Lutador da Vila Arapuá, zona sul da capital paulista,
Antônio Luiz Junior o Rappin´ Hood conta sua trajetória
desde as dificuldades nos bailes da periferia ao reconhecimento
como um dos principais músicos de rap do país e ainda
afirma: "Jesus era negro". Tá ligado?
Entrevistadores: Cazú, Sofia Amaral, Natalia Viana,
Julia Contier, Marília Melhado, João de Barros, Thiago
Domenici, Marcus Kawada. Fotos: Cazú.
Thiago Domenici – A gente vai começar como
de praxe na Caros Amigos, pela infância... Quando nasci, meus pais moravam no bairro do Limão,
perto da igreja de Santo Antônio e da quadra da Mocidade Alegre,
um lugar de muitas enchentes.
Thiago Domenici – Como era sua casa? Era cortiço, “cumpadi”! Várias
casas e um banheiro para umas cinco, seis famílias.
Marília Melhado – Onde você estudava? Nessa época, eu tinha três anos e só
comecei a estudar quando fomos morar na zona sul, Ipiranga, onde
fiz maternal, jardim, esses bagulhos, mas só considero a
partir da primeira série do primeiro grau. Estudei no Antônio
Alcântara Machado, no Alto do Ipiranga.
Sofia Amaral – Você era um bom aluno? Nunca fui, fazia parte da turma da bagunça. Na sexta
série, fui estudar em escola particular porque a empresa
onde meu pai trabalhava fez um sorteio de bolsas escolares. Era
complicado porque as idéias não batiam, só
tinha eu e mais um negro na classe e eu não aceitava ser
discriminado. Acabei sendo expulso por causa das brigas.
João de Barros – O que seus pais faziam? Meu pai sempre trabalhou em almoxarifado de empresa, começou
carregando caixa, depois de uns vinte anos virou sub-chefe do almoxarifado,
e mais tarde o almoxarife, chefe do almoxarifado e expedição.
Hoje em dia, ele está aposentado e tem uma lojinha na garagem
de casa, ele vende ração para cachorro, passarinho,
essas coisas. Minha mãe é doméstica, mas depois
de um tempo, meu pai fez ela parar de trabalhar.
João de Barros – Você é filho
único? Sou o mais velho e tenho mais uma irmã e um irmão.
Meu irmão faz música, estudou outras
coisas, mas acabou na música. É produtor e parceiro
de algumas músicas minhas e conseguimos ajudar minha irmã
com a faculdade porque ela queria dar aula, mas também canta,
gravou no meu primeiro e no último disco além de cantar
no coral da igreja. Gosto de fazer música com ela.
Thiago
Domenici - Voltando a sua infância, queria que você
contasse essa história de que você ia com seu tio no
candomblé, com sua tia na igreja evangélica e com
sua mãe na igreja católica. Na verdade era com meu tio e avô na Umbanda, com
minha avó na igreja católica, eu era coroinha e uns
amigos iam na igreja evangélica e eu também ia. “Vamos
ali no culto?”, nessa época eu tinha 15 anos e acabei
aprendendo a ler partitura na igreja evangélica. Marília Melhado - Seu primeiro contato com
a música foi na igreja? Acho que foi em casa mesmo, minha mãe conta que
colocava o radinho de pilha pra tocar no meu berço na hora
de dormir, e com três anos ganhei aquelas vitrolinhas que
tinha antigamente e sempre ganhava discos ou chuteira pra jogar
bola. Sempre gostei de música, desde bebê. Minha mãe
fala que eu só ficava quieto quando ela ligava o rádio.
João de Barros - Desde criança, você já
tinha várias influências musicais: o batuque na Umbanda,
tinha influência do sopro da igreja evangélica e cordas
da igreja católica? Outra coisa fundamental na minha vida foi a fanfarra. Com
14 anos, comecei a tocar corneta, depois cornetão e depois
fui para uma banda marcial tocar bombardino, trombone e até
tuba, mas o que eu gostava mesmo era trombone de pisto e depois
toquei o trombone de vara. O que me influenciava mesmo era o que
eu ouvia, o que meus tios ouviam, muito samba, soul, funk.
Naquele tempo, eu tocava coisas clássicas na fanfarra e queria
usar o instrumento, tocando aquelas coisas que ouvia: Jorge Ben,
Tim Maia e vários outros. Quando pequeno, era vidrado em
piano, queria aprender, mas o que aprendi mesmo foi a tocar o trombone,
tanto o de pisto como o de vara.
Julia Contier - Quem é seu mestre musical? Nossa, são vários, não consigo apontar
um, porque gosto de muita gente,não consigo escutar sempre
a mesma coisa, cada dia escuto uma coisa diferente. Tem dia que
acordo e escuto um rap pesado, no outro escuto um samba
de raiz, tem dia que escuto jazz, depende do dia, da vibração.
Gosto pra caramba de Tim Maia, Jorge Ben, Djavan, pra mim, são
todos mestres, gosto de todos eles da música brasileira,
do Caetano, do Gil, mas não de tudo, gosto do conjunto da
obra deles. No samba, gosto do Martinho da Vila, do Candeia, da
Leci Brandão, da Ivone Lara.
João de Barros - E no choro, você conhece Pixinguinha? Conheço a obra dele, tinha um lugar lá perto
de casa que os caras tocavam chorinho e eu ia e ficava escutando,
mas não tenho nenhuma referência, vim conhecer bem
depois, aí fui escutar Jacó do Bandolim e vi que o
samba era um derivado daquilo. Não tive acesso ao chorinho
quando era mais novo, isso só aconteceu bem depois.
Marília Melhado - Você sai muito pra ouvir
ritmos diferentes? Já saí mais, hoje em dia escuto mais em casa,
compro muito CD e vinil. Vou na Ventania, uma loja lá na
Galeria (Galeria 24 de maio, centro de SP), e fico horas escolhendo
os discos que são baratinhos e sempre tem coisas interessantes,
ultimamente tenho escutado bastante Cartola. No meu disco novo fiz
um trabalho com uma música dele. A poesia dele é linda.
João de Barros - Falando ainda de influência musical,
você teve algum aprendizado de embolada? Eu era office boy e ia muito para o centro da
cidade fazer uns trampos e admirava, ficava vendo os caras cantando,
passando o chapéu e prestava atenção, mas a
embolada, o repente eu tive acesso pelo Expedito, pai de um amigo
meu que organizava umas tardes de embolada e eu ia e achava engraçado,
naquele tempo não era como uma coisa de influência,
gostava mais de ver a disputa de rima dos caras e era engraçado.
Comecei a prestar atenção e estudar mesmo quando conheci
os meninos do Face do Subúrbio, lá do Recife,
foram eles que me apresentaram o trabalho do Caju e Castanha,
porque já conhecia eles da Trama (gravadora). Tem até
uma coincidência, nós assinamos contrato no mesmo dia,
a gente se conheceu nos corredores da Trama, falei dos meninos do
Face do Subúrbio e eles: “São nossos amigos,
a gente tem de fazer um som juntos” e gravamos juntos.
João de Barros - A periferia não cultiva mais isso,
né? Acho que cultiva sim. Na favela tem muitos nordestinos.
Moro na Vila Arapuá, do lado da favela Heliópolis,
onde fui criado tem muita gente que escuta forró e embolada,
pais de família, tiozinhos que trampam o dia inteiro, chegam
no bar e ficam escutando. Então, acho que não é
cultuado pelo grande público, mas tem o público fiel,
quando o Caju e Castanha vão lá em Heliópolis,
eles são reis, as pessoas reconhecem e pedem autógrafo.
Natalia Viana - Quando você mudou para a zona sul,
já era uma casa? Era. Nós vivemos muitos anos de aluguel e meu pai
só conseguiu sair do aluguel uns dez anos depois, moramos
em vários lugares diferentes até meu pai conseguir
comprar uma casa, estavam acontecendo uns leilões de casas
do BNH de pessoas que não tinham pago as prestações.
A empresa liberou fundo de garantia e ele deu entrada. Me lembro
como se fosse hoje. Meu pai chegou um pouco bêbado em casa
e minha mãe tinha combinado alguma coisa com ele e ele falou:
“Você quer saber porque cheguei tarde em casa e por
que bebi?”, aí ele sacou a prestação
e disse: “Paguei a última prestação.
A casa é minha”.
Natalia Viana – Você tinha quantos anos? Mais de 20.
Natalia Viana – Queria que você contasse essa história
de que você foi expulso da escola e deve ter sido uma experiência
muito louca de entrar numa escola de gente rica. Foi aí o
seu primeiro choque? Eu era banido. Enquanto eles curtiam B-52, eu curtia break
e falava de James Brown e os caras “James Brown?”
