Ele participou da Democracia Corintiana
nos anos 80. Foi preso, perseguido por suas idéias e irreverência,
que até hoje mantém, como podemos conferir nessa
entrevista.
Entrevistadores: André Bertolucci, Antonio
Martinelli Jr., Débora Pivotto, Fernando do Valle, Oswaldo
Colibri Vitta, Sofia Amaral, Tatiana dos Santos e Thiago Domenici.
Fotos: Nino Moraes
. Animação:
Ligia Morresi.
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| Casagrande, o segundo em pé
da direita para a esquerda, no Clube Desportivo da Penha
(1977) |
Thiago Domenici - Vamos
começar
pela sua
infância: quais
são suas
lembranças e o primeiro contato com uma bola de futebol?
Acho que com três ou quatro anos já estava jogando
futebol. Meu pai jogava, me levava no campo de várzea,
sempre joguei bola. Nunca empinei pipa e nem joguei pião,
que eram as brincadeiras da época, só jogava bola.
Com seis anos já disputava pelo clube Desportivo da Penha
campeonato paulista no futebol de salão. Jogava na Portuguesa,
mas era corintiano. Um dia, voltando do treino do Dente de Leite,
vi uma faixa: “Peneira no Corinthians”. Desci do ônibus
e fui fazer a peneira do Corinthians, passei e não fui
mais na Portuguesa, meu pai foi saber disso só depois de
uns 10 dias.
Oswaldo Colibri Vitta - Não tinha nenhum palmeirense
na sua família?
Nenhum. Hoje tenho um filho palmeirense, um são-paulino
e um santista e a minha mulher também é santista.
Thiago Domenici - Quando você começou a jogar bola,
o Leivinha é que te inspirava?
No Palmeiras tinha o Leivinha, o Roberto era um centro-avante
do Botafogo do Rio, eu também gostava, o César Maluco...
eu, garotinho, quando fazia gol de brincadeira saia gritando “César
Maluco!” Mas o meu ídolo era o Rivelino. Por ser corintiano
de garoto, eu ia no estádio ver o Rivelino jogar.
Oswaldo Colibri Vitta - O César Maluco tinha um estilo
bem arrojado... Era o centro-avante da época,
né, brigador, fazia gol, subia no alambrado, chamava a
atenção da garotada. Eu achava demais.
Fernando do Valle - Hoje ele é comentarista também?
Não, ele tem um programa numa TV comunitária de
entrevista e tal, mas o Leivinha é comentarista e dos bons
na SportTV.
Thiago Domenici - Você jogava nas categorias de
base do Corinthians?
Comecei no Dente de Leite do Corinthians, tinha 11 anos, o Dente
de Leite passava na TV Tupi, com o Roberto Petri, o Eli Coimbra.
Meu treinador era o Luis Morais, apelidado de Cabeção,
o antigo goleiro do clube.
Fernando do Valle - Você é corintiano?
A minha família toda é e eu era corintiano de garoto,
mas nunca fui fanático. Ia ver jogo do Santos, do Palmeiras,
eu era fã do Leivinha e do César Maluco, mas a família
toda, meu pai até hoje, de radinho, é fanático!
André Bertolucci - E para que time você
torce mesmo?
Eu era corintiano e flamenguista. A única vez que mudei
foi quando o Rivelino foi para o Fluminense. Era meu ídolo
e comecei a ver um pouco o Fluminense, mas o Flamengo sempre achei
o máximo. A torcida, o Maracanã lotado, o Zico fazendo
gol, era uma coisa impressionante.
Thiago Domenici - E como comentarista?
Não torço pra ninguém, gosto, atualmente,
do Santos, do Robinho. Acho que o Robinho joga pra cacete. Eu
gosto na realidade, aprendi isso com o tempo, do bom futebol.
Fernando do Valle - Você acha que é o melhor time
hoje?
Acho o melhor time e com o melhor treinador, apesar de tudo...
Oswaldo Colibri Vitta - Você apareceu mesmo
foi no Dente de Leite?
Futebol de campo no Dente de Leite, joguei em 1975 e
1976. Acabou em 1977 mas continuei no Corinthians, onde fiz todas
as categorias. Joguei no C, A, B, Taça São Paulo
joguei duas, tive que optar entre salão e campo porque
jogava nos dois. Quando estava no juvenil de salão, na
Portuguesa, teve Portuguesa contra o Corinthians e eu fui jogar
no Parque São Jorge contra o Corinthians, aí os
caras falaram que era absurdo. “Você joga no Corinthians
no campo e à noite joga contra o Corinthians no salão!
Ou você vem pra cá ou pára o salão”.
Aí eu parei.
Thiago Domenici - Tem muitos jogadores que começam
no futebol de salão e depois vão para o futebol
de campo; o espaço pequeno desenvolve a técnica?
Exato, porque o futebol de salão é mais fácil.
Você pega dez caras, quatro na linha e tal, por isso que
todo mundo joga futebol de salão e fica com técnica,
já que o espaço é pequeno.
Thiago Domenici - O futebol brasileiro se destaca porque a maioria
joga futebol de salão antes?
Não sei se a maioria, mas acho que o salão tem influência,
principalmente na agilidade e velocidade de raciocínio.
Oswaldo Colibri Vitta - O Ronaldinho Gaúcho...
Denílson, Robinho, eles jogaram futebol de salão.
Robinho dá drible num palmo de chão.
Oswaldo Colibri Vitta - Foi na Taça São Paulo
que você apareceu?
Era onde apareciam os jogadores, a gente jogava a preliminar.
A massa já conhecia, chegava cedo pra ver o juvenil. Em
janeiro não tinha campeonato profissional e a imprensa
toda se voltava para a Taça São Paulo. Era o momento
de mostrar o seu valor.
Oswaldo Colibri Vitta - Você estreou bem no profissional?
Conta essa história que é boa.
Joguei na Caldense (
MG) em 1981, aí voltei e tinha
aquela idéia do Vicente Matheus de não poder fazer
nada. Falei: “não quero ficar, quero ir embora” e o Travaglini
queria que eu ficasse, eu já estava negociando com o América
do Rio e ele falou: “Não, você não vai embora”.
Assinei um contrato de três meses porque o Adilson Monteiro
Alves, diretor na época, falou: “acredita no trabalho,
vamos fazer um contrato de três meses, se você não
gostar, vai embora, dá um crédito pra gente da democracia”.
Fiquei no banco em dois jogos, aí contra o Guará
em São Paulo, na Taça de Prata, o Mário,
que era o centro-avante estava machucado e eu era o reserva imediato,
o técnico me colocou, fiz quatro gols no jogo contra o
Guará e não saí mais.
Fernando do Valle - Era o início de democracia corintiana?
É, janeiro de 1982.
Fernando do Valle - Como foi esse início?
Natural. O Adilson Monteiro Alves era vice-presidente de futebol
e tinha a idéia de dar liberdade aos jogadores. Não
foi uma coisa planejada, a democracia foi conquistando o espaço
naturalmente. Combinou a boa cabeça e preocupação
política de alguns jogadores com o comando do Adilson.
Fernando do Valle - Qual era a diferença? Não tinha
concentração, como era?
Isso é a idéia que todo mundo tem. O básico
no início era assim: a gente decidia as coisas de contratação,
esquema tático, se ia viajar no dia do jogo ou não,
uma participação política no clube e fora,
coisa que jogador de futebol não tinha antes. Era mais
nesse sentido, concentração vinha depois. Os casados
não se concentravam, os solteiros sim, mas isso era o de
menos, na realidade. Oswaldo Colibri Vitta - Como era o cronograma?
O Sócrates era a liderança? Tinha o Zenon e outros
jogadores que não eram muito atentos ao próprio
grupo, como o Biro-Biro? A liderança era o Adilson, que
era o diretor. Depois, com o tempo, quem participava mais foi
tendo uma liderança natural, que no caso, fui eu, o Wladimir
e o Sócrates, cada um com a sua importância. O Magrão
(
Sócrates) era o grande ídolo do Brasil
junto com o Zico e a importância dele era muito grande.
Os outros não participavam tanto, como o Zenon e o Biro.
Oswaldo Colibri Vitta - E o Leão? Ele não participava
das reuniões?
Ele participava, mas remava contra. Era o líder do grupo
que não concordava com a democracia. O Leão chegou
em 1983, teve uma votação, eu fui contra, os caras
apoiaram. A aceitação dele foi a maior prova da
democracia. Ele foi um cara importante no título, a gente
já sabia que ele era contrário ao nosso processo.
Oswaldo Colibri Vitta - Mas era importante a presença
dele no grupo?
A importância dele não era para provar que
a democracia era legal e justa. Dentro de campo ele tinha que
jogar fora, cada um tinha sua liberdade, isso é democracia,
ele não era obrigado a ser favorável a gente. Tinha
que fazer a parte dele. Jogou um ano, depois foi para o Palmeiras,
mas teve sua importância. Nós fomos campeões
em 1983 e ele pegou pra cacete.
Thiago Domenici - E o estilo Casagrande de se vestir? Naquela
época sofreu algum tipo de preconceito, você usava
cabelão, curtia rock e tal...
Na época era normal. Cabelo grande, calça jeans
largados, algumas pessoas tinham um certo preconceito, não
porque era jogador. Não tive problema algum por causa disso.
Vivia normalmente, calção baixo, nunca tive problema
de perseguição. Achavam gozado, é diferente,
jogador sempre gostava de pôr uma roupinha legal. O Magrão
se vestia assim, era igual, o Vladimir a mesma coisa. Dentro do
grupo existiam pessoas diferentes que se vestiam como eu, é
que eu era jovem, tinha 19 anos.
