do Site
Correio
SEno Site
Palanque
Coluna do Leitor
Agenda
Novas
Links Amigos
Quem Somos
Fale Conosco
Loja Virtual

 

CUBA HOJE: NOTÍCIAS DA ILHA SOCIALISTA*
por Marcelo Terence
A charge em um out-door à beira-mar dá o tom da campanha do governo contra aquele que é seu maior inimigo: em uma costa o Tio Sam grunhindo, com os punhos cerrados, gemendo de raiva e, na outra costa, um negro risonho, gozador, soltando a seguinte frase: “Senhores imperialistas, nós não temos nenhum medo”. Estamos em Cuba.

Escrever sobre a “ilha rebelde” após uma visita de 15 dias não é tarefa das mais simples, se não se quer apenas falar da beleza da sua arquitetura colonial ou republicana, dos bons ventos no Malecón, ou ainda da alegria e sensualidade espontânea de suas músicas e festas.

Descrever as condições de vida de seus habitantes, seu apoio ou recusa ao regime socialista, os problemas enfrentados atualmente e as conquistas que não se perderam requer cuidado e algum distanciamento tanto da propaganda anti-regime que nos é empurrada a cada dia nos noticiários quanto do oficialismo que enaltece sem críticas todos os feitos da revolução. O que segue, então, são meras impressões de um socialista que visitou a ilha por apenas alguns dias, insuficientes para analisar a fundo o processo atual do socialismo em Cuba, mas, de qualquer forma, capazes de estabelecer um contraponto à manipulação grosseira operada pela grande imprensa capitalista.


“Habana Vieja”

Nessa parte de Havana, onde se concentram as grandes construções coloniais e também muitas da república até 1959, misturam-se uma verdadeira avalanche de turistas e hotéis luxuosos – a pequena ilha recebeu no ano de 2004 por volta de 2 milhões de turistas, a maioria concentrada em Havana – com dezenas de ruas estreitas e seus casarios que datam da primeira metade do século passado e hoje servem de moradia aos cubanos. Esses casarios foram transformados em verdadeiros cortiços e são extremamente mal-conservados, úmidos, com gambiarras elétricas e em nada diferem dos cortiços do Bom Retiro, para quem conhece São Paulo.

A aparência de insalubridade das casas em alguns dos guetos de Havana contrasta com a limpeza das ruas. E isso não é só na capital. Você pode andar pelas ruas de Cuba por horas e não ver um papel no chão e muito menos varredores, assim como não vi uma única pichação nas centenas de monumentos e out-doors e cartazes de propaganda do regime espalhados por Havana e pelo país de maneira geral.

Eficiência do serviço de limpeza pública não é. Vigilância e punições severas devem ajudar, mas em uma cidade tão grande e em lugares ermos do país não seria tarefa difícil pichar ou vandalizar um monumento. O respeito àquilo que é público parece prevalecer nesse caso. Pode-se pensar até que o grau de adesão ao regime, assunto que tratarei a depois, é mais elevado do que o nosso pensar costumeiro.

Cidade histórica, habitat de trabalhadores cubanos e muito turismo e comércio, em uma frase aí está a efervescente “Habana Vieja”.


Turismo em Havana: Malandros e “Convertibles” por todos os lados

Mas no que pode resultar a convivência da riqueza do turismo com a simplicidade e o racionamento de produtos com os quais os cubanos são obrigados a conviver?

Em um país como o Brasil seria muito fácil, como é em muitas de nossas cidades turísticas, essa mistura descambar em furtos, roubos e violência. Em Cuba e mesmo em Havana é unanimidade a afirmação de que se pode andar à vontade pela cidade em qualquer hora do dia, pois não existe violência. Se isso é devido à educação e cultura do povo ou à repressão policial não me cabe julgar, mas de qualquer forma repressão não falta nas nossas grandes cidades e no entanto...O único aviso que me deram foi pra tomar cuidado com um mão-leve ou outro que poderia levar a carteira nos ônibus superlotados.

No entanto, os problemas trazidos pelo turismo são visíveis e - na minha opinião, diga-se de passagem, isto pode se transformar no calcanhar de Aquiles do regime. O mais latente é o maravilhoso mundo do comércio e das mercadorias introduzido pelo turismo em um meio tão pobre.

