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Lutador da Vila Arapuá, zona sul da capital paulista, Antônio Luiz Junior o Rappin´ Hood conta sua trajetória desde as dificuldades nos bailes da periferia ao reconhecimento como um dos principais músicos de rap do país e ainda afirma: "Jesus era negro". Tá ligado?


Entrevistadores: Cazú, Sofia Amaral, Natalia Viana, Julia Contier, Marília Melhado, João de Barros, Thiago Domenici, Marcus Kawada. Fotos: Cazú.


Thiago Domenici – A gente vai começar como de praxe na Caros Amigos, pela infância...
Quando nasci, meus pais moravam no bairro do Limão, perto da igreja de Santo Antônio e da quadra da Mocidade Alegre, um lugar de muitas enchentes.

Thiago Domenici – Como era sua casa?
Era cortiço, “cumpadi”! Várias casas e um banheiro para umas cinco, seis famílias.

Marília Melhado – Onde você estudava?
Nessa época, eu tinha três anos e só comecei a estudar quando fomos morar na zona sul, Ipiranga, onde fiz maternal, jardim, esses bagulhos, mas só considero a partir da primeira série do primeiro grau. Estudei no Antônio Alcântara Machado, no Alto do Ipiranga.

Sofia Amaral – Você era um bom aluno?
Nunca fui, fazia parte da turma da bagunça. Na sexta série, fui estudar em escola particular porque a empresa onde meu pai trabalhava fez um sorteio de bolsas escolares. Era complicado porque as idéias não batiam, só tinha eu e mais um negro na classe e eu não aceitava ser discriminado. Acabei sendo expulso por causa das brigas.

João de Barros – O que seus pais faziam?
Meu pai sempre trabalhou em almoxarifado de empresa, começou carregando caixa, depois de uns vinte anos virou sub-chefe do almoxarifado, e mais tarde o almoxarife, chefe do almoxarifado e expedição. Hoje em dia, ele está aposentado e tem uma lojinha na garagem de casa, ele vende ração para cachorro, passarinho, essas coisas. Minha mãe é doméstica, mas depois de um tempo, meu pai fez ela parar de trabalhar.

João de Barros – Você é filho único?
Sou o mais velho e tenho mais uma irmã e um irmão. Meu irmão faz música, estudou outras coisas, mas acabou na música. É produtor e parceiro de algumas músicas minhas e conseguimos ajudar minha irmã com a faculdade porque ela queria dar aula, mas também canta, gravou no meu primeiro e no último disco além de cantar no coral da igreja. Gosto de fazer música com ela.

Thiago Domenici - Voltando a sua infância, queria que você contasse essa história de que você ia com seu tio no candomblé, com sua tia na igreja evangélica e com sua mãe na igreja católica.
Na verdade era com meu tio e avô na Umbanda, com minha avó na igreja católica, eu era coroinha e uns amigos iam na igreja evangélica e eu também ia. “Vamos ali no culto?”, nessa época eu tinha 15 anos e acabei aprendendo a ler partitura na igreja evangélica.

Marília Melhado - Seu primeiro contato com a música foi na igreja?
Acho que foi em casa mesmo, minha mãe conta que colocava o radinho de pilha pra tocar no meu berço na hora de dormir, e com três anos ganhei aquelas vitrolinhas que tinha antigamente e sempre ganhava discos ou chuteira pra jogar bola. Sempre gostei de música, desde bebê. Minha mãe fala que eu só ficava quieto quando ela ligava o rádio.

João de Barros - Desde criança, você já tinha várias influências musicais: o batuque na Umbanda, tinha influência do sopro da igreja evangélica e cordas da igreja católica?
Outra coisa fundamental na minha vida foi a fanfarra. Com 14 anos, comecei a tocar corneta, depois cornetão e depois fui para uma banda marcial tocar bombardino, trombone e até tuba, mas o que eu gostava mesmo era trombone de pisto e depois toquei o trombone de vara. O que me influenciava mesmo era o que eu ouvia, o que meus tios ouviam, muito samba, soul, funk. Naquele tempo, eu tocava coisas clássicas na fanfarra e queria usar o instrumento, tocando aquelas coisas que ouvia: Jorge Ben, Tim Maia e vários outros. Quando pequeno, era vidrado em piano, queria aprender, mas o que aprendi mesmo foi a tocar o trombone, tanto o de pisto como o de vara.

Julia Contier - Quem é seu mestre musical?
Nossa, são vários, não consigo apontar um, porque gosto de muita gente,não consigo escutar sempre a mesma coisa, cada dia escuto uma coisa diferente. Tem dia que acordo e escuto um rap pesado, no outro escuto um samba de raiz, tem dia que escuto jazz, depende do dia, da vibração. Gosto pra caramba de Tim Maia, Jorge Ben, Djavan, pra mim, são todos mestres, gosto de todos eles da música brasileira, do Caetano, do Gil, mas não de tudo, gosto do conjunto da obra deles. No samba, gosto do Martinho da Vila, do Candeia, da Leci Brandão, da Ivone Lara.

João de Barros - E no choro, você conhece Pixinguinha?
Conheço a obra dele, tinha um lugar lá perto de casa que os caras tocavam chorinho e eu ia e ficava escutando, mas não tenho nenhuma referência, vim conhecer bem depois, aí fui escutar Jacó do Bandolim e vi que o samba era um derivado daquilo. Não tive acesso ao chorinho quando era mais novo, isso só aconteceu bem depois.

Marília Melhado - Você sai muito pra ouvir ritmos diferentes?
Já saí mais, hoje em dia escuto mais em casa, compro muito CD e vinil. Vou na Ventania, uma loja lá na Galeria (Galeria 24 de maio, centro de SP), e fico horas escolhendo os discos que são baratinhos e sempre tem coisas interessantes, ultimamente tenho escutado bastante Cartola. No meu disco novo fiz um trabalho com uma música dele. A poesia dele é linda.

João de Barros - Falando ainda de influência musical, você teve algum aprendizado de embolada?
Eu era office boy e ia muito para o centro da cidade fazer uns trampos e admirava, ficava vendo os caras cantando, passando o chapéu e prestava atenção, mas a embolada, o repente eu tive acesso pelo Expedito, pai de um amigo meu que organizava umas tardes de embolada e eu ia e achava engraçado, naquele tempo não era como uma coisa de influência, gostava mais de ver a disputa de rima dos caras e era engraçado. Comecei a prestar atenção e estudar mesmo quando conheci os meninos do Face do Subúrbio, lá do Recife, foram eles que me apresentaram o trabalho do Caju e Castanha, porque já conhecia eles da Trama (gravadora). Tem até uma coincidência, nós assinamos contrato no mesmo dia, a gente se conheceu nos corredores da Trama, falei dos meninos do Face do Subúrbio e eles: “São nossos amigos, a gente tem de fazer um som juntos” e gravamos juntos.

João de Barros - A periferia não cultiva mais isso, né?
Acho que cultiva sim. Na favela tem muitos nordestinos. Moro na Vila Arapuá, do lado da favela Heliópolis, onde fui criado tem muita gente que escuta forró e embolada, pais de família, tiozinhos que trampam o dia inteiro, chegam no bar e ficam escutando. Então, acho que não é cultuado pelo grande público, mas tem o público fiel, quando o Caju e Castanha vão lá em Heliópolis, eles são reis, as pessoas reconhecem e pedem autógrafo.

Natalia Viana - Quando você mudou para a zona sul, já era uma casa?
Era. Nós vivemos muitos anos de aluguel e meu pai só conseguiu sair do aluguel uns dez anos depois, moramos em vários lugares diferentes até meu pai conseguir comprar uma casa, estavam acontecendo uns leilões de casas do BNH de pessoas que não tinham pago as prestações. A empresa liberou fundo de garantia e ele deu entrada. Me lembro como se fosse hoje. Meu pai chegou um pouco bêbado em casa e minha mãe tinha combinado alguma coisa com ele e ele falou: “Você quer saber porque cheguei tarde em casa e por que bebi?”, aí ele sacou a prestação e disse: “Paguei a última prestação. A casa é minha”.

Natalia Viana – Você tinha quantos anos?
Mais de 20.

