do Site
Correio
SEno Site
Palanque
Coluna do Leitor
Agenda
Novas
Links Amigos
Quem Somos
Fale Conosco
Loja Virtual

 


Casagrande


Ele participou da Democracia Corintiana nos anos 80. Foi preso, perseguido por suas idéias e irreverência, que até hoje mantém, como podemos conferir nessa entrevista.


Entrevistadores:
André Bertolucci, Antonio Martinelli Jr., Débora Pivotto, Fernando do Valle, Oswaldo Colibri Vitta, Sofia Amaral, Tatiana dos Santos e Thiago Domenici. Fotos: Nino Moraes. Animação: Ligia Morresi.


Casagrande, o segundo em pé da direita para a esquerda, no Clube Desportivo da Penha (1977)
Thiago Domenici - Vamos
começar
pela sua
infância: quais
são suas
lembranças e o primeiro contato com uma bola de futebol?

Acho que com três ou quatro anos já estava jogando futebol. Meu pai jogava, me levava no campo de várzea, sempre joguei bola. Nunca empinei pipa e nem joguei pião, que eram as brincadeiras da época, só jogava bola. Com seis anos já disputava pelo clube Desportivo da Penha campeonato paulista no futebol de salão. Jogava na Portuguesa, mas era corintiano. Um dia, voltando do treino do Dente de Leite, vi uma faixa: “Peneira no Corinthians”. Desci do ônibus e fui fazer a peneira do Corinthians, passei e não fui mais na Portuguesa, meu pai foi saber disso só depois de uns 10 dias.

Oswaldo Colibri Vitta - Não tinha nenhum palmeirense na sua família?
Nenhum. Hoje tenho um filho palmeirense, um são-paulino e um santista e a minha mulher também é santista.

Thiago Domenici - Quando você começou a jogar bola, o Leivinha é que te inspirava?

No Palmeiras tinha o Leivinha, o Roberto era um centro-avante do Botafogo do Rio, eu também gostava, o César Maluco... eu, garotinho, quando fazia gol de brincadeira saia gritando “César Maluco!” Mas o meu ídolo era o Rivelino. Por ser corintiano de garoto, eu ia no estádio ver o Rivelino jogar.  

Oswaldo Colibri Vitta - O César Maluco tinha um estilo bem arrojado...
Era o centro-avante da época, né, brigador, fazia gol, subia no alambrado, chamava a atenção da garotada. Eu achava demais.

Fernando do Valle - Hoje ele é comentarista também?

Não, ele tem um programa numa TV comunitária de entrevista e tal, mas o Leivinha é comentarista e dos bons na SportTV.

Thiago Domenici - Você jogava nas categorias de base do Corinthians?
Comecei no Dente de Leite do Corinthians, tinha 11 anos, o Dente de Leite passava na TV Tupi, com o Roberto Petri, o Eli Coimbra. Meu treinador era o Luis Morais, apelidado de Cabeção, o antigo goleiro do clube.

Fernando do Valle - Você é corintiano?

A minha família toda é e eu era corintiano de garoto, mas nunca fui fanático. Ia ver jogo do Santos, do Palmeiras, eu era fã do Leivinha e do César Maluco, mas a família toda, meu pai até hoje, de radinho, é fanático!

André Bertolucci - E para que time você torce mesmo?
Eu era corintiano e flamenguista. A única vez que mudei foi quando o Rivelino foi para o Fluminense. Era meu ídolo e comecei a ver um pouco o Fluminense, mas o Flamengo sempre achei o máximo. A torcida, o Maracanã lotado, o Zico fazendo gol, era uma coisa impressionante.

Thiago Domenici - E como comentarista?

Não torço pra ninguém, gosto, atualmente, do Santos, do Robinho. Acho que o Robinho joga pra cacete. Eu gosto na realidade, aprendi isso com o tempo, do bom futebol.

Fernando do Valle - Você acha que é o melhor time hoje?

Acho o melhor time e com o melhor treinador, apesar de tudo...

Oswaldo Colibri Vitta - Você apareceu mesmo foi no Dente de Leite?
Futebol de campo no Dente de Leite, joguei em 1975 e 1976. Acabou em 1977 mas continuei no Corinthians, onde fiz todas as categorias. Joguei no C, A, B, Taça São Paulo joguei duas, tive que optar entre salão e campo porque jogava nos dois. Quando estava no juvenil de salão, na Portuguesa, teve Portuguesa contra o Corinthians e eu fui jogar no Parque São Jorge contra o Corinthians, aí os caras falaram que era absurdo. “Você joga no Corinthians no campo e à noite joga contra o Corinthians no salão! Ou você vem pra cá ou pára o salão”. Aí eu parei.

Thiago Domenici - Tem muitos jogadores que começam no futebol de salão e depois vão para o futebol de campo; o espaço pequeno desenvolve a técnica?
Exato, porque o futebol de salão é mais fácil. Você pega dez caras, quatro na linha e tal, por isso que todo mundo joga futebol de salão e fica com técnica, já que o espaço é pequeno.  

Thiago Domenici - O futebol brasileiro se destaca porque a maioria joga futebol de salão antes?

Não sei se a maioria, mas acho que o salão tem influência, principalmente na agilidade e velocidade de raciocínio.

Oswaldo Colibri Vitta - O Ronaldinho Gaúcho...

Denílson, Robinho, eles jogaram futebol de salão. Robinho dá drible num palmo de chão.  

Oswaldo Colibri Vitta - Foi na Taça São Paulo que você apareceu?

Era onde apareciam os jogadores, a gente jogava a preliminar. A massa já conhecia, chegava cedo pra ver o juvenil. Em janeiro não tinha campeonato profissional e a imprensa toda se voltava para a Taça São Paulo. Era o momento de mostrar o seu valor.

Oswaldo Colibri Vitta - Você estreou bem no profissional? Conta essa história que é boa.

Joguei na Caldense (MG) em 1981, aí voltei e tinha aquela idéia do Vicente Matheus de não poder fazer nada. Falei: “não quero ficar, quero ir embora” e o Travaglini queria que eu ficasse, eu já estava negociando com o América do Rio e ele falou: “Não, você não vai embora”. Assinei um contrato de três meses porque o Adilson Monteiro Alves, diretor na época, falou: “acredita no trabalho, vamos fazer um contrato de três meses, se você não gostar, vai embora, dá um crédito pra gente da democracia”. Fiquei no banco em dois jogos, aí contra o Guará em São Paulo, na Taça de Prata, o Mário, que era o centro-avante estava machucado e eu era o reserva imediato, o técnico me colocou, fiz quatro gols no jogo contra o Guará e não saí mais.
 
Fernando do Valle - Era o início de democracia corintiana?

É, janeiro de 1982.

Fernando do Valle - Como foi esse início?

Natural. O Adilson Monteiro Alves era vice-presidente de futebol e tinha a idéia de dar liberdade aos jogadores. Não foi uma coisa planejada, a democracia foi conquistando o espaço naturalmente. Combinou a boa cabeça e preocupação política de alguns jogadores com o comando do Adilson.  

Fernando do Valle - Qual era a diferença? Não tinha concentração, como era?

Isso é a idéia que todo mundo tem. O básico no início era assim: a gente decidia as coisas de contratação, esquema tático, se ia viajar no dia do jogo ou não, uma participação política no clube e fora, coisa que jogador de futebol não tinha antes. Era mais nesse sentido, concentração vinha depois. Os casados não se concentravam, os solteiros sim, mas isso era o de menos, na realidade. Oswaldo Colibri Vitta - Como era o cronograma? O Sócrates era a liderança? Tinha o Zenon e outros jogadores que não eram muito atentos ao próprio grupo, como o Biro-Biro? A liderança era o Adilson, que era o diretor. Depois, com o tempo, quem participava mais foi tendo uma liderança natural, que no caso, fui eu, o Wladimir e o Sócrates, cada um com a sua importância. O Magrão (Sócrates) era o grande ídolo do Brasil junto com o Zico e a importância dele era muito grande. Os outros não participavam tanto, como o Zenon e o Biro.

Oswaldo Colibri Vitta - E o Leão? Ele não participava das reuniões?

Ele participava, mas remava contra. Era o líder do grupo que não concordava com a democracia. O Leão chegou em 1983, teve uma votação, eu fui contra, os caras apoiaram. A aceitação dele foi a maior prova da democracia. Ele foi um cara importante no título, a gente já sabia que ele era contrário ao nosso processo.

Oswaldo Colibri Vitta - Mas era importante a presença dele no grupo?
A importância dele não era para provar que a democracia era legal e justa. Dentro de campo ele tinha que jogar fora, cada um tinha sua liberdade, isso é democracia, ele não era obrigado a ser favorável a gente. Tinha que fazer a parte dele. Jogou um ano, depois foi para o Palmeiras, mas teve sua importância. Nós fomos campeões em 1983 e ele pegou pra cacete.

Thiago Domenici - E o estilo Casagrande de se vestir? Naquela época sofreu algum tipo de preconceito, você usava cabelão, curtia rock e tal...

Na época era normal. Cabelo grande, calça jeans largados, algumas pessoas tinham um certo preconceito, não porque era jogador. Não tive problema algum por causa disso. Vivia normalmente, calção baixo, nunca tive problema de perseguição. Achavam gozado, é diferente, jogador sempre gostava de pôr uma roupinha legal. O Magrão se vestia assim, era igual, o Vladimir a mesma coisa. Dentro do grupo existiam pessoas diferentes que se vestiam como eu, é que eu era jovem, tinha 19 anos.