Foi um aprendizado bem diferente, foi legal o convívio com
essas pessoas, outra coisa é que o ensino é bem mais
forte, vi a diferença de estudar numa escola do Estado e
depois numa escola particular, foi bem difícil para me adaptar,
até para as amizades, enquanto eu usava kichute,
o cara estava com um Adidas, um Nike novinho que eu não poderia
ter.
João de Barros - Qual é a sua idade? 33.
Natalia Viana - O preconceito era mais por causa das roupas,
pela sua cultura ou por você ser negro? Por causa das roupas, por ser negro e muitas vezes por
ser pobre. Thiago
Domenici - E como isso aparecia, os caras te excluíam? Muitas pessoas nem se aproximavam, quando tinha grupo de
trabalho, se era grupo sorteado, caía com uma pessoa e tinha
de fazer o trabalho na casa dela, a forma que eu era tratado! Existem
várias formas de entender a discriminação.
Festa Junina, eu não tinha par porque ninguém queria
dançar com o pretinho, ficava chateado, mas a criação
que recebi nunca me deixou achar que era inferior, não esquentava
com isso, na verdade isso me levou a querer conquistar outras coisas,
o único momento que me senti discriminado foi uma vez em
que fui agredido por racismo e, por incrível que pareça,
estava numa escola estadual, encostaram no carro de um menino e
eu nunca encostava e ele já saiu gritando comigo: “Só
podia ter um preto no meio” e me agrediu, quebrou meu braço.
Quando comecei a ter vitiligo, não me sentia bem e fui discriminado
na escola várias vezes, mas nunca me senti menos do que ninguém
e chegou uma hora que acabei entendendo que era choque de cultura
e também que eu nunca ia ter certas coisas, nunca ia ter
o vídeogame de última geração
ou o tênis Adidas porque meu pai não tinha dinheiro
pra comprar, se ele comprasse a gente passaria fome, então
me acostumei com aquilo, tanto que fiquei dois ou três anos
e fui expulso.
João de Barros - Pelo que me recordo de alguns anos
atrás, ali existia ou existe ainda, um clube de confraternização
de brancos e negros. O que você está falando é o Flor de
São João Clímaco, que não é bem
um clube, é um time de várzea que há mais de
trinta anos fazem um jogo por ano de confraternização
que é preto contra branco. É um jogo de confraternização,
mas que ninguém quer perder.
João de Barros - Você joga nesse time? Já joguei, mas hoje sou técnico do primeiro
quadro há quatro anos, estou invicto, empatei dois jogos
e ganhei dois, ainda posso tirar esse barato da caras deles. É
uma iniciativa legal do pessoal da diretoria.
João de Barros - Digo isso justamente por conta do
contraste de você ter vivido num lugar onde a convivência
parece mais tranqüila e você está ressaltando
muitos aspectos que você pessoalmente viveu ali no bairro. Nunca vivi essa discriminação no bairro,
só por algumas pessoas, na periferia sempre tem gente que
come pão duro e arrota caviar. O cara é assalariado
que nem seu pai, mas tem um carro legal porque financiou, a casa
é um pouco melhor porque foi reformada e ele já é
diferente dos outros, aí a mulher dele quando vê os
pretinhos fecha o portão, mas nunca liguei, isso é
besteira.
João de Barros - Você chegou a ir ao Palmeiras? Fui em muitos bailes da Chic Show, vi Boggie
Down Productions, que é uma banda célebre do
hip hop.
João
de Barros - James Brown esteve lá, né? Por incrível que pareça, não vi o
James Brown, era muito novo, não tinha dinheiro
e meu pai não me deixou ir, mas vi uns legais: Too Short,
um rapper da velha escola, o Zapp, que é uma banda
de funk, vi Billy Paul, Chaka Khan, Tim Maia, Jorge Ben
e Sandra Sá. Eu curtia todos os bailes da Chic Show, o Clube
da Cidade, Neon clube, Ponto de Encontro, Cris Disco Club da Vila
Ré, projeto Leste, Diamante da Lapa...
João de Barros – Tinha em Santo Amaro também? Tinha, mas o Asa de Santo Amaro, não era Chic Show
era de uma outra equipe, que eu gostava também, tinha viola
de ouro da Zimbábue, o Santana Samba que era o SP Djs, os
bailes da quadra da Rosas de Ouro, Cascatas de Santo André.
E a gente juntava aquele monte de gente, às vezes ia lá
para Osasco e quando tinha festa especial, show gringo
no Palmeiras, a gente ia também, mas era mais difícil,
os ingressos eram caros e às vezes não tinha dinheiro,
trabalhava de office boy e o pouco do que sobrava do mês
ia numa noite, fora isso queria comprar a melhor roupa, era molecão,
queria ter o melhor tênis, a melhor calça e acabava
abrindo crediário, ia para a festa e depois ficava pagando
dois, três meses uma roupa.
Sofia Amaral - Hoje em dia você é religioso,
freqüentador? Sou religioso, minha família é evangélica,
freqüentamos a Renascer, mas nunca tive uma religião
certa. Acabei freqüentando tudo e acredito em Deus, que Jesus
Cristo veio na Terra. Tenho respeito especial pela cultura afro-brasileira,
pelos Orixás, mas respeito tudo: santo, anjo, orixá,
até Buda eu respeito, para mim o que vale é outra
coisa, é ser do bem, respeitar a lei, não fazer mal
a ninguém, não tenho uma religião especial,
mas estou criando o meu filho na doutrina evangélica, principalmente.
Cazú - Não é contraditório isso? Não tenho de prestar conta para ninguém,
o pastor não vai na minha casa nem vou na casa dele. Religião
é um barato que não se discute, se eu falar sobre
religião aqui, cada um vai ter um ponto de vista, entendeu?
Não sou obrigado a ter o mesmo ponto de vista do pastor,
ele tem o dele, eu assisto o culto dele e leio a Bíblia.
Só que fui criado freqüentando tudo e não vou
agora cuspir no prato que comi.
Thiago Domenici - É verdade que você já
leu a Bíblia inteira? Li várias vezes, porque chegou um momento da minha
vida que eu queria achar uma verdade, queria saber se existe uma
vida depois dessa e acho que até agora eu não conheço
a verdade não, talvez eu só encontre quando eu for,
tá ligado? Tem coisas que a gente só vai saber vivendo,
cara. A resposta não vai estar lá, já li a
Bíblia demais, de trás pra frente, de frente pra trás,
parando, pulando partes, já a li a Bíblia de vários
jeitos.
Cazú - Você faria um rap? Poderia até fazer, mas não faço pelo
respeito, é como aquele filme Paixãode
Cristo, qualquer pessoa que escreve ou que fala alguma coisa
em cima da Bíblia vai criar polêmica, tá ligado?
Não quero fazer isso. Se eu for escrever alguma coisa sobre
a Bíblia, vou começar falando que Jesus era negro.
Natalia Viana - Mas, Rappin' Hood, você não gosta de
polêmica? Depende do assunto e com quem é a polêmica.
Natalia Viana - Em relação à crítica
social, você é bem contundente. A crítica social é a minha cara. Falo isso
porque tem polêmicas que não valem a pena, não
gosto de pegar um assunto que está todo mundo falando e falar
também, gosto de falar do que é meu. Por exemplo,
morreu uma pessoa no show do Racionais, aí o Fantástico
me liga, a Rede Record me liga e não tenho nada para falar.
Essa polêmica não é minha, não é
comigo e não é problema meu. Foi no show dos
caras, tudo bem, conheço os caras, são meus amigos,
mas não tenho nada para falar, não estava lá,
não vi, vou falar o quê? Para falar de música,
os caras não me ligam, para falar de morte no show
de rap, eles me ligam.
Natalia Viana - Queria falar um pouquinho dessa relação
da mídia, porque hoje em dia me parece que a crítica
social no hip-hop é uma coisa que já foi abraçada
pela mídia, uma coisa que vende. E aí? Lembra daquela música do Raul Seixas que ele fala:
“agora para vender disco de sucesso, todo mundo tem que criticar”.