A figura símbolo dessa situação é o malandro cubano que anda pelas ruas abordando todos que passam – os com cara de turista, claro - oferecendo-se como guia, vendendo charutos, rum, querendo mostrar as belezas da cidade em troca de uma pequena “propina”, em “pesos convertibles”. É claro que essa situação não é peculiar à Cuba e em muitas das nossas cidades turísticas essa cena é facilmente observável, talvez não com a mesma insistência e lábia dos cubanos, mas o fenômeno é o mesmo. Por ser na Cuba socialista acho que assusta e entristece um pouco mais.

Já as tão faladas e famosas prostitutas do Malecón, ao que pude observar, existem em número reduzido, nos dias em que andei por Havana não cheguei a reconhecer meia dúzia delas.

Antes de continuar descrevendo as transformações que o turismo introduz na ilha socialista vale a pena rememorar resumidamente alguns fatos.

A partir do início dos anos 1990, com a derrocada do bloco socialista e em particular da União Soviética, Cuba perdeu seu principal apoio externo e os inúmeros tratados e convênios que mantinha com a potência comunista. Soma-se a tudo isso o aperto do bloqueio norte-americano e o país teve que entrar no chamado período especial, na verdade um período de extremas dificuldades, com falta de energia elétrica – toda a energia da ilha é obtidas de termoelétricas abastecidas com petróleo –, queda da quantidade de alimento das “libretas”, perda do seu principal comprador de açúcar e consequente ausência quase que completa de moeda internacional para o comércio estrangeiro.

É nesse contexto específico que são abertas as portas ao turismo, com muita consciência por parte do governo dos problemas que essa atividade traz. É um dilema sério que os cubanos vão ter que enfrentar.

Mas voltemos à descrição de como o turismo opera na ilha, sobretudo em Havana e em alguns pontos específicos, como Varadero.

A moeda corrente no setor do turismo é o peso “convertible”.** Apenas um ou outro comércio aceita o peso cubano. Entre os ambulantes e pequenos vendedores só se fala em “convertible” e não é difícil entender o motivo. Um “convertible” equivale a 25 pesos cubanos. O trabalhador cubano recebe entre 120 e 700 pesos cubanos, ou seja, se transformados em convertibles, o trabalhador cubano recebe entre 5 e 30 convertibles por mês. Isso pode ser ganho facilmente em um dia ou em algumas horas por um carregador de malas de um grande hotel*** ou um vendedor de souvenirs ou livros no centro de Havana, que só não são em número maior devido à necessidade de autorização do governo para trabalhar nessa região.

Um professor, um médico, um motorista de ônibus, um operário, um lavrador, ou qualquer outro trabalhador cubano que não tenha acesso aos turistas fica obviamente em desvantagem em relação a qualquer trabalhador do turismo e muitos tentam migrar para esses serviços. O governo cubano reconhece essa dificuldade e chegou a aumentar os salários dos trabalhadores que recebem em peso cubano, mas a desproporção é enorme, não só na quantidade de dinheiro mas também no acesso a algumas lojas que vendem também importados e que só aceitam o peso convertible, pois é a garantia para o governo que aquele produto importado foi comprado com a entrada de divisas estrangeiras no país.

Com tamanha discrepância de poder aquisitivo das duas moedas fica fácil entender o surgimento da figura do “malandro” referida acima.

A semente da desigualdade econômica está lançada.


A educação em Cuba: ai de nós

Muito se fala da educação em Cuba: da impressionante quantidade de escolas e professores, do número reduzido de alunos por sala de aula, do investimento em equipamentos, da integração entre educação e trabalho, da generosidade internacionalista das universidades cubanas: muito se diz de tudo isso e é tudo verdade. Vamos a alguns exemplos de fazer corar os responsáveis por nossas políticas educacionais.