Natalia Viana – Queria que você contasse essa história de que você foi expulso da escola e deve ter sido uma experiência muito louca de entrar numa escola de gente rica. Foi aí o seu primeiro choque?
Eu era banido. Enquanto eles curtiam B-52, eu curtia break e falava de James Brown e os caras “James Brown?” Foi um aprendizado bem diferente, foi legal o convívio com essas pessoas, outra coisa é que o ensino é bem mais forte, vi a diferença de estudar numa escola do Estado e depois numa escola particular, foi bem difícil para me adaptar, até para as amizades, enquanto eu usava kichute, o cara estava com um Adidas, um Nike novinho que eu não poderia ter.

João de Barros - Qual é a sua idade?
33.

Natalia Viana - O preconceito era mais por causa das roupas, pela sua cultura ou por você ser negro?
Por causa das roupas, por ser negro e muitas vezes por ser pobre.

Thiago Domenici - E como isso aparecia, os caras te excluíam?
Muitas pessoas nem se aproximavam, quando tinha grupo de trabalho, se era grupo sorteado, caía com uma pessoa e tinha de fazer o trabalho na casa dela, a forma que eu era tratado! Existem várias formas de entender a discriminação. Festa Junina, eu não tinha par porque ninguém queria dançar com o pretinho, ficava chateado, mas a criação que recebi nunca me deixou achar que era inferior, não esquentava com isso, na verdade isso me levou a querer conquistar outras coisas, o único momento que me senti discriminado foi uma vez em que fui agredido por racismo e, por incrível que pareça, estava numa escola estadual, encostaram no carro de um menino e eu nunca encostava e ele já saiu gritando comigo: “Só podia ter um preto no meio” e me agrediu, quebrou meu braço. Quando comecei a ter vitiligo, não me sentia bem e fui discriminado na escola várias vezes, mas nunca me senti menos do que ninguém e chegou uma hora que acabei entendendo que era choque de cultura e também que eu nunca ia ter certas coisas, nunca ia ter o vídeogame de última geração ou o tênis Adidas porque meu pai não tinha dinheiro pra comprar, se ele comprasse a gente passaria fome, então me acostumei com aquilo, tanto que fiquei dois ou três anos e fui expulso.

João de Barros - Pelo que me recordo de alguns anos atrás, ali existia ou existe ainda, um clube de confraternização de brancos e negros.
O que você está falando é o Flor de São João Clímaco, que não é bem um clube, é um time de várzea que há mais de trinta anos fazem um jogo por ano de confraternização que é preto contra branco. É um jogo de confraternização, mas que ninguém quer perder.

João de Barros - Você joga nesse time?
Já joguei, mas hoje sou técnico do primeiro quadro há quatro anos, estou invicto, empatei dois jogos e ganhei dois, ainda posso tirar esse barato da caras deles. É uma iniciativa legal do pessoal da diretoria.

João de Barros - Digo isso justamente por conta do contraste de você ter vivido num lugar onde a convivência parece mais tranqüila e você está ressaltando muitos aspectos que você pessoalmente viveu ali no bairro.
Nunca vivi essa discriminação no bairro, só por algumas pessoas, na periferia sempre tem gente que come pão duro e arrota caviar. O cara é assalariado que nem seu pai, mas tem um carro legal porque financiou, a casa é um pouco melhor porque foi reformada e ele já é diferente dos outros, aí a mulher dele quando vê os pretinhos fecha o portão, mas nunca liguei, isso é besteira.

João de Barros - Você chegou a ir ao Palmeiras?
Fui em muitos bailes da Chic Show, vi Boggie Down Productions, que é uma banda célebre do hip hop.

João de Barros - James Brown esteve lá, né?
Por incrível que pareça, não vi o James Brown, era muito novo, não tinha dinheiro e meu pai não me deixou ir, mas vi uns legais: Too Short, um rapper da velha escola, o Zapp, que é uma banda de funk, vi Billy Paul, Chaka Khan, Tim Maia, Jorge Ben e Sandra Sá. Eu curtia todos os bailes da Chic Show, o Clube da Cidade, Neon clube, Ponto de Encontro, Cris Disco Club da Vila Ré, projeto Leste, Diamante da Lapa...

João de Barros – Tinha em Santo Amaro também?
Tinha, mas o Asa de Santo Amaro, não era Chic Show era de uma outra equipe, que eu gostava também, tinha viola de ouro da Zimbábue, o Santana Samba que era o SP Djs, os bailes da quadra da Rosas de Ouro, Cascatas de Santo André. E a gente juntava aquele monte de gente, às vezes ia lá para Osasco e quando tinha festa especial, show gringo no Palmeiras, a gente ia também, mas era mais difícil, os ingressos eram caros e às vezes não tinha dinheiro, trabalhava de office boy e o pouco do que sobrava do mês ia numa noite, fora isso queria comprar a melhor roupa, era molecão, queria ter o melhor tênis, a melhor calça e acabava abrindo crediário, ia para a festa e depois ficava pagando dois, três meses uma roupa.

Sofia Amaral - Hoje em dia você é religioso, freqüentador?
Sou religioso, minha família é evangélica, freqüentamos a Renascer, mas nunca tive uma religião certa. Acabei freqüentando tudo e acredito em Deus, que Jesus Cristo veio na Terra. Tenho respeito especial pela cultura afro-brasileira, pelos Orixás, mas respeito tudo: santo, anjo, orixá, até Buda eu respeito, para mim o que vale é outra coisa, é ser do bem, respeitar a lei, não fazer mal a ninguém, não tenho uma religião especial, mas estou criando o meu filho na doutrina evangélica, principalmente.

Cazú - Não é contraditório isso?
Não tenho de prestar conta para ninguém, o pastor não vai na minha casa nem vou na casa dele. Religião é um barato que não se discute, se eu falar sobre religião aqui, cada um vai ter um ponto de vista, entendeu? Não sou obrigado a ter o mesmo ponto de vista do pastor, ele tem o dele, eu assisto o culto dele e leio a Bíblia. Só que fui criado freqüentando tudo e não vou agora cuspir no prato que comi.

Thiago Domenici - É verdade que você já leu a Bíblia inteira?
Li várias vezes, porque chegou um momento da minha vida que eu queria achar uma verdade, queria saber se existe uma vida depois dessa e acho que até agora eu não conheço a verdade não, talvez eu só encontre quando eu for, tá ligado? Tem coisas que a gente só vai saber vivendo, cara. A resposta não vai estar lá, já li a Bíblia demais, de trás pra frente, de frente pra trás, parando, pulando partes, já a li a Bíblia de vários jeitos.

Cazú - Você faria um rap?
Poderia até fazer, mas não faço pelo respeito, é como aquele filme Paixãode Cristo, qualquer pessoa que escreve ou que fala alguma coisa em cima da Bíblia vai criar polêmica, tá ligado? Não quero fazer isso. Se eu for escrever alguma coisa sobre a Bíblia, vou começar falando que Jesus era negro.

Natalia Viana - Mas, Rappin' Hood, você não gosta de polêmica?
Depende do assunto e com quem é a polêmica.

Natalia Viana - Em relação à crítica social, você é bem contundente.
A crítica social é a minha cara. Falo isso porque tem polêmicas que não valem a pena, não gosto de pegar um assunto que está todo mundo falando e falar também, gosto de falar do que é meu. Por exemplo, morreu uma pessoa no show do Racionais, aí o Fantástico me liga, a Rede Record me liga e não tenho nada para falar. Essa polêmica não é minha, não é comigo e não é problema meu. Foi no show dos caras, tudo bem, conheço os caras, são meus amigos, mas não tenho nada para falar, não estava lá, não vi, vou falar o quê? Para falar de música, os caras não me ligam, para falar de morte no show de rap, eles me ligam.

Natalia Viana - Queria falar um pouquinho dessa relação da mídia, porque hoje em dia me parece que a crítica social no hip-hop é uma coisa que já foi abraçada pela mídia, uma coisa que vende. E aí?
Lembra daquela música do Raul Seixas que ele fala: “agora para vender disco de sucesso, todo mundo tem que criticar”. Então, fazer rap é fácil, qualquer um pode fazer, podem surgir milhões de bandas de garagem e playboy cantando rap e vão falar a mesma coisa que falo, o problema é a verdade que tem atrás disso. Eu sou verdadeiro, sempre fui rapper, batia na lata de lixo da São Bento, mas tem outros caras, que nem o Marcelo D2 – canta rap, mas não é rapper, fez uns dois discos de rap. Conheço ele, até cantei no lançamento do CD dele aqui no Tom Brasil, o som dele é legal, não tenho nada contra ele, só que não é um rapper, falo isso porque ele não camelou, não segurou a bandeira que nós seguramos, não correu da polícia lá na São Bento como eu, Mano Brown, Thaíde. Então não o vejo como um membro do hip hop brasileiro.