Então, fazer rap é fácil, qualquer
um pode fazer, podem surgir milhões de bandas de garagem
e playboy cantando rap e vão falar a mesma
coisa que falo, o problema é a verdade que tem atrás
disso. Eu sou verdadeiro, sempre fui rapper, batia na lata
de lixo da São Bento, mas tem outros caras, que nem o Marcelo
D2 – canta rap, mas não é rapper,
fez uns dois discos de rap. Conheço ele, até cantei
no lançamento do CD dele aqui no Tom Brasil, o som dele é
legal, não tenho nada contra ele, só que não
é um rapper, falo isso porque ele não camelou, não
segurou a bandeira que nós seguramos, não correu da
polícia lá na São Bento como eu, Mano Brown,
Thaíde. Então não o vejo como um membro do
hip hop brasileiro. João
de Barros - Acho legal você relembrar o pessoal, talvez eles
não conheçam como foram esses momentos no centro de
São Paulo, na 24 de Maio, enfim, para saber como é
que esse tempo de repressão se manifestava em vocês.
Esse tempo foi muito legal, mais ou menos 1984, 85, logo
que comecei a ir aos bailes, a ir assistir àquele programa
do Barros de Alencar, tinha o break, meus tios também
compravam os discos e eu falava: “nossa, é isso que
eu quero, da hora essa dança aí” e meu irmão
dançava, aí um dia num evento lá em Rudge Ramos,
ali do lado de São Bernardo, conheci o Thaide, aí
eles disseram para mim: “meu, você dança à
pampa”. Eu nem tive coragem de falar para eles que eu fazia
rap, né mano, pô. Aí eles falaram: “Pô,
você tem de ir na São Bento, a gente se reúne
lá”. A galeria eu já conhecia porque minha mãe
cortava o cabelo lá e eu ficava nas lojas, então o
movimento black eu já conhecia, mas não conhecia
o hip hop, para mim era só o break, depois
disso comecei a freqüentar a São Bento e falei para
o Thaíde que eu cantava e ele: “os caras aqui cantam,
os caras ficam na lata”. Tinha a lata A, a lata B e ficava
todo mundo em volta, batendo palma, batucando na lata e fazendo
as rimas, depois de meia hora que a gente ficava lá já
apareciam aqueles urubus que eram os funcionários do metrô,
tiravam a gente e chamavam a polícia, a gente tinha que correr...
Corri da policia, dos caras do metrô, muitas vezes. Eles não
deixavam a gente ficar lá, mas era o melhor lugar que tinha
porque dava para dançar, o chão de mármore
era lisinho e era legal também batucar na lata porque tinha
um som grave. A gente gostava de se reunir lá e virou até
uma resistência: “vocês não deixam, então
é agora que nós vamos ficar mesmo”. Várias
pessoas eu conheci ali, pô, o Mano Brown, KLJ, Doctor Mcs,
Milton Sales também que tocava e praticamente organizava
tudo, o MH2O que é o movimento hip hop organizado,
conheci algumas bandas de reggae, os caras do Walking Lions...
Thiago Domenici - Tudo no começo de carreira. Tudo no começo, quando conheci os Racionais
não se chamavam Racionais, eles eram os Hip Boys. Era uma
resistência, a gente ficava ali e depois de algum tempo conseguimos
autorização para ficar lá.
Thiago Domenici - Perdeu a graça ou não? Não, sempre vou passar ali e me sentir como se estivesse
passando num templo, faço até o sinal da cruz porque
considero o templo sagrado do hip hop, onde está toda a história
e vou sempre ter um carinho, sempre vai ter graça pra mim.
Toda vez que vou lá, chego perto da lata de lixo, passo a
mão e ninguém entende, “o cara está louco”,
mas é porque vivi aquilo, entendeu?
João de Barros - A mídia sempre atacava vocês
também, é importante a gente lembrar. O rap sempre foi música de marginal, bandido
e maloqueiro. Os caras falavam: ”O que é rap?
Você é louco? De onde você tirou essa coisa de
americano?”. Até hoje o rap, não é
considerado como música, se você for na Ordem dos Músicos
e cantar um rap, você não sai de lá com a carteirinha.
Se um Dj chegar lá e falar: “Eu sou Dj, quero a carteirinha
porque sou músico”, o cara fala: “Aqui você
não tira, toca o pandeiro aí que eu te dou a carteirinha”.
Essa barreira ainda não foi quebrada.
Natalia Viana - Mas você está falando das últimas
barreiras formais. Por outro lado, na mídia, vamos dizer,
na MTV que é expoente da música jovem aí, é
super aceito. Queria que você falasse dessa mudança,
como é que você vê isso? O rap americano é aceito na mídia,
a gente vê o Eminem, entendeu?, o Snoop Dogg, e não
vê toda hora o MV Bill, o Rappin Hood, Thaíde em todos
os canais, em todas as rádios, não liga na Jovem Pan
e ouve o MV Bill. Acho que ainda existem muitas barreiras, mas está
chegando a hora porque o estilo musical é conhecido, em comercial
de tv tem a batida do rap, só que maquiado, né, mano.
A nossa realidade ainda não está lá. A revolução
não será televisionada, irmão, realmente isso
é uma coisa que é certa. A gente não sonha
com isso, mano.
. João
de Barros – Como será a revolução? Se o brasileiro tiver colhão pra fazer a revolução,
porque aqui tem futebol, novela, carnaval, mas não tem revolução,
meu irmão. Brasileiro não vai fazer a revolução.
Movimento estudantil hoje em dia é uma piada. A revolução
que vejo é a revolução na mente de alguns moleques,
que estão ouvindo, estão assimilando, estão
se identificando. Acredito no MST, mas não acredito em revolução
armada no Brasil. É uma mentira.
Sofia Amaral – O que você achou do Lula? O Lula é um representante do povo que conseguiu
chegar no mais alto posto da política brasileira.
Sofia Amaral – Mas, você acha que ele está mandando
bem? Não faço nenhum julgamento dele enquanto
ele não acabar o mandato. E outra, o Lula não é
o salvador da pátria, sozinho não vai fazer tudo,
ainda mais em 4 anos. Os caras levaram 500 anos destruindo, em 4
anos ele vai arrumar? Não vai arrumar, mano. Nunca vai ser
para o povo tudo o que povo espera, essa que é a verdade.
Já começa que ele entrou sabendo que tinha de cumprir
todo e qualquer acordo que o FHC fez, só aí a vaca
já foi para o brejo. Quer dizer, não adianta a gente
esperar que o Lula faça coisas mirabolantes, que ele vai
falar que não vai pagar a dívida externa e vai investir
tudo no povo brasileiro, isso daí não existe. Utopia
a gente não vai ver. Mas acredito no Lula, se tivesse eleição
hoje, eu votava nele de novo. Porque ele é o único
representante do povo que está lá. O resto é
farsa, é tudo um monte de playboy que só
visa lucro.
Marilia Melhado - Se você pudesse escolher qualquer
pessoa para colocar na presidência, colocaria quem? Meu candidato é Luis Inácio Lula da Silva,
se tivesse uma eleição votaria de novo no Lula. Não
tem outra pessoa, a pessoa é ele.
João de Barros - Você citou o MST, por que? Porque o MST é a resistência atuante e não
paga pau, invade mesmo, “a terra está inativa, estamos
invadindo, alô Ronaldo Caiado, pode sair”. É
assim, mano, “FHC, até a sua estamos invadindo”.
Tenho o maior respeito pelo MST.
Sofia Amaral - Tem algum contato com eles? Já foi em algum
assentamento? Não, já conversei com eles em paradas que
rolaram, mas não tenho grandes contatos. Conheço algumas
pessoas que não são grandes lideranças do MST,
mas respeito pra caramba e não é da boca pra fora,
aqui em São Paulo tem um monte de gente que faz reunião,
se diz de esquerda, se diz de resistência, mas pegar arma
e ir lá resolver é para poucos. No MST, o cara vai
lá e faz mesmo, não está pagando de comédia,
não. Talvez eles tenham o apetite que a maioria do povo brasileiro
não tem.
João de Barros - E a favela? O que o povo da favela tem feito? A favela está de chapéu colado, amigo. O
povo da favela está assistindo novela e futebol, mano. Não
é todo mundo na favela que tem consciência, se fosse,
ia ter arrastão todo dia, ninguém ia poder freqüentar
a praia de Ipanema e de Copacabana. No Brasil, os caras manipulam
o barato. É uma lavagem cerebral de 500 anos. Você
já ouviu esse comentário?: “Eu sou pobre, mas
não voto no Lula, porque é analfabeto que nem eu”,
quer dizer, então o Zé Povinho ainda não acredita
nem no cara que representa ele, os moradores da favela que não
acreditam nem no próximo, quanto mais naquele que está
lá em cima. A favela tem uns malucos bons, uns malucos revolucionários,
tem uma pá de gente honesta, trabalhadora, donas de casa,
domésticas, mulheres que trabalham nas seções
de produção de várias empresas, mas a favela
ainda não está preparada para revolucionar.