Ao andar por uma plantação de laranjas puxei conversa com um senhor responsável por cuidar de umas vaquinhas que estavam pastando. Logo me convidou para conhecer sua casa e família. O lavrador contou-me ter treze anos de estudo e um curso técnico de agronomia. Sua filha de 18 anos já estava cursando enfermagem e ajudava em partos na região. Depois levou-me para conhecer uma escola vizinha. As salas de aula nunca têm mais que vinte alunos, com um número menor nos anos superiores. Os alunos passam o dia na escola, e os maiores de 12 anos têm duas horas de trabalho agrícola, no caso, por tratar-se de área rural. O “capiauzinho” discutia sobre qualquer assunto de política internacional que você quisesse e com bastante propriedade, inclusive sobre a situação do Brasil e seu presidente “da Silva”, passando pela guerra do Iraque e os conflitos árabe-israelense. Nada mal para quem olha vacas. Mas isso é só um exemplo. De maneira geral a população é muito culta, leitora de livros e consciente dos fatos que acontecem no seu país e no mundo.

Todas as crianças estão na escola e o controle aí é muito rígido. O resultado é óbvio: não há crianças pedintes pelas ruas e faróis. Uma única criança me abordou para pedir um “helado” e mesmo assim ela estava com o uniforme escolar.

Como se não bastasse atender à população cubana, o sistema de ensino universitário cubano abriu suas portas para as nações pobres do mundo. Visitei a Escola Internacional de Educação Física. Ocupando um espaço de uma antiga escola militar, foi criada uma universidade para 500 alunos internos dos mais variados países pobres do mundo. Lá estudam brasileiros, venezuelanos, colombianos, haitianos, africanos, asiáticos, enfim, pessoas de países pobres. Os alunos não pagam absolutamente nada e ainda recebem uma bolsa de 100 pesos cubanos. O único custo para o aluno é o preço da passagem e a ousadia para passar 5 ou 6 anos fora de casa em regime de internato em Cuba, sofrendo as mesmas restrições materiais que o povo cubano. A exigência para concorrer a uma vaga é ser um jovem carente, ter dedicação completa aos estudos e voltar ao seu país de origem no término do curso para colocar em prática o que foi aprendido. Chega a ser emocionante você conhecer algumas das histórias dessas pessoas. Um rapaz do Rio Grande do Sul, por exemplo, largou a família que ele sustentava aqui no Brasil para poder abrir uma perspectiva melhor em sua vida. Hoje, após cinco anos, ele está de malas prontas para voltar e traz na bagagem várias habilitações: professor de educação física, fisioterapia esportiva, recreação em turismo. Ele diz terem sido anos duríssimos, de muita saudade, já que não tinha dinheiro para vir para o Brasil durante as férias, muito trabalho, sem dinheiro – pois cem pesos cubanos para quem não tem libreta não dão para quase nada – mas tem certeza de que sua vida agora será diferente.

A mesma história se repete na Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM): jovens carentes de toda a América Latina – os venezuelanos são maioria devido aos convênios que Hugo Chávez tem feito com Cuba – têm a oportunidade de se formar nessa que, no Brasil, é uma carreira das mais elitistas. Do Brasil existem muitos jovens do MST e eu conheci um rapaz da zona sul de São Paulo que era estudante de um cursinho pré universitário comunitário que busca aumentar o acesso dos negros aos centros universitários, o Educafro, quando surgiu a chance de formar-se médico em Cuba. É um rapaz como qualquer outro das nossas periferias, praticamente sem nenhuma chance de entrar em uma universidade pública brasileira, muito menos em medicina. Em dois ou três anos ele estará de volta ao Brasil, formado nos níveis de excelência das escolas médicas cubanas.

E quanto os governos dos países pagam por isso? Nada. As pessoas podem dizer que isso é média do regime para obter apoio internacional. Talvez seja, mas, entre nós, é um belo e solidário método de se fazer média. Outros preferem tanques e sanções econômicas para conquistarem aliados.