João de Barros - Acho legal você relembrar o pessoal, talvez eles não conheçam como foram esses momentos no centro de São Paulo, na 24 de Maio, enfim, para saber como é que esse tempo de repressão se manifestava em vocês.
Esse tempo foi muito legal, mais ou menos 1984, 85, logo que comecei a ir aos bailes, a ir assistir àquele programa do Barros de Alencar, tinha o break, meus tios também compravam os discos e eu falava: “nossa, é isso que eu quero, da hora essa dança aí” e meu irmão dançava, aí um dia num evento lá em Rudge Ramos, ali do lado de São Bernardo, conheci o Thaide, aí eles disseram para mim: “meu, você dança à pampa”. Eu nem tive coragem de falar para eles que eu fazia rap, né mano, pô. Aí eles falaram: “Pô, você tem de ir na São Bento, a gente se reúne lá”. A galeria eu já conhecia porque minha mãe cortava o cabelo lá e eu ficava nas lojas, então o movimento black eu já conhecia, mas não conhecia o hip hop, para mim era só o break, depois disso comecei a freqüentar a São Bento e falei para o Thaíde que eu cantava e ele: “os caras aqui cantam, os caras ficam na lata”. Tinha a lata A, a lata B e ficava todo mundo em volta, batendo palma, batucando na lata e fazendo as rimas, depois de meia hora que a gente ficava lá já apareciam aqueles urubus que eram os funcionários do metrô, tiravam a gente e chamavam a polícia, a gente tinha que correr... Corri da policia, dos caras do metrô, muitas vezes. Eles não deixavam a gente ficar lá, mas era o melhor lugar que tinha porque dava para dançar, o chão de mármore era lisinho e era legal também batucar na lata porque tinha um som grave. A gente gostava de se reunir lá e virou até uma resistência: “vocês não deixam, então é agora que nós vamos ficar mesmo”. Várias pessoas eu conheci ali, pô, o Mano Brown, KLJ, Doctor Mcs, Milton Sales também que tocava e praticamente organizava tudo, o MH2O que é o movimento hip hop organizado, conheci algumas bandas de reggae, os caras do Walking Lions...

Thiago Domenici - Tudo no começo de carreira.
Tudo no começo, quando conheci os Racionais não se chamavam Racionais, eles eram os Hip Boys. Era uma resistência, a gente ficava ali e depois de algum tempo conseguimos autorização para ficar lá.

Thiago Domenici - Perdeu a graça ou não?
Não, sempre vou passar ali e me sentir como se estivesse passando num templo, faço até o sinal da cruz porque considero o templo sagrado do hip hop, onde está toda a história e vou sempre ter um carinho, sempre vai ter graça pra mim. Toda vez que vou lá, chego perto da lata de lixo, passo a mão e ninguém entende, “o cara está louco”, mas é porque vivi aquilo, entendeu?

João de Barros - A mídia sempre atacava vocês também, é importante a gente lembrar.
O rap sempre foi música de marginal, bandido e maloqueiro. Os caras falavam: ”O que é rap? Você é louco? De onde você tirou essa coisa de americano?”. Até hoje o rap, não é considerado como música, se você for na Ordem dos Músicos e cantar um rap, você não sai de lá com a carteirinha. Se um Dj chegar lá e falar: “Eu sou Dj, quero a carteirinha porque sou músico”, o cara fala: “Aqui você não tira, toca o pandeiro aí que eu te dou a carteirinha”. Essa barreira ainda não foi quebrada.

Natalia Viana - Mas você está falando das últimas barreiras formais. Por outro lado, na mídia, vamos dizer, na MTV que é expoente da música jovem aí, é super aceito. Queria que você falasse dessa mudança, como é que você vê isso?
O rap americano é aceito na mídia, a gente vê o Eminem, entendeu?, o Snoop Dogg, e não vê toda hora o MV Bill, o Rappin Hood, Thaíde em todos os canais, em todas as rádios, não liga na Jovem Pan e ouve o MV Bill. Acho que ainda existem muitas barreiras, mas está chegando a hora porque o estilo musical é conhecido, em comercial de tv tem a batida do rap, só que maquiado, né, mano. A nossa realidade ainda não está lá. A revolução não será televisionada, irmão, realmente isso é uma coisa que é certa. A gente não sonha com isso, mano.
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João de Barros – Como será a revolução?
Se o brasileiro tiver colhão pra fazer a revolução, porque aqui tem futebol, novela, carnaval, mas não tem revolução, meu irmão. Brasileiro não vai fazer a revolução. Movimento estudantil hoje em dia é uma piada. A revolução que vejo é a revolução na mente de alguns moleques, que estão ouvindo, estão assimilando, estão se identificando. Acredito no MST, mas não acredito em revolução armada no Brasil. É uma mentira.

Sofia Amaral – O que você achou do Lula?
O Lula é um representante do povo que conseguiu chegar no mais alto posto da política brasileira.

Sofia Amaral – Mas, você acha que ele está mandando bem?
Não faço nenhum julgamento dele enquanto ele não acabar o mandato. E outra, o Lula não é o salvador da pátria, sozinho não vai fazer tudo, ainda mais em 4 anos. Os caras levaram 500 anos destruindo, em 4 anos ele vai arrumar? Não vai arrumar, mano. Nunca vai ser para o povo tudo o que povo espera, essa que é a verdade. Já começa que ele entrou sabendo que tinha de cumprir todo e qualquer acordo que o FHC fez, só aí a vaca já foi para o brejo. Quer dizer, não adianta a gente esperar que o Lula faça coisas mirabolantes, que ele vai falar que não vai pagar a dívida externa e vai investir tudo no povo brasileiro, isso daí não existe. Utopia a gente não vai ver. Mas acredito no Lula, se tivesse eleição hoje, eu votava nele de novo. Porque ele é o único representante do povo que está lá. O resto é farsa, é tudo um monte de playboy que só visa lucro.

Marilia Melhado - Se você pudesse escolher qualquer pessoa para colocar na presidência, colocaria quem?
Meu candidato é Luis Inácio Lula da Silva, se tivesse uma eleição votaria de novo no Lula. Não tem outra pessoa, a pessoa é ele.

João de Barros - Você citou o MST, por que?
Porque o MST é a resistência atuante e não paga pau, invade mesmo, “a terra está inativa, estamos invadindo, alô Ronaldo Caiado, pode sair”. É assim, mano, “FHC, até a sua estamos invadindo”. Tenho o maior respeito pelo MST.

Sofia Amaral - Tem algum contato com eles? Já foi em algum assentamento?
Não, já conversei com eles em paradas que rolaram, mas não tenho grandes contatos. Conheço algumas pessoas que não são grandes lideranças do MST, mas respeito pra caramba e não é da boca pra fora, aqui em São Paulo tem um monte de gente que faz reunião, se diz de esquerda, se diz de resistência, mas pegar arma e ir lá resolver é para poucos. No MST, o cara vai lá e faz mesmo, não está pagando de comédia, não. Talvez eles tenham o apetite que a maioria do povo brasileiro não tem.

João de Barros - E a favela? O que o povo da favela tem feito?
A favela está de chapéu colado, amigo. O povo da favela está assistindo novela e futebol, mano. Não é todo mundo na favela que tem consciência, se fosse, ia ter arrastão todo dia, ninguém ia poder freqüentar a praia de Ipanema e de Copacabana. No Brasil, os caras manipulam o barato. É uma lavagem cerebral de 500 anos. Você já ouviu esse comentário?: “Eu sou pobre, mas não voto no Lula, porque é analfabeto que nem eu”, quer dizer, então o Zé Povinho ainda não acredita nem no cara que representa ele, os moradores da favela que não acreditam nem no próximo, quanto mais naquele que está lá em cima. A favela tem uns malucos bons, uns malucos revolucionários, tem uma pá de gente honesta, trabalhadora, donas de casa, domésticas, mulheres que trabalham nas seções de produção de várias empresas, mas a favela ainda não está preparada para revolucionar.