Oswaldo Colibri Vitta - Esse momento que você
chega ao Corinthians, você é o garoto rebelde, como
você avalia isso?
Acho que rebelde é o seguinte: eu fazia coisas
que todo mundo faz com 19 anos, eu era normal, diferentes eram
os caras que achavam que eu era anormal. Tinha 19 anos e gosto
de
rock até hoje, o tempo muda mas na época
era aquilo, não tinha diferença, eu era igual a
um monte de gente, só que jogador de futebol.
André Bertolucci - O que você escutava na época?
Tutti Frutti, Rita Lee, Casa das Máquinas, Made in Brasil,
era o
rock da época, anos 70, MPB eu gostava bastante,
Alceu Valença, Moraes Moreira, Geraldo Azevedo, a MPB era
forte, tinha peso, não é isso que é hoje.
Oswaldo Colibri Vitta - E internacional?
Deep Purple, Beatles, Janis Joplin...
Fernando do Valle - E de hoje você não curte nada?
Novo, meu, difícil... Red Hot Chilli Peppers, acho legal,
Pearl Jam, mas muito pouco, meu, eu não gosto muito das
bandas de hoje.
Débora Pivotto - Nem nacional?
Rappa, Charles Brown Júnior, às vezes, dependendo
da música. Chico Science, eu achava legal, mas sou muito
fiel aos anos 80 no
rock nacional: Titãs, Ira,
Plebe Rude, é o que mais ouço de música nacional.
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| Casagrande no Torino com
seus filhos Hugo Leonardo, são-paulino, e Vitor
Hugo, palmeirense |
Thiago Domenici - E os seus filhos escutam o quê?
A coisa que eu mais me preocupei foi isso. Futebol eu deixei à
vontade...
Sofia Amaral - Eles gostam de futebol?
O mais velho não, esse está fazendo faculdade de
Rádio e Televisão.
Tatiana dos Santos - E a idade deles?
Um 18, um 14 e outro 11. Os dois pequenos gostam de futebol pra
cacete.
Thiago Domenici - Você falou que se preocupou, como assim?
Ah, eu só colocava
rock pra eles. O meu
filho tem 11 anos, quando tinha quatro, ele entrava no carro e
falava: “pai, coloca Titãs”; com seis, ele já procurava
a música que ele queria, e eles gostam de
rock
os três, eu tive influência, pressionei.
André Bertolucci - Você tocava guitarra?
Muito pouquinho. Adoro guitarra, fiz conservatório na Itália
um ano e meio, mas não tenho o dom, não consegui
aprender. Eu olhava e pensava como é que os caras conseguiam
fazer, tentei umas três vezes, mas não toco nada.
Thiago Domenici - Falando da Itália, você
jogou no Áscoli e no Torino. Como foi esse período?
Primeiro, fui pra Portugal, fiquei seis meses no Porto e depois
fui pra Itália, tenho dois filhos que nasceram lá,
formei uma família ali. Casei aqui em 1985 e em 86 fui
embora e aprendi a cultura italiana, o país é maravilhoso
e o futebol é organizado, aprendi tática, aqui no
Brasil ninguém se preocupava com isso. Na Itália
você aprende, fiquei muito mais preparado na parte profissional
e também familiar. Fiquei lá por sete anos e voltei
conseguindo enxergar principalmente a organização
tática de um jogo. Acho que isso é o mais importante
para os jogadores quando eles vão. Você vê
que eles voltam mais fortes e diferentes porque eles aprendem
isso.
 |
| Sua estréia no futebol
italiano em 1987, jogando pelo Áscoli, empate de
1 a 1 contra o time da Roma |
Fernando do Valle - Você foi ganhando muito mais do que
ganhava aqui?
Não se pagava tanto como se pagava há dois
ou três anos atrás, que era um absurdo, os caras
estavam ganhando duzentos, trezentos paus, mas eu ganhava legal.
Oswaldo Colibri Vitta - Você casou e foi pra Itália?
Conta a história do love no Corinthians...
Minha esposa jogava vôlei no Corinthians, aí um dia
eu saí do treino e encontrei com ela, fiquei apaixonado
na hora e comecei a ver o treino todos os dias. Ela não
estava nem aí. Daí conheci as meninas e pensei:
“onde ela estiver, eu vou estar”. Aí as amigas me falavam:
“hoje nós vamos jantar em tal lugar, eu ia, hoje tem jogo
no Pinheiros, e eu lá em todos os lugares, só não
estava no quarto dela. Ai acabei conhecendo, pichei o muro do
Corinthians...
Sofia Amaral - Pichou o muro do Corinthians?
O nome dela é Mônica, fiz o desenho da Mônica
(
HQ), fui ao Corinthians à noite, pichei e escrevi
um negócio pra ela, aí eu fui buscar ela no treino
e ela teve uma surpresa.
Débora Pivoto - Mas o que você escreveu?
“Fica comigo”.
Oswaldo Colibri Vitta - É um homem romântico?
Três meses de romantismo. Ela jogava ali, o contato foi
no esporte mesmo, todo dia eu estava no treino e os caras tiravam
uma onda. O Magrão dizia: “vamos embora, vamos trabalhar”.
Eu respondia: “não, vou ficar aqui no treino”. E ele: “Você
tá louco, meu, a menina nem te olha”.
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| Pela seleção, na Copa
do México (1986). Reprodução do site:
www.sporting-heroes.net. Foto: JoeMann |
Oswaldo Colibri Vitta - E ela está com você
até hoje?
Até hoje, tenho três filhos, são 19 anos de
casamento. Ela é professora de Educação Física,
tem uma clínica de fisioterapia, de recuperação
de coluna em Alphaville. A minha família foi formada lá
na Europa mesmo, eu não sabia o que era casamento e nem
como seria. Casei em 85 e fui pra Copa (
86), fiquei mais
fora do que em casa. Quando fui pra Portugal é que eu via:
“tô casado, um filhinho ali, cacete”. Aí comecei
a sacar o que era uma família, uma vida com outra pessoa.
Thiago Domenici - E a seleção brasileira, você
tem uma certa frustração por ter jogado relativamente
pouco em relação aos outros?
Olha, às vezes, eu penso, não sei se é frustração,
mas poderia ter jogado mais, ter ido antes para a seleção.
Em 1982 fui artilheiro do campeonato paulista com 19 anos, revelação
do ano, ganhei a Chuteira de Prata e não fui convocado,
só fui ser convocado em 1984, joguei as eliminatórias.
Fui como titular pra lá, perdi a posição
para o Muller no início – era o terceiro jogo. Não
estava bem mesmo, tinha que sair, estresse físico. Pô,
mas depois da Copa tinha 23 anos só, né! Parece
que os caras já tinham me colocado como parte daquele grupo
de 82. Fui campeão europeu, campeão da Copa Itália,
vice-campeão da copa UEFA com o Torino e vice-artilheiro.
Estava em um momento bom e não era chamado. Depois comecei
a ter uma visão diferente: não era obrigado a ser
convocado, o cara tinha várias opções, isso
aí é que me confortou, porque no início eu
pensava: “não é possível”. Comecei a ver
que o cara tem esse e aquele e escolhe quem quiser. Aceitei numa
boa, não é frustração, não,
mas acho que poderia ter jogado mais. Por exemplo, a Copa de 90
eu poderia ter participado.
Oswaldo Colibri Vitta - Nesse tempo você já
estava na Itália, tinha ligações políticas...
Tinha um problema muito grande porque era ligado à democracia
corintiana e à esquerda do país. O Magrão
parou de jogar e pelo respeito que ele tinha não era atacado
como eu e quando ele parou fiquei um alvo bem mais fácil,
acho que teve uma certa influência a minha visão
política.
André Bertolucci - Ficou um estigma da democracia?
Até hoje... não contra, hoje é maravilhoso,
ficou para a história do país. Na época,
no relacionamento com as pessoas do futebol era complicado, isolado.
Todo mundo junto era forte. Um em cada canto era complicado.
Oswaldo Colibri Vitta - O Corinthians hoje é democrático?
Não, nenhum clube é. Todo mundo quer o jogador alienado
de tudo porque os caras controlam, ganham grana em cima e tal,
mas eles têm a opção de falar ou de reivindicar
qualquer coisa. Não fazem porque não querem, na
nossa época nós batemos de frente.
Oswaldo Colibri Vitta - Não é uma visão
diferente, hoje o cara não fala por medo de não
receber...
Não sei por que, acho que ele não quer perder o
espaço. Ele está ali, ganha 70 paus, “pra que vou
brigar com o cara?”, fica na dele. Então, não acho
que é medo assim de bater de frente, é cômodo,
“tô bem, pra que vou arrumar problema pra mim?”.
Sofia Amaral - Você tinha uma participação
política fora do Corinthians também?
Eu e o Wladimir nos filiamos ao PT desde o início.
Junto com o Magrão, participamos das Diretas-Já,
apoiei o Lula em 1982 para o governo (
estadual de SP),
participei da campanha da Bete Mendes para deputada. Nenhum jogador
fazia isso e nós tivemos essa participação
natural, não foi nada combinado: “vamos lá, vamos
pro PT” como muita gente fala. Por isso que nós tivemos
essa participação fora, acho que o ponto mais importante
da democracia foi esse, a participação de uma equipe
de futebol do povo, como o Corinthians, participar da vida política
do país.
Fernando do Valle - Você conheceu o Lula nessa época?