Oswaldo Colibri Vitta - Esse momento que você chega ao Corinthians, você é o garoto rebelde, como você avalia isso?
Acho que rebelde é o seguinte: eu fazia coisas que todo mundo faz com 19 anos, eu era normal, diferentes eram os caras que achavam que eu era anormal. Tinha 19 anos e gosto de rock até hoje, o tempo muda mas na época era aquilo, não tinha diferença, eu era igual a um monte de gente, só que jogador de futebol.

André Bertolucci - O que você escutava na época?

Tutti Frutti, Rita Lee, Casa das Máquinas, Made in Brasil, era o rock da época, anos 70, MPB eu gostava bastante, Alceu Valença, Moraes Moreira, Geraldo Azevedo, a MPB era forte, tinha peso, não é isso que é hoje.

Oswaldo Colibri Vitta - E internacional?

Deep Purple, Beatles, Janis Joplin...

Fernando do Valle - E de hoje você não curte nada?

Novo, meu, difícil... Red Hot Chilli Peppers, acho legal, Pearl Jam, mas muito pouco, meu, eu não gosto muito das bandas de hoje.  

Débora Pivotto - Nem nacional?

Rappa, Charles Brown Júnior, às vezes, dependendo da música. Chico Science, eu achava legal, mas sou muito fiel aos anos 80 no rock nacional: Titãs, Ira, Plebe Rude, é o que mais ouço de música nacional.

Casagrande no Torino com seus filhos Hugo Leonardo, são-paulino, e Vitor Hugo, palmeirense
Thiago Domenici - E os seus filhos escutam o quê?
A coisa que eu mais me preocupei foi isso. Futebol eu deixei à vontade...

Sofia Amaral - Eles gostam de futebol?
O mais velho não, esse está fazendo faculdade de Rádio e Televisão.

Tatiana dos Santos - E a idade deles?

Um 18, um 14 e outro 11. Os dois pequenos gostam de futebol pra cacete.

Thiago Domenici - Você falou que se preocupou, como assim?
Ah, eu só colocava rock pra eles. O meu filho tem 11 anos, quando tinha quatro, ele entrava no carro e falava: “pai, coloca Titãs”; com seis, ele já procurava a música que ele queria, e eles gostam de rock os três, eu tive influência, pressionei.

André Bertolucci - Você tocava guitarra?

Muito pouquinho. Adoro guitarra, fiz conservatório na Itália um ano e meio, mas não tenho o dom, não consegui aprender. Eu olhava e pensava como é que os caras conseguiam fazer, tentei umas três vezes, mas não toco nada.

Thiago Domenici - Falando da Itália, você jogou no Áscoli e no Torino. Como foi esse período?
Primeiro, fui pra Portugal, fiquei seis meses no Porto e depois fui pra Itália, tenho dois filhos que nasceram lá, formei uma família ali. Casei aqui em 1985 e em 86 fui embora e aprendi a cultura italiana, o país é maravilhoso e o futebol é organizado, aprendi tática, aqui no Brasil ninguém se preocupava com isso. Na Itália você aprende, fiquei muito mais preparado na parte profissional e também familiar. Fiquei lá por sete anos e voltei conseguindo enxergar principalmente a organização tática de um jogo. Acho que isso é o mais importante para os jogadores quando eles vão. Você vê que eles voltam mais fortes e diferentes porque eles aprendem isso.

Sua estréia no futebol italiano em 1987, jogando pelo Áscoli, empate de 1 a 1 contra o time da Roma


Fernando do Valle - Você foi ganhando muito mais do que ganhava aqui?
Não se pagava tanto como se pagava há dois ou três anos atrás, que era um absurdo, os caras estavam ganhando duzentos, trezentos paus, mas eu ganhava legal.

Oswaldo Colibri Vitta - Você casou e foi pra Itália? Conta a história do love no Corinthians...

Minha esposa jogava vôlei no Corinthians, aí um dia eu saí do treino e encontrei com ela, fiquei apaixonado na hora e comecei a ver o treino todos os dias. Ela não estava nem aí. Daí conheci as meninas e pensei: “onde ela estiver, eu vou estar”. Aí as amigas me falavam: “hoje nós vamos jantar em tal lugar, eu ia, hoje tem jogo no Pinheiros, e eu lá em todos os lugares, só não estava no quarto dela. Ai acabei conhecendo, pichei o muro do Corinthians...

Sofia Amaral - Pichou o muro do Corinthians?
O nome dela é Mônica, fiz o desenho da Mônica (HQ), fui ao Corinthians à noite, pichei e escrevi um negócio pra ela, aí eu fui buscar ela no treino e ela teve uma surpresa.

Débora Pivoto - Mas o que você escreveu?
“Fica comigo”.

Oswaldo Colibri Vitta - É um homem romântico?

Três meses de romantismo. Ela jogava ali, o contato foi no esporte mesmo, todo dia eu estava no treino e os caras tiravam uma onda. O Magrão dizia: “vamos embora, vamos trabalhar”. Eu respondia: “não, vou ficar aqui no treino”. E ele: “Você tá louco, meu, a menina nem te olha”.

Pela seleção, na Copa do México (1986). Reprodução do site: www.sporting-heroes.net. Foto: JoeMann
Oswaldo Colibri Vitta - E ela está com você até hoje?
Até hoje, tenho três filhos, são 19 anos de casamento. Ela é professora de Educação Física, tem uma clínica de fisioterapia, de recuperação de coluna em Alphaville. A minha família foi formada lá na Europa mesmo, eu não sabia o que era casamento e nem como seria. Casei em 85 e fui pra Copa (86), fiquei mais fora do que em casa. Quando fui pra Portugal é que eu via: “tô casado, um filhinho ali, cacete”. Aí comecei a sacar o que era uma família, uma vida com outra pessoa.








Thiago Domenici - E a seleção brasileira, você tem uma certa frustração por ter jogado relativamente pouco em relação aos outros?

Olha, às vezes, eu penso, não sei se é frustração, mas poderia ter jogado mais, ter ido antes para a seleção. Em 1982 fui artilheiro do campeonato paulista com 19 anos, revelação do ano, ganhei a Chuteira de Prata e não fui convocado, só fui ser convocado em 1984, joguei as eliminatórias. Fui como titular pra lá, perdi a posição para o Muller no início – era o terceiro jogo. Não estava bem mesmo, tinha que sair, estresse físico. Pô, mas depois da Copa tinha 23 anos só, né! Parece que os caras já tinham me colocado como parte daquele grupo de 82. Fui campeão europeu, campeão da Copa Itália, vice-campeão da copa UEFA com o Torino e vice-artilheiro. Estava em um momento bom e não era chamado. Depois comecei a ter uma visão diferente: não era obrigado a ser convocado, o cara tinha várias opções, isso aí é que me confortou, porque no início eu pensava: “não é possível”. Comecei a ver que o cara tem esse e aquele e escolhe quem quiser. Aceitei numa boa, não é frustração, não, mas acho que poderia ter jogado mais. Por exemplo, a Copa de 90 eu poderia ter participado.

Oswaldo Colibri Vitta - Nesse tempo você já estava na Itália, tinha ligações políticas...
Tinha um problema muito grande porque era ligado à democracia corintiana e à esquerda do país. O Magrão parou de jogar e pelo respeito que ele tinha não era atacado como eu e quando ele parou fiquei um alvo bem mais fácil, acho que teve uma certa influência a minha visão política.

André Bertolucci - Ficou um estigma da democracia?

Até hoje... não contra, hoje é maravilhoso, ficou para a história do país. Na época, no relacionamento com as pessoas do futebol era complicado, isolado. Todo mundo junto era forte. Um em cada canto era complicado.

Oswaldo Colibri Vitta - O Corinthians hoje é democrático?

Não, nenhum clube é. Todo mundo quer o jogador alienado de tudo porque os caras controlam, ganham grana em cima e tal, mas eles têm a opção de falar ou de reivindicar qualquer coisa. Não fazem porque não querem, na nossa época nós batemos de frente.

Oswaldo Colibri Vitta - Não é uma visão diferente, hoje o cara não fala por medo de não receber...

Não sei por que, acho que ele não quer perder o espaço. Ele está ali, ganha 70 paus, “pra que vou brigar com o cara?”, fica na dele. Então, não acho que é medo assim de bater de frente, é cômodo, “tô bem, pra que vou arrumar problema pra mim?”.

Sofia Amaral - Você tinha uma participação política fora do Corinthians também?
Eu e o Wladimir nos filiamos ao PT desde o início. Junto com o Magrão, participamos das Diretas-Já, apoiei o Lula em 1982 para o governo (estadual de SP), participei da campanha da Bete Mendes para deputada. Nenhum jogador fazia isso e nós tivemos essa participação natural, não foi nada combinado: “vamos lá, vamos pro PT” como muita gente fala. Por isso que nós tivemos essa participação fora, acho que o ponto mais importante da democracia foi esse, a participação de uma equipe de futebol do povo, como o Corinthians, participar da vida política do país.

