha crítica é sobre o ato. Ao longo desses
40 anos, nunca entrei num assunto se não tenho prova. Nunca
fui processado por falta de provas. A questão é sintomática.
A C. R. Almeida, antes entrar com as ações, tinha
o jornalista Oliveira Bastos como seu assessor especial. Mandou-me
duas cartas violentíssimas. A tentativa era me desmoralizar.
Não conseguiu. Depois ele saiu da empresa. No terreno do
debate, não fui vencido. Só escrevo depois de ler,
verificar, me convencer da questão. Não produzo com
base em dossiê. Só escrevo quando domino o assunto.
Guilherme Carvalho - Lúcio, você tem tido dificuldade
de conseguir advogado aqui?
Quando a Rosângela Maiorana Kzan, em setembro de
1992, entrou com a primeira das cinco sucessivas ações,
procurei oito advogados. Em geral, de esquerda. Todos, sob diferentes
pretextos, não aceitaram a minha causa. Uns alegando dor
de cabeça, amizade... Um amigo, que não era advogado
militante, sem escritório, topou fazer a defesa. O acordo
era que eu freqüentasse o Fórum e ajudasse na elaboração
das peças. Aí comecei a estudar Direito e freqüentar
o Fórum. São doze anos. Usei de todos os institutos
do Direito Penal. Sempre é a Lei de Imprensa. Avalio que
não haja alguém que conheça a Lei de Imprensa
melhor do que eu.
Nanani Albino - Por que a Lei de Imprensa, criada em pleno
regime militar, ainda não foi derrubada?
A lei é inconstitucional. Só que alguém tem
que entrar com Ação de Declaração de
Inconstitucionalidade (ADIN). Aí fica o sindicato, a Federação,
ficam os grandes líderes dos direitos humanos dizendo que
a lei é entulho do regime autoritário. E ninguém
toma uma atitude positiva. A Constituição revogou
tacitamente a lei. Como a Lei de Imprensa é especial, ela
deve ser declarada inconstitucional e tem que ter uma outra lei
para substituí-la. Por quê? Porque os democratas de
ontem são os autoritários de hoje. Edmilson Rodrigues,
prefeito do PT, usou a Lei de Imprensa contra mim. Lula não
vive dizendo que a imprensa é denuncista? Não interessa
ao poder, de direita ou de esquerda, abolir a Lei de Imprensa.
Guilherme Carvalho - Qual avaliação que você
faz da relação entre os meios de comunicação,
governo e esses grupos econômicos que estão controlando
mais terras, grilando?
Acho que a imprensa deva ser democrática. Se você
manda uma carta e o jornal não a publica, já deveria
ser considerado crime, a recusa da publicação da carta.
Se você mandou e em 48 horas o jornal não publicou,
já seria crime. Bastaria entrar na Justiça provando
o recebimento da carta pelo jornal e sua não foi publicação.
A partir desse dia, multa violenta na empresa, em dinheiro. Com
isso se resguardaria o direito do cidadão de se defender
daquilo que foi escrito contra ele na imprensa. Por esse lado, se
defenderia o cidadão. Outro ponto seria que ninguém
poderia entrar na Justiça sem antes esgotar a via administrativa.
Nesses moldes, nenhum dos desembargadores poderia me processar,
já que não exerceram o direito de resposta. Acho também
que com a criação de alguns mecanismos seria possível
estabelecer uma relação democrática dos meios
de comunicação. Por exemplo: cada empresa que alcançasse
determinada tiragem, ou determinado capital, deveria ficar obrigada
a abrir o seu capital. E a empresa não poderia absorver as
ações totais, deveria permitir que 10% fossem comprados
pelo cidadão. Não acredito no modelo de conselho,
como feito no Peru. O Estado, quando entra no campo cultural, é
totalitário por atavismo. É o cidadão que deve
ter o controle. Não o Estado. Quando optei pelo
Jornal
Pessoal, nunca aceitei publicidade.
Nanani Albino – Como ele sobrevive?
Há horas em que ele se paga. Há horas em
que não se paga. Isso hoje é o que menos importa.
Numa época ele só era vendido através de assinaturas.
Cheguei a ter 1.200 assinantes. Mais que o
Jornal Liberal,
que tinha 800. Mas para manter as assinaturas, teria que virar empresa.
Nanani Albino – Qual é a tiragem?
2 mil exemplares.
Nanani Albino - E a distribuição?
Só em banca.
Guilherme Carvalho- Voltando naquela relação dos meios
de comunicação. Poder Judiciário e os grupos
econômicos...
A C. R. Almeida criou uma pendência judicial. Enquanto
tiver a pendência judicial, ela domina a terra. É uma
forma mais sofisticada de grilagem do que as formas anteriores.
A forma antiga era falsificação de título,
corromper o cartório. Agora eles fazem questão de
manter a questão
sub-judice. A justiça pode
tomar uma decisão. No próximo número do
Jornal
Pessoal farei um comentário sobre uma resolução
baixada pela corregedora geral de Justiça do interior, Carmencin
Cavalcante. Ela usou seu poder de arbítrio numa questão.