Tenho uma foto histórica. Quando fui me filiar
estava eu, o Wladimir e o Pita, que é secretário
do Pacaembu hoje. Eu, Pita, Lula, Estevão, da Ponte-Preta,
no dia que abriu a sede do PT na rua Santo Amaro, no centro, e
o Lula lá do lado da gente, como hoje, mas menos arrumado.
Antonio Martinelli Jr. - Até quando você foi filiado
ao PT?
Fiquei uns três, quatro anos. Quando fui embora não
fiz mais nada.
Antonio Martinelli Jr. - Você votou nele na última
eleição?
Sempre votei no PT, nunca votei em outro partido
Débora Pivotto - E você está feliz com o que
tem agora?
Não, estou muito decepcionado com a Marta Suplicy.
Sofia Amaral - Por que?
Acho que ela não teve planejamento e estrutura, o que pensei
que teria, ela se deslumbrou com o poder. Teve um momento em que
ela só queria sair para as festas, se arrumar pra tirar
fotografia e esqueceu um pouco da cidade. Quando lembrou da cidade,
resolveu fazer tudo ao mesmo tempo, a cidade está um caos.
Você fica três horas e meia no trânsito, em
qualquer lugar, dia e horário. Honesta ela é, mas
não teve planejamento. Se você colocar, de sacanagem
um cone na marginal, ela pára. Vai de manhã e põe
um cone, no outro dia tem 100 quilômetros de congestionamento.
Ela me decepcionou bastante.
André Bertolucci - E o governo federal?
Gosto e acredito no Lula, a história dele é sensacional.
Um cara que saiu lá de baixo e brigou, então ainda
acredito. Vejo toda essa galera que conheci como o José
Dirceu... me decepcionou pra cacete, mas acredito que o negócio
vai funcionar. Acredito na honestidade deles. Aqui em São
Paulo não, a Marta perdeu um voto e perdeu um apoio, não
sei se forte ou não e não sei tem importância.
Antonio Martinelli Jr - Então você vai votar
na Luiza Erundina dessa vez?
Provavelmente.
Oswaldo Colibri Vitta - Quando você voltou da Europa
pensei: o Casão está muito comportado, esperava
uma atitude mais rebelde.
Voltei assustadíssimo, com 30 anos e os caras achavam que
eu tinha 19, com três filhos e os caras achavam que eu era
solteiro. Voltei depois de sete anos, cai no Rio de Janeiro em
um caos tremendo.
Oswaldo Colibri Vitta - Você ia pro Flamengo?
Eu ia voltar pra São Paulo mas sempre sonhei em jogar no
Flamengo. Aí pintou o Flamengo e resolvi voltar. Fui pra
São Conrado, ia comprar um apartamento. Foi a época
da chacina da Candelária, Vigário Geral, arrastão
na praia e eu morava em frente à Rocinha, em São
Conrado, saía de manhã pra andar de bicicleta e
pensava: “que lugar maravilhoso mas o que está acontecendo
aqui?”. Ia morar lá e fiquei com medo pela minha família,
que só tinha vivido na Itália onde deixava a porta
aberta, não tinha preocupação nenhuma, e
aqui, seqüestro, morte... Foi aí que apareceu no Corinthians
aquela manifestação no Pacaembu, a torcida pedindo
a minha volta, falei “vou voltar pra São Paulo”, rescindi
o contrato e voltei. São Paulo foi a mesma coisa, tinha
um medo terrível, tanto que mudei pra Alphaville por isso,
pensei: ”vou levar os meus filhos pra um lugar parecido com aquele
em que morava”. Já queria voltar, já estava lá
há sete anos, tinha mais um ano de contrato, sabia que
não ia mais ficar na Itália, estava cansado, queria
voltar pra o Brasil de qualquer jeito.
 |
| Festa do fim do ano de 88 na casa de
Júnior, em Pescara, na Itália. Da esquerda
para a direita: Casagrande, Edmar, Renato Gaúcho,
Júnior e Careca. |
André Bertolucci - Na Itália, você
tinha amizade
com os
jogadores?
Fiquei igual a eles, o europeu é frio e depois
de quatro anos fiquei frio também. Era amigo no dia-a-dia,
mas sem vínculo, não ia à casa de ninguém,
ficava na minha casa, saía do treino e voltava pra casa.
Sofia Amaral - E você não sentiu um choque cultural?
Porque muitos jogadores às vezes, quando vão pra
fora, ficam meio em crise.
Aprendi muito, usei muito aquilo ali. Pô, a Europa
é maravilhosa, a Itália é sensacional. Um
cara como o Viola que foi pra Espanha e voltou porque não
tinha feijão, não se adaptou à comida espanhola,
coisa que não entra na cabeça. Num lugar como Portugal,
Itália e Espanha, você come muito bem. Isso não
é desculpa. O frio talvez, mas você se adapta. O
que o país te apresenta e joga na sua cara de cultura,
se você aproveitar aquilo, você cresce muito, e foi
o que fiz. Quer dizer, comecei a ir a museu com minha mulher,
a
shows, restaurantes, a cidadezinhas. Quando tinha folga,
pegava o carro e, no meio da estrada, entrava em uma cidadezinha
minúscula, histórica.
André Bertolucci - Mas você tem uma formação
cultural diferente da maioria dos jogadores?
É, eu tenho colégio. Não sou formado em nada.
Talvez a diferença da maioria dos jogadores seja o meu
interesse. Sou interessado por tudo, leio muito, faço tudo
de tudo, por isso que minha vida é uma correria, estou
aqui com vocês hoje, amanhã vou almoçar com
um cara que quer fazer um evento beneficente, sempre me interessei
pelas coisas, talvez por isso eu tenha ficado lá por sete
anos, porque tudo me interessava.
André Bertolucci - Você parou no colegial?
Parei no colegial.
André Bertolucci - Você pretendia fazer alguma faculdade?
Sempre achei que seria jogador de futebol, não
era a minha meta, mas já estava envolvido naquilo. Acho
que seria jornalista, acho legal.
Oswaldo Colibri Vitta - E qual exatamente o ponto em que você
pára de jogar futebol e vira comentarista?
Sofia Amaral – E como foi a sua parada. Como você resolveu
parar?
Parei porque treinava a semana toda, adorava treinar,
mas não queria jogar aos domingos.
André Bertolucci - Com quantos anos você estava?
Trinta e treinava a semana inteira. Não queria
viajar, queria ficar em casa. Trabalhava a semana toda e pensava:
”puta, viajar, concentrar”. Daí, comecei a perceber que
estava querendo ser uma pessoa normal. Vou ao Ibirapuera e corro
de manhã, na academia à tarde e final de semana
estou em casa. Não preciso ir ao Corinthians ou nenhum
outro time. O joelho também me atrapalhava. Fiz muitas
cirurgias, era um saco, antiinflamatório toda hora. Falei:
“vou parar, não estou mais a fim”. Foi quando surgiu o
Trajano me convidando para comentar na ESPN. Não fizemos
nem contrato. Entrei assim, sem me preparar, não fiz nada.
Ele achou que ia dar certo.
Débora Pivotto - Quando foi?
Eu parei em 94.
Oswaldo Colibri Vitta - Qual foi o último time?
Oficialmente no Corinthians. Joguei no Paulista de Jundiaí,
no São Francisco do Conde, na Bahia, mais por
marketing.
Foram dois jogos na Bahia e dois no Paulista.
Oswaldo Colibri Vitta - Não teve despedida?
Não, acho isso uma grande bobagem. O ator não se
despede, o jornalista não se despede, por que o jogador
tem que se despedir? Isso é uma coisa de vaidade e eu não
sou vaidoso.
Oswaldo Colibri Vitta - Você
foi ser comentarista. Foi testado pelo Trajano?
O Trajano me chamou e me deu uns toques. Fiz
todo um trabalho de 1996 até junho de 97, quando a
Globo
se interessou, o cara me chamou, fui num teste, comentei
um jogo que não passou na TV, comecei a me preparar quando
vi que o negócio ia pegar na
Globo. I a fazer
um contrato e tinha um cabelo enorme. Cortei o cabelo, fiz a barba
e fui pro Rio, e os caras: “legal, vamos fazer o contrato, mas
você tem que cortar o cabelo” e eu falei:“meu, cortei ontem”!
Thiago Domenici - Nessa sua entrada como comentarista,
você tem uma passagem na tv com o Marcelo Fromer, que foi
seu grande amigo?
Fizemos um programa na
MTV na Copa de 94, era
o
Bola na Mesa, eu, o Nando Reis, Astrid e o Fromer.
A gente não tinha imagem dos jogos, então fazíamos
comentários com uns bonequinhos: “e no gol do Brasil, o
Cafu veio pela ponta, cruzou e entrou não sei quem” e pegava
os bonequinhos, comédia. Depois desse programa, começamos
a fazer rádio, eu e o Fromer. Fizemos um programa no
Sportv
na Copa de 98 que se chamava Bistrô Brasil.
Thiago Domenici - Essa participação com
o Fromer foi rádio?
Foi rádio e jornal. Nós fizemos rádio,
jornal e televisão:
S portv, 89 FM, Brasil
2000, Transamérica, Notícias Populares
e tudo o que a gente planejava. Quando ele bolava um negócio,
era eu com ele, surgia alguma coisa pra mim, colocava o Fromer
na parada, porque a gente trabalhava junto.
Fernando do Valle - Como vocês se conheceram? Onde foi?
A gente se conheceu em 1982 num programa chamado
Fábrica
do Som, na
TV Cultura, que era gravado no SESC –
Pompéia, alternativo e
underground, estava lá
direto. E um dia chegaram os Titãs do Iê-Iê,
nem era Titãs ainda. Eles chegaram, “é o Casagrande”
e tal. Daí tive o primeiro contato com o Fromer e o Nando.