Marcus Kawada - Você acha que dentro do movimento Hip Hop existem pessoas que acabam atrasando esse lado, atrapalhando em vez de ajudar uma revolução?
O rap, o Hip Hop, não é diferente, nem melhor do que qualquer outro movimento que já existiu. Não é diferente da Tropicália, do MST, não é diferente de nada, tem o bom e o mau. Tem o bom, tem quem pregue a paz e tem quem pregue a guerra. Não é que tenha gente que atrapalhe, mas não está organizado, não está unido, tem um querendo correr para o norte e outro querendo para o sul, um querendo dialogar e outro quebrar. Até em partido político é assim, a verdade é que o rap é como no partido político, tem uns malucos que são a favor de dialogar, de ir na imprensa, falando com vocês, como eu, mas tem uns malucos que falam: “não tem que falar com jornalista porra nenhuma, nós somos a revolução e não queremos falar com ninguém, tem que ir e quebrar tudo”. Tem cara que é assim.

Sofia Amaral - E por que você escolheu falar?
Por que jogar pedra na vidraça é fácil, qualquer um faz, mas ficam as perguntas: Vou defender minha tese? Tenho idéia para trocar? Então, não é só a questão do cara ir, tem de ver o que ele vai falar, se for pra falar besteira é melhor não ir, entendeu? E outra, tenho o maior respeito pelo “não” dos Racionais, pela história dos caras, “não, não vamos”, porque também pra ir e se contestado, pra ter as palavras trocadas, é melhor não ir. Sou a favor do Mano Brown quando ele fala: ”Não vou”, só que, necessariamente, o caminho dele não é o mesmo caminho que o meu. Sou uma pessoa que gosta do embate, gosto de trocar, de ver o pessoal falar assim: “mas você não acha?”, aí dou uma explicada porque é que não acho, é lindo isso, rede nacional, Luciana Gimenez: “você não acha?”, “Não acho”, entendeu? Acho que é o livre arbítrio, né, mano, cada um faz o que quer e estou defendendo o meu com o máximo de dignidade possível.

Thiago Domenici - Você não tem medo de ser usado?
Quem não é usado no nosso país? Todo mundo é usado, pobre é usado todos os dias, nós estamos sendo usados todos os dias. Eu estou na Trama, é uma troca, irmão. Ele vai me usar para ganhar o dele e eu estou usando o dele para ganhar o meu, então é negocio, velho. Eu tô indo lá, ele acha que está me usando para ter ibope, eu tô pondo o meu CD na tela e estou falando, “molecada, vai comprar”, é assim, cara, acho que a gente não tem que ter medo de nada, não vim aqui para ter medo. Hoje em dia fala-se do sistema de cotas. Preto já foi escravo, não estou mais em tempo de reclamar, estou em tempo de conquistar. O meu tataravô já reclamou, entendeu? Estou em outra fase, na fase de conquistar, quero sim, quero mercado de trabalho, faculdade, a Tv, rádio, quero tudo para o meu povo, estou brigando por mim, pelo meu filho, pelo meu neto que virá. Eles não têm que ter medo, eu não tenho rabo preso com ninguém, mano. Se eu não gostar, pode ser quem for, vou falar: “pô, você achou legal?”, “não achei legal, achei uma merda!”, é assim ó, não tenho que ter medo de nada, quero ver as xuxas pretas, as angélicas pretas que não tem, quero os ‘espelhos’ para o meu filho, acho que não tem que ter medo de nada, cara, quero ver a história do povo negro no livro de História, mano, quero ver o bagulho e guerrear. Nós construímos o país e vamos viver no quilombo para o resto da vida? Quero tudo o que é nosso por direito e não tenho medo de nada, ele está me usando e eu uso ele. A Globo está me usando para ter Ibope, eu tô usando ela: “periferia, compra o meu cd”, é assim. O exemplo é simples, você acha que se o nosso presidente tivesse medo, seria presidente, velho? Se ele ficasse: “não, mas o PT, nós somos a resistência, não vamos dialogar”, não seria presidente nunca. Não sou homem de me esconder, estou aqui sim, é comigo mesmo a conversa. O rap não tem que se esconder, nós já ficamos muito tempo presos, agora solta o bicho, quem não quiser ouvir que saia da frente.

Natalia Viana - Queria que você comentasse aquela letra dos Racionais que para algumas pessoas parecia um pouco uma mudança de discurso, aquele lá que ele fala que Deus é uma nota de cem.
É o seguinte, eu acho difícil comentar a letra dele, né, mano? É a letra dele, é legal ele comentar.

Natalia Viana – Fique à vontade, mas é mais ou menos isso, a gente quer também grana, a gente quer também luxo, quer?
Tenho uma música que fala isso: “é lamentável, a verdade dói, mas pobre quer dinheiro, quer ter vida de playboy”, a verdade é essa, mano. Nós queremos o que é nosso de direito, nós somos a mão-de-obra que constrói esse país. Os nordestinos que vêm de lá, que construíram prédios e o metrô, não merecem? A gente merece sim.

João de Barros - Quem colocou o dedo na ferida foi o Joãosinho 30: “Quem gosta de miséria é intelectual?
Pobre quer luxo, quem gosta de seca é político que ganha dinheiro com isso, vai perguntar para os pobres que estão lá no Nordeste se eles gostam de seca, velho. Os caras querem é água, fala para os caras: “ó mano, você quer morar num lugar com frigobar?”, vai ver se ele não quer.

Cazú – Como é o seu processo de composição? Você começa pela letra ou alguém já está com a letra ou já está com a levada...
Depende, tem vezes que vejo alguma coisa na rua e já saio canetando, tem vezes que começo pela base, vou fazer um som em cima disso aqui, depende muito, tem vez que eu estou com uns amigos, surge uma idéia. Não tenho um processo de criação fechado. Pra mim, cada música nasce de um jeito. Não é “hoje eu vou escrever sobre isso”. Sô Negão é uma letra que escrevi numa tarde. Peguei uns livros e cadernos e pá, saí fazendo. Comecei umas duas da tarde, quando eram umas nove da noite eu tava falando: “Mãe, olha aí ó!” E tem música que demorei mais tempo pra escrever.

Thiago Domenici - Mas você é daqueles que sai com o caderninho e lembra uma rima e anota?
É nada. Às vezes, se eu tô com a caneta e papel eu anoto, mas basicamente é na mente mesmo. Já perdi várias coisas, já teve vez de estar com uma coisa na cabeça e falar: “puta, esse negócio é legal”. Passou umas horas e eu não lembrei mais.

Julia Contier - Como é compor por pressão?
Já compus com pressão. Por exemplo: “porra, o disco tem que terminar, cara, só faltam essas duas músicas!”. E eu embaçando porque a letra não tá pronta. Mas é legal, já compus muito sob pressão. Quando participo com outros, quase sempre. É quando a gente está na correria e quando chega o dia de ir pro estúdio: “puta, tenho que ir pro estúdio gravar com fulano, não escrevi nada! Vou me concentrar aqui umas horinhas”. Aí eu me concentro, aí sai. Escrever sob pressão às vezes é bom, porque também se deixar muito livre acaba viajando demais num tema e não objetiva. Por exemplo, teve uma música que entrou no meu novo disco que vai sair que quando escrevi, escrevi sob pressão porque o Jair (Rodrigues) tinha me pedido uma música pro disco dele. Já participei de dois discos dele antes. Aí ele queria a música e eu estava na fase de lançamento desse disco aqui e não tinha tempo, velho. Aí chegou o último dia: “tenho que entregar a música pro o cara, tenho que ir pro estúdio”. Fiquei dentro do estúdio da Trama e ele estava na sala do fundo gravando. Cheguei no estúdio sem a música, cara. E parei, fiquei lá e escrevi a música. Quando fui mostrar a música pra ele, ele falou: “sabe o que é, meu, tem uma outra música ali que é a sua cara, mano. Essa aí que você fez, grava no seu disco, mano. Não precisa nem me mostrar”. No fim, ele não gravou a música, mas foi legal. A música foi na íntegra pro meu cd, igual à que eu escrevi, entendeu? Então, às vezes, é legal escrever sob pressão, saem coisas boas, como também às vezes sai coisa ruim, porque você não tem muito tempo de revisar, né?