Out-doors: a propaganda do regime nas ruas

Nas “carreteras”, nos muros das cidades, nas grandes avenidas, por todos os lados é ostensiva a propagação de frases de José Martí, Fidel Castro, Che Guevara ou simplesmente frases de motivação e união expressas em out-doors, cartazes ou grafites nos muros. Falam da continuidade do processo revolucionário, acusam e explicam para a população o bloqueio norte-americano e, em menor número, exaltam os heróis da história cubana. Nunca foi do meu agrado ouvir falar desse tipo de propaganda: sempre me cheirou a doutrinação e culto à personalidade. Mas se tem que fazer duas concessões e uma comparação. Primeira concessão: as linguagens verbal e visual dos cartazes, e digo isso do alto da minha ignorância em artes plásticas, são de primeiríssima qualidade, são verdadeiros poemas e obras de arte expostos ao ar livre, a despeito do príncipio de enculcamento que obviamente elas possuem. Segunda concessão: querendo ou não, o regime aproveitando-se disso ou não para manter-se fechado, o fato é que Cuba é um país oprimido e ameaçado pelo bloqueio norte-americano, fato que traz sim restrições ao povo cubano. Então o regime usa isso para unificar o povo e mostrar quem é o inimigo. Agora a comparação, bem sucinta: tudo bem, todas aquelas frases colocadas pelo governo ou pelos Centros de Defesa da Revolução – que explicaremos o que são a seguir – são ostensivas e só mostram um lado da moeda – mas e a nossa publicidade comercial que, em uma cidade de São Paulo, não permite um segundo de descanso para os olhos com seu bombardeio luminoso incitando nossas mentes a estarem despertas 24 horas para o consumo? E o apelo erotizado das mensagens publicitárias que cada vez mais nas novas gerações desfigura a sexualidade ao invés de libertá-la? Desses “desvios”, que na verdade são o curso natural do capitalismo, não há notícias em Cuba. Fica a sugestão para os “experts” em artes plásticas, literatura ou semiótica fazerem um estudo mais apurado da propaganda oficial em Cuba, da qual pode ser dito muito, menos que ela é simplista em suas formas e conteúdos.


Um ônibus para Havana: Deus nos acuda

Fiquei uma semana alojado no “Campamento Internacional Julio Antonio Mella”, a 35 quilômetros de Havana e o meu deslocamento era normalmente feito nos ônibus do acampamento para seguir uma programação estabelecida. Mas tínhamos alguns dias livres, sem programação e aí o jeito era se virar. Algumas pessoas do acampamento cotizavam em quatro ou cinco um táxi por 15 ou 20 dólares até Havana. Em um desses dias resolvi encarar o transporte públito de Caimito, povoado vizinho ao acampamento, até a capital. Os 35 quilômetros, pensava eu, deveriam ser percorridos em uma hora e meia ou uma hora se tivesse sorte. Levei três horas para chegar ao centro de Havana. Uma epopéia de três conduções, difícil saber qual em piores condições. Primeiro peguei uma carona em um micro-ônibus caindo aos pedaços, que servia de transporte para lavradores da região. O chão do ônibus tinha um buraco e o escapamento idem. Resultado: fumaça bem para dentro do ônibus. Por sorte esse ônibus estava vazio e o trajeto foi bem curto. Cheguei ao centro de Caimito, me informei e fui para o ponto esperar a outra condução até Havana. Demorou um pouco, o ponto de ônibus já estava lotado e estacionou um caminhão. A multidão ficou imóvel. O caminhão manobrou, encostou melhor e alguém deu o sinal: “Para Havana”. Foi um Deus nos acuda. Só pode me entender quem está acostumado a pegar o metrô ou trem para a zona leste de São Paulo em horário de pico. A diferença é que estávamos subindo em um caminhão, disputando lugares com velhinhas e crianças. Se parasse para ajudar alguém a subir, com certeza teria que esperar o próximo. Era um caminhão com uma lona cobrindo uma estrutura metálica e bancos apenas nas laterais, com pouquíssimos lugares. Fiquei de pé e uma hora depois, devagar, quase parando, chegamos, mas ainda não estávamos dentro de Havana. Era hora de enfrentar o “camelo”. É um ônibus que tem esse nome devido a aparência de duas corcóvas em sua lataria. Deve ter no mínimo o dobro da extensão dos nossos ônibus urbanos e uma capacidade...bom, aqui é folclórico....cabem quantos chegarem. As pessoas se amontoam para entrar e o cobrador repete à exaustão a provavelmente universal frase “hay espacio em un pasito”. Foram quase duas horas de “camelo”! E é notável a tranqüilidade das pessoas. Tem-se a impressão que existe até uma certa despreocupação com o cumprimento dos horários devido à total precariedade dos transportes públicos.

