A charge em um out-door à beira-mar dá
o tom da campanha do governo contra aquele que é seu maior
inimigo: em uma costa o Tio Sam grunhindo, com os punhos cerrados,
gemendo de raiva e, na outra costa, um negro risonho, gozador, soltando
a seguinte frase: “Senhores imperialistas, nós não
temos nenhum medo”. Estamos em Cuba.
Escrever sobre a “ilha rebelde” após uma visita
de 15 dias não é tarefa das mais simples, se não
se quer apenas falar da beleza da sua arquitetura colonial ou republicana,
dos bons ventos no Malecón, ou ainda da alegria e sensualidade
espontânea de suas músicas e festas.
Descrever as condições de vida de seus habitantes,
seu apoio ou recusa ao regime socialista, os problemas enfrentados
atualmente e as conquistas que não se perderam requer cuidado
e algum distanciamento tanto da propaganda anti-regime que nos é
empurrada a cada dia nos noticiários quanto do oficialismo
que enaltece sem críticas todos os feitos da revolução.
O que segue, então, são meras impressões de
um socialista que visitou a ilha por apenas alguns dias, insuficientes
para analisar a fundo o processo atual do socialismo em Cuba, mas,
de qualquer forma, capazes de estabelecer um contraponto à
manipulação grosseira operada pela grande imprensa
capitalista.
“Habana Vieja”
Nessa parte de Havana, onde se concentram as grandes construções
coloniais e também muitas da república até
1959, misturam-se uma verdadeira avalanche de turistas e hotéis
luxuosos – a pequena ilha recebeu no ano de 2004 por volta
de 2 milhões de turistas, a maioria concentrada em Havana
– com dezenas de ruas estreitas e seus casarios que datam
da primeira metade do século passado e hoje servem de moradia
aos cubanos. Esses casarios foram transformados em verdadeiros cortiços
e são extremamente mal-conservados, úmidos, com gambiarras
elétricas e em nada diferem dos cortiços do Bom Retiro,
para quem conhece São Paulo.
A aparência de insalubridade das casas em alguns dos guetos
de Havana contrasta com a limpeza das ruas. E isso não é
só na capital. Você pode andar pelas ruas de Cuba por
horas e não ver um papel no chão e muito menos varredores,
assim como não vi uma única pichação
nas centenas de monumentos e out-doors e cartazes de propaganda
do regime espalhados por Havana e pelo país de maneira geral.
Eficiência do serviço de limpeza pública não
é. Vigilância e punições severas devem
ajudar, mas em uma cidade tão grande e em lugares ermos do
país não seria tarefa difícil pichar ou vandalizar
um monumento. O respeito àquilo que é público
parece prevalecer nesse caso. Pode-se pensar até que o grau
de adesão ao regime, assunto que tratarei a depois, é
mais elevado do que o nosso pensar costumeiro.
Cidade histórica, habitat de trabalhadores cubanos e muito
turismo e comércio, em uma frase aí está a
efervescente “Habana Vieja”.
Turismo em Havana: Malandros e “Convertibles”
por todos os lados
Mas no que pode resultar a convivência da riqueza do turismo
com a simplicidade e o racionamento de produtos com os quais os
cubanos são obrigados a conviver?
Em um país como o Brasil seria muito fácil, como é
em muitas de nossas cidades turísticas, essa mistura descambar
em furtos, roubos e violência. Em Cuba e mesmo em Havana é
unanimidade a afirmação de que se pode andar à
vontade pela cidade em qualquer hora do dia, pois não existe
violência. Se isso é devido à educação
e cultura do povo ou à repressão policial não
me cabe julgar, mas de qualquer forma repressão não
falta nas nossas grandes cidades e no entanto...O único aviso
que me deram foi pra tomar cuidado com um mão-leve ou outro
que poderia levar a carteira nos ônibus superlotados.
No entanto, os problemas trazidos pelo turismo são visíveis
e - na minha opinião, diga-se de passagem, isto pode se transformar
no calcanhar de Aquiles do regime. O mais latente é o maravilhoso
mundo do comércio e das mercadorias introduzido pelo turismo
em um meio tão pobre.
A figura símbolo dessa situação é o
malandro cubano que anda pelas ruas abordando todos que passam –
os com cara de turista, claro - oferecendo-se como guia, vendendo
charutos, rum, querendo mostrar as belezas da cidade em troca de
uma pequena “propina”, em “pesos convertibles”.
É claro que essa situação não é
peculiar à Cuba e em muitas das nossas cidades turísticas
essa cena é facilmente observável, talvez não
com a mesma insistência e lábia dos cubanos, mas o
fenômeno é o mesmo. Por ser na Cuba socialista acho
que assusta e entristece um pouco mais.
Já as tão faladas e famosas prostitutas do Malecón,
ao que pude observar, existem em número reduzido, nos dias
em que andei por Havana não cheguei a reconhecer meia dúzia
delas.
Antes de continuar descrevendo as transformações que
o turismo introduz na ilha socialista vale a pena rememorar resumidamente
alguns fatos.