Fernando do Valle - Você conheceu o Lula nessa época?
Tenho uma foto histórica. Quando fui me filiar estava eu, o Wladimir e o Pita, que é secretário do Pacaembu hoje. Eu, Pita, Lula, Estevão, da Ponte-Preta, no dia que abriu a sede do PT na rua Santo Amaro, no centro, e o Lula lá do lado da gente, como hoje, mas menos arrumado.

Antonio Martinelli Jr. - Até quando você foi filiado ao PT?

Fiquei uns três, quatro anos. Quando fui embora não fiz mais nada.

Antonio Martinelli Jr. - Você votou nele na última eleição?

Sempre votei no PT, nunca votei em outro partido

Débora Pivotto - E você está feliz com o que tem agora?

Não, estou muito decepcionado com a Marta Suplicy.

Sofia Amaral - Por que?

Acho que ela não teve planejamento e estrutura, o que pensei que teria, ela se deslumbrou com o poder. Teve um momento em que ela só queria sair para as festas, se arrumar pra tirar fotografia e esqueceu um pouco da cidade. Quando lembrou da cidade, resolveu fazer tudo ao mesmo tempo, a cidade está um caos. Você fica três horas e meia no trânsito, em qualquer lugar, dia e horário. Honesta ela é, mas não teve planejamento. Se você colocar, de sacanagem um cone na marginal, ela pára. Vai de manhã e põe um cone, no outro dia tem 100 quilômetros de congestionamento. Ela me decepcionou bastante.

André Bertolucci - E o governo federal?

Gosto e acredito no Lula, a história dele é sensacional. Um cara que saiu lá de baixo e brigou, então ainda acredito. Vejo toda essa galera que conheci como o José Dirceu... me decepcionou pra cacete, mas acredito que o negócio vai funcionar. Acredito na honestidade deles. Aqui em São Paulo não, a Marta perdeu um voto e perdeu um apoio, não sei se forte ou não e não sei tem importância.

Antonio Martinelli Jr - Então você vai votar na Luiza Erundina dessa vez?
Provavelmente.

Oswaldo Colibri Vitta - Quando você voltou da Europa pensei: o Casão está muito comportado, esperava uma atitude mais rebelde.

Voltei assustadíssimo, com 30 anos e os caras achavam que eu tinha 19, com três filhos e os caras achavam que eu era solteiro. Voltei depois de sete anos, cai no Rio de Janeiro em um caos tremendo.

Oswaldo Colibri Vitta - Você ia pro Flamengo?

Eu ia voltar pra São Paulo mas sempre sonhei em jogar no Flamengo. Aí pintou o Flamengo e resolvi voltar. Fui pra São Conrado, ia comprar um apartamento. Foi a época da chacina da Candelária, Vigário Geral, arrastão na praia e eu morava em frente à Rocinha, em São Conrado, saía de manhã pra andar de bicicleta e pensava: “que lugar maravilhoso mas o que está acontecendo aqui?”. Ia morar lá e fiquei com medo pela minha família, que só tinha vivido na Itália onde deixava a porta aberta, não tinha preocupação nenhuma, e aqui, seqüestro, morte... Foi aí que apareceu no Corinthians aquela manifestação no Pacaembu, a torcida pedindo a minha volta, falei “vou voltar pra São Paulo”, rescindi o contrato e voltei. São Paulo foi a mesma coisa, tinha um medo terrível, tanto que mudei pra Alphaville por isso, pensei: ”vou levar os meus filhos pra um lugar parecido com aquele em que morava”. Já queria voltar, já estava lá há sete anos, tinha mais um ano de contrato, sabia que não ia mais ficar na Itália, estava cansado, queria voltar pra o Brasil de qualquer jeito.


Festa do fim do ano de 88 na casa de Júnior, em Pescara, na Itália. Da esquerda para a direita: Casagrande, Edmar, Renato Gaúcho, Júnior e Careca.
André Bertolucci - Na Itália, você tinha amizade
com os
jogadores?
Fiquei igual a eles, o europeu é frio e depois de quatro anos fiquei frio também. Era amigo no dia-a-dia, mas sem vínculo, não ia à casa de ninguém, ficava na minha casa, saía do treino e voltava pra casa.

Sofia Amaral - E você não sentiu um choque cultural? Porque muitos jogadores às vezes, quando vão pra fora, ficam meio em crise.
Aprendi muito, usei muito aquilo ali. Pô, a Europa é maravilhosa, a Itália é sensacional. Um cara como o Viola que foi pra Espanha e voltou porque não tinha feijão, não se adaptou à comida espanhola, coisa que não entra na cabeça. Num lugar como Portugal, Itália e Espanha, você come muito bem. Isso não é desculpa. O frio talvez, mas você se adapta. O que o país te apresenta e joga na sua cara de cultura, se você aproveitar aquilo, você cresce muito, e foi o que fiz. Quer dizer, comecei a ir a museu com minha mulher, a shows, restaurantes, a cidadezinhas. Quando tinha folga, pegava o carro e, no meio da estrada, entrava em uma cidadezinha minúscula, histórica.

André Bertolucci - Mas você tem uma formação cultural diferente da maioria dos jogadores?
É, eu tenho colégio. Não sou formado em nada. Talvez a diferença da maioria dos jogadores seja o meu interesse. Sou interessado por tudo, leio muito, faço tudo de tudo, por isso que minha vida é uma correria, estou aqui com vocês hoje, amanhã vou almoçar com um cara que quer fazer um evento beneficente, sempre me interessei pelas coisas, talvez por isso eu tenha ficado lá por sete anos, porque tudo me interessava.  

André Bertolucci - Você parou no colegial?
Parei no colegial.

André Bertolucci - Você pretendia fazer alguma faculdade?

Sempre achei que seria jogador de futebol, não era a minha meta, mas já estava envolvido naquilo. Acho que seria jornalista, acho legal.

Oswaldo Colibri Vitta - E qual exatamente o ponto em que você pára de jogar futebol e vira comentarista?

Sofia Amaral – E como foi a sua parada. Como você resolveu parar?
Parei porque treinava a semana toda, adorava treinar, mas não queria jogar aos domingos.

André Bertolucci - Com quantos anos você estava?
Trinta e treinava a semana inteira. Não queria viajar, queria ficar em casa. Trabalhava a semana toda e pensava: ”puta, viajar, concentrar”. Daí, comecei a perceber que estava querendo ser uma pessoa normal. Vou ao Ibirapuera e corro de manhã, na academia à tarde e final de semana estou em casa. Não preciso ir ao Corinthians ou nenhum outro time. O joelho também me atrapalhava. Fiz muitas cirurgias, era um saco, antiinflamatório toda hora. Falei: “vou parar, não estou mais a fim”. Foi quando surgiu o Trajano me convidando para comentar na ESPN. Não fizemos nem contrato. Entrei assim, sem me preparar, não fiz nada. Ele achou que ia dar certo.

Débora Pivotto - Quando foi?

Eu parei em 94.

Oswaldo Colibri Vitta - Qual foi o último time?
Oficialmente no Corinthians. Joguei no Paulista de Jundiaí, no São Francisco do Conde, na Bahia, mais por marketing. Foram dois jogos na Bahia e dois no Paulista.

Oswaldo Colibri Vitta - Não teve despedida?

Não, acho isso uma grande bobagem. O ator não se despede, o jornalista não se despede, por que o jogador tem que se despedir? Isso é uma coisa de vaidade e eu não sou vaidoso.

Oswaldo Colibri Vitta - Você foi ser comentarista. Foi testado pelo Trajano?
O Trajano me chamou e me deu uns toques. Fiz todo um trabalho de 1996 até junho de 97, quando a Globo se interessou, o cara me chamou, fui num teste, comentei um jogo que não passou na TV, comecei a me preparar quando vi que o negócio ia pegar na Globo. I a fazer um contrato e tinha um cabelo enorme. Cortei o cabelo, fiz a barba e fui pro Rio, e os caras: “legal, vamos fazer o contrato, mas você tem que cortar o cabelo” e eu falei:“meu, cortei ontem”!


Thiago Domenici - Nessa sua entrada como comentarista, você tem uma passagem na tv com o Marcelo Fromer, que foi seu grande amigo?
Fizemos um programa na MTV na Copa de 94, era o Bola na Mesa, eu, o Nando Reis, Astrid e o Fromer. A gente não tinha imagem dos jogos, então fazíamos comentários com uns bonequinhos: “e no gol do Brasil, o Cafu veio pela ponta, cruzou e entrou não sei quem” e pegava os bonequinhos, comédia. Depois desse programa, começamos a fazer rádio, eu e o Fromer. Fizemos um programa no Sportv na Copa de 98 que se chamava Bistrô Brasil.

Thiago Domenici - Essa participação com o Fromer foi rádio?
Foi rádio e jornal. Nós fizemos rádio, jornal e televisão: S portv, 89 FM, Brasil 2000, Transamérica, Notícias Populares e tudo o que a gente planejava. Quando ele bolava um negócio, era eu com ele, surgia alguma coisa pra mim, colocava o Fromer na parada, porque a gente trabalhava junto.

Fernando do Valle - Como vocês se conheceram? Onde foi?