Para tentar minorar esse problema o governo criou um programa de caronas. As pessoas que circulam sozinhas por Havana são obrigadas, sob risco de serem multadas, a dar carona. E é comum as pessoas pedirem e pegarem caronas com estranhos pelas ruas da cidade. Como a violência é quase inexistente e até a televisão fica passando no noticiário aquelas pessoas flagradas recusando o pedido de carona, a tendência é o programa surtir algum efeito. De qualquer forma as próprias autoridades reconhecem que o transporte público e também o de cargas é um dos problemas mais sérios do país e essa obviamente é uma medida paliativa.


A “Libreta”

A caderneta de alimentos é um dos instrumentos usados para gerar igualdade na distribuição de alimentos. Havia a perspectiva de abolir a “libreta” com o aumento da produção de alimentos e a geração de abundância para todos. Lógico que esse sonho foi postergado depois da crise dos anos 1990. A “libreta” funciona da seguinte forma: todo cidadão cubano, ao nascer, recebe uma “libreta” que vai acompanhá-lo por toda a sua vida. Esteja ele empregado ou não, seja um bom trabalhador ou não. Só quem está internado ou fora do país deixa de poder comprar alimentos com esse instrumento. De acordo com a idade, as pessoas podem comprar um tipo e uma quantidade de alimentos nos armazéns específicos para isso. Não há muitas filas, ao contrário do que dizem. Com a “libreta” os alimentos são subsidiados, saem quase de graça, centavos ou poucos pesos cubanos são capazes de comprar os alimentos, o problema é que a quantidade estipulada para cada pessoa é insuficiente para todo o mês. As crianças comem na escola, sendo só as menores de 7 anos que têm direito à leite. As de 7 a 14 tomam um iogurte à base de soja. Os trabalhadores tem direito de se alimentar nos centros de trabalho. E os alimentos que faltam para fechar o mês, ou principalmente para os idosos ou pessoas que não trabalham fora, donas-de-casa, por exemplo? Quando faltam alimentos para todo o mês – e sempre falta, segundo me relataram – os cubanos têm que comprar no chamado mercado livre, que não deve ser confundido com o mercado negro. O mercado livre é formado por agricultores, cooperativas, padeiros, autônomos em geral que têm permissão do governo para comerciar seus produtos a um preço bastante alto para a média dos trabalhadores. Sim, a comida também é um problema em Cuba. As pessoas não passam fome. Mas quase todos passam com muito pouco, sem fartura. A carne de frango, a mais popular no país, “o pollo” como dizem, está longe de ser diária, apesar de ser a melhor e mais encontrada opção para o turista. Ovos e derivados de soja e de carne de porco ajudam a completar a dieta protéica da população cubana.


Liberdade Religiosa: “algumas pessoas precisam de consolo”

A frase entre aspas foi dita por um deputado da Assembléia Nacional de Cuba a respeito da relação que o regime socialista mantém com a religião. Incentivo não há mas as igrejas estão abertas e as pessoas as freqüentam livremente. Sinceramente não sei se o clima de liberdade nesse aspecto tem alguma relação com a visita do papa João Paulo II alguns anos atrás. Creio que não, pois também as religiões de origem africana são respeitadas e assisti a inúmeras apresentações culturais que se utilizavam de elementos dessas religiões. É óbvio que a maioria da população não é praticante e facilmente você conversa com cubanos que se declaram ateus. Mas isso deve ser mais fruto da educação que recebem do que devido a alguma suposta repressão à liberdade religiosa.


Os Centros de Defesa da Revolução (CDR)

Cada bairro da ilha possui um ou mais CDRs. Trata-se da organização dos cubanos por todo o território. A adesão aos CDRs é livre, pelo que eu pude observar. Pode ser que exista alguma vantagem em participar de um CDR, mas isso não foi possível constatar. Esses centros servem para difundir os ideais da revolução, organizar a população para as manifestações de apoio ao regime e fazem um trabalho social de verificar crianças fora da escola, pessoas que abandonam o trabalho etc.

Em uma noite em Bayamo fomos recebidos por uma festa de rua promovida pelos CRDs da cidade. Cada CDR montou uma barraquinha com alimentos e bebidas. Os grupos de dança, música e poesia compostos por crianças, adultos e idosos também foram para a rua apresentar o que tinham de melhor e se confraternizarem conosco. Foi um momento de grande alegria e irmandade.