A amizade mesmo surgiu quando voltei da Europa. Ele me ligou,
eu nem o conhecia direito. “Eu sou o Marcelo Fromer dos Titãs,
beleza, vai ter um programa na
MTV os caras estão
afim de fazer eu, você, o Nando, o que você acha?
Não tem grana”. Falei: “Marcelo, esquece a grana, vamos
fazer”. Aí fizemos, pegamos amizade, ele tinha a mesma
filosofia e pensamento que eu, gostava de fazer as coisas. A grana
era à parte. Dinheiro, se chega é legal, mas se
não vier, estava legal o negócio, a gente fazia.
Isso que ligou mesmo a gente. Eu falava com ele umas dez vezes
por dia, todos os dias. Qualquer bobeirinha, a gente marcava no
Bolinha, só para trocar idéia.
Tatiana dos Santos - Vocês iam escrever um livro, né?
Estávamos fazendo um livro. Ele que queria na verdade,
me encheu o saco, falei: “Marcelo, não quero biografia,
isso ai é uma bobagem”. “Não, vamos fazer, sua história,
é legal”. Eu falei: “então, vamos fazer um negócio
diferente. Vamos pôr bastante fotografia, desenho, uma linguagem
diferente,
pop, jovem” – começamos a gravar um
monte de fitas, que preciso pedir pro Nando recuperar pra mim.
Eu parava num bar e ficava conversando, só que depois de
três conhaques e três camparis o papo da minha vida
ia embora. Eu começava a viajar por outros papos e outras
historias. Tem 80 fitas lá.
Oswaldo Colibri Vitta - Pô, mas vai sair o livro um
dia, não vai?
Não, não vai. Esse livro não sai. Esse livro
já era. Esse era o livro do Fromer.
Thiago Domenici - Você naturalmente ficou chocado, como
todo mundo, com a morte dele?
Fiquei bastante chocado e decepcionado. Porque, na verdade, eu
tinha uma visão de amigo até conhecer o Fromer.
Descobri que amizade não era aquilo que eu conhecia. O
que eu tinha antes, sei lá como chama, colega forte, super
amigo, super colega, mas não era amizade. Amizade era aquilo
que o cara me passou. Desinteresse total de qualquer coisa. Se
você ligasse pro cara três horas da manhã,
falasse “Marcelo, tô com um problema”, “Então me
diz onde você está?”. Não dá para explicar.
Oswaldo Colibri Vitta - Ele era da sua idade também,
né?
Da minha idade. Nunca vi assim um cara tão disponível
pra qualquer situação como ele.
Débora Pivotto - Voltando um pouco ao seu ingresso
na Globo...
Estava na ESPN, teve as finais do Campeonato Paulista
de 97 e a Globo me ligou, falou: “nós queremos que você
faça as finais”. Eu falei:”eu não posso fazer porque
tenho compromisso com a ESPN, mas depois a gente conversa”. Ai
fui conversar, fiz um teste, o cara gostou, fizemos um contrato
de seis meses, fui me adaptando e eles foram se adaptando a mim
também, porque depois comecei a não cortar tanto
o cabelo, a minha gravata começou a ficar torta. Foi cedendo
um de cada lado, o negócio foi se moldando. Como eu falava
muito rápido, tinha aula com o Pasquale – de tempo, de
colocação e tal.
Oswaldo Colibri Vitta - O Sócrates,
quando você estreou na Globo, falou: “não
é o Casão...”
O primeiro jogo que eu fiz foi Palmeiras e Fluminense, no Parque
Antártica, com o cabelo cortadinho, gravata, terno e eu
não uso isso de jeito nenhum, estava que nem um robô.
Perguntavam o que eu achava do jogo e eu não conseguia
me mexer, cara. E eu pensava: “que coisa é essa, não
é possível”. Com o tempo, fui me soltando.
Oswaldo Colibri Vitta - Os seus amigos ficaram todos
espantados?
Tinha o terno inteirinho, calça, sapato. Foi passando
o tempo, fui conquistando espaço e tirando o sapato, ia
de tênis. Hoje vou de calça
jeans, camisa
normal e só levo a parte de cima do terno. Na realidade,
as pessoas têm a imagem de uma pressão grande na
Globo, mas não é assim. Tem esse lado, mas não
chega n a gente. Deve ser lá em cima, uma cobrança
entre eles, lá na cúpula e nunca me falaram: “você
não pode falar isso ou você deve falar aquilo, nunca”
Tatiana dos Santos - As aulas com o Pasquale foram uma
escolha sua?
A primeira, não. Os caras falaram: “vamos conversar com
o Pasquale, você está falando muito rápido,
não está dando para entender e, às vezes,
você está cortando uma letra, comendo palavra e tal.
Depois, comecei a pedir para o Pasquale :“vamos pegar umas fitas
pra dar uma olhada”. A gente ia lá, ficava olhando a fita,
trocando uma idéia, o que dá para usar – o que vai
ficar pesado para ele ouvir –, tento fazer o comentário
como estou falando com vocês, corto algumas palavras, gírias,
que não ficam legal mas eu não fico me policiando
com o que eu vou falar.
Thiago Domenici - Dá um exemplo do que você falava
assim e não podia.
Não, tudo podia, mas por exemplo: “cara”. “O cara
chutou”, o cara quem? O cara é o Ronaldinho ou o Pelé.
Então o Pelé chutou bola e entra o comentário
e você: ”pô, o cara chutou mal”. “O cara é
o Pelé, você está louco?”
Oswaldo Colibri Vitta - V ocê falava “bicho” também?
Falo até hoje. Quando sento pra fazer o jogo,
fecho alguma coisa.
Oswaldo Colibri Vitta - Você se policia?
Não, não me policio, é natural. Entro ali
e já sei o que posso usar e não posso usar.
Thiago Domenici - O Galvão Bueno é um cara
que muitos odeiam e outros amam. Como é trabalhar com ele?
Profissionalmente, ele é sensacional, sabe tudo de televisão.
Já passei cada apuro, de cair a imagem ou entrar na hora
que não tem de entrar e o cara sai numa boa, eu, se estivesse
sozinho ia chorar na frente da câmera. Ele é vaidoso
pra cacete, você tem que se adaptar.
Thiago Domenici - Vocês já tiveram alguma briga nos
bastidores?
Não. Nós não somos amigos assim de sair.
Ele tem o jeito dele e eu tenho o meu. Trabalhamos numa boa, não
tenho problema nenhum com ele.
Oswaldo Colibri Vitta - Mas a gente percebe que você
com o Cléber Machado fica mais solto.
O Cléber tem a minha idade, a mesma visão de televisão.
Acho legal transmitir um jogo conversando, trocando idéias,
o Galvão é mais tradicional, é narrador,
pergunta para o comentarista. Então fica um negócio
mais normal, que é legal também.
Oswaldo Colibri Vitta - Vou fazer uma provocaçãozinha:
lá na Ferrari a gente sabe quem o piloto número
um, e na Globo, quem é o comentarista número
um?
Não tem na
Globo, pelo menos na parte técnica
eu e o Falcão fazemos a mesma coisa.
Tatiana dos Santos - Vocês vão sempre aos jogos?
Não. Antes sim, mas agora a maioria das vezes está
sendo no estúdio, por vários motivos, mas principalmente
pela falta de estrutura de algumas cabines.
Tatiana dos Santos - E quando é fora do Brasil?
Quando é a seleção, sim. Copa do
Brasil e outros campeonatos não estamos indo, não.
Sofia Amaral - E se cai a imagem?
Um problema, mas pior é que no estúdio o comentarista
e o narrador têm a visão igual à sua em casa.
O comentário fica muito óbvio. Aquilo que eu falo,
você está vendo. Quando estou no campo falo coisas
que você não está vendo. Não gosto
de fazer no estúdio, fica sem conteúdo. O que gosto
é de usar as outras coisas do campo, o contra-ataque: o
Palmeiras está atacando, mas se o Paulista pegar a bola,
não tem ninguém aqui defendendo, quer dizer, o que
o pessoal não está vendo.
Oswaldo Colibri Vitta - Você vai a treinos?
Às vezes. Comecei a ir, mas é muito complicado.
Vou no São Paulo, que dá pra ir.
Sofia Amaral - Por que?
Porque o São Paulo é legal, tranqüilo, nunca
acontece nada. Não posso ir ao Corinthians ver um treino
e no Palmeiras, nem pensar.
Fernando do Valle - Você já foi hostilizado
pela torcida?
Várias vezes. Em Salvador passei um apuro ferrado. Barradão,
campo do Vitória, acabou o jogo fomos pegar o avião
e o Arnaldo (
César Coelho): ”vamos sair rápido,
vamos sair rápido.” Quando saí, era uma rua só
e estava toda a torcida do Vitória, último jogo
do campeonato e o Vitória precisava ganhar do Corinthians
para se classificar, só que o Corinthians ganhou de 3 a
2 e eu tinha jogado no Corinthians, na hora que a torcida me viu,
eles queriam me matar. O Arnaldo voltou para o campo e fiquei
sozinho na rua. Dez mil torcedores do Vitória e eu. Daí
um cara tacou uma latinha de cerveja cheia, a latinha não
pegou, pensei: “não posso sair andando, vou ficar aqui.
Daqui a pouco, eles vão se acostumar comigo. Se sair vou
encontrar sempre gente nova. Aqui não, eles vão
me xingar, mas daqui a pouco vai ser normal. Meu raciocínio
acho que foi lógico, porque vinha outro lá e ia
ficar com bronca, tava perdido, não tinha saída.