Marcus Kawada - Você acha que dentro do movimento Hip Hop
existem pessoas que acabam atrasando esse lado, atrapalhando em
vez de ajudar uma revolução? O rap, o Hip Hop, não é diferente, nem melhor
do que qualquer outro movimento que já existiu. Não
é diferente da Tropicália, do MST, não é
diferente de nada, tem o bom e o mau. Tem o bom, tem quem pregue
a paz e tem quem pregue a guerra. Não é que tenha
gente que atrapalhe, mas não está organizado, não
está unido, tem um querendo correr para o norte e outro querendo
para o sul, um querendo dialogar e outro quebrar. Até em
partido político é assim, a verdade é que o
rap é como no partido político, tem uns malucos que
são a favor de dialogar, de ir na imprensa, falando com vocês,
como eu, mas tem uns malucos que falam: “não tem que
falar com jornalista porra nenhuma, nós somos a revolução
e não queremos falar com ninguém, tem que ir e quebrar
tudo”. Tem cara que é assim.
Sofia Amaral - E por que você escolheu falar? Por que jogar pedra na vidraça é fácil,
qualquer um faz, mas ficam as perguntas: Vou defender minha tese?
Tenho idéia para trocar? Então, não é
só a questão do cara ir, tem de ver o que ele vai
falar, se for pra falar besteira é melhor não ir,
entendeu? E outra, tenho o maior respeito pelo “não”
dos Racionais, pela história dos caras, “não,
não vamos”, porque também pra ir e se contestado,
pra ter as palavras trocadas, é melhor não ir. Sou
a favor do Mano Brown quando ele fala: ”Não vou”,
só que, necessariamente, o caminho dele não é
o mesmo caminho que o meu. Sou uma pessoa que gosta do embate, gosto
de trocar, de ver o pessoal falar assim: “mas você não
acha?”, aí dou uma explicada porque é que não
acho, é lindo isso, rede nacional, Luciana Gimenez: “você
não acha?”, “Não acho”, entendeu?
Acho que é o livre arbítrio, né, mano, cada
um faz o que quer e estou defendendo o meu com o máximo de
dignidade possível.
Thiago Domenici - Você não tem medo de ser
usado? Quem não é usado no nosso país? Todo
mundo é usado, pobre é usado todos os dias, nós
estamos sendo usados todos os dias. Eu estou na Trama, é
uma troca, irmão. Ele vai me usar para ganhar o dele e eu
estou usando o dele para ganhar o meu, então é negocio,
velho. Eu tô indo lá, ele acha que está me usando
para ter ibope, eu tô pondo o meu CD na tela e estou falando,
“molecada, vai comprar”, é assim, cara, acho
que a gente não tem que ter medo de nada, não vim
aqui para ter medo. Hoje em dia fala-se do sistema de cotas. Preto
já foi escravo, não estou mais em tempo de reclamar,
estou em tempo de conquistar. O meu tataravô já reclamou,
entendeu? Estou em outra fase, na fase de conquistar, quero sim,
quero mercado de trabalho, faculdade, a Tv, rádio, quero
tudo para o meu povo, estou brigando por mim, pelo meu filho, pelo
meu neto que virá. Eles não têm que ter medo,
eu não tenho rabo preso com ninguém, mano. Se eu não
gostar, pode ser quem for, vou falar: “pô, você
achou legal?”, “não achei legal, achei uma merda!”,
é assim ó, não tenho que ter medo de nada,
quero ver as xuxas pretas, as angélicas pretas que não
tem, quero os ‘espelhos’ para o meu filho, acho que
não tem que ter medo de nada, cara, quero ver a história
do povo negro no livro de História, mano, quero ver o bagulho
e guerrear. Nós construímos o país
e vamos viver no quilombo para o resto da vida? Quero tudo o que
é nosso por direito e não tenho medo de nada, ele
está me usando e eu uso ele. A Globo está
me usando para ter Ibope, eu tô usando ela: “periferia,
compra o meu cd”, é assim. O exemplo é simples,
você acha que se o nosso presidente tivesse medo, seria presidente,
velho? Se ele ficasse: “não, mas o PT, nós somos
a resistência, não vamos dialogar”, não
seria presidente nunca. Não sou homem de me esconder, estou
aqui sim, é comigo mesmo a conversa. O rap não
tem que se esconder, nós já ficamos muito tempo presos,
agora solta o bicho, quem não quiser ouvir que saia da frente.
Natalia Viana - Queria que você comentasse aquela letra dos
Racionais que para algumas pessoas parecia um pouco uma
mudança de discurso, aquele lá que ele fala que Deus
é uma nota de cem. É o seguinte, eu acho difícil comentar a
letra dele, né, mano? É a letra dele, é legal
ele comentar.
Natalia Viana – Fique à vontade, mas é mais
ou menos isso, a gente quer também grana, a gente quer também
luxo, quer? Tenho uma música que fala isso: “é
lamentável, a verdade dói, mas pobre quer dinheiro,
quer ter vida de playboy”, a verdade é essa,
mano. Nós queremos o que é nosso de direito, nós
somos a mão-de-obra que constrói esse país.
Os nordestinos que vêm de lá, que construíram
prédios e o metrô, não merecem? A gente merece
sim.
João de Barros - Quem colocou o dedo na ferida foi o Joãosinho
30: “Quem gosta de miséria é intelectual? Pobre quer luxo, quem gosta de seca é político
que ganha dinheiro com isso, vai perguntar para os pobres que estão
lá no Nordeste se eles gostam de seca, velho. Os caras querem
é água, fala para os caras: “ó mano,
você quer morar num lugar com frigobar?”, vai ver se
ele não quer.
Cazú – Como é o seu processo de composição?
Você começa pela letra ou alguém já está
com a letra ou já está com a levada... Depende, tem vezes que vejo alguma coisa na rua e já
saio canetando, tem vezes que começo pela base, vou fazer
um som em cima disso aqui, depende muito, tem vez que eu estou com
uns amigos, surge uma idéia. Não tenho um processo
de criação fechado. Pra mim, cada música nasce
de um jeito. Não é “hoje eu vou escrever sobre
isso”. Sô Negão é uma letra que
escrevi numa tarde. Peguei uns livros e cadernos e pá, saí
fazendo. Comecei umas duas da tarde, quando eram umas nove da noite
eu tava falando: “Mãe, olha aí ó!”
E tem música que demorei mais tempo pra escrever.
Thiago Domenici - Mas você é daqueles que sai com o
caderninho e lembra uma rima e anota? É nada. Às vezes, se eu tô com a caneta
e papel eu anoto, mas basicamente é na mente mesmo. Já
perdi várias coisas, já teve vez de estar com uma
coisa na cabeça e falar: “puta, esse negócio
é legal”. Passou umas horas e eu não lembrei
mais.
Julia
Contier - Como é compor por pressão? Já compus com pressão. Por exemplo: “porra,
o disco tem que terminar, cara, só faltam essas duas músicas!”.
E eu embaçando porque a letra não tá pronta.
Mas é legal, já compus muito sob pressão. Quando
participo com outros, quase sempre. É quando a gente está
na correria e quando chega o dia de ir pro estúdio: “puta,
tenho que ir pro estúdio gravar com fulano, não escrevi
nada! Vou me concentrar aqui umas horinhas”. Aí eu
me concentro, aí sai. Escrever sob pressão às
vezes é bom, porque também se deixar muito livre acaba
viajando demais num tema e não objetiva. Por exemplo, teve
uma música que entrou no meu novo disco que vai sair que
quando escrevi, escrevi sob pressão porque o Jair (Rodrigues)
tinha me pedido uma música pro disco dele. Já participei
de dois discos dele antes. Aí ele queria a música
e eu estava na fase de lançamento desse disco aqui e não
tinha tempo, velho. Aí chegou o último dia: “tenho
que entregar a música pro o cara, tenho que ir pro estúdio”.
Fiquei dentro do estúdio da Trama e ele estava na sala do
fundo gravando. Cheguei no estúdio sem a música, cara.
E parei, fiquei lá e escrevi a música. Quando fui
mostrar a música pra ele, ele falou: “sabe o que é,
meu, tem uma outra música ali que é a sua cara, mano.
Essa aí que você fez, grava no seu disco, mano. Não
precisa nem me mostrar”. No fim, ele não gravou a música,
mas foi legal. A música foi na íntegra pro meu cd,
igual à que eu escrevi, entendeu? Então, às
vezes, é legal escrever sob pressão, saem coisas boas,
como também às vezes sai coisa ruim, porque você
não tem muito tempo de revisar, né?