A adesão aos CDRs parece ser maciça e feita com grande paixão; foi o que percebi por meio de algumas pessoas que conversei, principalmente as mais velhas. Uma professora de História da arte da Universidade de Havana me disse que sua mãe, sua irmã e ela própria foram presidentes do CDR do seu bairro. Me falou dos Centros com paixão e muita convicção. E, já que toquei no assunto das gerações vale a pena um comentário: realmente tem-se a impressão que os mais velhos defendem com mais paixão a revolução. Ou porque participaram de alguma forma dela, ou ainda porque eles ou seus pais conheceram o que era o país antes da revolução, não sei, o fato é que se sente nas pessoas mais velhas um brilho no olhar ao falar do socialismo e da revolução. Os jovens, principalmente os muito jovens, nasceram no período de crise mais forte, conheceram as restrições mais pesadas e não viveram na pele a Cuba capitalista. Além disso, são atraídos, pouco ou muito, pelo fascínio do consumo das lojas para turistas com seus produtos vendidos em pesos “convertibles”, inacessíveis para a maioria dos cubanos. A sereia do capitalismo, encarnada nas mercadorias, já começou a rivalizar com a educação socialista na luta pelas mentes dos jovens cubanos.

 
Televisão


A imagem que eu tinha da televisão cubana, construída em grande parte pela grande imprensa brasileira, era de uma série interminável de discursos de Fidel entrecortados por novelas brasileiras. A realidade é outra. Existem três canais de televisão em Cuba. Obviamente que todos estatais. Dois canais são dedicados inteiramente a cursos, de línguas principalmente, inclusive de português. O outro canal é de variedades: shows musicais, jornalismo e nossas novelas, claro. Nos dias que estive lá só se falava nas “Siete Mujeres”, que no Brasil passou com o nome de “Casa das Sete Mulheres”, uma novela sobre a Guerra dos Farrapos. As pessoas discutem nas ruas, perguntam aos brasileiros os motivos da luta e envolvem-se, todos, inclusive intelectuais, na trama global. Sabem de cor, qualquer cubano, o nome de quatro ou cinco novelas brasileiras e não é raro, como ocorreu quando eu estava lá, atores globais visitarem o país para promover o produto brasileiro por excelência.

Mas, para mim, o grande destaque da televisão são os noticiários, que, se mostram a visão governista dos fatos –, tudo bem que 60 % da população brasileira só tem a visão global dos fatos – sabem noticiar com qualidade acontecimentos de Cuba e dão enorme destaque para as notícias internacionais, que, como eu já me referi, são de conhecimento de toda a população. A televisão é vista em Cuba como um efetivo meio de divulgação da cultura e do conhecimento, daí toda sala de aula ter um aparelho e também as iniciativas de educação à distância – que estão muito longe das nossas tentativas de economizar com professor..


Música, Festas e Danças:

Visitei cinco províncias em Cuba e um número um pouco maior de cidades, cruzando a ilha no sentido oeste-leste, de Havana até Santiago de Cuba e, por onde passei, em qualquer praça de qualquer “pueblo”, em qualquer botequim, a coisa mais fácil de se encontrar é um grupo cantando, dançando. A dança, sobretudo, é fator de unificação nacional. Todos dançam: crianças, idosos e mulheres e, apesar do todo o machismo que grassa pela ilha, os homens também “bailam” para valer. Assim a música se espalha pela ilha com extrema graça e facilidade. São grupos de salsa, bolero, com destaque, na minha modesta opinião, para dois grupos de Santiago de Cuba, cuja apresentação assisti no Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP): um coral de mulheres que, sem música de acompanhamento, entoaram uma versão divina de “Garota de Ipanema”, e um grupo de instrumentos de sopro, que tocou algo muito parecido com uma mistura de jazz e blues que, segundo me disseram, é um som fruto da miscigenação específica dessa província oriental, que teve grande influência francesa. Miscigenação parecida para um som também parecido com aquele de New Orleans, nas origens do jazz.


Trabalho, desemprego e sindicatos

Primeiro ponto fundamental: o desemprego em Cuba gira em torno de 1 a 1,5%, e todos confirmam que não é difícil arrumar um emprego e que para um trabalhador ser mandado embora é praticamente impossível. Para as faltas simples ou graves existem uma série de punições e multas. Para os bons trabalhadores é dada uma série de prêmios como folgas, bônus e estadias em “centros de campismos”, algo parecido com nossos hotéis-fazendas.