Parou um táxi, era um casal paulista em lua-de-mel em Salvador,
falaram para eu entrar no táxi. Os torcedores quase viraram
o táxi, me jogaram cerveja. Depois o taxista conseguiu
me levar para o aeroporto.
André Bertolucci - Em que ano foi isso?
Acho que em 1998, um ano que o Corinthians foi campeão
brasileiro.
Oswaldo Colibri Vitta - Então você tenta sempre
medir as palavras?
É complicado, se colocar uma palavra que tem duplo sentido,
às vezes pode estar elogiando o time do cara e ele acha
que está desmerecendo. Posso comentar dez jogos do Santos,
falar que é o melhor time do Brasil, que o Robinho joga
muito e o torcedor dizer que eu só falo mal do Santos.
Tento colocar sem parecer prepotente, arrogante, dono da verdade.
É a coisa que eu mais me preocupo, às vezes fica
até repetitivo, gosto de passar o comentário dando
a possibilidade de você achar que estou errado, uso ‘eu
acho', ‘na minha opinião', isso tira a prepotência.
André Bertolucci - Em rádio também?
Vocês são jornalistas e eu tenho que falar
pra vocês que 99,9% dos jornalistas são arrogantes
e prepotentes. O índice aumenta ou diminui, tem cara que
é menos e tem cara que é mais. Isso é porque
convivo com os caras todos os dias e é difícil você
falar alguma coisa e o cara aceitar a sua opinião. Todo
dia, alguém fala: “Você tá louco?”..”Tô
louco, por que? É a minha opinião, a sua é
uma, a minha é outra”. Jornalista tem muito disso. Eu não
sei por que.
Fernando do Valle - Tem algum comentarista que você curtia,
que você se baseou no começo?
O João Saldanha eu achava do cacete, as tiradas deles eram
sensacionais. Gosto do Paulo César Vasconcelos, da ESPN
e do Paulo Calçade, que está na TV
Record agora.
Thiago Domenici - Qual a sua opinião sobre a lista do Pelé?
Não entendi isso direito, ele entrou numa roubada, o Pelé
só entra em roubada.
Oswaldo Colibri Vitta - O Pelé não, o Édson.
Ele pegou a lista, falou para o assessor dele mandar buscar e
achou que assinar seria legal. Quando viu que a bomba estourou:
“ih, deixa eu ver essa lista, coloca o Rivelino, coloca num sei
quem”. Achou que era uma coisa insignificante, que não
aconteceria nada. Tinha de ter muito jogador em atividade ainda...
Uma lista complicada. Ele não deveria ter entrado nessa
roubada.
Oswaldo Colibri Vitta - Política, né?
Lógico.
André Bertolucci - Quando você era jogador, você
fumava, né?
Fumava dois maços de cigarro por dia.
André Bertolucci - E parou depois...
Fui diminuindo. Quando cheguei na Itália, falei: “puta,
eu fumo demais. Então não vou fumar de manhã,
vou guardar dois para depois do almoço, dois para depois
do jantar e mais um se eu quiser ver um filme”. Ficar a manhã
toda sem fumar pra um cara que fumava dois maços não
é fácil..., mas fui controlando, fiquei todo o tempo
na Europa e no Rio assim. Um dia vim pra São Paulo, saí
numa balada com uns amigos, fomos pra casa batendo papo e fumando
cigarro. Já tinha fumado um maço na noite, aí
bateu na minha cabeça: “meu, demorei sete anos pra diminuir
essa porra, aí numa noite já fumei um maço
e vou abrir outro maço.” Peguei os pacotes, distribuí
e nunca mais coloquei um cigarro na boca.
Oswaldo Colibri Vitta – Mas lá no Corinthians
o Magrão também fumava pra caramba...
Fumava. O Magrão fumava no intervalo.
Débora Pivotto - Nunca teve pressão de treinador?
Nunca ninguém falou nada.
Thiago Domenici -
Todo mundo deve perguntar essa história pra você:
de quando a Rota te parou por causa de cocaína...
Tinha 19 anos e foi em 1982, era a época da democracia
corintiana, eu estava incomodando muito. Era artilheiro, fiz a
moda da época. Toda a garotada da época queria ser
igual a mim, qualquer coisa que eu falasse, o pessoal ia atrás
do que eu curtia e eu era uma presa fácil, estava em todo
lugar. Avisaram, um mês antes, assim: “ó, vai ter
alguma coisa armada contra o Corinthians, contra a democracia,
e o alvo é o Casagrande.” Só que nós pensávamos
que era o São Paulo querendo prejudicar a final do campeonato.
Então fui pro hotel e fiquei concentrado dez dias, só
ia treinar e voltava. Acabou o campeonato, fomos campeões,
baixamos a guarda, falamos: “porra, o campeonato já era”.
Ninguém pensou mais nisso, em armadilha, nem nada. Fui
pro Rio com o Magrão, a gente jogou na seleção
paulista, voltei. Nesse dia eu estava na porta da casa de um amigo
onde a gente ia passar o Natal, todo ano a gente ia na casa de
alguém. Era dia 23, estava a mãe dele na porta,
ele fazendo a manobra e passou a Rota. Os policiais da Rota desceram
com a sirene ligada, metralhadora, coisa que nem com o Fernandinho
Beira-Mar fizeram. Desceram de metralhadora, “mão pra cabeça”
e o cacete, revistaram o carro e não sei o quê, fingindo
até que não me conheciam, o que era impossível,
pô, porque naquela época era a democracia corintiana,
pôrra!, eu era artilheiro do campeonato, a minha cara estava
em todo lugar, qualquer um sabia quem eu era. Pegaram a minha
bolsa, eu usava uma bolsa tira-colo e os caras tiraram um vidrinho
de dentro da bolsa e falaram: “o que é isso aqui?”. E eu
virei pro cara e falei: “o que você acha que é?”
E ele: “isso aqui é cocaína”. E eu falei: “então
é, meu”. Aí eles falaram: “então você
tá detido, vamos pra delegacia”. Eu falei que não
ia no camburão e ele falou: “então senta no banco
de trás”. De onde eu fui preso até a delegacia são
cinco minutos no máximo.
Fernando do Valle - Onde aconteceu isso?
Na Penha. Demoramos quarenta minutos. Os caras ligaram pra todos
os repórteres policiais, para todas as rádios na
minha frente. Falavam assim: “Pegamos o cara. Vai pra décima”.
Oswaldo Colibri Vitta - Avisaram todos os jornais, eu estava
no plantão na Folha de S. Paulo.
Todos. Quando cheguei, a “festa” estava armada. O cara falou pra
mim assim: “meu, nós pegamos a Rita Lee e o Gilberto Gil,
você acha que um moleque de merda que nem você a gente
não ia pegar?”. Eu estava assustadíssimo. Quando
cheguei na delegacia, estava a imprensa toda. As outras viaturas
davam cavalo de pau em frente da delegacia com a sirene ligada,
comemorando! E eu: “o que está acontecendo? Puta que pariu,
que merda é essa?”.
Sofia Amaral - Mas e aí, o que aconteceu?
Fui para julgamento. Eles mentiram pra caralho, arrumaram 300
testemunhas...
Fernando do Valle - Você chegou a ir para a cela?
Não, paguei fiança, quando cheguei na delegacia
entrei com o capitão da Rota, e ele falou: delegado, pegamos
tal pessoa, com esse vidrinho aqui, é cocaína e
ele falou que é dele.” E o delegado falou: “é seu
isso aqui?” eu falei: “nunca vi isso aí, não sei
o que é, ele que falou que é meu”. E aí o
capitão falou: “pôrra, seu filho da puta, você
falou que era seu” e falei: “não é meu”. Eles não
tinham provas, não tinham testemunhas, não tinham
nada, então era a minha palavra contra a deles... arrumaram
umas quatro testemunhas estranhíssimas que não conheciam
o lugar, mentiram muito, foram caindo em contradição.
O julgamento durou seis meses e acabei sendo absolvido por falta
de provas. Mas antes eles me perseguiam, eu tomava umas três
blitz por dia, às vezes eram quatro ou cinco.
Oswaldo Colibri Vitta - Os caras precisavam mostrar
que estavam fazendo alguma coisa...
Tomei uma na Marginal do Tietê, depois de um jogo entre
Corinthians e Santo André, primeiro jogo do Paulista, foi
um a zero, fiz o gol, estava com dois amigos e meu carro estava
no Parque São Jorge, os caras foram ver o jogo, estou voltando
e a Rota apagada embaixo do viaduto mandou pararmos. Paramos o
carro, descemos os três, pediram os documentos: “Ah, você
é o Casagrande, você vai para uma casa maior que
seu nome, você não vai acreditar, cadê não
sei o quê?”. E eu: “pôrra, nós estamos indo
embora.” Deixaram meus dois amigos pelados, era julho, um frio
do cacete, os dois ficaram nus na Marginal e o cara me dava soco
no estômago para eu falar que tinha droga. Quando passou
um carro em alta velocidade, tocou o rádio dos caras, dava
pra ouvir...
Oswaldo Colibri Vitta - Isso foi depois ou foi antes
da prisão...
Antes, e a voz lá falou assim: “um suspeito de
assalto está na Marginal Tietê, carro tal...”, e
os caras tinham acabado de passar pela gente! Aí os caras
largaram a gente e foram atrás do carro. Meu, olha o trauma
que fiquei, olhava pros meus amigos e falava assim: “meu, o que
a gente vai fazer? Nós temos que esperar eles voltarem.”