João de Barros - O rap é acusado de ser musicalmente pobre. Você, como uma pessoa que conhece música, o que acha da estrutura do rap?
Acho que o rap não é pobre. Ele é simplesmente uma música como toda e qualquer música de preto. É repetitiva, tem aquele compasso marcado e transita ali, tá ligado, mas não é pobre. Existem produções pobres de rap, porque o rap brasileiro não tem condições, não é todo mundo que tem a condição que estou tendo de trabalhar com os músicos que trabalho e de ter o respaldo da Trama. Muitos moleques fazem um disco no fundo de quintal, usam um sampler, um aparelho que ele só tem como samplear aquele tequinho pequeno. Então ele não tem estrutura pra chamar vários músicos pra tocar ali em cima daquela base que ele está tocando e aí a produção acaba sendo pobre, porque é musica de pobre feita pra pobre.

Thiago Domenici - Você já fez alguma coisa de fundo de quintal?
Fiz várias fitinhas demos. O produtor Carlos Miranda aqui da Trama, quando trabalhava na Banguela, que era do Titãs, entreguei fitinha demo minha. Foi o X, do Câmbio Negro (banda de rap), que falou: “pô, os caras estão pegando umas bandas lá, aí gravei a fitinha, e rimamos em três com um microfone só”.

Thiago Domenici - E foram vocês três que fundaram a banda Posse e Mente?
Isso.

João de Barros - Por que o nome Posse e Mente?
Quando fundamos a Posse e Mente Zulu, na verdade queríamos o nome Cabeça de Negro, mas já existia uma banda carioca com esse nome e mudamos pra Mente Zulu, pra dar o mesmo sentido com outras palavras, entendeu? A gente leu livros e descobriu que os zulus eram a única tribo negra que ainda resistia e vivia como tribo. Aí a gente fez essa homenagem e colocou Posse e Mente Zulu.

Natalia Viana - O que é uma posse?
No hip hop, é um ajuntamento de grupos, hoje em dia só sobrou eu e Johnny da Posse e Mente Zulu. O Johnny tem o trabalho dele, que está pra lançar o disco solo dele.. Tinha outros parceiros, outros grupos, mas um casou, outro virou crente... Então só sobrou nós dois e a posse é uma reunião de vários grupos de rap de desenvolver um trabalho não só musical, um trabalho social também, com palestras. Tem uma posse lá na Cidade Tiradentes, a posse Aliança Negra, muito forte, tem uma em São Bernardo, que é a Haussas, que também faz um trabalho muito forte, eles trabalham com o pessoal da Zulunation, pessoal da Casa do Hip Hop de Diadema.

Marília Melhado - Hoje não só a periferia consome o hip-hop, a classe média também. Você se importa com isso ou acha que é só pagação de pau?
Sou a favor. Tem os paga-pau e tem os que entendem, lógico que tem os moleques “uhuuu, da hora, modinha e pá”, mas tem os malucos conscientes também, tem professor, maluco que estuda ciências sociais. Tem vários maluco inteligente, maluco advogado, que escuta e entende o que a gente está falando, se identifica. Sou a favor, veja bem, se tiver 5 playboys, daqueles que pega ovo e sai com o carro do pai pra atacar em pobre no ponto de ônibus. Desses 5 caras, um deles pode ser um racista a menos e pare pra pensar e contestar o pai dele que é dono de uma empresa ali porque o pai não contrata funcionários negros. Pra mim já está valendo, mas se eu falar que faço música pra eles, estou mentindo, tá ligado? Eu faço música para o mundo, mas principalmente para negro que nem eu, para negro de onde eu vim. Pros moleques que estão passando as mesmas coisas e dificuldades que eu passei. Mas não penso que é só para eles escutarem, acho que qualquer pessoa tem que escutar pra entender a nossa realidade. Na verdade, acho importante o moleque que é um playboy, que está andando com aquele Nike da hora entender o porquê de repente ele está andando aí em Moema ali e vem um moleque e “Tira, vagabundo, tira esse tênis logo”. Ele tem que saber por que que ele está sendo enquadrado. Que não é porque aquele moleque é um vadio, ele tem que saber que existe uma diferença social e racial no país que a gente vive.

Julia Contier - O que você quer despertar no outro lado, porque no playboy é a consciência crítica...
Quero que o moleque saiba que não tem que roubar, ele tem de lutar pra conseguir, trabalhar, dar valor para o pai dele que é assalariado, que é o herói da periferia. O herói da periferia não é o bandido que está pagando de gatão. O herói da periferia é o tiozinho que trabalha 8, 9 horas dentro dum forno e chega na casa dele e sustenta a família dele com dignidade, está tentando educar os filhos dele e o moleque não pode ter vergonha e achar que o pai é um fracassado, tem de ter respeito pelo pai. Quero é que as pessoas entendam, é muito difícil, não vou educar o mundo, mas a minha parte com Deus, tô fazendo. Sei que não vou conseguir desarmar a periferia inteira. Quem sou eu?

Cazú - Mas você sabe que o seu trabalho tem uma influência poderosa...
É o que a gente tenta fazer, mandar essa idéia pros moleques. Saber que ele pode vencer não só com o revólver na cinta e sendo traficante da quebrada, porque o bagulho atrai, irmão. Eu mesmo já ouvi: “pô, você está falando isso, mas está fodido aí, andando a pé, cara”. Já ouvi isso.

Cazú - Essa atração nunca te levou?
Se falar que sou santo é mentira. Só que Deus é mais e a educação que meus pais me deram é mais. Mas se eu disser pra você que nunca fiz nada de errado, é mentira, se falar pra você que nunca pus arma na cinta, é mentira, velho.

Marília Melhado - Vários amigos seus já caíram?
Pôrra, o que mais tem é parceiro meu que tá preso ou que morreu nessas fitinhas aí, tem parceiro que foi roubar e morreu, parceiro meu que grafitava, trocou tiro com polícia e morreu. Tenho vários parceiros que estão presos, que me mandam cartas: “Pelos menos um, caralho, da nossa safra, venceu!”. Isso aí é direto, então, tento passar pros moleques que por aí eles não vão conseguir nada. Já passei no buraco da agulha e poderia não estar aqui hoje, mas Deus me escolheu, me livrou daquele bagulho.

Cazú - Você falou que o movimento hip hop é muito abrangente e há diferenças entre o a, o b ou c, você tem como fazer uma avaliação do hip hop aqui em São Paulo?
Tem diferenças, mas o hip hop está num momento bom. Hoje em dia a nossa palavra chega, cara. Coisa que antes a gente nem imaginava.

João de Barros - Mas no Rio de Janeiro ele sempre esteve presente, embora aqui tenha grandes rappers...
No Rio de Janeiro tem os maluco firmeza. MV Bill, rapaziada da Cufa – Central Única das Favelas . Tem uma rapaziada nervosa lá, fazendo hip hop. Para mim o funk carioca é rap porque é a batida Miami bass, é tipo Two Live Crew e o que os caras fazem é rap também. Só que aqui no Brasil se fala que é o funk, então, o funk é bem mais forte lá no Rio.

João de Barros - É esse tipo de sutileza que acaba confundindo, como se divide o samba?
É, e o funk lá fala mais da bundinha, mas tem os malucos que é funk e que fala a mesma coisa que o rap fala, tipo o Mr. Catra, lá do Borel. Gosto pra caramba do trabalho dele, ele faz o funk proibidão. Acho que tem hip hop no Brasil inteiro. Pô, a gente foi recebido pelo presidente, malandro. A gente foi lá conversar com o barbudo e apresentou as idéias, ouviu o que ele tinha pra falar. Eu, o Gog, os Racionais, todo mundo.

João de Barros - Quais foram as reivindicações que vocês apresentaram lá?
Foi apresentada a Frente Brasileira do Hip Hop para ele, é um negócio que ainda está sendo formatado, ainda tem muitas divergências dentro do hip hop quanto a isso. Foi chamada a responsabilidade dele: “a gente quer fazer algumas reivindicações, ajudamos a te eleger.” Perguntamos algumas coisas e ele respondeu, não fugiu da responsabilidade, explicou certas coisas que a gente queria entender, coisas do governo mesmo, escândalos que acontecem, a gente quer saber, estamos colocando a mão no fogo pelo cara. O que nós pedimos mesmo é que alguns dos tantos prédios em todos os lugares do Brasil do governo federal que estejam parados virassem espaços para que a gente possa desenvolver oficinas de hip hop e está sendo providenciado, estamos tendo reuniões com o Luiz Dulci pra coordenar isso e ele está fazendo o levantamento dos prédios que tem pra gente fazer a escolha. Foi pedido também que a gente quer uma concessão de rádio, queremos fundar uma rádio brasileira de hip hop.