O poder arbitrário do Estado deve ser em defesa do interesse
público. Se há dúvida de registro de uma terra
imensa, cancela-se e o particular que vá para a justiça.
Guilherme Carvalho –
A Justiça
no Pará não decide por quê?
Porque não quer. Há esse exemplo da doutora Carmencin
Cavalcante. Ela baixou uma resolução em que ela cancela.
No caso da Jarí, ela cancelou a unificação
de terras em 940 mil hectares. Exerceu o poder de arbítrio.
Tem de usar. Falta vontade ao judiciário. Agora mesmo estão
com recurso de plotagem, GPS. Sim, de que adianta ter tudo isso
sem vontade política?
Nanani Albino - Você ainda é réu primário?
Sou. Porque a questão está suspensa. Tentaram armar
uma trama quando fui condenado pela primeira vez. Eles queriam me
colocar na cadeia e fotografar, para pôr a minha foto no jornal.
Mesmo que eu saísse no primeiro minuto. A justiça
é terrível. É um poder triturador –lento,
mas inelutável. Por isso há o ditado: quem tem juízo,
não vai a juízo. Quando li a decisão do Tribunal,
passei o fim de semana questionando onde havia errado. Não
posso errar. Não posso deixar o inimigo se alimentar de falhas.
Sobretudo das pequenas, que desviam da apreciação
do mérito e se restringem a uma preliminar formal.
Nanani Albino– Como você consegue com tanta pressão
ser um repórter investigativo? O que significa ser um repórter
investigativo?
As pessoas pensam que repórter investigativo é
aquele presenteado por dossiê. Investigar significa ir atrás
do fio da meada e questionar sempre. Se você não tem
dossiê, vai atrás dos fatos. A escola de repórter
de polícia continua sendo a grande escola. Morto não
manda release. Não tem assessor de imprensa. O problema é
que consigo desagradar todo mundo. O PT não me considera
um aliado. O PSDB não me considera aliado. O PFL, idem. Azar
deles. E azar o meu.
Guilherme Carvalho – Você falou do governo Edmilson
e falou do Jader. E quanto ao governo do Estado, os governos de
Almir Gabriel e Simão Jatene (atual governador do Pará/PSDB).
O Ministério Público faz o que o Executivo quer?
Infelizmente. Quando ele passou a se tornar muito forte,
os procuradores passaram a ter carreira política. Marília
Crespo, Manoel Santino saíram do MP diretamente para a política.
Acho isso uma promiscuidade. Acho que não se deveria mandar
lista tríplice para o governador. O colegiado do Ministério
Público deveria escolher seus novos integrantes. Não
tem porque representante do Ministério Público ser
desembargador. Nem gente da OAB. A promoção deveria
se restringir aos integrantes da carreira. O governador não
deveria nomear ninguém. Todos acabam dependendo do poder
executivo.
Nanani Albino – Você falou que a melhor escola
para investigar os fatos é estar diante dos fatos e perguntar.
No que tange à Amazônia, o que te inquieta? Quais os
fatos que deveriam estar na pauta e não estão?
Sempre lembro, como metáfora, o exemplo de Isaac
Newton. Estavam os dois irmãos debaixo da macieira. Felizmente
a maçã caiu na cabeça de Newton. Fosse na cabeça
do irmão, teria gerado no máximo um palavrão.
O jornalista é aquele que faz a pergunta certa, na hora certa.
O jornalista é aquele que incomoda o poder. Seja qual for.
Ideológico, econômico, institucional. Uma vez, em Tucuruí,
o presidente da Eletronorte afirmava que a água do lago era
boa. A TV filmando. Então pedi: “beba essa água”.
Ele não tomou. Ninguém estava esperando. Liquidou-se.
Um outro episódio foi com o pistoleiro que executou o deputado
João Batista, de nome Péricles. Numa pequena sala
da Assembléia Legislativa, ele dava entrevista. Só
entrava uma equipe de TV de cada vez. A que estava naquele momento
era a equipe da
Cultura. O pistoleiro afirmava que nunca
tinha pegado numa arma. Pedi para o soldado tirar as balas do revólver
que usava e passá-lo para mim. O capitão, que estava
ao lado, autorizou. Peguei o revólver e disse para o Péricles:
“pega”. Ele tomou a arma de minha mão na hora.
Era um profissional. A equipe da
TV Cultura, que filmou
tudo, saiu correndo para exibir o filme. Jornalismo é isso.
Em cima do lance. E às vezes não. Até porque
as sociedades que mais se desenvolvem são aquelas que dão
tempo para as pessoas ficarem no ócio, refletindo. Não
existe verdade sem ócio. Outra coisa foi
Sossego.
Dezenas de matérias.
Rogério Almeida - Você poderia explicar o que é
Sossego?