E eles: “não, vamos embora daqui!”, e eu: “mas a gente
tem que esperar pra acabar com isso”. E eles: “não, vamos
sair daqui!”. Aí fomos pro Parque São Jorge, peguei
o carro e fui embora. Era absurdo. A perseguição
não era em cima de mim, na realidade era tentar desmoralizar
a democracia corintiana. Se me pegam com droga ou o Magrão,
iam dizer: “olha a democracia! A democracia que vocês querem
é essa? Drogado e bêbado”. Era o que usavam. O pessoal
da imprensa que era contra me usava como drogado, o Vladimir como
negro e o Sócrates como bêbado.
Thiago Domenici - Você acredita na imprensa?
Eu acredito sim, na esportiva menos. Na esportiva não acontece
nada, muitas coisas são criadas. O repórter tem
de voltar para o jornal, fazer o programa das seis às sete
na rádio e vai ficar assim: “ó, está tudo
tranqüilo aqui no Corinthians”. Não dá, o programa
vai pro saco. “O Oswaldo olhou feio pro cara lá...”. Então
tem uma certa criação negativa na imprensa esportiva.
Sobre as outras, eu leio tudo, às vezes vou atrás
pra confirmar o que é: “ah, isso aqui é absurdo”,
mas no geral dou crédito.
Oswaldo Colibri Vitta - Esses episódios que você
acabou de narrar, da década de 80, marcou você de
forma violenta...
Na época, não estava nem aí. Depois fui ver
que corri um risco ferrado de desaparecer da história do
futebol se acontecesse qualquer coisa, se fosse condenado e tal...
perdi tempo, não fui convocado em 83 porque fui preso em
82. Fui a grande revelação do ano em 82 e era óbvio
que em 83 a primeira convocação que fosse feita
meu nome tinha que estar lá, e não estava pelo que
aconteceu.
Fernando do Valle – Nessa época tinha jogadores que usavam,
você chegava a ver e conviver e sabia?
Como tem em todo lugar. Maconha, dar um “doisinho”, muita gente
dá, no mundo do futebol também tem, meu! Hoje está
pior, o jogador é pego no
dopping com cocaína,
isso aí não existe. O cara fuma pra ir jogar, o
cara cheira pra ir jogar, o cara é louco, né? Porque
essas coisas, pelo menos o que acho, é pra você tirar
uma onda, né?
André Bertolucci – O Maradona...
Depois o Dinei, teve uma cacetada de jogador aí. Na Argentina
teve um monte. Tem outra coisa: mesmo que tivesse, que o vidrinho
fosse meu. A polícia pára. Ótimo. Tem três
caras ali: “vamos ver quem são esses caras.”. O cara desce:
“Documento, por favor”. Vê o documento, meu nome: “Ah, você
é o Walter Casagrande, jogador do Corinthians?”, “Sou eu,
meus amigos.” Não sou bandido, porque tem de ver minha
bolsa? Já me identifiquei, pô! “Documento?” “Não
tenho”. “Onde você mora?” “Pô... hããã..”
“Meu, vou te revistar, bicho”. Você não pode me revistar,
não fiz nada, pô! Você me conheceu, você
sabe quem sou, não sou bandido, não sou nada, você
quer ver minha bolsa por que? Você quer ver meu carro por
quê? Aí o cara pergunta: “você usa arma?” “Não
uso arma.” “Posso ver seu carro?” “Mas você vai ver meu
carro por que?” “Pra ver se tem arma.” “Mas eu não falei
que não tenho?”. Tenho na minha cabeça isso, confio
na pessoa. Tinha que funcionar assim. A coisa que mais me revoltou
foi isso, na realidade, o policial fazer uma coisa que não
deveria ter feito! Depois que me identifiquei, que dei meu documento,
acabou, bicho!
Oswaldo Colibri Vitta – Isso repercute até hoje.
Só pra você ver um negócio: há uns
quatro meses atrás, estava indo na casa da minha irmã,
na Penha, pela Ayrton Senna, entrei numa avenida que chama Tiquatira,
um puta trânsito, subi, oitenta barcas na rua, holofote,
metralhadora, eu num jipe todo escuro – “encosta”. Quarta à
noite, estava tendo jogo do Corinthians. “Documento”. O cara nem
olhava pra minha cara: “Documento do carro, posso ver seu carro?”
“Pode.” “O que é aquele saquinho?” Eu estava com um monte
de cd. “É cd”. “Legal.” “O que você tem nessa bolsa
aí?” “Só documento.” “Você tira os documentos
pra mim?” Aí veio um cara, um outro polícia “Ô,
Casão, caraco, o Corinthians fez um gol, está um
a zero”. Aí o cara ficou todo assim: “me desculpe, nós
estamos aqui numa apreensão de arma, estou assustado, estamos
esperando uma carga de arma chegar, nem olhei para o seu rosto,
nada. Toma o documento e vai embora”. Era isso o que o cara tinha
que ter feito em 1982.
Antonio Martinelli Jr. – Você acha que a polícia
mudou muito de lá pra cá?
O Brasil mudou, a policia mudou também, tiveram
de mudar. Naquela época era o seguinte: não havia
lei nem poder, o cara te parava e falava: “cospe aí”. Se
não saía saliva, você ia preso. Você
não pegou essa época, né? Você é
novo ainda. Pôrra, eu já tomei várias blitz
com quinze anos: você está parado aqui, batendo papo,
tem um papelzinho no chão: “O papelzinho. Leva”.
Oswaldo Colibri Vitta – O Djavan foi preso mais ou
menos perto de quando você foi preso porque era negro.
Nos anos setenta era assim. O cara te prendia pelo cheiro. Nós
demos um dois aqui, acabou. Aí o cara chega: “Cheiro de
maconha”. Cheiro de maconha vai preso, você está
louco? Você tem que ter alguma coisa aqui pra gente ir preso.
A prova é o cheiro? Pega um saquinho, dá um nó:
“ó, delegado”.
Antonio Martinelli Jr. – Eu queria só completar:
o que você acha que está muito falho ainda na polícia
hoje?
O que está falho no país é a corrupção.
E tem influência na polícia, não é?
A impunidade. E o salário dos caras. Você fala assim:
pôrra, ser corrupto é uma merda, né? Mas vê
quanto o cara ganha para entrar na favela e trocar tiros com os
caras. Sou contra a corrupção, contra tudo quanto
é sacana. Mas é foda ter três filhos em casa
e ter de entrar no meio da favela pra trocar tiros e depois pegar
oitocentos reais no final do mês com desconto do imposto
de renda. Chega um bandido, prende um cara com droga e o cara
fala: “te dou quinhentos paus.” Ele pensa: “quinhentos paus, vou
pagar aluguel, comprar arroz, feijão, o caraco” e entra
na corrupção. Então, o problema maior é
o salário. Na polícia, diretamente, é o que
os caras ganham que leva a serem corruptos. Alguns, não
são todos, não dá pra generalizar, mas acho
que é isso. Se ganhassem bem, teriam segurança,
não precisariam ser corruptos.
Oswaldo Colibri Vitta – Você vai ser treinador ou não?
Já desisti. Mas tenho altos e baixos.
Oswaldo Colibri Vitta – Você está tendo umas
recaídas. Quem já te sondou?
Ninguém. A imprensa falou em Corinthians e São Paulo.
Mas nunca ninguém me ligou e falou: “você quer ser
treinador?”
Oswaldo Colibri Vitta – Ninguém te ligou?
Ligou, vai, O Paraná Clube. O Paraná Clube
cogitou: “e aí o que você acha?”, eu falei: “ah,
meu...”.. Eu tenho uma coisa que me preocupa muito, que fez eu
mudar de idéia dessa ânsia de ser treinador, sou
um cara discreto, não gosto de ser o centro das atenções,
protejo minha família, não tem reportagem, não
tem foto, não tem nada da minha família. Se eu virar
treinador, vou virar o centro das atenções. Minha
família vai ficar em foco. Meus filhos não estão
acostumados com isso. Isso aí está pesando para
eu desistir desse negócio. E outra: hoje eu sou comentarista,
o caçador, né? Se eu virar treinador, vou ser o
burro. Aí, vou ser a caça, e não sei se estou
preparado pra ser a caça de novo, já fui por quinze
anos como jogador, era alvo de crítica: “olha a calça
do cara”.
Thiago Domenici – O que você acha dessa questão de
ser celebridade?
Bom, não sou celebridade. Olha só: fui
convidado pra fazer duas pontas na novela
Celebridades que
os Titãs pediram e falei pra eles que não ia porque
não tem nada a ver, não é a minha cara e
além disso tenho muitos compromissos em São Paulo,
não posso sair muito daqui.
Sofia Amaral – Mas as pessoas te reconhecem na rua...
Tá, me reconhecem, mas tem uma diferença entre ser
celebridade e ser uma pessoa pública. Os caras do
Big
Brother são celebridades? Os caras são artistas?
Eles só têm visibilidade porque estão participando
de um
reality show e tal... depois que saírem
de lá, vão achar que são artistas.
André Bertolucci - Você teve uma participação
no cinema, não teve?
Tive.
Tatiana dos Santos - Foi lançado em DVD há pouco
tempo. Como é que você foi parar ali?
Pôrra, passa toda hora no Canal Brasil. Os caras me ligam...
Na realidade, o filme era sobre futebol feminino. Queria mostrar
que existia o futebol feminino. Eu não li o contrato, né?
Débora Pivotto – Você falou que na Itália
os jogadores aprendem muito da tática, que o futebol italiano
tem isso. E o brasileiro, o que tem de diferente?