O desemprego se restringe aos casos de alcoolismo, depressão, etc. É o que chamam de desemprego voluntário.

Quanto ao trabalho, pelas instalações que visitei e as pessoas que conversei, é cumprida uma jornada de trabalho de 40 horas e as condições de trabalho não são das piores. Agora, o que é preocupante é a liberdade de associação dos trabalhadores. Não obtive, por assim dizer, informações que eu considere independentes sobre esse assunto. Em conversas com dirigentes da única Central Sindical existente em Cuba, a Federação dos Trabalhadores Cubanos, me foi dito que existe total liberdade de associação nos centros de trabalho, independente da central sindical e mesmo dos 19 sindicatos por ramos profissionais que existem no país. Ainda segundo os dirigentes sindicais, todas as reivindicações dos trabalhadores são exaustivamente discutidas com os governos locais e, em caso de não atendidas, elas são levadas para instâncias superiores. Questionei então quais as formas de manifestação e reivindicação se não se chegar a um acordo entre governo e trabalhadores e a resposta foi simples, mas duvidosa: isso nunca acontece e nunca houve necessidade de os trabalhadores entrarem em greve, pois, ou seus reclamos são atendidos ou a situação da empresa estatal ou do país é exposta de forma aberta e transparente até o convencimento dos empregados. Arriscar a dizer mais que isso seria especulação já que não tive conversas mais apuradas com os trabalhadores sobre tal assunto.


Cuba, sua história e seus heróis.

Os monumentos históricos estão espalhados por todo o país, assim como não faltam museus e memoriais. Que isso ocorresse em relação aos heróis da revolução de 1959, do chamado Movimento 26 de Julho, era de se esperar. Mas o mesmo se dá em relação aos heróis da independência nacional. Carlos Manoel Céspedes, um fazendeiro e dono de escravos, que foi o primeiro a libertar seus cativos para enfrentar os espanhóis, mas, principalmente, José Martí, são muito reverenciados. Assim, o lugar onde tombou José Martí na luta contra os espanhóis é simbolizado com um monumento; o cemitério onde se encontram seus restos mortais possui um enorme sepulcro e até guarda de honra com direito a uma pomposa troca de guarda a cada meia-hora; estátuas e frases de Martí estão em ruas e praças de todas as cidades.

Os feitos da Revolução de 1959 são lembrados no Museu da Revolução em Havana, com a presença majestosa do iate Granma, e a partir dos locais onde alguns fatos importantes aconteceram: assim, o quartel “La Moncada”, primeira ação armada do Movimento 26 de Julho, foi transformado em Museu; o Memorial Che Guevara, extremamente rico em objetos e fotos do revolucionário, foi construído em Santa Clara, província central do país e local onde o pelotão comandado por Che fez descarrilar um trem do governo, cortando o suprimento das tropas governistas na Sierra Maestra, uma ação decisiva para o triunfo dos rebeldes; na cidade de Jiguany, uma pequena casa virou o Museu Célia Sanchez, guerrilheira de primeira hora e, ao que dizem, o grande amor da vida de Fidel; também o local onde desembarcou o Granma, na província que hoje tem o mesmo nome, ganhou um monumento e uma passarela que leva da terra firme até o mar, passando por cima de um mangue que os 82 revolucionários atravessaram sabe-se lá como.****

A memória histórica cumpre um forte papel de identificação nacional, o que só é possível, ao meu ver, devido a habilidade do regime, que sabe combinar a reverência aos heróis guerrilheiros, mas também aponta para o movimento da independência, capaz de aglutinar mesmo aqueles que não são simpáticos à Revolução de 1959. Portanto, ao lado de toda ação internacionalista desenvolvida por Cuba – além das já citadas vale destacar o envio de 10 mil médicos para Venezuela -, o regime não descuida de criar laços de identidade nacional suficientemente fortes para contrapor-se à propaganda e ação imperialista.