A gente se conheceu em 1982 num programa chamado Fábrica do Som, na TV Cultura, que era gravado no SESC – Pompéia, alternativo e underground, estava lá direto. E um dia chegaram os Titãs do Iê-Iê, nem era Titãs ainda. Eles chegaram, “é o Casagrande” e tal. Daí tive o primeiro contato com o Fromer e o Nando. A amizade mesmo surgiu quando voltei da Europa. Ele me ligou, eu nem o conhecia direito. “Eu sou o Marcelo Fromer dos Titãs, beleza, vai ter um programa na MTV os caras estão afim de fazer eu, você, o Nando, o que você acha? Não tem grana”. Falei: “Marcelo, esquece a grana, vamos fazer”. Aí fizemos, pegamos amizade, ele tinha a mesma filosofia e pensamento que eu, gostava de fazer as coisas. A grana era à parte. Dinheiro, se chega é legal, mas se não vier, estava legal o negócio, a gente fazia. Isso que ligou mesmo a gente. Eu falava com ele umas dez vezes por dia, todos os dias. Qualquer bobeirinha, a gente marcava no Bolinha, só para trocar idéia.

Tatiana dos Santos - Vocês iam escrever um livro, né?

Estávamos fazendo um livro. Ele que queria na verdade, me encheu o saco, falei: “Marcelo, não quero biografia, isso ai é uma bobagem”. “Não, vamos fazer, sua história, é legal”. Eu falei: “então, vamos fazer um negócio diferente. Vamos pôr bastante fotografia, desenho, uma linguagem diferente, pop, jovem” – começamos a gravar um monte de fitas, que preciso pedir pro Nando recuperar pra mim. Eu parava num bar e ficava conversando, só que depois de três conhaques e três camparis o papo da minha vida ia embora. Eu começava a viajar por outros papos e outras historias. Tem 80 fitas lá.

Oswaldo Colibri Vitta - Pô, mas vai sair o livro um dia, não vai?

Não, não vai. Esse livro não sai. Esse livro já era. Esse era o livro do Fromer.

Thiago Domenici - Você naturalmente ficou chocado, como todo mundo, com a morte dele?

Fiquei bastante chocado e decepcionado. Porque, na verdade, eu tinha uma visão de amigo até conhecer o Fromer. Descobri que amizade não era aquilo que eu conhecia. O que eu tinha antes, sei lá como chama, colega forte, super amigo, super colega, mas não era amizade. Amizade era aquilo que o cara me passou. Desinteresse total de qualquer coisa. Se você ligasse pro cara três horas da manhã, falasse “Marcelo, tô com um problema”, “Então me diz onde você está?”. Não dá para explicar.

Oswaldo Colibri Vitta - Ele era da sua idade também, né?

Da minha idade. Nunca vi assim um cara tão disponível pra qualquer situação como ele.

Débora Pivotto - Voltando um pouco ao seu ingresso na Globo...
Estava na ESPN, teve as finais do Campeonato Paulista de 97 e a Globo me ligou, falou: “nós queremos que você faça as finais”. Eu falei:”eu não posso fazer porque tenho compromisso com a ESPN, mas depois a gente conversa”. Ai fui conversar, fiz um teste, o cara gostou, fizemos um contrato de seis meses, fui me adaptando e eles foram se adaptando a mim também, porque depois comecei a não cortar tanto o cabelo, a minha gravata começou a ficar torta. Foi cedendo um de cada lado, o negócio foi se moldando. Como eu falava muito rápido, tinha aula com o Pasquale – de tempo, de colocação e tal.

Oswaldo Colibri Vitta - O Sócrates, quando você estreou na Globo, falou: “não é o Casão...”
O primeiro jogo que eu fiz foi Palmeiras e Fluminense, no Parque Antártica, com o cabelo cortadinho, gravata, terno e eu não uso isso de jeito nenhum, estava que nem um robô. Perguntavam o que eu achava do jogo e eu não conseguia me mexer, cara. E eu pensava: “que coisa é essa, não é possível”. Com o tempo, fui me soltando.

Oswaldo Colibri Vitta - Os seus amigos ficaram todos espantados?
Tinha o terno inteirinho, calça, sapato. Foi passando o tempo, fui conquistando espaço e tirando o sapato, ia de tênis. Hoje vou de calça jeans, camisa normal e só levo a parte de cima do terno. Na realidade, as pessoas têm a imagem de uma pressão grande na Globo, mas não é assim. Tem esse lado, mas não chega n a gente. Deve ser lá em cima, uma cobrança entre eles, lá na cúpula e nunca me falaram: “você não pode falar isso ou você deve falar aquilo, nunca”

Tatiana dos Santos - As aulas com o Pasquale foram uma escolha sua?
A primeira, não. Os caras falaram: “vamos conversar com o Pasquale, você está falando muito rápido, não está dando para entender e, às vezes, você está cortando uma letra, comendo palavra e tal. Depois, comecei a pedir para o Pasquale :“vamos pegar umas fitas pra dar uma olhada”. A gente ia lá, ficava olhando a fita, trocando uma idéia, o que dá para usar – o que vai ficar pesado para ele ouvir –, tento fazer o comentário como estou falando com vocês, corto algumas palavras, gírias, que não ficam legal mas eu não fico me policiando com o que eu vou falar.

Thiago Domenici - Dá um exemplo do que você falava assim e não podia.
Não, tudo podia, mas por exemplo: “cara”. “O cara chutou”, o cara quem? O cara é o Ronaldinho ou o Pelé. Então o Pelé chutou bola e entra o comentário e você: ”pô, o cara chutou mal”. “O cara é o Pelé, você está louco?”

Oswaldo Colibri Vitta - V ocê falava “bicho” também?
Falo até hoje. Quando sento pra fazer o jogo, fecho alguma coisa.

Oswaldo Colibri Vitta - Você se policia?
Não, não me policio, é natural. Entro ali e já sei o que posso usar e não posso usar. 

Thiago Domenici - O Galvão Bueno é um cara que muitos odeiam e outros amam. Como é trabalhar com ele?
Profissionalmente, ele é sensacional, sabe tudo de televisão. Já passei cada apuro, de cair a imagem ou entrar na hora que não tem de entrar e o cara sai numa boa, eu, se estivesse sozinho ia chorar na frente da câmera. Ele é vaidoso pra cacete, você tem que se adaptar.

Thiago Domenici - Vocês já tiveram alguma briga nos bastidores?

Não. Nós não somos amigos assim de sair. Ele tem o jeito dele e eu tenho o meu. Trabalhamos numa boa, não tenho problema nenhum com ele.

Oswaldo Colibri Vitta - Mas a gente percebe que você com o Cléber Machado fica mais solto.
O Cléber tem a minha idade, a mesma visão de televisão. Acho legal transmitir um jogo conversando, trocando idéias, o Galvão é mais tradicional, é narrador, pergunta para o comentarista. Então fica um negócio mais normal, que é legal também.

Oswaldo Colibri Vitta - Vou fazer uma provocaçãozinha: lá na Ferrari a gente sabe quem o piloto número um, e na Globo, quem é o comentarista número um?
Não tem na Globo, pelo menos na parte técnica eu e o Falcão fazemos a mesma coisa.

Tatiana dos Santos - Vocês vão sempre aos jogos?

Não. Antes sim, mas agora a maioria das vezes está sendo no estúdio, por vários motivos, mas principalmente pela falta de estrutura de algumas cabines.

Tatiana dos Santos - E quando é fora do Brasil?
Quando é a seleção, sim. Copa do Brasil e outros campeonatos não estamos indo, não.

Sofia Amaral - E se cai a imagem?

Um problema, mas pior é que no estúdio o comentarista e o narrador têm a visão igual à sua em casa. O comentário fica muito óbvio. Aquilo que eu falo, você está vendo. Quando estou no campo falo coisas que você não está vendo. Não gosto de fazer no estúdio, fica sem conteúdo. O que gosto é de usar as outras coisas do campo, o contra-ataque: o Palmeiras está atacando, mas se o Paulista pegar a bola, não tem ninguém aqui defendendo, quer dizer, o que o pessoal não está vendo.

Oswaldo Colibri Vitta - Você vai a treinos?

Às vezes. Comecei a ir, mas é muito complicado. Vou no São Paulo, que dá pra ir.

Sofia Amaral - Por que?

Porque o São Paulo é legal, tranqüilo, nunca acontece nada. Não posso ir ao Corinthians ver um treino e no Palmeiras, nem pensar.


Fernando do Valle - Você já foi hostilizado pela torcida?
Várias vezes. Em Salvador passei um apuro ferrado. Barradão, campo do Vitória, acabou o jogo fomos pegar o avião e o Arnaldo (César Coelho): ”vamos sair rápido, vamos sair rápido.” Quando saí, era uma rua só e estava toda a torcida do Vitória, último jogo do campeonato e o Vitória precisava ganhar do Corinthians para se classificar, só que o Corinthians ganhou de 3 a 2 e eu tinha jogado no Corinthians, na hora que a torcida me viu, eles queriam me matar. O Arnaldo voltou para o campo e fiquei sozinho na rua. Dez mil torcedores do Vitória e eu. Daí um cara tacou uma latinha de cerveja cheia, a latinha não pegou, pensei: “não posso sair andando, vou ficar aqui. Daqui a pouco, eles vão se acostumar comigo. Se sair vou encontrar sempre gente nova. Aqui não, eles vão me xingar, mas daqui a pouco vai ser normal. Meu raciocínio acho que foi lógico, porque vinha outro lá e ia ficar com bronca, tava perdido, não tinha saída. Parou um táxi, era um casal paulista em lua-de-mel em Salvador, falaram para eu entrar no táxi. Os torcedores quase viraram o táxi, me jogaram cerveja. Depois o taxista conseguiu me levar para o aeroporto.