Thiago Domenici - Você é radialista também, né?
Eu sou.

João de Barros – Uma rede nacional?
É, uma rede nacional de hip hop. Mas ainda não está nada formatado.

Thiago Domenici - Foram vocês que propuseram a visita?
Foi a CUFA, a Central Única das Favelas, que pediu a reunião.

Cazú - Você já cantou no exterior?
Ainda não, quase, estava tudo certo pra ir, mas preferi terminar meu disco e não viajar. Era pra eu ter ido pra Londres e Paris. Agora que o disco tá pronto, talvez role. A única coisa que tenho como certo é que a gente vai fazer um show no Haiti, várias pessoas do hip hop e música brasileira vão. O Brasil está ajudando o Haiti e vai rolar esse show lá. Na verdade, não andei nem conheço direito as capitais do Brasil. Tenho mais vontade de conhecer aqui primeiro, mostrar o trabalho aqui para depois ir, mas se tiver oportunidade, a gente vai.

Thiago Domenici - Você falou da França, tem história de uma demo que sumiu e duas faixas apareceram num grupo de rap.
Não. Foi assim: a gente estava gravando, em 1985, o disco do Posse e Mente que está nas lojas e no final de 96, a gente abriu um selo independente pra lançar esse disco em 97, aí, quando fomos lançar o disco as músicas desapareceram, sumiu tudo no computador, só apareceram três músicas.

Natalia Viana - Mas o estúdio foi arrombado?
Mistério... Sei que as músicas sumiram e depois de algum tempo a gente viu na revista francesa Groove, o pessoal do Filosofia de Rua, outro grupo de rap, que mostrou a revista pra gente, que tinha saído uma coletânea de rap brasileiro lá na França: “pô, vocês estão também?”. “Nós estamos? Como estamos?”. Olhamos a revista, estava lá um amigo nosso que tinha uns contatos pediu o cd e estavam lá, duas músicas que tinham sumido apareceram nessa coletânea.

Sofia Amaral - E vocês fizeram o quê?
A gente não tinha condições de fazer nada, né? A gente não tinha nem condições de contratar um advogado e de correr atrás, as coisas eram muito precárias, entendeu?

Thiago Domenici - A música estava lá mas não falava que era de vocês?
A música tinha nosso nome e tudo. Na verdade, hoje, a gente sabe o que aconteceu. Não gosto de dar ibope pra essa história, não. Foi um pilantra que trabalhava dentro do estúdio que sumiu com as músicas, a mando de não sei quem e ainda pegou esse bolo e conseguiu vender lá pra Virgin da França, entendeu?

Natalia Viana - É verdade que o Posse recebeu uma proposta gorda de uma grande gravadora pra mudar o seu visual e atitude?
Foi assim: mais ou menos em 94, um pessoal da gravadora que nem existe mais, a RGE, fez uma proposta, falou pra gente não se preocupar com dinheiro, que dinheiro não era problema. Falaram que se a nossa namorada fosse feia eles arrumavam uma namorada bonita, e que se mandar vestir de Chapolim, vai vestir de Chapolim, se mandar cantar bolero com rap, vai cantar bolero com rap. Quem manda aqui sou eu e vocês vão ficar ricos. Essa era a proposta. Parada de muita grana mesmo, pô “cem mil pra você é dinheiro? Cem mil não é dinheiro”. A conversa era assim, eles queriam que a gente cantasse “batatinha quando nasce, esparrama pelo chão”.

Sofia Amaral - Tipo rap americano.
Eles queriam que a gente fosse tipo Claudinho e Buchecha do rap.

Natalia Viana - Isso na época que eles eram famosos?
Não, nessa época quem estava famoso mesmo eram os Racionais, Gabriel Pensador.

Julia Contier - E o Gabriel Pensador?
Não tenho nada contra ele não, é boa gente, firmeza. Fizemos algum trampo junto já. A gente fez um trabalho pra TV Bandeirantes nas Olimpíadas. Conheço ele há algum tempo. É um cara inteligente, escreve bem pra caramba.

Julia Contier - Mas ele é tipo um Marcelo D2...
Não, creio que ele tenha mais direito de ser considerado do hip hop do que o Marcelo, porque o som dele sempre foi isso aí. Ele não veio de uma banda de rock e virou rap. Ele sempre fez rap. A única coisa é que ele sempre foi banido, desde o começo. É um playboy, mas eu respeito ele pra caramba e, para falar a verdade, não tenho nada contra ninguém, faço meu trampo e nem gosto de comentar o trabalho dos outros. Acho que cada um faz o seu e eu faço o meu.

Cazú - E para elogiar, quais são as bandas brasileiras de hip hop que você gosta?
Gosto de várias, gosto da Negra Li, gosto pra caramba da Raiz, do Jogo, do Thaide, Potencial Três. Tem bastante gente que eu gosto.

Thiago Domenici - Uma coisa que acho legal no seu trabalho são as parcerias que você faz, Lecy Brandão. São umas sacadas ótimas.
Tia é gente boa, politizada pra caramba.


Thiago Domenici - Nesse teu novo CD tem participação do Gil, Caetano. Como funciona?
Não, as participações são bem naturais, não planejo, até porque não teria coragem de convidar o Caetano, o Gil, porque vejo esses caras como “monstros”, tá ligado? Eles são o King Kong e eu sou um ser humano.

Thiago Domenici - Você tocou com o Caetano naquele show de aniversário de São Paulo, foi ali que você o conheceu?
Não, ele tinha ido no meu show no teatro Carlos Gomes do Rio e depois veio conversar com a gente. Achei meio estranho e ainda comentei “pô, Caetano Veloso, bagulho louco”. A gente trocou idéia e depois ficou um bom tempo sem ter contato, praticamente um ano e pouco. Aí, nesse show de São Paulo, ele me ligou. Achei que era trote, aí o Celso Ataíde, que é o empresário do MV Bill, me ligou logo em seguida e falou: “meu, é o cara mesmo, fala com ele”, e disse que ele queria convidar algum representante do hip hop, que ele tinha me escolhido e se eu tinha data pra fazer o show e eu disse que tinha.

Thiago Domenici - Você não desligou na cara dele não, né?
Ah, conta outra. Eu estava lá na estrada de São João Clímaco, toca o telefone, é o Caetano Veloso? Não dá pra acreditar, né? Achei que era alguém imitando a voz dele e desliguei.

João de Barros - Tenho uma curiosidade que é a seguinte: como está o hip hop na Bahia, que é permanentemente negra?
O hip hop lá não tem muita força porque é cidade turística e o axé é muito forte, mano. Você acha que eu não queria ver os moleques do rap cantando em cima do trio elétrico? Até eu queria fazer show em cima do trio elétrico, no Pelô, de preferência, em Candeal, Liberdade, nos guetos, mas ainda não rola. Mas o Racionais faz show lá direto.

Natalia Viana - A gente já sabe como você começou a se arriscar no terreno da música, mas e no terreno da poesia?
Comecei a escrever por brincadeira, ia nas festas e naquele tempo o rap estava começando e os DJs falavam: “quem canta um rap, sobe aqui”, eu não subia a rampa, tinha vergonha. Daí, ficava embaixo ali, fazendo um rapzinho: “você não sei o que lá, seu nariz não sei o que lá e pá” e comecei bem timidamente, um dia, numa festa em que o próximo baile era de flash-back, que todo mundo queria ir, o cara disse: “quem subir aqui e cantar um rap, leva meia dúzia de convite”, não tive duvida, é hoje, mano. Pra você ter idéia, na rua, os caras: “pô, mano, da hora aquele rap que você cantou, canta de novo”. “Não sei o que cantei, não lembro”. “Como, mano, você tá tirando?” e nesse mesmo lugar, o Edinhos Clube em São Caetano, o cara divulgou que ia ter um concurso de rap e foi a primeira vez que peguei o caderno e falei: vou escrever. Foi em 85, 86 e dali pra frente passei a pegar o caderno e escrever direto, mas naquele tempo via o Thaide, os Metralhas no baile do Palmeiras. Caramba, achava um negócio do outro mundo. Por incrível que pareça, meu sonho ainda nem realizei, quer dizer, realizei, mas não de todo. O meu sonho mesmo era ver um vinil com as minhas músicas. Esse é meu sonho. Falava muito isso pra minha mãe e ela falava: “Você entrou, agora, se quiser, tem que batalhar”. Na verdade, o meu sonho era pegar a agulha, ligar e ouvir minhas músicas. Já vi minha música em vinil. Na primeira vez que gravei, foi disco do DJ. Depois, quando fiz o disco do Posse e Mente, fizemos em vinil, mas disco do Rappin Hood mesmo, não fiz ainda, quem sabe mais pra frente.