É a primeira mina de cobre a entrar em produção,
que vai tornar o Brasil auto-suficiente. É a primeira das
cinco minas da região de Carajás, no Sudeste do Pará.
Em 1977, estava lá quando começou a pesquisa no Salobo
3 Alfa, em Carajás e comecei a estudar cobre. O principal
são as boas fontes. Acompanhei a história da Caraíba,
do Geisel, dos estudos do Estado-Maior das Forças Armadas
para abastecer de cobre o Brasil. O cobre é o segundo item
na balança de importações minerais. Concluí
que ocorreria um paradoxo. Vamos ser auto-suficientes e vamos continuar
importando cobre. Vamos exportar concentrado e importar cobre metálico.
Porque há uma incompatibilidade entre a Caraíba Metais
e a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Com os calos de 20 anos tentando
estudar a questão, você faz a pergunta certa. Escreve
uma matéria que, talvez, ninguém vá escrever,
ao menos naquele momento, em cima do fato.
Em Marabá, em 1995, na Escola Mendonça Virgolino,
houve um debate sobre o projeto de cobre do Salobo. Valor do projeto:
1,6 bilhão de dólares. Não se sabia onde ia
ficar. Se em Marabá ou Parauapebas, ambas no Pará,
ou Rosário do Oeste, no Maranhão. Aí o Haroldo
Bezerra, então prefeito de Marabá, informa no meio
do debate que o pessoal da Salobo Metais tinha visitado a cidade
no dia anterior. Interroguei se ele havia perguntado se a quantidade
de minério daria para produzir, durante 20 anos, 140 mil
toneladas de concentrado ao ano. Bezerra retruca o por que da pergunta.
Expliquei que se não fosse assim a mina não sairia.
Não teria viabilidade econômica, fosse lá onde
ficasse instalada.
Nanani Albino – Você avalia que as pessoas que estão
no planejamento das políticas públicas para a Amazônia
estão fazendo as perguntas certas?
Alguns são honestos e competentes e possuem a resposta.
Outros, não. As pessoas que fizeram os contratos de minério
de ferro, bauxita (matéria prima para a produção
do alumínio), os contratos da Albrás (maior empresa
de alumínio do Brasil, instalada no município de Barcarena,
a 40 Km de Belém), sabiam que estavam cometendo um crime
contra o Brasil.
Rogério Almeida – Todos esses projetos se deram no
regime militar?
Todos. Todas as pessoas que assinaram contratos dos grandes
projetos na Amazônia deveriam estar respondendo a processos.
A base do meu diálogo são os fatos. Eliezer Batista
(ex-executivo da CVRD - Companhia Vale do Rio Doce), um dos homens
mais importantes da história contemporânea, que concebeu
todo o Grande Carajás, disse que, caso não tivesse
havido corrupção na construção de Tucuruí,
nós não teríamos precisado subsidiar o alumínio.
E a CVRD é uma empresa do alumínio. O subsídio
custou dois bilhões de dólares. Fui apurar e escrevi
matérias sobre o assunto no
Jornal Pessoal. Em contato
com o ex-deputado federal do PT, Geraldo Pastana, sugeri que ele
convocasse o Eliezer. Não foi aprovado o pedido. Então,
pedimos informações no TCU - Tribunal de Contas da
União, depois de dois anos tivemos a reposta deles, de que
se tratava de águas passadas.
Rogério Almeida- Dois bilhões em subsídio?
De subsídio no alumínio e de corrupção
na construção de Tucuruí.
Rogério Almeida – A empresa no caso era a Camargo
Corrêa?
A Camargo Corrêa teve um lucro líquido de
500 milhões de dólares na construção
da hidrelétrica de Tucuruí. Sempre que posso, toco
no assunto. As pessoas não se indignam. Fico estupefato com
a questão. No regime militar, descobri que balanço
de empresa é uma fonte preciosa de informação.
Principalmente pelo que não está dito. O Banco do
Estado Pará (Banpará) foi eleito o banco do ano em
1983, quando eu havia escrito que o banco era uma porcaria e que
todas as suas operações estavam erradas. E a revista
Exame, uma publicação aparentemente de conceito,
afirmava se tratar do banco com o melhor desempenho no Brasil. Passei
a estudar balanço, consultar gente que sabia. Fui estudar
o balanço da Albrás de 1987 e conclui que só
a variação cambial entre a moeda japonesa e o dólar
relativos à moeda nacional, que proporcionou a maior aplicação
de capital de risco estrangeiro na história do Brasil representava
três vezes o orçamento do Estado do Pará. Perdemos
três vezes o orçamento do Estado. Consultei o cidadão
que fazia o orçamento no Rio de Janeiro e ele confirmou a
conta. Escrevi matéria em
O Liberal. Imaginava um
escândalo nacional e nada houve.
Nanani Albino - Por que a opinião pública
parece não se aliar a você?
Há um descompasso entre a agenda da opinião
pública e a agenda da história. Estamos numa situação
colonial. Caso a gente soubesse o que está acontecendo de
verdade, não seríamos coloniais.