André Bertolucci - Em que ano foi isso?
Acho que em 1998, um ano que o Corinthians foi campeão brasileiro.  

Oswaldo Colibri Vitta - Então você tenta sempre medir as palavras?

É complicado, se colocar uma palavra que tem duplo sentido, às vezes pode estar elogiando o time do cara e ele acha que está desmerecendo. Posso comentar dez jogos do Santos, falar que é o melhor time do Brasil, que o Robinho joga muito e o torcedor dizer que eu só falo mal do Santos. Tento colocar sem parecer prepotente, arrogante, dono da verdade. É a coisa que eu mais me preocupo, às vezes fica até repetitivo, gosto de passar o comentário dando a possibilidade de você achar que estou errado, uso ‘eu acho', ‘na minha opinião', isso tira a prepotência.

André Bertolucci - Em rádio também?
Vocês são jornalistas e eu tenho que falar pra vocês que 99,9% dos jornalistas são arrogantes e prepotentes. O índice aumenta ou diminui, tem cara que é menos e tem cara que é mais. Isso é porque convivo com os caras todos os dias e é difícil você falar alguma coisa e o cara aceitar a sua opinião. Todo dia, alguém fala: “Você tá louco?”..”Tô louco, por que? É a minha opinião, a sua é uma, a minha é outra”. Jornalista tem muito disso. Eu não sei por que.

Fernando do Valle - Tem algum comentarista que você curtia, que você se baseou no começo?

O João Saldanha eu achava do cacete, as tiradas deles eram sensacionais. Gosto do Paulo César Vasconcelos, da ESPN e do Paulo Calçade, que está na TV Record agora.

Thiago Domenici - Qual a sua opinião sobre a lista do Pelé?

Não entendi isso direito, ele entrou numa roubada, o Pelé só entra em roubada.

Oswaldo Colibri Vitta - O Pelé não, o Édson.

Ele pegou a lista, falou para o assessor dele mandar buscar e achou que assinar seria legal. Quando viu que a bomba estourou: “ih, deixa eu ver essa lista, coloca o Rivelino, coloca num sei quem”. Achou que era uma coisa insignificante, que não aconteceria nada. Tinha de ter muito jogador em atividade ainda... Uma lista complicada. Ele não deveria ter entrado nessa roubada.

Oswaldo Colibri Vitta - Política, né?

Lógico.

André Bertolucci - Quando você era jogador, você fumava, né?
Fumava dois maços de cigarro por dia.

André Bertolucci - E parou depois...

Fui diminuindo. Quando cheguei na Itália, falei: “puta, eu fumo demais. Então não vou fumar de manhã, vou guardar dois para depois do almoço, dois para depois do jantar e mais um se eu quiser ver um filme”. Ficar a manhã toda sem fumar pra um cara que fumava dois maços não é fácil..., mas fui controlando, fiquei todo o tempo na Europa e no Rio assim. Um dia vim pra São Paulo, saí numa balada com uns amigos, fomos pra casa batendo papo e fumando cigarro. Já tinha fumado um maço na noite, aí bateu na minha cabeça: “meu, demorei sete anos pra diminuir essa porra, aí numa noite já fumei um maço e vou abrir outro maço.” Peguei os pacotes, distribuí e nunca mais coloquei um cigarro na boca.

Oswaldo Colibri Vitta – Mas lá no Corinthians o Magrão também fumava pra caramba...
Fumava. O Magrão fumava no intervalo.

Débora Pivotto - Nunca teve pressão de treinador?
Nunca ninguém falou nada.

Thiago Domenici -
Todo mundo deve perguntar essa história pra você: de quando a Rota te parou por causa de cocaína...

Tinha 19 anos e foi em 1982, era a época da democracia corintiana, eu estava incomodando muito. Era artilheiro, fiz a moda da época. Toda a garotada da época queria ser igual a mim, qualquer coisa que eu falasse, o pessoal ia atrás do que eu curtia e eu era uma presa fácil, estava em todo lugar. Avisaram, um mês antes, assim: “ó, vai ter alguma coisa armada contra o Corinthians, contra a democracia, e o alvo é o Casagrande.” Só que nós pensávamos que era o São Paulo querendo prejudicar a final do campeonato. Então fui pro hotel e fiquei concentrado dez dias, só ia treinar e voltava. Acabou o campeonato, fomos campeões, baixamos a guarda, falamos: “porra, o campeonato já era”. Ninguém pensou mais nisso, em armadilha, nem nada. Fui pro Rio com o Magrão, a gente jogou na seleção paulista, voltei. Nesse dia eu estava na porta da casa de um amigo onde a gente ia passar o Natal, todo ano a gente ia na casa de alguém. Era dia 23, estava a mãe dele na porta, ele fazendo a manobra e passou a Rota. Os policiais da Rota desceram com a sirene ligada, metralhadora, coisa que nem com o Fernandinho Beira-Mar fizeram. Desceram de metralhadora, “mão pra cabeça” e o cacete, revistaram o carro e não sei o quê, fingindo até que não me conheciam, o que era impossível, pô, porque naquela época era a democracia corintiana, pôrra!, eu era artilheiro do campeonato, a minha cara estava em todo lugar, qualquer um sabia quem eu era. Pegaram a minha bolsa, eu usava uma bolsa tira-colo e os caras tiraram um vidrinho de dentro da bolsa e falaram: “o que é isso aqui?”. E eu virei pro cara e falei: “o que você acha que é?” E ele: “isso aqui é cocaína”. E eu falei: “então é, meu”. Aí eles falaram: “então você tá detido, vamos pra delegacia”. Eu falei que não ia no camburão e ele falou: “então senta no banco de trás”. De onde eu fui preso até a delegacia são cinco minutos no máximo.

Fernando do Valle - Onde aconteceu isso?

Na Penha. Demoramos quarenta minutos. Os caras ligaram pra todos os repórteres policiais, para todas as rádios na minha frente. Falavam assim: “Pegamos o cara. Vai pra décima”.

Oswaldo Colibri Vitta - Avisaram todos os jornais, eu estava no plantão na Folha de S. Paulo.

Todos. Quando cheguei, a “festa” estava armada. O cara falou pra mim assim: “meu, nós pegamos a Rita Lee e o Gilberto Gil, você acha que um moleque de merda que nem você a gente não ia pegar?”. Eu estava assustadíssimo. Quando cheguei na delegacia, estava a imprensa toda. As outras viaturas davam cavalo de pau em frente da delegacia com a sirene ligada, comemorando! E eu: “o que está acontecendo? Puta que pariu, que merda é essa?”.

Sofia Amaral - Mas e aí, o que aconteceu?

Fui para julgamento. Eles mentiram pra caralho, arrumaram 300 testemunhas...

Fernando do Valle - Você chegou a ir para a cela?
Não, paguei fiança, quando cheguei na delegacia entrei com o capitão da Rota, e ele falou: delegado, pegamos tal pessoa, com esse vidrinho aqui, é cocaína e ele falou que é dele.” E o delegado falou: “é seu isso aqui?” eu falei: “nunca vi isso aí, não sei o que é, ele que falou que é meu”. E aí o capitão falou: “pôrra, seu filho da puta, você falou que era seu” e falei: “não é meu”. Eles não tinham provas, não tinham testemunhas, não tinham nada, então era a minha palavra contra a deles... arrumaram umas quatro testemunhas estranhíssimas que não conheciam o lugar, mentiram muito, foram caindo em contradição. O julgamento durou seis meses e acabei sendo absolvido por falta de provas. Mas antes eles me perseguiam, eu tomava umas três blitz por dia, às vezes eram quatro ou cinco.

Oswaldo Colibri Vitta - Os caras precisavam mostrar que estavam fazendo alguma coisa...
Tomei uma na Marginal do Tietê, depois de um jogo entre Corinthians e Santo André, primeiro jogo do Paulista, foi um a zero, fiz o gol, estava com dois amigos e meu carro estava no Parque São Jorge, os caras foram ver o jogo, estou voltando e a Rota apagada embaixo do viaduto mandou pararmos. Paramos o carro, descemos os três, pediram os documentos: “Ah, você é o Casagrande, você vai para uma casa maior que seu nome, você não vai acreditar, cadê não sei o quê?”. E eu: “pôrra, nós estamos indo embora.” Deixaram meus dois amigos pelados, era julho, um frio do cacete, os dois ficaram nus na Marginal e o cara me dava soco no estômago para eu falar que tinha droga. Quando passou um carro em alta velocidade, tocou o rádio dos caras, dava pra ouvir...