João de Barros - O rap é acusado de ser musicalmente
pobre. Você, como uma pessoa que conhece música, o
que acha da estrutura do rap? Acho que o rap não é pobre. Ele é
simplesmente uma música como toda e qualquer música
de preto. É repetitiva, tem aquele compasso marcado e transita
ali, tá ligado, mas não é pobre. Existem produções
pobres de rap, porque o rap brasileiro não tem condições,
não é todo mundo que tem a condição
que estou tendo de trabalhar com os músicos que trabalho
e de ter o respaldo da Trama. Muitos moleques fazem um disco no
fundo de quintal, usam um sampler, um aparelho que ele só
tem como samplear aquele tequinho pequeno. Então ele não
tem estrutura pra chamar vários músicos pra tocar
ali em cima daquela base que ele está tocando e aí
a produção acaba sendo pobre, porque é musica
de pobre feita pra pobre.
Thiago Domenici - Você já fez alguma coisa
de fundo de quintal? Fiz várias fitinhas demos. O produtor Carlos Miranda
aqui da Trama, quando trabalhava na Banguela, que era do Titãs,
entreguei fitinha demo minha. Foi o X, do Câmbio Negro
(banda de rap), que falou: “pô, os caras estão
pegando umas bandas lá, aí gravei a fitinha, e rimamos
em três com um microfone só”.
Thiago Domenici - E foram vocês três que fundaram a
banda Posse e Mente? Isso.
João de Barros - Por que o nome Posse e Mente? Quando fundamos a Posse e Mente Zulu, na verdade
queríamos o nome Cabeça de Negro, mas já existia
uma banda carioca com esse nome e mudamos pra Mente Zulu, pra dar
o mesmo sentido com outras palavras, entendeu? A gente leu livros
e descobriu que os zulus eram a única tribo negra que ainda
resistia e vivia como tribo. Aí a gente fez essa homenagem
e colocou Posse e Mente Zulu.
Natalia Viana - O que é uma posse? No hip hop, é um ajuntamento de grupos,
hoje em dia só sobrou eu e Johnny da Posse e Mente Zulu.
O Johnny tem o trabalho dele, que está pra lançar
o disco solo dele.. Tinha outros parceiros, outros grupos, mas um
casou, outro virou crente... Então só sobrou nós
dois e a posse é uma reunião de vários grupos
de rap de desenvolver um trabalho não só musical,
um trabalho social também, com palestras. Tem uma posse lá
na Cidade Tiradentes, a posse Aliança Negra, muito forte,
tem uma em São Bernardo, que é a Haussas, que também
faz um trabalho muito forte, eles trabalham com o pessoal da Zulunation,
pessoal da Casa do Hip Hop de Diadema.
Marília Melhado - Hoje não só a periferia consome
o hip-hop, a classe média também. Você se importa
com isso ou acha que é só pagação de
pau? Sou a favor. Tem os paga-pau e tem os que entendem, lógico
que tem os moleques “uhuuu, da hora, modinha e pá”,
mas tem os malucos conscientes também, tem professor, maluco
que estuda ciências sociais. Tem vários maluco
inteligente, maluco advogado, que escuta e entende o que
a gente está falando, se identifica. Sou a favor, veja bem,
se tiver 5 playboys, daqueles que pega ovo e sai com o
carro do pai pra atacar em pobre no ponto de ônibus. Desses
5 caras, um deles pode ser um racista a menos e pare pra pensar
e contestar o pai dele que é dono de uma empresa ali porque
o pai não contrata funcionários negros. Pra mim já
está valendo, mas se eu falar que faço música
pra eles, estou mentindo, tá ligado? Eu faço música
para o mundo, mas principalmente para negro que nem eu, para negro
de onde eu vim. Pros moleques que estão passando as mesmas
coisas e dificuldades que eu passei. Mas não penso que é
só para eles escutarem, acho que qualquer pessoa tem que
escutar pra entender a nossa realidade. Na verdade, acho importante
o moleque que é um playboy, que está andando
com aquele Nike da hora entender o porquê de repente ele está
andando aí em Moema ali e vem um moleque e “Tira, vagabundo,
tira esse tênis logo”. Ele tem que saber por que que
ele está sendo enquadrado. Que não é porque
aquele moleque é um vadio, ele tem que saber que existe uma
diferença social e racial no país que a gente vive.
Julia Contier - O que você quer despertar no outro
lado, porque no playboy é a consciência crítica... Quero que o moleque saiba que não tem que roubar,
ele tem de lutar pra conseguir, trabalhar, dar valor para o pai
dele que é assalariado, que é o herói da periferia.
O herói da periferia não é o bandido que está
pagando de gatão. O herói da periferia é o
tiozinho que trabalha 8, 9 horas dentro dum forno e chega na casa
dele e sustenta a família dele com dignidade, está
tentando educar os filhos dele e o moleque não pode ter vergonha
e achar que o pai é um fracassado, tem de ter respeito pelo
pai. Quero é que as pessoas entendam, é muito difícil,
não vou educar o mundo, mas a minha parte com Deus, tô
fazendo. Sei que não vou conseguir desarmar a periferia inteira.
Quem sou eu?
Cazú - Mas você sabe que o seu trabalho tem uma influência
poderosa... É o que a gente tenta fazer, mandar essa idéia
pros moleques. Saber que ele pode vencer não só com
o revólver na cinta e sendo traficante da quebrada, porque
o bagulho atrai, irmão. Eu mesmo já ouvi: “pô,
você está falando isso, mas está fodido aí,
andando a pé, cara”. Já ouvi isso.
Cazú
- Essa atração nunca te levou? Se falar que sou santo é mentira. Só que
Deus é mais e a educação que meus pais me deram
é mais. Mas se eu disser pra você que nunca fiz nada
de errado, é mentira, se falar pra você que nunca pus
arma na cinta, é mentira, velho.
Marília Melhado - Vários amigos seus já
caíram? Pôrra, o que mais tem é parceiro meu que tá
preso ou que morreu nessas fitinhas aí, tem parceiro que
foi roubar e morreu, parceiro meu que grafitava, trocou tiro com
polícia e morreu. Tenho vários parceiros que estão
presos, que me mandam cartas: “Pelos menos um, caralho, da
nossa safra, venceu!”. Isso aí é direto, então,
tento passar pros moleques que por aí eles não vão
conseguir nada. Já passei no buraco da agulha e poderia não
estar aqui hoje, mas Deus me escolheu, me livrou daquele bagulho.
Cazú - Você falou que o movimento hip hop é
muito abrangente e há diferenças entre o a, o b ou
c, você tem como fazer uma avaliação do hip
hop aqui em São Paulo? Tem diferenças, mas o hip hop está num momento
bom. Hoje em dia a nossa palavra chega, cara. Coisa que antes a
gente nem imaginava.
João de Barros - Mas no Rio de Janeiro ele sempre
esteve presente, embora aqui tenha grandes rappers... No Rio de Janeiro tem os maluco firmeza. MV Bill,
rapaziada da Cufa – Central Única das Favelas . Tem
uma rapaziada nervosa lá, fazendo hip hop. Para mim o funk
carioca é rap porque é a batida Miami bass, é
tipo Two Live Crew e o que os caras fazem é rap também.
Só que aqui no Brasil se fala que é o funk, então,
o funk é bem mais forte lá no Rio.
João de Barros - É esse tipo de sutileza que
acaba confundindo, como se divide o samba? É, e o funk lá fala mais da bundinha, mas
tem os malucos que é funk e que fala a mesma coisa que o
rap fala, tipo o Mr. Catra, lá do Borel. Gosto pra caramba
do trabalho dele, ele faz o funk proibidão. Acho
que tem hip hop no Brasil inteiro. Pô, a gente foi recebido
pelo presidente, malandro. A gente foi lá conversar com o
barbudo e apresentou as idéias, ouviu o que ele tinha pra
falar. Eu, o Gog, os Racionais, todo mundo.
João de Barros - Quais foram as reivindicações
que vocês apresentaram lá? Foi apresentada a Frente Brasileira do Hip Hop para ele,
é um negócio que ainda está sendo formatado,
ainda tem muitas divergências dentro do hip hop quanto a isso.