Rogério Almeida – Existe saída para
essa condição colonial?
Tem. Ciência e tecnologia, o modelo de colonização
que defendo é a ocupação através da
ciência e tecnologia. Deveríamos ter aqui não
colono de soja e não colono de arroz.
Nanani Albino – O que é isso?
Em vez de colonos, cientistas. Ele não vai só
produzir ciência, se ele estuda arroz, vai plantar arroz.
Vai ensinar como é que faz, fazendo. Vamos pegar o cara e
colocar no campo, e não no campus, com bolsa de pesquisa,
uma estrutura mínima. Se a gente não colocar a formação
antes da transformação está liquidada a Amazônia.
Sei que serão necessários muitos milhões no
começo. Quando comecei a visitar o Araguaia, a densidade
de mogno era o dobro do que existe no Xingu, eram 10 árvores
por hectare. Não tem mais nada lá. Diziam que a gente
ia aprender com a experiência do Araguaia. Estamos fazendo
pior no Xingu. Aí só vai restar o Acre. Uma árvore
por hectare. Araguaia era a maior reserva de mogno do mundo.
Nanani Albino – Você fala em mudança substancial
em investimento em pesquisa?
Devemos conceber investimento em pesquisa não como
retaguarda, mas como vanguarda. Vamos pegar a meninada da USP, UFRJ
e outras com uma boa bolsa e vamos para o campo aprender. Os orientadores
também devem ir ao campo, com condições de
trabalho bons salários.
Nanani Albino – E as universidades federais
locais?
Todo mundo iria para o campo. É como se estivesse
em Israel. A nossa guerra é a guerra da ciência. Guerra
da ciência não é ficar fazendo o seu trabalhozinho
acadêmico. É fazer a difusão da ciência
no campo.
Nanani Albino - Agora é a hora?
Tem que começar já senão nunca vai
começar.
Nanani Albino – E os colonos não científicos?
Ele vai aprender e ensinar. Você coloca o doutor
em genética na Transamazônica para fazer melhoramento
no campo com uso do conhecimento tradicional e empírico.
Considero que o pessoal tem que ir a campo. O doutor tem que deixar
de lado essa postura arrogante.
Nanani Albino – Como você avalia a ciência produzida
na Amazônia?
Quando comecei a fazer palestras, vinham perguntar sobre
a minha formação e eu dizia malandramente que era
jornalista. Era um constrangimento. Jornalista não tem valor
científico. Aí eu dizia: sou sociólogo –
e tinha o carimbo da academia. Depois dizia: “vamos para o
debate!” O critério da verdade é o debate. Se
vocês são os cientistas, os doutores, vocês vão
me vencer no debate. Caso eu vença, não adianta ser
doutor.
Nanani Albino – No Brasil, existe a tradição
do debate?
Aqui o debate costuma ser improdutivo, assistemático
e acientífico. O que grita mais alto, as pessoas aplaudem,
vence o debate. Todos sabem do rigor que tenho com os dados. Caso
esteja errado, corrijo. Num determinado debate, soube da proibição
por decreto pelo presidente José Sarney do uso do alumínio
nos garimpos. Disse que seria pior. Que os garimpos iriam usar cianeto.
A pessoa que conversava iria palestrar pela tarde. Cheguei na hora
em que ela falava de uma importante denúncia que a Amazônia
iria ser inundada por “cianureto”. Mandei um bilhete
informando que não era cianureto e sim cianeto.
Guilherme Carvalho – Qual a perspectiva da Amazônia
diante de mais um Plano Plurianual aprovado?
Quando Lula foi eleito, elogiou a tecnocracia do regime militar.
Escrevi um artigo dizendo que ele tinha certa razão. Acho
que nunca se fez tanto plano quanto na época do regime militar.
Alguns tão bem feitos que não poderiam nem ser executados.
Uma vez, em Brasília, fui ao Instituto de Pesquisa de Econômica
Aplicada (IPEA), cujo chefe era o ministro João Paulo dos
Reis Veloso, do Planejamento, que sempre se preocupava com a história,
por isso apadrinhou intelectuais marxistas. Não queria passar
como o tecnocrata dos ditadores. Em 1972, andando pelo IPEA, entrei
inadvertidamente numa sala onde estava sendo dada uma aula sobre
Marx. Aquilo era uma heresia privatizada. Nessa época, o
IPEA publicou um livro crítico sobre a colonização
dirigida na Amazônia. Critica o INCRA, os incentivos fiscais
que motivaram a formação dos latifúndios com
metodologia marxista. Caso for analisar a história pela fonte
secundária, você vai dizer que esse era um déspota
esclarecido. Agora a bíblia sobre a Amazônia é
um o II Plano de Desenvolvimento da Amazônia – PDA (1975/1979).