Natalia Viana - Dá pra fazer, não dá?
Dá, mas só existe uma prensa hoje em dia no Brasil, em Belford Roxo. Gosto de vinil pra caramba. Acho que o vinil não pode morrer, até pelo saudosismo mesmo.

João de Barros - A imagem do vinil é bonita, né?
É bonita, mas hoje em dia os DJs usam CD que faz scratch, igualzinho a toca-disco, é perfeito, os caras conseguiram faz um ano e meio, dois anos que a teoria já era: “Pô, CD não faz scratch, DJ de CD não existe, mano” e está aí, CD faz scratch e DJ de Cd existe.

Marília Melhado – O que você acha do MP3 na Internet. Você se importa de as pessoas pegarem as músicas de graça na internet?
Não importo de ver um moleque pedir um autógrafo num CD pirata. Não me importo das pessoas que baixam a música, mas me importo com os coreanos e chineses que ganham dinheiro com a minha obra e não pagam impostos e os meus direitos autorais. Me importo com isso e acho que deveria haver uma forma de o cara baixar, mas pagar nosso direito autoral. Fiz um disco independente, tive maior trabalho, mas fiz com o mesmo zelo que a Trama faria, quer dizer, a gente gasta, tive que pagar imposto e um monte de coisa, a fotógrafa para a capa, o design gráfico, entendeu. Tenho prejuízo com um pirata, mas sou contra quem está fabricando, esse cara considero um criminoso.

Thiago Domenici - Para você que está no meio, o preço de um CD é um preço real? Um preço acessível?
Não é um preço real, o preço que chega ao consumidor não é real. Só que a situação no nosso país faz com que os preços fiquem assim porque você vende pro atacadista e ele, pra ganhar em cima, vende pro lojista mais caro e o lojista também vai pôr o preço do aluguel e das coisas dele em cima. Então, o CD que saiu da fábrica vai encarecendo. A prensa solta a R$ 4, eu soltei a R$ 7 e o atacadista já está soltando a R$ 12. O problema é o caminho que percorre.

Natalia Viana - Quanto você ganha por CD?
Sempre a mesma coisa, Não tenho nada a ver com o que o lojista ganha. O que vale pra mim é o preço que sai daqui, o preço que a Trama vende é de seis ou sete reais para o atacadista.

Natalia Viana- Desses 6 ou 7 reais, quanto você ganha?
Ganho 8%.

Natalia Viana - E nesse CD independente?
No independente só tenho de pagar a prensa e outras coisas.

Thiago Domenici - O Lobão tem um esquema de colocar CD nas bancas.
Cheguei a conversar com ele. Acho legal a idéia, fica acessível. Gostaria de ter esse esquema de pôr o CD lá, não ter intermediário pra pôr nas bancas, porque senão é a mesma coisa que a gravadora.

Thiago Domenici - Mas o preço é mais barato?
Não, o preço que chega pro consumidor é mais barato, mas o que ganho é a mesma coisa. Já troquei idéia com o Lobão pra pôr o Posse Mente nas bancas, só que não ia ganhar nada, só 80 centavos por CD depois de ter gasto mais de 30 mil reais pra fazê-lo.

Thiago Domenici - E não existe essa possibilidade?
Talvez exista, mas não conheço, não me deram essa boiada.

Natalia Viana - E os planos pra esse ano? Alguma novidade?
Sujeito homem 2 vem chegando aí, já está pronto.

clique para escutar a música Us Guerrero, de Sujeito Homem 2.

João de Barros- E o clipe? Tem a produção de algum clipe?
A gente está decidindo ainda. Acabei de fazer o disco.

João de Barros- A idéia é ter um clipe pra distribuir pras estações de televisão?
Vamos fazer o clipe, sim, acho que é um meio legal de divulgação, não só pela MTV, mas pra qualquer canal.

João de Barros - Você usa as mídias comunitárias?
É a minha especialidade, é o que a gente gosta, ir nas rádios comunitárias, na TV comunitária, é o que a gente mais faz. Esse disco mesmo que lançamos em dezembro, o Posse Mente, fomos visitar todas as rádios comunitárias que você possa imaginar, em São Paulo inteira, de Pirituba a Itaquera, do Tucuruvi ao Capão Redondo, velho. Nós estamos em todo lado.

Thiago Domeninci - Você tem um programa na rádio, né?
Tenho sim, há quatro anos já, o Rap do Bom, na 105 FM. Antes disso, fiz rádio comunitária, sou um dos fundadores da rádio Heliópolis, fiquei lá 7 anos, de segunda a sábado.

João de Barros - Tem uma estruturinha até legal, né?
É precário pra caralho.

João de Barros - Diante das outras rádios comunitárias que existem na cidade... funciona em um sobradinho.
É lá mesmo, já quase tomei choque ali muitas vezes, conheço muito bem a rua da Mina, número 38, é minha quebrada, minha comunidade. Por causa daquela rádio quase fui preso. Rádio comunitária é um barato difícil, é idealismo mesmo, porque dinheiro não se ganha. Não existe rádio comunitária que dê lucro, é difícil. Por causa de ideal eu já quase fui preso. Teve um debate sobre rádio comunitária no programa Barraco MTV, que não existe mais em que cheguei defendendo as rádios comunitárias, estavam eu, o Lobão e mais um ou dois e o resto era representante de rádio grande, estavam Radio Bandeirantes, Jovem Pan... o bicho pegou e vagabundo ouviu o que não queria. Se passaram dois dias e a policia baixou lá e tive de deixar a rádio na moral. Há um tempo, saiu no “Noticias Populares”, uma matéria de lá.

Thiago Domenici - Manchete escandalosa, né?
Pô, os caras queiram me ver preso, rapaz, tive que tirar todos os equipamentos da rádio, deixar fora do ar e sumir por uns dias. Os caras queriam me levar, mas é um aprendizado de vida. Hoje em dia eu tô numa rádio comercial, tenho um programa semanal. Ás vezes vou em Heliopolis, que é a minha escola e entro no ar pra falar com a comunidade. É importante para os moleques que estão lá e fazem programa de rap, gosto de aparecer para eles verem que é possível. A gente faz a nossa parte, tenta ser ‘espelho’ pra eles, um dia me espelhei nos caras mais antigos, no Thaíde e outras pessoas, eu também fui moleque e quis ter aquilo que o outro que estava traficando tinha. Também queira sair com a menina mais bonita da quebrada, mas ela saia com o cara que tinha mais condição, que tinha uma motinho, independente de ele ser mané, traficante ou não e eu sabia que não era menos que o cara.