Foi chamada a responsabilidade dele: “a gente quer fazer algumas
reivindicações, ajudamos a te eleger.” Perguntamos
algumas coisas e ele respondeu, não fugiu da responsabilidade,
explicou certas coisas que a gente queria entender, coisas do governo
mesmo, escândalos que acontecem, a gente quer saber, estamos
colocando a mão no fogo pelo cara. O que nós pedimos
mesmo é que alguns dos tantos prédios em todos os
lugares do Brasil do governo federal que estejam parados virassem
espaços para que a gente possa desenvolver oficinas de hip
hop e está sendo providenciado, estamos tendo reuniões
com o Luiz Dulci pra coordenar isso e ele está fazendo o
levantamento dos prédios que tem pra gente fazer a escolha.
Foi pedido também que a gente quer uma concessão de
rádio, queremos fundar uma rádio brasileira de hip
hop.
Thiago Domenici - Você é radialista também,
né? Eu sou.
João de Barros – Uma rede nacional? É, uma rede nacional de hip hop. Mas ainda não
está nada formatado.
Thiago Domenici - Foram vocês que propuseram a visita? Foi a CUFA, a Central Única das Favelas, que pediu
a reunião.
Cazú - Você já cantou no exterior? Ainda não, quase, estava tudo certo pra ir, mas
preferi terminar meu disco e não viajar. Era pra eu ter ido
pra Londres e Paris. Agora que o disco tá pronto, talvez
role. A única coisa que tenho como certo é que a gente
vai fazer um show no Haiti, várias pessoas do hip
hop e música brasileira vão. O Brasil está
ajudando o Haiti e vai rolar esse show lá. Na verdade, não
andei nem conheço direito as capitais do Brasil. Tenho mais
vontade de conhecer aqui primeiro, mostrar o trabalho aqui para
depois ir, mas se tiver oportunidade, a gente vai.
Thiago Domenici - Você falou da França, tem história
de uma demo que sumiu e duas faixas apareceram num grupo de rap. Não. Foi assim: a gente estava gravando, em 1985,
o disco do Posse e Mente que está nas lojas e no final de
96, a gente abriu um selo independente pra lançar esse disco
em 97, aí, quando fomos lançar o disco as músicas
desapareceram, sumiu tudo no computador, só apareceram três
músicas.
Natalia Viana - Mas o estúdio foi arrombado? Mistério... Sei que as músicas sumiram e
depois de algum tempo a gente viu na revista francesa Groove,
o pessoal do Filosofia de Rua, outro grupo de rap, que mostrou a
revista pra gente, que tinha saído uma coletânea de
rap brasileiro lá na França: “pô, vocês
estão também?”. “Nós estamos? Como
estamos?”. Olhamos a revista, estava lá um amigo nosso
que tinha uns contatos pediu o cd e estavam lá, duas músicas
que tinham sumido apareceram nessa coletânea.
Sofia Amaral - E vocês fizeram o quê?
A gente não tinha condições de fazer nada,
né? A gente não tinha nem condições
de contratar um advogado e de correr atrás, as coisas eram
muito precárias, entendeu?
Thiago Domenici - A música estava lá mas não
falava que era de vocês?
A música tinha nosso nome e tudo. Na verdade, hoje, a gente
sabe o que aconteceu. Não gosto de dar ibope pra essa história,
não. Foi um pilantra que trabalhava dentro do estúdio
que sumiu com as músicas, a mando de não sei quem
e ainda pegou esse bolo e conseguiu vender lá pra Virgin
da França, entendeu?
Natalia Viana - É verdade que o Posse recebeu uma proposta
gorda de uma grande gravadora pra mudar o seu visual e atitude? Foi assim: mais ou menos em 94, um pessoal da gravadora
que nem existe mais, a RGE, fez uma proposta, falou pra gente não
se preocupar com dinheiro, que dinheiro não era problema.
Falaram que se a nossa namorada fosse feia eles arrumavam uma namorada
bonita, e que se mandar vestir de Chapolim, vai vestir de Chapolim,
se mandar cantar bolero com rap, vai cantar bolero com rap. Quem
manda aqui sou eu e vocês vão ficar ricos. Essa era
a proposta. Parada de muita grana mesmo, pô “cem mil
pra você é dinheiro? Cem mil não é dinheiro”.
A conversa era assim, eles queriam que a gente cantasse “batatinha
quando nasce, esparrama pelo chão”.
Sofia Amaral - Tipo rap americano. Eles queriam que a gente fosse tipo Claudinho e Buchecha
do rap.
Natalia Viana - Isso na época que eles eram famosos? Não, nessa época quem estava famoso mesmo
eram os Racionais, Gabriel Pensador.
Julia Contier - E o Gabriel Pensador? Não tenho nada contra ele não, é boa
gente, firmeza. Fizemos algum trampo junto já. A gente fez
um trabalho pra TV Bandeirantes nas Olimpíadas.
Conheço ele há algum tempo. É um cara inteligente,
escreve bem pra caramba.
Julia Contier - Mas ele é tipo um Marcelo D2... Não, creio que ele tenha mais direito de ser considerado
do hip hop do que o Marcelo, porque o som dele sempre foi
isso aí. Ele não veio de uma banda de rock
e virou rap. Ele sempre fez rap. A única coisa é que
ele sempre foi banido, desde o começo. É um playboy,
mas eu respeito ele pra caramba e, para falar a verdade, não
tenho nada contra ninguém, faço meu trampo e nem gosto
de comentar o trabalho dos outros. Acho que cada um faz o seu e
eu faço o meu.
Cazú - E para elogiar, quais são as bandas
brasileiras de hip hop que você gosta? Gosto de várias, gosto da Negra Li, gosto pra caramba
da Raiz, do Jogo, do Thaide, Potencial Três. Tem bastante
gente que eu gosto.
Thiago Domenici - Uma coisa que acho legal no seu trabalho
são as parcerias que você faz, Lecy Brandão.
São umas sacadas ótimas. Tia é gente boa, politizada pra caramba.
Thiago Domenici - Nesse teu novo CD tem participação
do Gil, Caetano. Como funciona? Não, as participações são bem
naturais, não planejo, até porque não teria
coragem de convidar o Caetano, o Gil, porque vejo esses caras como
“monstros”, tá ligado? Eles são o King
Kong e eu sou um ser humano.
Thiago Domenici - Você tocou com o Caetano naquele
show de aniversário de São Paulo, foi ali que você
o conheceu? Não, ele tinha ido no meu show no teatro Carlos
Gomes do Rio e depois veio conversar com a gente. Achei meio estranho
e ainda comentei “pô, Caetano Veloso, bagulho louco”.
A gente trocou idéia e depois ficou um bom tempo sem ter
contato, praticamente um ano e pouco. Aí, nesse show de São
Paulo, ele me ligou. Achei que era trote, aí o Celso Ataíde,
que é o empresário do MV Bill, me ligou logo em seguida
e falou: “meu, é o cara mesmo, fala com ele”,
e disse que ele queria convidar algum representante do hip hop,
que ele tinha me escolhido e se eu tinha data pra fazer o show e
eu disse que tinha.
Thiago
Domenici - Você não desligou na cara dele não,
né?
Ah, conta outra. Eu estava lá na estrada de São João
Clímaco, toca o telefone, é o Caetano Veloso? Não
dá pra acreditar, né? Achei que era alguém
imitando a voz dele e desliguei.
João de Barros - Tenho uma curiosidade que é a seguinte:
como está o hip hop na Bahia, que é permanentemente
negra? O hip hop lá não tem muita força porque
é cidade turística e o axé é muito forte,
mano. Você acha que eu não queria ver os moleques do
rap cantando em cima do trio elétrico? Até
eu queria fazer show em cima do trio elétrico, no
Pelô, de preferência, em Candeal, Liberdade, nos guetos,
mas ainda não rola. Mas o Racionais faz show lá direto.
Natalia Viana - A gente já sabe como você começou
a se arriscar no terreno da música, mas e no terreno da poesia?
Comecei a escrever por brincadeira, ia nas festas e naquele
tempo o rap estava começando e os DJs falavam: “quem
canta um rap, sobe aqui”, eu não subia a rampa, tinha
vergonha. Daí, ficava embaixo ali, fazendo um rapzinho: “você
não sei o que lá, seu nariz não sei o que lá
e pá” e comecei bem timidamente, um dia, numa festa
em que o próximo baile era de flash-back, que todo
mundo queria ir, o cara disse: “quem subir aqui e cantar um
rap, leva meia dúzia de convite”, não tive duvida,
é hoje, mano. Pra você ter idéia, na rua, os
caras: “pô, mano, da hora aquele rap que você
cantou, canta de novo”. “Não sei o que cantei,
não lembro”. “Como, mano, você tá
tirando?” e nesse mesmo lugar, o Edinhos Clube em São
Caetano, o cara divulgou que ia ter um concurso de rap e foi a primeira
vez que peguei o caderno e falei: vou escrever. Foi em 85, 86 e
dali pra frente passei a pegar o caderno e escrever direto, mas
naquele tempo via o Thaide, os Metralhas no baile do Palmeiras.