Esse documento diz o que da Amazônia? Diz que o papel da Amazônia
é fornecer insumos para o Brasil moderno e matérias-primas
para o mundo. Com isso, ela vai aumentar o ritmo do desenvolvimento
brasileiro, pois o Brasil não tem poupança suficiente
para isso, e também manter a roda do processo produtivo do
mundo. É isso que interessa. Tudo dito claramente sem filigranas
ou cosméticos. É um futuro colonial. Como mudar isso?
Tornar o povo participante.
Rogério Almeida – Qual é orçamento
para a ciência na Amazônia?
Zero, dois ou meio por cento do orçamento em ciência
e tecnologia.
Rogério Almeida – Estamos condenados ao colonialismo?
Se tirassem as verbas estrangeiras seriam zero vírgula
qualquer coisa.
Nanani Albino – Qual é o investimento em pesquisa vindo
do exterior?
Dois terços dos investimentos da pesquisa são
em moeda estrangeira. A Amazônia não é prioridade
nem para o Brasil.
Nanani Albino – E o resultado?
É o modelo colonial. O projeto MADAM
(
Programa Manejo e Dinâmica nas Áreas de Manguezais),
por exemplo , é interesse alemão. Há documentos
que são produzidos em alemão, e que nunca foram traduzidos.
O que o mundo desenvolvido quer da Amazônia? Preservar uma
parte da Amazônia e estudá-la antes que acabe. Ninguém
no mundo sério tem dúvida de que a gente vai acabar
com a Amazônia. Somos destruidores como eles também
foram e são. A história da humanidade é a história
da destruição da floresta. Na Amazônia, é
a primeira vez que a gente tem a possibilidade de uma civilização
florestal. É o único lugar que tem floresta expressiva
hoje. Temos a consciência e os meios, se a gente não
usar a consciência e os meios, vamos seguir a tradição
do
homo agrícola. Vamos destruir a floresta. A Amazônia
só tem futuro no mundo. Onde Marx escreveu
OCapital?
No Museu Britânico. O Marx nunca entrou numa fábrica.
Em quais dados primários se baseia
O Capital? Nos
relatórios dos fiscais de fábrica da Inglaterra.
Rogério Almeida- Então não era um bom
jornalista
Era ótimo jornalista.
Rogério Almeida – Mesmo distante do campo?
Mesmo não indo para o campo. Quando ele ia para
o campo, ele era o editor da
Nova Gazeta Renana. Ele escreveu
sobre o monopólio da lenha e a liberdade de imprensa. A luta
dele contra o censor. O censor esperando ele na redação
e ele dormindo. Até o momento que ele se tornou profeta tinha
muito bom humor.
Rogério Almeida – A gente estava falando em
ciência, e o SIVAM – Serviço de Vigilância
da Amazônia?
São 20 anos de verba de ciência e tecnologia
na Amazônia que estão sendo distorcido pela visão
geopolítica. Hoje nós temos o SIVAM pronto. Isso significa
maior segurança para a Amazônia? O prisma da geopolítica
é o que mais distorce a visão da Amazônia. Desde
Arthur Cezar Ferreira Reis, que é a matriz desse pensamento.
A nossa relação com o mundo tem que ser diferente.
Quanto mais a gente se desenvolve, mais a gente fica subdesenvolvido.
Continua aquela visão de Euclides da Cunha do seringueiro.
Aquele que quanto mais trabalha, mais se escraviza. Aquele que compra
produtos caros no barracão, e vende produtos baratos. Uma
relação de troca desfavorável.
Rogério Almeida - Essa questão da regulação
fundiária, gostaria que a gente retomasse. É uma questão
séria na Amazônia.
Está em vigor o Estatuto da Terra. Foi baixado pelos
militares em novembro de 1964, o Estatuto é melhor que a
Constituição. O Estatuto diz o seguinte: ninguém
pode ser dono de mais de 600 vezes o modulo rural.
Rogério Almeida – O módulo rural hoje
é de 25 hectares?
Há vários tipos de módulos. Há
de um hectare, para a horticultura, ao maior, que é o silvicultural,
que é de 120 hectares. Pela letra da lei, ninguém
pode ser dono de mais de 72 mil hectares. Vamos pegar os Estados
Unidos, onde há cadastros fundiários desde o século
XVIII. São amarrações por posições
astronômicas. Como a gente não tinha isso, a nossa
amarração foi através de acidentes naturais.
Só que a gente não conhecia o interior. No início
da República expedimos 40 mil títulos de posse. Isso
só existe no Pará e na Bahia. Era uma carta do poder
público autorizando a ocupação do interior
por quem estivesse disposto a ocupar. O limite máximo era
uma légua quadrada, que corresponde a 4.356 hectares. Com
base nisso, ninguém poderia aparecer com título de
posse com 5 milhões de hectares. Desses 40 mil títulos,
apenas 3 mil buscaram a regularização depois. O resto
deu origem a essas grilagens. É fraude. Caso o senhor Cecílio
Rego Almeida aparecesse com um título desses nos Estados
Unidos, poderia ser preso.