Na realidade, eu não sei. O brasileiro nasce com técnica,
não sei de onde, não sei por que, mas nasce com
técnica. O brasileiro nasce com ginga que combina com futebol.
O cara pega a bola, dança, que nem o Robinho: o europeu,
se fizer isso quebra ao meio. O alemão, se gingar que nem
o Robinho as pernas vão pra lá e a cabeça
cai. Porque eles são duros, é estrutura... Nós
temos muito de europeu, italiano, português, mas temos muito
de africano, também, de índio... Vê a menina
da ginástica, a Daiane, aquilo lá não existe!
Brasileira, nasceu pra ginástica, com ginga, com mobilidade,
com o dom, é gênio. Pelé. No futebol, tem
vários jogadores europeus que são bons pra cacete,
mas ninguém é gênio. Ninguém é
o Pelé. É o Maradona na Argentina, é o cara
que tem a ginga. Vai desenvolvendo isso, você joga, é
futebol de salão, bolinha, gosta de brincar, você
vai desenvolvendo a técnica e vai apurando.
Fernando do Valle – Entre os centro-avantes, quem você
acha que são os melhores?
O melhor centro-avante que eu vi no mundo foi o Van Basten. Acho
que nunca vou ver ninguém igual ao Van Basten. Ele fazia
de tudo, cabeceava, direita, esquerda, veloz, driblava, presença
de área ferrada, visão de jogo. O cara era sensacional.
Eu gostava do Reinaldo, do Atlético, Romário, Careca.
O Careca era genial. O Careca unia agilidade, habilidade e velocidade.
O Careca parecia vídeo-game às vezes, fazia tudo
muito rápido e certo.
André Bertolucci - Faltou falar sobre o amor à
camisa?
Antigamente você tinha identificação.
O Ademir da Guia jogou oitocentos anos no Palmeiras... Por exemplo,
antes tinha o Casagrande do Corinthians, o Sócrates do
Corinthians, o Ademir do Palmeiras, o Vladimir do Corinthians...
Hoje você tem o Robinho do Santos, o Rogério do São
Paulo, o Marcos do Palmeiras e o Luís Fabiano do São
Paulo. E aí? Aí tem o Alex, que jogou no Cruzeiro,
no Palmeiras, no Flamengo. O jogador muda muito de time muito
e não tem uma identificação, não cria
uma raiz. Achava mais legal antes. Eu tinha jogo de botão
com a escalação dos times quando eu era garoto,
comprava o jogo de botão, vinha com a carinha do cara,
porque o time não mudava.
Débora Pivotto - Até pro torcedor era completamente
diferente...
Lógico. Você perguntava pro cara “qual é seu
time?” “O meu é Leão, Eurico, Luís Pereira,
Alfredo e Zeca; Dudu, Ademir, Edu, Leivinha, César e Nei.”
Pergunta pro cara do Palmeiras hoje se ele sabe o time dele...
Esse negócio começou a banalizar. É importante
ter identificação com as coisas, não dá
pra banalizar. Aí começa o Marcelinho: “é
minha segunda pele”. Ele tem oitenta segundas peles! Todo time
que ele vai é a segunda pele do cara, pô.
André Bertolucci – O cara é uma cebola.
É uma cebola, um alho! Acho que esse tipo de sentimento,
de relação é importante, é forte,
não é qualquer coisa, bicho. E isso aí em
qualquer situação. Aí o cara no futebol fala
que é a segunda pele dele...
Fernando do Valle - Mas é a grana, é muito
dinheiro, o cara acaba entrando...
Entrou no jogo.
Oswaldo Colibri Vitta – Mas o pessoal é muito mais
jovem, né? A molecada está indo para a Europa muito
cedo. Hoje tem uma turma de agentes que pega o jogador com quinze,
dezesseis anos...
Com onze, amigo. O moleque vai treinar no infantil, chega
lá com dez anos com um procurador e nem sabe o que é.
“Quem é esse cara?” “Ahn...” O cara que tá lá.
“Sou seu procurador, meu.” “Vai procurar o que?”
Oswaldo Colibri Vitta – E o futebol brasileiro nunca mais
vai ver os grandes jogadores?
Vai ser cada vez mais difícil. Ou banca, que nem o Santos...
O Santos foi do cacete, está bancando.
Fernando do Valle – Tá bancando. Mas o Alex vai
sair.
Tudo bem, vai perder o Alex. Não dá pra bancar sempre,
mas nós estamos em 2004, já são dois anos,
né? Depois do título, que explodiu o time do Santos,
o Santos está bancando...
Fernando do Valle – Vai sair o Diego?
Acho que sai o Alex e sai o Diego. O Diego, além de querer
ir, não está com aquela cara de Santos, não
está jogando tanto. O pai dele também tem uma influência
muito negativa.
Oswaldo Colibri Vitta – Já foi pra Itália, já
comprou casa lá...
É...
André Bertolucci – E a CPI do futebol, você acha
que teve algum efeito?
Acompanhei um pouco no início, depois abandonei
porque achei que não ia dar em nada... Tanto não
deu que o Caixa D´água é presidente da Federação
Carioca, o Eurico Miranda é presidente do Vasco. Eram os
principais, né? O Farah, da Federação Paulista,
achou que a bomba ia estourar e caiu fora, e não estourou.
Tem o Perrela que os caras vão agora investigar e ninguém
fala mais nada.
Oswaldo Colibri Vitta- O Mustafá está há
mais de dez anos no Palmeiras.
André Bertoluci - E o Beto Zini, antigo no Guarani...
O Zini não mudou em nada. Você pega o campeonato
carioca, o Caixa D'água, o cara é presidente há
dezoito anos de uma federação e está lá.
Não boto fé. Thiago Domenici - Por que em todas
as entrevistas o jogador de futebol dá sempre a mesma resposta?
É porque sempre perguntam a mesma coisa. Tinha uma peça
de teatro em cartaz,
Nossa Vida é uma Bola. Eu
fui ver, participei da peça, tinha um quadro que eles fazem
uma ironia justamente em cima disso. Tem um jornalista e um jogador
e o time está perdendo de dois a zero, o jornalista vem
e pergunta: “e aí, você acha que dá pra virar?”
Ele fala: “não, é lógico que não,
tá dois a zero para os caras e tomara que eles façam
mais dois e a gente perca de quatro a zero”. Pô, não
é pergunta que se faça.
Débora Pivotto - O que você acha dessa mistura de
programas esportivos com humor?
Eu não gosto.
Débora Pivotto – Por que? Você acha que tira a seriedade?
Depende. Eu gosto da
MTV. Os caras são
geniais.
Thiago Domenici - É que a proposta é essa:
humor.
E sempre foi. Eles fazem o
Rock´n Gol, mas tem
programa que extrapola. Porque o futebol é uma coisa que
é importante para mim, ganhei a minha vida jogando futebol.
Tudo o que eu tenho hoje, inclusive profissionalmente, dando continuidade
na minha vida, ao dia-a-dia, foi graças ao futebol. Sou
comentarista da
TV Globo porque fui jogador de futebol.
Então vejo o futebol como algo sério. Foi a minha
vida e não gosto de ver as pessoas escrachando, banalizando,
jogando lá para baixo uma coisa que foi a minha vida. É
a vida de um monte de repórteres e jornalistas. Há
muita gente que está envolvida nisso aí. E, às
vezes, os caras passam dos limites. Acho legal ter um programa
esportivo de futebol bem humorado, não escrachado. Por
exemplo, a Globo tem uma coisa que eu acho do cacete: o pessoal
do jornalismo, que estou incluido, não pode fazer propaganda,
não pode fazer uma porrada de coisa, está no contrato,
inclusive participar de programas humorísticos, porque
você tem de passar credibilidade. Quando eu falar que o
Brasil foi mal, o público tem de acreditar em mim, não
pode achar que estou zoando, pode concordar ou não, mas
tem de acreditar. Se eu participar do
Casseta e Planeta
e, no outro dia fizer o jogo, o cara vai pensar: “será
que ele está com palhaçada?”
Antonio Martinelli Jr.- Qual é sua outra paixão
fora o futebol?
Gosto de música.
Antonio Martinelli Jr. - Mas você dedica um tempo a isso?
Muito. Perco tempo porque não toco nada, aí perco
tempo mesmo. Mas sempre guardo alguma coisa relacionada à
música para fazer. Em rádio, só faço
música. Fiz esporte na
Rádio Globo no ano
passado e sai porque não quero fazer esporte no rádio,
quero fazer aquilo que gosto, é a minha segunda paixão
e quero fazer também. Então, guardo rádio
para fazer música. Compro tudo, tenho uns 800 Cd's, compro
Dvd's. Ontem mesmo comprei o Dvd do Led Zeppelin de um
show
de 1973 que é sensacional, aí já levei
de contrapeso o Alice Cooper. Vou comprar o
Sem Destino que
saiu agora, sensacional. Gosto de musical, de opera-rock. Minha
segunda paixão é tudo que está relacionado
com música. Quando estou em casa, estou vendo ou um filme,
que gosto muito também, ou música.
Fernando do Valle - Você pensa em ter o seu programa?
De rádio?
Fernando do Valle - Ou televisão, mesmo?
Tenho um programa que a Sportv se interessou e vou fazer. Provavelmente
na Transamérica, já estive lá, mas vou voltar
mais estruturado. São duas horas de programa, das dez à
meia-noite. Vai ter uma banda fixa que é o Tutti-Frutti,
que era da Rita Lee. O Luís Sérgio Carlini (
guitarrista)
que é meu parceiro de anos de rádio. Vai ter sempre
convidados, não especificamente de futebol. Aliás,
o futebol está incluído no contexto, mas não
é um programa esportivo, é um programa de variedades.