O dia da volta

No dia da volta ao Brasil aconteceu um fato marcante. Nos ônibus que levavam os 70 brasileiros ao aeroporto pegaram carona alguns estudantes da Escola Latino-Americana de Medicina. Na conversa com aqueles que estavam voltando, duas estudantes baianas se emocionaram bastante ao lembrarem de seus familiares, amigos e das coisas de suas casas, como a comida simples preparada pelo mãe. No choro saudoso daquelas meninas pela longa estadia fora de casa – volto a afirmar, os jovens brasileiros que estão estudando medicina em Cuba nunca teriam essa oportunidade no Brasil – explicita-se a incapacidade da sociedade brasileira em concretizar os anseios e sonhos da maioria da sua população.


Conclusão

Depois desses quinze dias em Cuba pude desfazer a imagem, muito difundida entre nós, de um povo totalmente abatido e desiludido com a revolução, de um povo que não se move nas ruas sem ser cerceado pelo regime – e com isso não estou negando a existência de censura, da falta da liberdade de expressão e organização. Foi possível ver, por exemplo, uma imagem que na minha mente seria impossível: vi em três momentos diferentes pessoas circulando tranquilamente pelas ruas com adereços com a bandeira norte-americana – bandanas na cabeça e cinto, o que para mim só pode ser um sinal de evidente protesto contra o regime. Nas ruas algumas pessoas reclamam às claras das dificuldades do dia-a-dia, que não são poucas.

Por outro lado, porém, pude ver um povo consciente das suas dificuldades, sejam aquelas pessoas pró ou contra o regime. O povo cubano é por demais politizado e dá a sensação que as necessárias reformas democratizantes e também aquelas que assegurem a continuidade do socialismo poderão vir, mas de maneira alguma impostas por alguma cruzada pela liberdade vinda do Exterior. Acredito que o próprio povo cubano saberá encontrar um caminho que faça sua sociedade manter conquistas que nós brasileiros estamos ainda a décadas de obter e que saibam conquistar as liberdades necessárias para o pleno desenvolvimento das pessoas e do país, sem ceder à tentação de uma volta ao passado de ser apenas um solar e uma casa de jogos para o regalo dos irmãos do norte.

* Essa viagem foi realizada com um grupo de mais ou menos 200 pessoas de toda a América do Sul, em grande parte integrantes de associações de apoio e solidariedade à Cuba, apesar de eu não integrar nenhuma delas. Ficamos 7 dias em um acampamento a 35 quilômetros de Havana e 7 dias andando pela ilha, quando percorremos, ida e volta do acampamento, por volta de 2.500 quilômetros. Apesar da minha escolha em escrever o texto em primeira pessoa, não poderia deixar de citar como co-responsáveis por ele as pessoas que me acompanharam durante toda a viagem, que participaram de muitas das conversas com a população citada no texto e contribuíram com muitas das observações aí contidas.

** O governo cubano, na tentativa de barrar a livre circulação de moeda estrangeira – dólar, e euro, principalmente – criou uma segunda moeda que circula entre turistas e aqueles cubanos que comerciam com estrangeiros. Quem chega com moeda estrangeira no país tem que trocar pelo peso convertible e, para escapar da moeda norte-americana, pois o governo cubano acusa os EUA de prejudicarem suas transações financeiras internacionais - o governo também impõe um deságio de 10% na cotação do dia se a moeda for o dólar. O euro é trocado na cotação normal do dia. A cotação das moedas estrangeiras quando eu estava lá era a seguinte: 1 dólar = 0,90 pesos convertibles; 1 euro = 1,28 convertibles.

*** Outra adaptação do regime para enfrentar o “Período Especial” foram as “joint-ventures” para a criação de “Tiendas” de importados mas principalmente para a construção e operação de grandes hotéis. Nessas ações cooperadas entre o governo cubano e grandes redes hoteleiras, firma-se um contrato no qual as grandes redes hoteleiras investem o capital, administram em conjunto com o governo e após um determindado período – me disseram que é em torno de 10 anos – o hotel passa a ser exclusivamente estatal, podendo a rede hoteleira arrendá-lo desembolsando mais uma quantia de capital.

**** Só uma curiosidade para quem ainda não sabe: o iate Granma é de origem norte-americana e foi comprado através de doações obtidas por Fidel e outros em andanças e palestras pelos próprios Estados Unidos. E o seu nome é uma corruptela de “Granmother”, avó.



Dê a sua opinião
da Revista
Edicao do Mes
Edicoes Anteriores
Edições Especiais
Grandes Entrevistas
Vale a pena ler de novo