Rogério Almeida – Vamos falar um pouco sobre
a CVRD -Companhia Vale do Rio do Doce. A Vale é maior que
o Pará?
É maior. A CVRD tem uma verba de investimento maior
que a do Estado. O faturamento da CVRD é maior que a receita
do Estado. Caso o modelo de enclave prospere, a CVRD vai ser três
vezes maior que o Pará. É um modelo baseado em matéria-prima,
quantidade crescente de minério de ferro. Vinte milhões
de toneladas era o ponto de viabilidade da mina de Carajás.
Hoje está em 55 milhões de toneladas. Por quê?
O primeiro trem saiu de Carajás com a tonelada de minério
a 26 dólares, hoje são 15 dólares. Ocorre que
tem de produzir cada vez mais. O Pará é o 2º
Estado em território, 9º em população,
16º em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), 19º
em Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ). É o modelo
da África do Sul. Nós somos a África do Sul
da Amazônia.
Rogério Almeida - A privatização foi
um crime de lesa pátria?
A melhor análise que saiu foi da
Euromoney,
uma revista de negócios da Europa, foram 16 páginas.
Eles mostraram o absurdo que foi o preço de avaliação
de arremate da CVRD. O absurdo é tanto que hoje os japoneses
estão na CVRD. Uma das regras da privatização
era que comprador não poderia ser acionista da CVRD. O modelador
da privatização, que é o Bradesco, é
o principal controlador fora dos fundos federais. Que privatização
é essa? Foi um dos maiores escândalos do Brasil. As
ações propostas na Justiça não foram
decididas até hoje.
Nanani Albino – Há 12 anos você vem sendo processado.
Qual a postura das entidades de classe, federação,
sindicato de jornalistas em relação a isso?
Bem, fui do sindicato do tempo em que o Lula tentava implantar
as delegacias sindicais no ABC, no fim da década de 70. Fomos
o primeiro sindicato a ter salário profissional e delegacia
sindical. Depois perdemos no Tribunal Superior do Trabalho. Mas
fizemos isso primeiro. No primeiro processo, o presidente do sindicato
escreveu uma nota de solidariedade tão sórdida, que
pedi o meu desligamento do sindicato. A solidariedade era pior do
que se tivesse feito um ataque a mim. Ele dizia que a Rosangela
Maiorana tinha razão, mas que tinha de ser solidário
comigo pelo espírito de corpo. Nesse recente episódio
(do desembargador João Paiva) a nota de solidariedade foi
comandada pelas ONGs: Instituto Sócio Ambiental (ISA), Amigos
da Terra, Greenpeace. FENAJ e sindicato aderiram. A iniciativa não
foi deles. O episódio mais triste que ocorreu nesses quase
40 anos de profissão foi quando denunciei a infiltração
do narcotráfico na Amazônia, em 1991, ano em que ocorreu
o assassinato de uma figura da sociedade, que era lavador do dinheiro
do narcotráfico internacional. Durante meses, o
Jornal
Pessoal foi o único que publicou os fatos. Era a história
de Bruno Matos. Quatro meses depois, saiu uma única matéria
nos três jornais da cidade, dizendo que ele tinha se suicidado.
Ele morreu na BR 316, a 90 quilômetros por hora, recebeu um
tiro na distância mínima de três metros, de cima
para baixo, da esquerda e ele era destro. Foi um único tiro,
preciso. Esse é o suicídio mais inverossímil
da história da humanidade. Um tiro a três metros de
distância, dirigindo o carro a 90Km/h. Após o
Jornal
Pessoal encadear os fatos, a PF apreendeu uma tonelada de cocaína
no Marajó e no rio??? Amazonas. Toda a imprensa foi para
a sede da PF para a coletiva. Fui e não fiz qualquer pergunta.
Os colegas interrogaram sobre o meu silêncio. Falei que tinha
ido para conversar em
off com o delegado José Salles,
hoje superintendente aqui no Pará. O colega declarou, então,
que iria ficar. Que agora é que ia começar o bom.
Retruquei que não existe
off coletivo. Que se tratava
de uma conversa particular, estabelecida através da confiança
mútua. Concordei em que todos participassem, com o compromisso
de que todos publicassem o que ia ser dito ali. Todos foram embora.
O Salles, delegado, interrogou: são esses seus colegas?
Nanani Albino – Você tem 38 anos de jornalismo.
O Jornal Pessoal muitas vezes não cobre nem sequer os custos.
Você hoje consegue viver da profissão?
Dou palestras, escrevo artigos para fora, escrevo livros.
Do
Jornal Pessoal, não. O
Jornal Pessoal
é a pedra no sapato.
Guilherme Carvalho – A mosca na sopa?
O Roger Agnelli, presidente da CVRD, um dos homens mais
poderosos do Brasil, num vôo leu um
clipping do
Jornal
Pessoal. A CVRD mantém o
Jornal Pessoal no
seu
clipping. Ele ficou furioso. Contatou o chefe de comunicação,
que estava indo para o Maranhão, para antes parar no Pará.