Oswaldo Colibri Vitta - Isso foi depois ou foi antes da prisão...
Antes, e a voz lá falou assim: “um suspeito de assalto está na Marginal Tietê, carro tal...”, e os caras tinham acabado de passar pela gente! Aí os caras largaram a gente e foram atrás do carro. Meu, olha o trauma que fiquei, olhava pros meus amigos e falava assim: “meu, o que a gente vai fazer? Nós temos que esperar eles voltarem.” E eles: “não, vamos embora daqui!”, e eu: “mas a gente tem que esperar pra acabar com isso”. E eles: “não, vamos sair daqui!”. Aí fomos pro Parque São Jorge, peguei o carro e fui embora. Era absurdo. A perseguição não era em cima de mim, na realidade era tentar desmoralizar a democracia corintiana. Se me pegam com droga ou o Magrão, iam dizer: “olha a democracia! A democracia que vocês querem é essa? Drogado e bêbado”. Era o que usavam. O pessoal da imprensa que era contra me usava como drogado, o Vladimir como negro e o Sócrates como bêbado.

Thiago Domenici - Você acredita na imprensa?

Eu acredito sim, na esportiva menos. Na esportiva não acontece nada, muitas coisas são criadas. O repórter tem de voltar para o jornal, fazer o programa das seis às sete na rádio e vai ficar assim: “ó, está tudo tranqüilo aqui no Corinthians”. Não dá, o programa vai pro saco. “O Oswaldo olhou feio pro cara lá...”. Então tem uma certa criação negativa na imprensa esportiva. Sobre as outras, eu leio tudo, às vezes vou atrás pra confirmar o que é: “ah, isso aqui é absurdo”, mas no geral dou crédito.

Oswaldo Colibri Vitta - Esses episódios que você acabou de narrar, da década de 80, marcou você de forma violenta...

Na época, não estava nem aí. Depois fui ver que corri um risco ferrado de desaparecer da história do futebol se acontecesse qualquer coisa, se fosse condenado e tal... perdi tempo, não fui convocado em 83 porque fui preso em 82. Fui a grande revelação do ano em 82 e era óbvio que em 83 a primeira convocação que fosse feita meu nome tinha que estar lá, e não estava pelo que aconteceu.

Fernando do Valle – Nessa época tinha jogadores que usavam, você chegava a ver e conviver e sabia?

Como tem em todo lugar. Maconha, dar um “doisinho”, muita gente dá, no mundo do futebol também tem, meu! Hoje está pior, o jogador é pego no dopping com cocaína, isso aí não existe. O cara fuma pra ir jogar, o cara cheira pra ir jogar, o cara é louco, né? Porque essas coisas, pelo menos o que acho, é pra você tirar uma onda, né?

André Bertolucci – O Maradona...

Depois o Dinei, teve uma cacetada de jogador aí. Na Argentina teve um monte. Tem outra coisa: mesmo que tivesse, que o vidrinho fosse meu. A polícia pára. Ótimo. Tem três caras ali: “vamos ver quem são esses caras.”. O cara desce: “Documento, por favor”. Vê o documento, meu nome: “Ah, você é o Walter Casagrande, jogador do Corinthians?”, “Sou eu, meus amigos.” Não sou bandido, porque tem de ver minha bolsa? Já me identifiquei, pô! “Documento?” “Não tenho”. “Onde você mora?” “Pô... hããã..” “Meu, vou te revistar, bicho”. Você não pode me revistar, não fiz nada, pô! Você me conheceu, você sabe quem sou, não sou bandido, não sou nada, você quer ver minha bolsa por que? Você quer ver meu carro por quê? Aí o cara pergunta: “você usa arma?” “Não uso arma.” “Posso ver seu carro?” “Mas você vai ver meu carro por que?” “Pra ver se tem arma.” “Mas eu não falei que não tenho?”. Tenho na minha cabeça isso, confio na pessoa. Tinha que funcionar assim. A coisa que mais me revoltou foi isso, na realidade, o policial fazer uma coisa que não deveria ter feito! Depois que me identifiquei, que dei meu documento, acabou, bicho!

Oswaldo Colibri Vitta – Isso repercute até hoje.

Só pra você ver um negócio: há uns quatro meses atrás, estava indo na casa da minha irmã, na Penha, pela Ayrton Senna, entrei numa avenida que chama Tiquatira, um puta trânsito, subi, oitenta barcas na rua, holofote, metralhadora, eu num jipe todo escuro – “encosta”. Quarta à noite, estava tendo jogo do Corinthians. “Documento”. O cara nem olhava pra minha cara: “Documento do carro, posso ver seu carro?” “Pode.” “O que é aquele saquinho?” Eu estava com um monte de cd. “É cd”. “Legal.” “O que você tem nessa bolsa aí?” “Só documento.” “Você tira os documentos pra mim?” Aí veio um cara, um outro polícia “Ô, Casão, caraco, o Corinthians fez um gol, está um a zero”. Aí o cara ficou todo assim: “me desculpe, nós estamos aqui numa apreensão de arma, estou assustado, estamos esperando uma carga de arma chegar, nem olhei para o seu rosto, nada. Toma o documento e vai embora”. Era isso o que o cara tinha que ter feito em 1982.

Antonio Martinelli Jr. – Você acha que a polícia mudou muito de lá pra cá?
O Brasil mudou, a policia mudou também, tiveram de mudar. Naquela época era o seguinte: não havia lei nem poder, o cara te parava e falava: “cospe aí”. Se não saía saliva, você ia preso. Você não pegou essa época, né? Você é novo ainda. Pôrra, eu já tomei várias blitz com quinze anos: você está parado aqui, batendo papo, tem um papelzinho no chão: “O papelzinho. Leva”.

Oswaldo Colibri Vitta – O Djavan foi preso mais ou menos perto de quando você foi preso porque era negro.
Nos anos setenta era assim. O cara te prendia pelo cheiro. Nós demos um dois aqui, acabou. Aí o cara chega: “Cheiro de maconha”. Cheiro de maconha vai preso, você está louco? Você tem que ter alguma coisa aqui pra gente ir preso. A prova é o cheiro? Pega um saquinho, dá um nó: “ó, delegado”.

Antonio Martinelli Jr. – Eu queria só completar: o que você acha que está muito falho ainda na polícia hoje?
O que está falho no país é a corrupção. E tem influência na polícia, não é? A impunidade. E o salário dos caras. Você fala assim: pôrra, ser corrupto é uma merda, né? Mas vê quanto o cara ganha para entrar na favela e trocar tiros com os caras. Sou contra a corrupção, contra tudo quanto é sacana. Mas é foda ter três filhos em casa e ter de entrar no meio da favela pra trocar tiros e depois pegar oitocentos reais no final do mês com desconto do imposto de renda. Chega um bandido, prende um cara com droga e o cara fala: “te dou quinhentos paus.” Ele pensa: “quinhentos paus, vou pagar aluguel, comprar arroz, feijão, o caraco” e entra na corrupção. Então, o problema maior é o salário. Na polícia, diretamente, é o que os caras ganham que leva a serem corruptos. Alguns, não são todos, não dá pra generalizar, mas acho que é isso. Se ganhassem bem, teriam segurança, não precisariam ser corruptos.

Oswaldo Colibri Vitta – Você vai ser treinador ou não?

Já desisti. Mas tenho altos e baixos.

Oswaldo Colibri Vitta – Você está tendo umas recaídas. Quem já te sondou?

Ninguém. A imprensa falou em Corinthians e São Paulo. Mas nunca ninguém me ligou e falou: “você quer ser treinador?”

Oswaldo Colibri Vitta – Ninguém te ligou?
Ligou, vai, O Paraná Clube. O Paraná Clube cogitou: “e aí o que você acha?”, eu falei: “ah, meu...”.. Eu tenho uma coisa que me preocupa muito, que fez eu mudar de idéia dessa ânsia de ser treinador, sou um cara discreto, não gosto de ser o centro das atenções, protejo minha família, não tem reportagem, não tem foto, não tem nada da minha família. Se eu virar treinador, vou virar o centro das atenções. Minha família vai ficar em foco. Meus filhos não estão acostumados com isso. Isso aí está pesando para eu desistir desse negócio. E outra: hoje eu sou comentarista, o caçador, né? Se eu virar treinador, vou ser o burro. Aí, vou ser a caça, e não sei se estou preparado pra ser a caça de novo, já fui por quinze anos como jogador, era alvo de crítica: “olha a calça do cara”.

Thiago Domenici – O que você acha dessa questão de ser celebridade?
Bom, não sou celebridade. Olha só: fui convidado pra fazer duas pontas na novela Celebridades que os Titãs pediram e falei pra eles que não ia porque não tem nada a ver, não é a minha cara e além disso tenho muitos compromissos em São Paulo, não posso sair muito daqui.

Sofia Amaral – Mas as pessoas te reconhecem na rua...
Tá, me reconhecem, mas tem uma diferença entre ser celebridade e ser uma pessoa pública. Os caras do Big Brother são celebridades? Os caras são artistas? Eles só têm visibilidade porque estão participando de um reality show e tal... depois que saírem de lá, vão achar que são artistas.

André Bertolucci - Você teve uma participação no cinema, não teve?
Tive.

Tatiana dos Santos - Foi lançado em DVD há pouco tempo. Como é que você foi parar ali?

Pôrra, passa toda hora no Canal Brasil. Os caras me ligam... Na realidade, o filme era sobre futebol feminino. Queria mostrar que existia o futebol feminino. Eu não li o contrato, né?

Débora Pivotto – Você falou que na Itália os jogadores aprendem muito da tática, que o futebol italiano tem isso. E o brasileiro, o que tem de diferente?