João de Barros - Essa coisa de ser mané é muito presente, né quando você é qualificado de mané, você está fodido na comunidade.
Ninguém quer ser um mané, aquele moleque que os caras tiram um barato, dão um tapa na cabeça. Todo mundo quer ser o valente e ter alguma coisa pra falar. “Eu jogo bola bem”, “estou trabalhando em tal lugar ganhando bem” ninguém quer estar por baixo. Aquele moleque que é um otário ninguém respeita, os outros tiram ele, a menina que ele gosta nem olha na cara dele. Um dia o cara chega pra ele e fala: “chega aí, moleque, vem cá. Vai ali e entrega isso pra mim”, “não, não posso, tenho que fazer um negócio ali pra minha mãe”. “Ah, moleque, tá bom, tá bom”. Ele vai e quando volta, o cara saca cinquentão. “Aí, valeu”. Um dia, dois dias, três dias, no quarto dia o cara fala pra ele assim: “Fica aqui pra mim, você só precisa olhar e se acontecer alguma coisa você aperta essa campainha aí”. Ai, ele fica. E quando acaba o dia, o cara dá cem pra ele. Depois de três meses, o cara fala assim: “Isso mesmo, agora você vai ficar aqui, mas vai ficar armado, falou? Aqui, ó, pra você essa arma aqui, estou te dando. A partir de agora é 150 por dia, valeu: Se vender bem, é duzentão”. O que você acha que vai acontecer com o cara? Os caras que tiravam ele, já não tiram mais, estão respeitando. A mina que não olhava pra cara dele, já está sorrindo pra ele e rápido ele já está comprando uma motinho e pensa: “eu era um puta otário, estou me dando bem” e vai até falar pros outros. “você é bobo, tem que vir comigo. Vamos comigo que é o bicho. Vende uns baratinhos ali pra mim que até te dou uma comissão”. É assim, mano, que o barato prossegue. Então, você tem de mostrar pra esses moleques que esse caminho é curto, velho, e que eles podem vencer fazendo outras coisas. Mas é difícil, porque resultado imediato não existe, demora anos pra conseguir.

Natalia Viana - Você nunca chegou a ser atuante no crime, você disse que era trabalhador.
Já andei no inferno. Saída de baile: “olha aquele moleque saindo, olha o tênis que ele tá, olha a jaqueta que ele usa”. “É, pode crer” e via o carrão, fazia de conta que estava armado. “A jaqueta é minha, o tênis é meu”. Se falar que nunca fiz, tô mentindo. No tempo que era molecão, foi quando surgiu caixa eletrônico, como hoje em dia tem essa onda de seqüestro-relâmpago, no meu tempo, era saída do banco eletrônico, ficava ali e quando a pessoa saía...

Natalia Viana - Mas você resolveu parar por quê?
Porque eu era medroso e não servia para aquilo.

Marília Melhado - A saída é fácil?
Se quiser, sai. Na periferia, ninguém é obrigado a nada. É como usar droga, ninguém usa droga porque foi obrigado, usa porque quer. É lógico que se o cara já traficou, roubou, matou, aí é foda, mais difícil pra sair. É que quando o cara vê, já está envolvido. Só vai pensar em sair quando já está na delegacia ou na Febem. Daí ele vai pensar.

João de Barros - Você chegou a tomar umas bordoadas na delegacia: chegou a ser preso, levou umas pancadas?
Só parei por causa disso e não tenho meu nome fichado. Só parei no dia que sujou e só aí fui pensar, “nossa, minha mãe vai saber”. Foi assim: fomos pegos e não tínhamos nada e tivemos que correr que nem louco. Nós fomos fazer uma saidinha de banco e graças a Deus não deu certo. No fim, nós éramos tão medrosos que o cara enrolou e só deu uma cara do dinheiro. O cara negociou! Que ladrão bom que negocia com o cara? “Pô, mano, não leva tudo, leva só um pouco”. “Tá bom, dá aí”. Aí, nessas, vinha vindo a polícia e corremos e o cara que estava armado jogou a arma. O cara que a gente enquadrou não deu queixa, então, na delegacia não deu nada e tomamos uns ‘cola’ só porque a gente correu e ameaçaram de chamar a família. Depois desse dia, falei: “isso não é pra mim, não”.

Sofia Amaral- Você tinha que idade?
Tinha uns 17.

Natalia Viana - O que é uns cola exatamente?
Ah, tapão na orelha, umas ‘muqueta’ boa, uns ‘safanão’, umas botinadas pra ficar ligeiro. A gente era moleque e tinha mania de roubar placa de trânsito, bagulho de farol pra colocar em baile de garagem. Os moleques só aprendem quando tomam um susto. Quando o pai e mãe falam, não escutam, mas se eu ou o Mano Brown ou o Thaíde aparecer e falar pra ele, ele vai escutar, é assim. Então, só fui aprender porque fui e deu errado. Cheguei em casa e minha mãe: “demorou, onde você estava:”, “estava ali na casa do fulano”. Mentira, tinha tomado uns ‘tapão de orelha’ bom. Espero que nem meu moleque nem nenhum moleque das periferias tenham de passar pelo que passei pra entender. Ou não tenha que encontrar a morte. Ou a prisão pra entender que esse bagulho não leva a gente a nada, velho. A gente fala, fala e não adianta, como nesse caso dos moleques se matando no show dos Racionais. Que culpa tem o grupo? Todo mundo conhece a música deles: “O Homem na estrada”, em que ele morre no final da história. Mas os moleques não aprendem. O que a gente vai fazer? Tem de continuar a lutar, continuar falando, continuar mandando a idéia pros moleques. Cheguei a ser presidente do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Ipiranga, que é uma casa 10. Fui vice e depois presidente. Primeiro fui oficineiro, depois, mais pra frente, vice e depois presidente E tive oportunidade de conhecer muitos moleques com passagem pela Febem, molecada que estava em liberdade assistida, era cada casa louco, eu via aqueles moleques bons e inteligentes que poderiam ser tantas outras coisas. Chegou um moleque com 17 anos e mais de 10 homicídios. Hoje em dia, fico feliz da gente mostrar essa realidade, mas ainda é muito pouco.

João de Barros - Os bandidos mais célebres ali do pedaço eram os irmãos Galiléia.
Esses são, os caras pintaram e bordaram. O pessoal conta umas histórias cabeludas deles. Os caras demonizaram em São Paulo, ainda tem uns malucos da antiga que falam que eram parceiros deles. Renunciei à presidência no Centro de Defesa porque tinha falcatrua no bagulho. A grana vinha de uma entidade da Itália, até que chegou uma hora que falei: “não vou assinar cheque nenhum enquanto a auditoria não for feita”.
Meu nome é a única coisa que tenho e não vai estar envolvido com sujeira, velho. Me chamaram pra um acordo e não aceitei. Por exemplo, se eu fosse presidente do Corinthians não assinaria embaixo.

Natalia Viana - Gostou do jogo ontem?
Adorei, gostei de ver o Tevez dançando aquele samba enroscado. Penso que dentro do futebol, “certo” é difícil. Aliás, no Brasil onde é que não tem corrupção? Todo lugar que você vai, tem uma “bola” ali pra fazer tal coisa, outro pagou uma bola pra tocar na rádio.

João de Barros – Você já pagou uma “bola” para alguém?
Nunca paguei, mas sabe como é, jeitinho brasileiro... a gente sempre sabe de alguém que pagou.

João de Barros - Se você fosse o presidente do Corinthians, você não faria a parceria, é isso?
Não sei, falam um monte de coisas do Kia, eu não vi. Porque é o seguinte: quem tem de apurar o bagulho é o governo brasileiro. Se o governo deixou o bagulho entrar, é porque o cara está certo, velho. Sou o presidente do bagulho e chegou o cara: “oh, quero ser seu parceiro, tenho tantos milhões pra investir aqui”. Legal. De onde vem esse dinheiro? Esse dinheiro é limpo? Se esse dinheiro é sujo e sou o presidente do Corinthians, não quero. Mas eu não tive acesso ao bagulho, não sei nem o que está acontecendo. Sou torcedor.

Natalia Viana - Se você fizesse umas auditoria e descobrisse que era sujo, não entrava?
Não entrava. Nem Kia, nem Tevez, nem ninguém. Eu ia pra segunda divisão, mas ia como homem, não como pilantra, porque assim não vale. E no Centro de Defesa foi assim: assinei minha renúncia e expliquei ponto por ponto. Tinha uns doze pontos de lá por que estava renunciando. Fui no cartório, reconheci firma e afixei lá minha renúncia. Por que o que adianta eu ser um cara que fala tudo isso daí e fazer a mesma coisa que os outros fazem?. Como torcedor do Corinthians, quero ser campeão, quero ver meu time ganhar. Agora, se estivesse ali, envolvidão, fosse um conselheiro ou um diretor, ia embaçar. Ia querer saber por que meu nome está ali. Na periferia, a única coisa que nós temos é a palavra. Dinheiro pra ter crédito, não temos e a palavra tem que valer ouro. Se a palavra não vale, se você não é digno, você não tem crédito na periferia pra nada.



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