Queria que me dissesse que ele não era banqueiro, que faz
filantropia e que destina todo o dinheiro das suas participações
em conselhos a obras de caridade. Estava furioso com o
Jornal
Pessoal. Agora, nesse episódio (da condenação),
recebi uma carta do Jarbas Passarinho em solidariedade. Ele fez
o que nenhum colega meu fez. “Use essa carta, se quiser”,
disse ele. Fomos adversários. Nunca me processou. Mesmo quando
ele era o homem mais poderoso do Pará.
Nanani Albino – Que preço você paga?
No
Jornal Pessoal, quem quiser entrar, tem que
me convencer. Não interessa se é poderoso. O Hélio
Gueiros (ex-governador do Pará e ex-prefeito de Belém,
candidato nesse pleito de 2004 à prefeitura de Belém),
mandou uma carta para mim que começava assim: ”Lúcio
Flávio, porque tu não vais chupar o cu da puta que
te pariu?” Publiquei a carta. Ele não imaginava que
publicaria e nunca mais quis falar sobre isso.
Rogério Almeida – São quantos livros?
Dez livros e participação em muitas obras
coletivas.
Rogério Almeida – A produção dos livros
obedece à mesma lógica do Jornal Pessoal,
bancados por ti mesmo?
Agora, sim. Antes, não. O melhor que fiz foi bancado
por uma bolsa de pesquisa americana, da Universidade da Flórida,
que me permitiu falar mal de um dos símbolos americanos,
o Daniel Ludwig, do projeto Jari. Recebi uma boa bolsa de seis meses.
Passei seis meses pesquisando e estudando nos Estados Unidos, escrevendo
um livro contra um símbolo do capitalismo americano. Esse
foi o livro que mais me agradou. Quanto aos outros, não tive
essa retaguarda. Foi um dos melhores períodos da minha vida.
Guilherme Carvalho – Você é um homem
cético ou esperançoso?
Se fosse cético, já teria entregado as armas.
Tenho esperança. Agora, a minha consciência diz que
estou numa luta perdida. Vou continuar a luta até o último
dia.
Nanani Albino – Você acha que vai pagar atrás
das grades por expor fatos que mais ninguém publica?
Cipriano Barata foi muito mais jornalista do que eu. Toda
vez que ia para as grades, escrevia um jornal. Escrevia na guarita
da fortaleza maranhense. É um exemplo. O meu algoz, a Rosângela
Maiorana, que já foi minha amiga, disse que iria me mandar
para a prisão. Retruquei que o risco era que eu iria ter
tempo para escrever um
Jornal Pessoal por dia. Iria imitar
o Cipriano Barata. Como diz o Gramsci, pessimismo na inteligência,
otimismo na vontade. Tenho clareza que a máquina está
me triturando. Vou capitular? Não sei?
Nanani
Albino - Você falou que a salvação da Amazônia
está no mundo. Você acha que a salvação
para Lúcio Flávio Pinto está fora da Amazônia?
Na Itália, tem um grande jornalista chama Maurizio
Chiericci. É um dos principais enviados especiais da imprensa
italiana. Cobre todos os conflitos internacionais. Ele escreveu
um artigo no
L’Unità, na primeira página,
sobre o meu caso, edição do dia 19 de julho. Ele pediu
para não calar a voz da Amazônia. Além do artigo,
mandou uma carta para o embaixador brasileiro, o Itamar Franco.
Não interessa o que vai acontecer. Interessa que eu não
pedi. Foi ele quem me indicou para o maior prêmio de jornalismo
da Itália, em 1997. Fui o primeiro não europeu que
recebeu esse prêmio. No ano que recebi, o deputado federal
da Irlanda do Norte, John Humme, também ganhou. No ano seguinte,
ele foi Prêmio Nobel da Paz. Recebeu o prêmio também
um jornalista, poeta e escritor albanês, Fatos Lubonja, que
passou 19 anos preso, no regime de Enver Hoxxa. O governo brasileiro
mandou um funcionário da embaixada numa ocasião em
que estavam lado a lado, pela primeira vez na Europa, os embaixadores
da Inglaterra e da Irlanda. Ao registrarem o fato, o auditório
os aplaudiu. Depois vim a saber que o Itamaraty, consultado pelo
embaixador, havia dito que eu não era “confiável”.
Por isso o embaixador não foi. Fiquei contente em saber que
eu não era confiável para o poder. Mas triste como
brasileiro.
Rogério Almeida – Como você avalia a
presença dos Estados Unidos na Amazônia?