Na realidade, eu não sei. O brasileiro nasce com técnica, não sei de onde, não sei por que, mas nasce com técnica. O brasileiro nasce com ginga que combina com futebol. O cara pega a bola, dança, que nem o Robinho: o europeu, se fizer isso quebra ao meio. O alemão, se gingar que nem o Robinho as pernas vão pra lá e a cabeça cai. Porque eles são duros, é estrutura... Nós temos muito de europeu, italiano, português, mas temos muito de africano, também, de índio... Vê a menina da ginástica, a Daiane, aquilo lá não existe! Brasileira, nasceu pra ginástica, com ginga, com mobilidade, com o dom, é gênio. Pelé. No futebol, tem vários jogadores europeus que são bons pra cacete, mas ninguém é gênio. Ninguém é o Pelé. É o Maradona na Argentina, é o cara que tem a ginga. Vai desenvolvendo isso, você joga, é futebol de salão, bolinha, gosta de brincar, você vai desenvolvendo a técnica e vai apurando.

Fernando do Valle – Entre os centro-avantes, quem você acha que são os melhores?
O melhor centro-avante que eu vi no mundo foi o Van Basten. Acho que nunca vou ver ninguém igual ao Van Basten. Ele fazia de tudo, cabeceava, direita, esquerda, veloz, driblava, presença de área ferrada, visão de jogo. O cara era sensacional. Eu gostava do Reinaldo, do Atlético, Romário, Careca. O Careca era genial. O Careca unia agilidade, habilidade e velocidade. O Careca parecia vídeo-game às vezes, fazia tudo muito rápido e certo.

André Bertolucci - Faltou falar sobre o amor à camisa?
Antigamente você tinha identificação. O Ademir da Guia jogou oitocentos anos no Palmeiras... Por exemplo, antes tinha o Casagrande do Corinthians, o Sócrates do Corinthians, o Ademir do Palmeiras, o Vladimir do Corinthians... Hoje você tem o Robinho do Santos, o Rogério do São Paulo, o Marcos do Palmeiras e o Luís Fabiano do São Paulo. E aí? Aí tem o Alex, que jogou no Cruzeiro, no Palmeiras, no Flamengo. O jogador muda muito de time muito e não tem uma identificação, não cria uma raiz. Achava mais legal antes. Eu tinha jogo de botão com a escalação dos times quando eu era garoto, comprava o jogo de botão, vinha com a carinha do cara, porque o time não mudava.

Débora Pivotto - Até pro torcedor era completamente diferente...

Lógico. Você perguntava pro cara “qual é seu time?” “O meu é Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu, Ademir, Edu, Leivinha, César e Nei.” Pergunta pro cara do Palmeiras hoje se ele sabe o time dele... Esse negócio começou a banalizar. É importante ter identificação com as coisas, não dá pra banalizar. Aí começa o Marcelinho: “é minha segunda pele”. Ele tem oitenta segundas peles! Todo time que ele vai é a segunda pele do cara, pô.

André Bertolucci – O cara é uma cebola.

É uma cebola, um alho! Acho que esse tipo de sentimento, de relação é importante, é forte, não é qualquer coisa, bicho. E isso aí em qualquer situação. Aí o cara no futebol fala que é a segunda pele dele...

Fernando do Valle - Mas é a grana, é muito dinheiro, o cara acaba entrando...
Entrou no jogo.

Oswaldo Colibri Vitta – Mas o pessoal é muito mais jovem, né? A molecada está indo para a Europa muito cedo. Hoje tem uma turma de agentes que pega o jogador com quinze, dezesseis anos...
Com onze, amigo. O moleque vai treinar no infantil, chega lá com dez anos com um procurador e nem sabe o que é. “Quem é esse cara?” “Ahn...” O cara que tá lá. “Sou seu procurador, meu.” “Vai procurar o que?”

Oswaldo Colibri Vitta – E o futebol brasileiro nunca mais vai ver os grandes jogadores?

Vai ser cada vez mais difícil. Ou banca, que nem o Santos... O Santos foi do cacete, está bancando.

Fernando do Valle – Tá bancando. Mas o Alex vai sair.
Tudo bem, vai perder o Alex. Não dá pra bancar sempre, mas nós estamos em 2004, já são dois anos, né? Depois do título, que explodiu o time do Santos, o Santos está bancando...

Fernando do Valle – Vai sair o Diego?

Acho que sai o Alex e sai o Diego. O Diego, além de querer ir, não está com aquela cara de Santos, não está jogando tanto. O pai dele também tem uma influência muito negativa.  

Oswaldo Colibri Vitta – Já foi pra Itália, já comprou casa lá...

É...

André Bertolucci – E a CPI do futebol, você acha que teve algum efeito?
Acompanhei um pouco no início, depois abandonei porque achei que não ia dar em nada... Tanto não deu que o Caixa D´água é presidente da Federação Carioca, o Eurico Miranda é presidente do Vasco. Eram os principais, né? O Farah, da Federação Paulista, achou que a bomba ia estourar e caiu fora, e não estourou. Tem o Perrela que os caras vão agora investigar e ninguém fala mais nada.

Oswaldo Colibri Vitta- O Mustafá está há mais de dez anos no Palmeiras.


André Bertoluci - E o Beto Zini, antigo no Guarani...

O Zini não mudou em nada. Você pega o campeonato carioca, o Caixa D'água, o cara é presidente há dezoito anos de uma federação e está lá. Não boto fé. Thiago Domenici - Por que em todas as entrevistas o jogador de futebol dá sempre a mesma resposta? É porque sempre perguntam a mesma coisa. Tinha uma peça de teatro em cartaz, Nossa Vida é uma Bola. Eu fui ver, participei da peça, tinha um quadro que eles fazem uma ironia justamente em cima disso. Tem um jornalista e um jogador e o time está perdendo de dois a zero, o jornalista vem e pergunta: “e aí, você acha que dá pra virar?” Ele fala: “não, é lógico que não, tá dois a zero para os caras e tomara que eles façam mais dois e a gente perca de quatro a zero”. Pô, não é pergunta que se faça.  

Débora Pivotto - O que você acha dessa mistura de programas esportivos com humor?

Eu não gosto.

Débora Pivotto – Por que? Você acha que tira a seriedade?
Depende. Eu gosto da MTV. Os caras são geniais.

Thiago Domenici - É que a proposta é essa: humor.
E sempre foi. Eles fazem o Rock´n Gol, mas tem programa que extrapola. Porque o futebol é uma coisa que é importante para mim, ganhei a minha vida jogando futebol. Tudo o que eu tenho hoje, inclusive profissionalmente, dando continuidade na minha vida, ao dia-a-dia, foi graças ao futebol. Sou comentarista da TV Globo porque fui jogador de futebol. Então vejo o futebol como algo sério. Foi a minha vida e não gosto de ver as pessoas escrachando, banalizando, jogando lá para baixo uma coisa que foi a minha vida. É a vida de um monte de repórteres e jornalistas. Há muita gente que está envolvida nisso aí. E, às vezes, os caras passam dos limites. Acho legal ter um programa esportivo de futebol bem humorado, não escrachado. Por exemplo, a Globo tem uma coisa que eu acho do cacete: o pessoal do jornalismo, que estou incluido, não pode fazer propaganda, não pode fazer uma porrada de coisa, está no contrato, inclusive participar de programas humorísticos, porque você tem de passar credibilidade. Quando eu falar que o Brasil foi mal, o público tem de acreditar em mim, não pode achar que estou zoando, pode concordar ou não, mas tem de acreditar. Se eu participar do Casseta e Planeta e, no outro dia fizer o jogo, o cara vai pensar: “será que ele está com palhaçada?”  

Antonio Martinelli Jr.- Qual é sua outra paixão fora o futebol?

Gosto de música.

Antonio Martinelli Jr. - Mas você dedica um tempo a isso?

Muito. Perco tempo porque não toco nada, aí perco tempo mesmo. Mas sempre guardo alguma coisa relacionada à música para fazer. Em rádio, só faço música. Fiz esporte na Rádio Globo no ano passado e sai porque não quero fazer esporte no rádio, quero fazer aquilo que gosto, é a minha segunda paixão e quero fazer também. Então, guardo rádio para fazer música. Compro tudo, tenho uns 800 Cd's, compro Dvd's. Ontem mesmo comprei o Dvd do Led Zeppelin de um show de 1973 que é sensacional, aí já levei de contrapeso o Alice Cooper. Vou comprar o Sem Destino que saiu agora, sensacional. Gosto de musical, de opera-rock. Minha segunda paixão é tudo que está relacionado com música. Quando estou em casa, estou vendo ou um filme, que gosto muito também, ou música.

Fernando do Valle - Você pensa em ter o seu programa?
De rádio?

Fernando do Valle - Ou televisão, mesmo?

Tenho um programa que a Sportv se interessou e vou fazer. Provavelmente na Transamérica, já estive lá, mas vou voltar mais estruturado. São duas horas de programa, das dez à meia-noite. Vai ter uma banda fixa que é o Tutti-Frutti, que era da Rita Lee. O Luís Sérgio Carlini (guitarrista) que é meu parceiro de anos de rádio. Vai ter sempre convidados, não especificamente de futebol. Aliás, o futebol está incluído no contexto, mas não é um programa esportivo, é um programa de variedades. Se o Nasi (vocalista da banda Ira!) ou o Paulo Miklos (do Titãs) for convidado, então, eles vão tocar e cantar junto com o Tutti- Frutti, se o convidado for o Marcelo Rubens Paiva, já tem a banda para tocar. Vamos falar sobre todos os assuntos e não só sobre futebol.