Se o Nasi (
vocalista da banda Ira!) ou o Paulo Miklos
(do Titãs) for convidado, então, eles vão
tocar e cantar junto com o Tutti- Frutti, se o convidado for o
Marcelo Rubens Paiva, já tem a banda para tocar. Vamos
falar sobre todos os assuntos e não só sobre futebol.
André Bertolucci - Vai ser um programa semanal?
Só segunda-feira.
Thiago Domenici - E os programas de mesa- redonda, qual
é o melhor?
Não assisto nenhum, só vejo os da ESPN.
O
Linha de Passe, o
Sportcenter, o
Bate-Bola
com o Assinante que a Soninha comanda. Vejo o Cajuru no
almoço, que acho legal, mas os programas esportivos de
debate não vejo. Gosto também do Arena SportTv que
o Cléber Machado apresenta. É um debate levado a
sério e não deixa de ter bom humor.
Thiago Domenici - Você acha que nunca têm
uma coerência...
Não, não gosto de sentar e ficar vendo, começo
a ficar nervoso, os caras falam, não concordo e fico nervoso.
Você vê o programa e o cara fala: “o maior jogador
do mundo hoje é o Ronaldo”. Não, não é
possível. Eu falei: “cara, o que é aquilo, se o
cara fizer gol ele não pode levantar a camisa”. O Ronaldo
é um grande jogador, tem uma importância para a mulecada
absurda, mas precisa cuidar da sua imagem. Aí você
fala: “não, eu não concordo, eu acho que é
o kaká, por exemplo”. Acho que o maior jogador do mundo
é o Zidane, sem dúvida. Comparar Ronaldo com Zidane
é estranho, estilos diferentes. É que brasileiro
é do nosso lado mesmo. Mas não dá para colocar
no mesmo plano Zidane e Ronaldo. O Zidane é da linha do
Maradona. Não é igual, mas é aquela turma
ali: Maradona, Zico, Platini e Zidane. O Zidane é sensacional.
O cara chuta de direita, esquerda, arma jogada, o cara joga muita
bola.
Débora Pivotto - E no contrato você não pode
participar de debate. Tem alguma coisa que você gostaria
de fazer e de certa forma o contrato com a Globo...
Não, nada. Por exemplo, eles me pagam e eu respeito o meu
contrato, nada mais justo. Por exemplo, eu jogava no Corinthians,
não podia sair e falar: “ah, hoje eu vou jogar no Palmeiras:
Isso não existe. O Corinthians me paga, tenho contrato
com os caras e na TV é a mesma coisa, a
Globo faz
isso, preserva o que é deles.
Tatiana dos Santos - E quando foi convidado para ser comentarista
da Globo, você não entrou numa certa crise?
Confesso que pensei bastante. Porque sempre tem aquela história
da
Rede Globo, por causa das Diretas, da ditadura, que
eles faziam parte do jogo. Prejudicou o Lula em 1989 e pôs
o Collor e foi aquela merda, depois “ele que vá pra puta
que o pariu” e tiraram o cara. Toda essa rotina, acho que não
tem tanto hoje. Mas isso me incomodou e fui pra lá pra
ver o que era. Fui ver como ia funcionar. Acho a
Rede Globo
do caralho, é a melhor empresa do Brasil para trabalhar,
recebo em dia, tenho tudo na mão, assistência médica,
etc. só não pode entrar na minha filosofia de vida,
no meu conceito de trabalho. Não vai me dirigir. Sei, não
sou bobo, que tem coisa que não posso falar porque vai
comprometer a TV, palavrão, coisas assim. Sei me comportar,
cacete, não é preciso me dirigir. Não vem
me dizer que eu não posso falar da Federação.
Como, não pode? Mas nunca falaram, nunca fizeram. Trabalho
com total liberdade.
Oswaldo Colibri Vitta- Mesmo a Globo se envolvendo na compra
de jogos...
Isso é um detalhe interessante. Todo mundo fala da Globo.
É um horário absurdo, 21h40, mas o mundial de clubes
no Brasil, na Bandeirantes, foi às 18h, Corinthians e Real
Madri e ninguém falou nada, isso é horário
para jogo? Sexta-feira no Morumbi, Corinthians e Real Madri, como
que o cara chega no Morumbi? Não existe. Todas fazem isso.
A ESPN faz a Taça São Paulo e põe o jogo
à 13h30. Então, quem tem o negócio na mão
faz o que quer. Não acho legal 21h40, mas o que vai fazer,
então não vende para o cara.
Oswaldo Colibri Vitta- Mas ela não financia também
os campeonatos? O Trajano disse outro dia que se não tiver
a transmissão quase não tem futebol. A gente está
dependendo hoje...
Como assim. A Globo paga. Se transmitir ou não, paga.
Oswaldo Colibri Vitta- Mas se ela não paga, o futebol
fica comprometido.
Mas isso é culpa dela? Por que não vai o SBT e compra?
Todo mundo reclama, mas quem compra? O futebol existe hoje porque
a
TV Globo vai, compra e passa o jogo e quando não
passa repassa para a
Record pela metade do preço.
Não estou defendendo a Globo, não, mas acho que
ninguém pode reclamar, o Trajano não pode reclamar,
senão a
Rede Globo faz assim: ”Estamos fora,
não vamos mais passar o campeonato brasileiro, nem pôrra
nenhuma. Não vamos pagar mais ninguém”.
Fernando do Valle - Os clubes estão na mão das tvs...
A televisão só tem influência quando o jogo
é ruim. Porque quando é final de campeonato, se
passa para cá e tem cem mil pessoas lá.
Oswaldo Colibri Vitta - Mas vinte reais o ingresso é
duro, né?
Mas aí não tem TV. Isso aí é a federação
que estipula.
Oswaldo Colibri Vitta- E você bateu nisso?
Lógico.
Oswaldo Colibri Vitta- E na Globo ninguém falou
nada?
Não, lógico que não.
Thiago Domenici - Qual a maior seleção brasileira
que você já viu jogando?
A que vi jogar foi a de 82. Pô, mas tinha que pôr
o Pelé jogando. Não dá para juntar as duas.
A de 70 vi um pouquinho, tinha sete anos. Quem viu o Pelé,
viu o Pelé, não dá pra tirar.
Oswaldo Colibri Vitta - O que você quer ganhar de aniversário
agora que você vai fazer 41 anos?
Quero tranqüilidade, minha família bem, meus filhos
bem, proteção. Nada de ruim, eu caminhando numa
vida normal.
Oswaldo Colibri Vitta - Você está imaginando
o quê para eles, em termos de Brasil?
Não estou pensando no Brasil, meu filho está fazendo
Rádio e Televisão, talvez seja jornalista ou locutor
de rádio, gosta de música e tal. Acho que ele vai
conseguir, ele corre atrás. Os outros cada um vai seguir
uma linha. Talvez o outro seja jogador de futebol. O do meio joga
no São Paulo.
André Bertolucci - Você pensa em carreira política?
De jeito nenhum, já fui convidado umas três
vezes, não é a minha. Sou um cara que se preocupa,
que lê tudo de história. Élio Gaspari, leio
tudo. Sempre me preocupei, mas sempre do lado de fora. Nunca me
vi como político, a imagem que tenho é de um cara
que colabora. Acho que não tenho capacidade para fazer
campanha. Posso até fazer uma campanha, mas vou lá
sozinho, sem ninguém saber de nada, posso aparecer no comício.
Mas não me convida que não vou. Porque aí
você está sendo usado e o cara não está
nem aí contigo. Já fui radical e pensava que o PT
era puro. Todos são iguais. No PT tem aqueles que acho
do caralho: o Mercadante, o Genoino... Mas a Marta, deixa pra
lá, vai...
Oswaldo Colibri Vitta- Então, a única
recaída que podemos esperar de você é ser
treinador?
Político não, e treinador muito difícil.
Talvez quando meus filhos estiverem maiores.
Fernando do Valle - Mas pra já começar num
time grande?
Na verdade, se eu não tivesse esse emprego até hoje,
podia começar em uma equipe pequena, num time de base.
Mas ganho muito bem, e não vou sair para treinar juvenil,
tem lógica? Tenho família, tem comida, faculdade,
colégio, roupa... não vou sair de um lugar que eu
ganho bem para ganhar menos por ideologia. E minha família
se aperta? Não, não tem negócio. Primeiro
que eu não estou pensando nisso e se for para sair é
para ir para um lugar que vai me pagar no mínimo igual.
O que conquistei não posso jogar fora, é ignorância,
é burrice. Se você descer, subir depois é
difícil.
Walter Casagrande Júnior nasceu em 15 de abril de
1963 no bairro da Penha na cidade de São Paulo.
De 1977 a 81, jogou no Corinthians.
Em 1981, jogou no time mineiro da Caldense, mas voltou
ao Corinthians no mesmo ano e permaneceu até 1984, quando
foi para o rival São Paulo.
No São Paulo, permaneceu somente uma temporada e
retornou ao Parque São Jorge.
Em 86 e 87, jogou no time do Porto, em Portugal.
Em 1988, foi para o time do Áscolli, na Itália,
onde jogou até 91, quando teve seu passe comprado pelo
Torino, da cidade de Turim, ainda na Itália. Em 93, decidiu
voltar ao Brasil para jogar no Flamengo,
No ano seguinte, voltou às origens no Corinthians.
Encerrou a carreira na Associação Atlética
São Francisco, da Bahia, em 1996.
Pela seleção brasileira, disputou a Copa
do Mundo de 1986, no México.
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