Os Estados Unidos não conseguem entender a América
do Sul. São incapazes. Clinton esteve para lançar
o Plano Colômbia em Nova Granada. Ele não conseguia
perceber que estava diante da sede de um poder imperial que foi
maior do que os Estados Unidos, que foi o da Espanha. No século
XVI, metade das universidades da Europa estava na península
ibérica. Nós levamos quatro séculos para fazer
a nossa universidade. A rigor, a nossa universidade foi criada em
1950, a Universidade do Brasil. Ele esqueceu que existe uma história
hispânica anterior aos Estados Unidos. Fomos maiores que os
Estados Unidos até D. Pedro II. Ele era uma pessoa brilhante,
mas infelizmente travou a nossa história por 50 anos. Quando
a biblioteca de Washington sofreu um incêndio, a Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro era muito mais rica e importante. Perdemos
o rumo da história nesse período. Entre 1822 e 1850,
não tinha Lei de Terras no Brasil, a lei, não escrita,
era a da ocupação, o princípio da posse, que
fez a grandeza dos Estados Unidos. Quando criaram a Lei 601, de
1850, a ocupação física foi substituída
pelo papel. E só pode ter papel, quem tem dinheiro. Liquidaram
com um projeto do Brasil, que estava na cabeça do patriarca
José Bonifácio. Ninguém fala desse período.
A diplomacia americana se baseia na falta de conhecimento. Qualquer
que seja o conteúdo do Plano Colômbia, ele é
trágico. Um equívoco para o continente e para os Estados
Unidos. Hoje o cidadão médio americano bem informado
não tem dúvida de que Bush deve ser colocado para
fora. Podem vir a fazer um novo Vietnã na América
do Sul se insistirem em mais presença física americana.
Temos que contrapor a ela uma integração econômica
continental. Tem que acabar com esse negócio de ALCA, Mercosul,
por algo mais amplo na América do Sul. Onde a gente possa
se unir para nos tornarmos mais fortes? Se você inverter a
direção da água no canal do Cassiquiare, vai
abrir o caminho pelo centro da América do Sul, vai entrar
pelo Caribe e vai sair na Bacia do Prata. Você vai acabar
com o esquema de comércio no mundo inteiro. Com uma inversão
de águas, você já começa a revolução.
Aí tem lógica fazer hidrelétrica no Madeira.
Enquanto isso não vem, não tem lógica. Nós
estamos trazendo 70 megawatts por dia do sistema Guri da Venezuela
para Boa Vista usar 32 megawatts. Estamos jogando fora o restante.
Guri é atualmente a maior hidrelétrica do mundo. A
estrutura do domínio do Estado é poderosa no sistema
de gestão do desenvolvimento venezuelano. A Venezuela pode
quebrar essa estrutura burocrática, que gera, de um lado,
americanofilismo, e de outro lado esse fidelismo do Chávez.
Temos que resolver as coisas passo a passo. Temos que mudar a matriz
de energia e o modal de transporte do continente. Não é
fazendo retórica contra plano Colômbia, fazendo SIVAM.
Isso é perfumaria.
Rogério Almeida-- Esse modelo de integração
econômica para o continente que você fala é via
ALCA?
Não. Acaba com isso de ALCA, Mercosul, ALADE. Vamos
trabalhar as nossas potencialidades.
Rogério Almeida – Quando você fala a
gente, fala América Latina?
América Latina. Só vamos pensar lá
fora depois que a gente fizer uma hidrovia do Caribe à Bacia
do Prata. Não podemos integrar para sermos esmagados. Carajás
não tem carvão, vamos trazer o carvão da Colômbia.
Guilherme Carvalho – Lúcio, construir uma hidrovia
desse jeito não significa destruir boa parte do pantanal?
Não vai passar no Pantanal. Passa ao largo. Sempre
defendemos que o caminho natural é o rio. Sempre brigamos
contra as rodovias. Por que agora achamos que todas as hidrovias
vão destruir? Podemos fazer hidrovias perfeitamente válidas.
Não podemos é fazer como foram feitas as rodovias
e as ferrovias. A hidrovia é para desenvolver o interior,
o núcleo das regiões conforme as suas aptidões.
Devemos optar por ciência e projetos que agregam valor.
Guilherme Carvalho – Isso é um problema. As
hidrovias não são pensadas nesse modelo. São
pensadas para soja.
A própria lei dá os antídotos para esse problema.
Só vamos aprovar hidrovias se tiver comitê de bacia.
Dos 103 comitês de bacia, nenhum é da Amazônia.
Não podemos aprovar um projeto de hidrovia sem um plano de
desenvolvimento, transformado em lei e aprovado pela Assembléia
Legislativa e referendado pelo Congresso Nacional. Terminou a fase
da esquerda dizer, sou contra, diagnostico certo, mas não
sei fazer. Tem que saber fazer.
Rogério Almeida – Você ainda está
dando aula?
Faz sete anos que não dou aula. Estou aprendendo
de novo.
Sobre os entrevistadores: Todos cursam o mestrado em planejamento
no Núcleo de Altos Amazônicos (NAEA), na Universidade
Federal do Pará (UFPA). Rogério é jornalista
e colabora no setor de comunicação do MST no Pará.
Nanani é jornalista. Guilherme é historiador e técnico
da FASE Pará.
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opinião