Caramba, achava um negócio do outro mundo. Por incrível
que pareça, meu sonho ainda nem realizei, quer dizer, realizei,
mas não de todo. O meu sonho mesmo era ver um vinil com as
minhas músicas. Esse é meu sonho. Falava muito isso
pra minha mãe e ela falava: “Você entrou, agora,
se quiser, tem que batalhar”. Na verdade, o meu sonho era
pegar a agulha, ligar e ouvir minhas músicas. Já vi
minha música em vinil. Na primeira vez que gravei, foi disco
do DJ. Depois, quando fiz o disco do Posse e Mente, fizemos em vinil,
mas disco do Rappin Hood mesmo, não fiz ainda, quem sabe
mais pra frente.
Natalia Viana - Dá pra fazer, não dá? Dá, mas só existe uma prensa hoje em dia
no Brasil, em Belford Roxo. Gosto de vinil pra caramba. Acho que
o vinil não pode morrer, até pelo saudosismo mesmo.
João de Barros - A imagem do vinil é bonita,
né? É bonita, mas hoje em dia os DJs usam CD que faz
scratch, igualzinho a toca-disco, é perfeito, os caras conseguiram
faz um ano e meio, dois anos que a teoria já era: “Pô,
CD não faz scratch, DJ de CD não existe, mano”
e está aí, CD faz scratch e DJ de Cd existe.
Marília Melhado – O que você acha do
MP3 na Internet. Você se importa de as pessoas pegarem as
músicas de graça na internet? Não importo de ver um moleque pedir um autógrafo
num CD pirata. Não me importo das pessoas que baixam a música,
mas me importo com os coreanos e chineses que ganham dinheiro com
a minha obra e não pagam impostos e os meus direitos autorais.
Me importo com isso e acho que deveria haver uma forma de o cara
baixar, mas pagar nosso direito autoral. Fiz um disco independente,
tive maior trabalho, mas fiz com o mesmo zelo que a Trama faria,
quer dizer, a gente gasta, tive que pagar imposto e um monte de
coisa, a fotógrafa para a capa, o design gráfico,
entendeu. Tenho prejuízo com um pirata, mas sou contra quem
está fabricando, esse cara considero um criminoso.
Thiago Domenici - Para você que está no meio,
o preço de um CD é um preço real? Um preço
acessível? Não é um preço real, o preço
que chega ao consumidor não é real. Só que
a situação no nosso país faz com que os preços
fiquem assim porque você vende pro atacadista e ele,
pra ganhar em cima, vende pro lojista mais caro e o lojista também
vai pôr o preço do aluguel e das coisas dele em cima.
Então, o CD que saiu da fábrica vai encarecendo. A
prensa solta a R$ 4, eu soltei a R$ 7 e o atacadista já está
soltando a R$ 12. O problema é o caminho que percorre.
Natalia Viana - Quanto você ganha por CD? Sempre a mesma coisa, Não tenho nada a ver com o
que o lojista ganha. O que vale pra mim é o preço
que sai daqui, o preço que a Trama vende é de seis
ou sete reais para o atacadista.
Natalia Viana- Desses 6 ou 7 reais, quanto você ganha? Ganho 8%.
Natalia Viana - E nesse CD independente? No independente só tenho de pagar a prensa e outras
coisas.
Thiago Domenici - O Lobão tem um esquema de colocar
CD nas bancas. Cheguei a conversar com ele. Acho legal a idéia,
fica acessível. Gostaria de ter esse esquema de pôr
o CD lá, não ter intermediário pra pôr
nas bancas, porque senão é a mesma coisa que a gravadora.
Thiago Domenici - Mas o preço é mais barato? Não, o preço que chega pro consumidor é
mais barato, mas o que ganho é a mesma coisa. Já troquei
idéia com o Lobão pra pôr o Posse Mente nas
bancas, só que não ia ganhar nada, só 80 centavos
por CD depois de ter gasto mais de 30 mil reais pra fazê-lo.
Thiago Domenici - E não existe essa possibilidade? Talvez exista, mas não conheço, não
me deram essa boiada.
Natalia Viana - E os planos pra esse ano? Alguma novidade? Sujeito homem 2 vem chegando aí, já
está pronto.
João de Barros- E o clipe? Tem a produção
de algum clipe? A gente está decidindo ainda. Acabei de fazer o
disco.
João de Barros- A idéia é ter um clipe
pra distribuir pras estações de televisão? Vamos fazer o clipe, sim, acho que é um meio legal
de divulgação, não só pela MTV, mas
pra qualquer canal.
João de Barros - Você usa as mídias
comunitárias?
É a minha especialidade, é o que a gente gosta, ir
nas rádios comunitárias, na TV comunitária,
é o que a gente mais faz. Esse disco mesmo que lançamos
em dezembro, o Posse Mente, fomos visitar todas as rádios
comunitárias que você possa imaginar, em São
Paulo inteira, de Pirituba a Itaquera, do Tucuruvi ao Capão
Redondo, velho. Nós estamos em todo lado.
Thiago Domeninci - Você tem um programa na rádio,
né? Tenho sim, há quatro anos já, o Rap do Bom,
na 105 FM. Antes disso, fiz rádio comunitária, sou
um dos fundadores da rádio Heliópolis, fiquei
lá 7 anos, de segunda a sábado.
João de Barros - Tem uma estruturinha até
legal, né? É precário pra caralho.
João
de Barros - Diante das outras rádios comunitárias
que existem na cidade... funciona em um sobradinho. É lá mesmo, já quase tomei choque
ali muitas vezes, conheço muito bem a rua da Mina, número
38, é minha quebrada, minha comunidade. Por causa daquela
rádio quase fui preso. Rádio comunitária é
um barato difícil, é idealismo mesmo, porque dinheiro
não se ganha. Não existe rádio comunitária
que dê lucro, é difícil. Por causa de ideal
eu já quase fui preso. Teve um debate sobre rádio
comunitária no programa Barraco MTV, que não
existe mais em que cheguei defendendo as rádios comunitárias,
estavam eu, o Lobão e mais um ou dois e o resto era representante
de rádio grande, estavam Radio Bandeirantes, Jovem Pan...
o bicho pegou e vagabundo ouviu o que não queria. Se passaram
dois dias e a policia baixou lá e tive de deixar a rádio
na moral. Há um tempo, saiu no “Noticias Populares”,
uma matéria de lá.
Thiago Domenici - Manchete escandalosa, né?
Pô, os caras queiram me ver preso, rapaz, tive que tirar todos
os equipamentos da rádio, deixar fora do ar e sumir por uns
dias. Os caras queriam me levar, mas é um aprendizado de
vida. Hoje em dia eu tô numa rádio comercial, tenho
um programa semanal. Ás vezes vou em Heliopolis, que é
a minha escola e entro no ar pra falar com a comunidade. É
importante para os moleques que estão lá e fazem programa
de rap, gosto de aparecer para eles verem que é possível.
A gente faz a nossa parte, tenta ser ‘espelho’ pra eles,
um dia me espelhei nos caras mais antigos, no Thaíde e outras
pessoas, eu também fui moleque e quis ter aquilo que o outro
que estava traficando tinha. Também queira sair com a menina
mais bonita da quebrada, mas ela saia com o cara que tinha mais
condição, que tinha uma motinho, independente de ele
ser mané, traficante ou não e eu sabia que não
era menos que o cara.
João de Barros - Essa coisa de ser mané é
muito presente, né quando você é qualificado
de mané, você está fodido na comunidade.
Ninguém quer ser um mané, aquele moleque que os caras
tiram um barato, dão um tapa na cabeça. Todo mundo
quer ser o valente e ter alguma coisa pra falar. “Eu jogo
bola bem”, “estou trabalhando em tal lugar ganhando
bem” ninguém quer estar por baixo. Aquele moleque que
é um otário ninguém respeita, os outros tiram
ele, a menina que ele gosta nem olha na cara dele. Um dia o cara
chega pra ele e fala: “chega aí, moleque, vem cá.
Vai ali e entrega isso pra mim”, “não, não
posso, tenho que fazer um negócio ali pra minha mãe”.