André Bertolucci - Vai ser um programa semanal?

Só segunda-feira.

Thiago Domenici - E os programas de mesa- redonda, qual é o melhor?
Não assisto nenhum, só vejo os da ESPN. O Linha de Passe, o Sportcenter, o Bate-Bola com o Assinante que a Soninha comanda. Vejo o Cajuru no almoço, que acho legal, mas os programas esportivos de debate não vejo. Gosto também do Arena SportTv que o Cléber Machado apresenta. É um debate levado a sério e não deixa de ter bom humor.

Thiago Domenici - Você acha que nunca têm uma coerência...
Não, não gosto de sentar e ficar vendo, começo a ficar nervoso, os caras falam, não concordo e fico nervoso. Você vê o programa e o cara fala: “o maior jogador do mundo hoje é o Ronaldo”. Não, não é possível. Eu falei: “cara, o que é aquilo, se o cara fizer gol ele não pode levantar a camisa”. O Ronaldo é um grande jogador, tem uma importância para a mulecada absurda, mas precisa cuidar da sua imagem. Aí você fala: “não, eu não concordo, eu acho que é o kaká, por exemplo”. Acho que o maior jogador do mundo é o Zidane, sem dúvida. Comparar Ronaldo com Zidane é estranho, estilos diferentes. É que brasileiro é do nosso lado mesmo. Mas não dá para colocar no mesmo plano Zidane e Ronaldo. O Zidane é da linha do Maradona. Não é igual, mas é aquela turma ali: Maradona, Zico, Platini e Zidane. O Zidane é sensacional. O cara chuta de direita, esquerda, arma jogada, o cara joga muita bola.

Débora Pivotto - E no contrato você não pode participar de debate. Tem alguma coisa que você gostaria de fazer e de certa forma o contrato com a Globo...

Não, nada. Por exemplo, eles me pagam e eu respeito o meu contrato, nada mais justo. Por exemplo, eu jogava no Corinthians, não podia sair e falar: “ah, hoje eu vou jogar no Palmeiras: Isso não existe. O Corinthians me paga, tenho contrato com os caras e na TV é a mesma coisa, a Globo faz isso, preserva o que é deles.


Tatiana dos Santos - E quando foi convidado para ser comentarista da Globo, você não entrou numa certa crise?
Confesso que pensei bastante. Porque sempre tem aquela história da Rede Globo, por causa das Diretas, da ditadura, que eles faziam parte do jogo. Prejudicou o Lula em 1989 e pôs o Collor e foi aquela merda, depois “ele que vá pra puta que o pariu” e tiraram o cara. Toda essa rotina, acho que não tem tanto hoje. Mas isso me incomodou e fui pra lá pra ver o que era. Fui ver como ia funcionar. Acho a Rede Globo do caralho, é a melhor empresa do Brasil para trabalhar, recebo em dia, tenho tudo na mão, assistência médica, etc. só não pode entrar na minha filosofia de vida, no meu conceito de trabalho. Não vai me dirigir. Sei, não sou bobo, que tem coisa que não posso falar porque vai comprometer a TV, palavrão, coisas assim. Sei me comportar, cacete, não é preciso me dirigir. Não vem me dizer que eu não posso falar da Federação. Como, não pode? Mas nunca falaram, nunca fizeram. Trabalho com total liberdade.

Oswaldo Colibri Vitta- Mesmo a Globo se envolvendo na compra de jogos...

Isso é um detalhe interessante. Todo mundo fala da Globo. É um horário absurdo, 21h40, mas o mundial de clubes no Brasil, na Bandeirantes, foi às 18h, Corinthians e Real Madri e ninguém falou nada, isso é horário para jogo? Sexta-feira no Morumbi, Corinthians e Real Madri, como que o cara chega no Morumbi? Não existe. Todas fazem isso. A ESPN faz a Taça São Paulo e põe o jogo à 13h30. Então, quem tem o negócio na mão faz o que quer. Não acho legal 21h40, mas o que vai fazer, então não vende para o cara.

Oswaldo Colibri Vitta- Mas ela não financia também os campeonatos? O Trajano disse outro dia que se não tiver a transmissão quase não tem futebol. A gente está dependendo hoje...

Como assim. A Globo paga. Se transmitir ou não, paga.

Oswaldo Colibri Vitta- Mas se ela não paga, o futebol fica comprometido.

Mas isso é culpa dela? Por que não vai o SBT e compra? Todo mundo reclama, mas quem compra? O futebol existe hoje porque a TV Globo vai, compra e passa o jogo e quando não passa repassa para a Record pela metade do preço. Não estou defendendo a Globo, não, mas acho que ninguém pode reclamar, o Trajano não pode reclamar, senão a Rede Globo faz assim: ”Estamos fora, não vamos mais passar o campeonato brasileiro, nem pôrra nenhuma. Não vamos pagar mais ninguém”.

Fernando do Valle - Os clubes estão na mão das tvs...

A televisão só tem influência quando o jogo é ruim. Porque quando é final de campeonato, se passa para cá e tem cem mil pessoas lá.

Oswaldo Colibri Vitta - Mas vinte reais o ingresso é duro, né?

Mas aí não tem TV. Isso aí é a federação que estipula.  

Oswaldo Colibri Vitta- E você bateu nisso?

Lógico.

Oswaldo Colibri Vitta- E na Globo ninguém falou nada?
Não, lógico que não.

Thiago Domenici - Qual a maior seleção brasileira que você já viu jogando?
A que vi jogar foi a de 82. Pô, mas tinha que pôr o Pelé jogando. Não dá para juntar as duas. A de 70 vi um pouquinho, tinha sete anos. Quem viu o Pelé, viu o Pelé, não dá pra tirar.

Oswaldo Colibri Vitta - O que você quer ganhar de aniversário agora que você vai fazer 41 anos?

Quero tranqüilidade, minha família bem, meus filhos bem, proteção. Nada de ruim, eu caminhando numa vida normal.

Oswaldo Colibri Vitta - Você está imaginando o quê para eles, em termos de Brasil?

Não estou pensando no Brasil, meu filho está fazendo Rádio e Televisão, talvez seja jornalista ou locutor de rádio, gosta de música e tal. Acho que ele vai conseguir, ele corre atrás. Os outros cada um vai seguir uma linha. Talvez o outro seja jogador de futebol. O do meio joga no São Paulo.

André Bertolucci - Você pensa em carreira política?
De jeito nenhum, já fui convidado umas três vezes, não é a minha. Sou um cara que se preocupa, que lê tudo de história. Élio Gaspari, leio tudo. Sempre me preocupei, mas sempre do lado de fora. Nunca me vi como político, a imagem que tenho é de um cara que colabora. Acho que não tenho capacidade para fazer campanha. Posso até fazer uma campanha, mas vou lá sozinho, sem ninguém saber de nada, posso aparecer no comício. Mas não me convida que não vou. Porque aí você está sendo usado e o cara não está nem aí contigo. Já fui radical e pensava que o PT era puro. Todos são iguais. No PT tem aqueles que acho do caralho: o Mercadante, o Genoino... Mas a Marta, deixa pra lá, vai...

Oswaldo Colibri Vitta- Então, a única recaída que podemos esperar de você é ser treinador?
Político não, e treinador muito difícil. Talvez quando meus filhos estiverem maiores.

Fernando do Valle - Mas pra já começar num time grande?
Na verdade, se eu não tivesse esse emprego até hoje, podia começar em uma equipe pequena, num time de base. Mas ganho muito bem, e não vou sair para treinar juvenil, tem lógica? Tenho família, tem comida, faculdade, colégio, roupa... não vou sair de um lugar que eu ganho bem para ganhar menos por ideologia. E minha família se aperta? Não, não tem negócio. Primeiro que eu não estou pensando nisso e se for para sair é para ir para um lugar que vai me pagar no mínimo igual. O que conquistei não posso jogar fora, é ignorância, é burrice. Se você descer, subir depois é difícil.


• Walter Casagrande Júnior nasceu em 15 de abril de 1963 no bairro da Penha na cidade de São Paulo.

• De 1977 a 81, jogou no Corinthians.

• Em 1981, jogou no time mineiro da Caldense, mas voltou ao Corinthians no mesmo ano e permaneceu até 1984, quando foi para o rival São Paulo.

• No São Paulo, permaneceu somente uma temporada e retornou ao Parque São Jorge.

• Em 86 e 87, jogou no time do Porto, em Portugal.

• Em 1988, foi para o time do Áscolli, na Itália, onde jogou até 91, quando teve seu passe comprado pelo Torino, da cidade de Turim, ainda na Itália. Em 93, decidiu voltar ao Brasil para jogar no Flamengo,

• No ano seguinte, voltou às origens no Corinthians.
Encerrou a carreira na Associação Atlética São Francisco, da Bahia, em 1996.

• Pela seleção brasileira, disputou a Copa do Mundo de 1986, no México.

O que você achou dessa entrevista? Dê sua opinião


da Revista
Edicao do Mes