“Ah, moleque, tá bom, tá bom”. Ele vai
e quando volta, o cara saca cinquentão. “Aí,
valeu”. Um dia, dois dias, três dias, no quarto dia
o cara fala pra ele assim: “Fica aqui pra mim, você
só precisa olhar e se acontecer alguma coisa você aperta
essa campainha aí”. Ai, ele fica. E quando acaba o
dia, o cara dá cem pra ele. Depois de três meses, o
cara fala assim: “Isso mesmo, agora você vai ficar aqui,
mas vai ficar armado, falou? Aqui, ó, pra você essa
arma aqui, estou te dando. A partir de agora é 150 por dia,
valeu: Se vender bem, é duzentão”. O que você
acha que vai acontecer com o cara? Os caras que tiravam ele, já
não tiram mais, estão respeitando. A mina que não
olhava pra cara dele, já está sorrindo pra ele e rápido
ele já está comprando uma motinho e pensa: “eu
era um puta otário, estou me dando bem” e vai até
falar pros outros. “você é bobo, tem que vir
comigo. Vamos comigo que é o bicho. Vende uns baratinhos
ali pra mim que até te dou uma comissão”. É
assim, mano, que o barato prossegue. Então, você tem
de mostrar pra esses moleques que esse caminho é curto, velho,
e que eles podem vencer fazendo outras coisas. Mas é difícil,
porque resultado imediato não existe, demora anos pra conseguir.
Natalia
Viana - Você nunca chegou a ser atuante no crime, você
disse que era trabalhador. Já andei no inferno. Saída de baile: “olha
aquele moleque saindo, olha o tênis que ele tá, olha
a jaqueta que ele usa”. “É, pode crer”
e via o carrão, fazia de conta que estava armado. “A
jaqueta é minha, o tênis é meu”. Se falar
que nunca fiz, tô mentindo. No tempo que era molecão,
foi quando surgiu caixa eletrônico, como hoje em dia tem essa
onda de seqüestro-relâmpago, no meu tempo, era saída
do banco eletrônico, ficava ali e quando a pessoa saía...
Natalia Viana - Mas você resolveu parar por quê? Porque eu era medroso e não servia para aquilo.
Marília Melhado - A saída é fácil? Se quiser, sai. Na periferia, ninguém é obrigado
a nada. É como usar droga, ninguém usa droga porque
foi obrigado, usa porque quer. É lógico que se o cara
já traficou, roubou, matou, aí é foda, mais
difícil pra sair. É que quando o cara vê, já
está envolvido. Só vai pensar em sair quando já
está na delegacia ou na Febem. Daí ele vai pensar.
João de Barros - Você chegou a tomar umas bordoadas
na delegacia: chegou a ser preso, levou umas pancadas? Só parei por causa disso e não tenho meu
nome fichado. Só parei no dia que sujou e só aí
fui pensar, “nossa, minha mãe vai saber”. Foi
assim: fomos pegos e não tínhamos nada e tivemos que
correr que nem louco. Nós fomos fazer uma saidinha de banco
e graças a Deus não deu certo. No fim, nós
éramos tão medrosos que o cara enrolou e só
deu uma cara do dinheiro. O cara negociou! Que ladrão bom
que negocia com o cara? “Pô, mano, não leva tudo,
leva só um pouco”. “Tá bom, dá
aí”. Aí, nessas, vinha vindo a polícia
e corremos e o cara que estava armado jogou a arma. O cara que a
gente enquadrou não deu queixa, então, na delegacia
não deu nada e tomamos uns ‘cola’ só porque
a gente correu e ameaçaram de chamar a família. Depois
desse dia, falei: “isso não é pra mim, não”.
Sofia Amaral- Você tinha que idade? Tinha uns 17.
Natalia Viana - O que é uns cola exatamente? Ah, tapão na orelha, umas ‘muqueta’
boa, uns ‘safanão’, umas botinadas pra ficar
ligeiro. A gente era moleque e tinha mania de roubar placa de trânsito,
bagulho de farol pra colocar em baile de garagem. Os moleques só
aprendem quando tomam um susto. Quando o pai e mãe falam,
não escutam, mas se eu ou o Mano Brown ou o Thaíde
aparecer e falar pra ele, ele vai escutar, é assim. Então,
só fui aprender porque fui e deu errado. Cheguei em casa
e minha mãe: “demorou, onde você estava:”,
“estava ali na casa do fulano”. Mentira, tinha tomado
uns ‘tapão de orelha’ bom. Espero que nem meu
moleque nem nenhum moleque das periferias tenham de passar pelo
que passei pra entender. Ou não tenha que encontrar a morte.
Ou a prisão pra entender que esse bagulho não leva
a gente a nada, velho. A gente fala, fala e não adianta,
como nesse caso dos moleques se matando no show dos Racionais. Que
culpa tem o grupo? Todo mundo conhece a música deles: “O
Homem na estrada”, em que ele morre no final da história.
Mas os moleques não aprendem. O que a gente vai fazer? Tem
de continuar a lutar, continuar falando, continuar mandando a idéia
pros moleques. Cheguei a ser presidente do Centro de Defesa dos
Direitos da Criança e do Adolescente do Ipiranga, que é
uma casa 10. Fui vice e depois presidente. Primeiro fui oficineiro,
depois, mais pra frente, vice e depois presidente E tive oportunidade
de conhecer muitos moleques com passagem pela Febem, molecada que
estava em liberdade assistida, era cada casa louco, eu via aqueles
moleques bons e inteligentes que poderiam ser tantas outras coisas.
Chegou um moleque com 17 anos e mais de 10 homicídios. Hoje
em dia, fico feliz da gente mostrar essa realidade, mas ainda é
muito pouco.
João de Barros - Os bandidos mais célebres
ali do pedaço eram os irmãos Galiléia. Esses são, os caras pintaram e bordaram. O pessoal
conta umas histórias cabeludas deles. Os caras demonizaram
em São Paulo, ainda tem uns malucos da antiga que falam que
eram parceiros deles. Renunciei à presidência no Centro
de Defesa porque tinha falcatrua no bagulho. A grana vinha de uma
entidade da Itália, até que chegou uma hora que falei:
“não vou assinar cheque nenhum enquanto a auditoria
não for feita”.
Meu nome é a única coisa que tenho e não vai
estar envolvido com sujeira, velho. Me chamaram pra um acordo e
não aceitei. Por exemplo, se eu fosse presidente do Corinthians
não assinaria embaixo.
Natalia Viana - Gostou do jogo ontem? Adorei, gostei de ver o Tevez dançando aquele samba
enroscado. Penso que dentro do futebol, “certo” é
difícil. Aliás, no Brasil onde é que não
tem corrupção? Todo lugar que você vai, tem
uma “bola” ali pra fazer tal coisa, outro pagou uma
bola pra tocar na rádio.
João de Barros – Você já pagou
uma “bola” para alguém? Nunca paguei, mas sabe como é, jeitinho brasileiro...
a gente sempre sabe de alguém que pagou.
João de Barros - Se você fosse o presidente
do Corinthians, você não faria a parceria, é
isso? Não sei, falam um monte de coisas do Kia, eu não
vi. Porque é o seguinte: quem tem de apurar o bagulho é
o governo brasileiro. Se o governo deixou o bagulho entrar, é
porque o cara está certo, velho. Sou o presidente do bagulho
e chegou o cara: “oh, quero ser seu parceiro, tenho tantos
milhões pra investir aqui”. Legal. De onde vem esse
dinheiro? Esse dinheiro é limpo? Se esse dinheiro é
sujo e sou o presidente do Corinthians, não quero. Mas eu
não tive acesso ao bagulho, não sei nem o que está
acontecendo. Sou torcedor.
Natalia Viana - Se você fizesse umas auditoria e descobrisse
que era sujo, não entrava? Não entrava. Nem Kia, nem Tevez, nem ninguém.
Eu ia pra segunda divisão, mas ia como homem, não
como pilantra, porque assim não vale. E no Centro de Defesa
foi assim: assinei minha renúncia e expliquei ponto por ponto.
Tinha uns doze pontos de lá por que estava renunciando. Fui
no cartório, reconheci firma e afixei lá minha renúncia.
Por que o que adianta eu ser um cara que fala tudo isso daí
e fazer a mesma coisa que os outros fazem?. Como torcedor do Corinthians,
quero ser campeão, quero ver meu time ganhar. Agora, se estivesse
ali, envolvidão, fosse um conselheiro ou um diretor, ia embaçar.
Ia querer saber por que meu nome está ali. Na periferia,
a única coisa que nós temos é a palavra. Dinheiro
pra ter crédito, não temos e a palavra tem que valer
ouro. Se a palavra não vale, se você não é
digno, você não tem crédito na periferia pra
nada.