A partir do início dos anos 1990, com a derrocada do bloco
socialista e em particular da União Soviética, Cuba
perdeu seu principal apoio externo e os inúmeros tratados
e convênios que mantinha com a potência comunista. Soma-se
a tudo isso o aperto do bloqueio norte-americano e o país
teve que entrar no chamado período especial, na verdade um
período de extremas dificuldades, com falta de energia elétrica
– toda a energia da ilha é obtidas de termoelétricas
abastecidas com petróleo –, queda da quantidade de
alimento das “libretas”, perda do seu principal comprador
de açúcar e consequente ausência quase que completa
de moeda internacional para o comércio estrangeiro.
É nesse contexto específico que são abertas
as portas ao turismo, com muita consciência por parte do governo
dos problemas que essa atividade traz. É um dilema sério
que os cubanos vão ter que enfrentar.
Mas voltemos à descrição de como o turismo
opera na ilha, sobretudo em Havana e em alguns pontos específicos,
como Varadero.
A moeda corrente no setor do turismo é o peso “convertible”.**
Apenas um ou outro comércio aceita o peso cubano. Entre os
ambulantes e pequenos vendedores só se fala em “convertible”
e não é difícil entender o motivo. Um “convertible”
equivale a 25 pesos cubanos. O trabalhador cubano recebe entre 120
e 700 pesos cubanos, ou seja, se transformados em convertibles,
o trabalhador cubano recebe entre 5 e 30 convertibles por mês.
Isso pode ser ganho facilmente em um dia ou em algumas horas por
um carregador de malas de um grande hotel*** ou um vendedor de souvenirs
ou livros no centro de Havana, que só não são
em número maior devido à necessidade de autorização
do governo para trabalhar nessa região.
Um professor, um médico, um motorista de ônibus, um
operário, um lavrador, ou qualquer outro trabalhador cubano
que não tenha acesso aos turistas fica obviamente em desvantagem
em relação a qualquer trabalhador do turismo e muitos
tentam migrar para esses serviços. O governo cubano reconhece
essa dificuldade e chegou a aumentar os salários dos trabalhadores
que recebem em peso cubano, mas a desproporção é
enorme, não só na quantidade de dinheiro mas também
no acesso a algumas lojas que vendem também importados e
que só aceitam o peso convertible, pois é a garantia
para o governo que aquele produto importado foi comprado com a entrada
de divisas estrangeiras no país.
Com tamanha discrepância de poder aquisitivo das duas moedas
fica fácil entender o surgimento da figura do “malandro”
referida acima.
A semente da desigualdade econômica está lançada.
A educação em Cuba: ai de nós
Muito se fala da educação em Cuba: da impressionante
quantidade de escolas e professores, do número reduzido de
alunos por sala de aula, do investimento em equipamentos, da integração
entre educação e trabalho, da generosidade internacionalista
das universidades cubanas: muito se diz de tudo isso e é
tudo verdade. Vamos a alguns exemplos de fazer corar os responsáveis
por nossas políticas educacionais.
Ao andar por uma plantação de laranjas puxei conversa
com um senhor responsável por cuidar de umas vaquinhas que
estavam pastando. Logo me convidou para conhecer sua casa e família.
O lavrador contou-me ter treze anos de estudo e um curso técnico
de agronomia. Sua filha de 18 anos já estava cursando enfermagem
e ajudava em partos na região. Depois levou-me para conhecer
uma escola vizinha. As salas de aula nunca têm mais que vinte
alunos, com um número menor nos anos superiores. Os alunos
passam o dia na escola, e os maiores de 12 anos têm duas horas
de trabalho agrícola, no caso, por tratar-se de área
rural. O “capiauzinho” discutia sobre qualquer assunto
de política internacional que você quisesse e com bastante
propriedade, inclusive sobre a situação do Brasil
e seu presidente “da Silva”, passando pela guerra do
Iraque e os conflitos árabe-israelense. Nada mal para quem
olha vacas. Mas isso é só um exemplo. De maneira geral
a população é muito culta, leitora de livros
e consciente dos fatos que acontecem no seu país e no mundo.
Todas as crianças estão na escola e o controle aí
é muito rígido. O resultado é óbvio:
não há crianças pedintes pelas ruas e faróis.
Uma única criança me abordou para pedir um “helado”
e mesmo assim ela estava com o uniforme escolar.
Como se não bastasse atender à população
cubana, o sistema de ensino universitário cubano abriu suas
portas para as nações pobres do mundo. Visitei a Escola
Internacional de Educação Física. Ocupando
um espaço de uma antiga escola militar, foi criada uma universidade
para 500 alunos internos dos mais variados países pobres
do mundo. Lá estudam brasileiros, venezuelanos, colombianos,
haitianos, africanos, asiáticos, enfim, pessoas de países
pobres. Os alunos não pagam absolutamente nada e ainda recebem
uma bolsa de 100 pesos cubanos. O único custo para o aluno
é o preço da passagem e a ousadia para passar 5 ou
6 anos fora de casa em regime de internato em Cuba, sofrendo as
mesmas restrições materiais que o povo cubano. A exigência
para concorrer a uma vaga é ser um jovem carente, ter dedicação
completa aos estudos e voltar ao seu país de origem no término
do curso para colocar em prática o que foi aprendido. Chega
a ser emocionante você conhecer algumas das histórias
dessas pessoas. Um rapaz do Rio Grande do Sul, por exemplo, largou
a família que ele sustentava aqui no Brasil para poder abrir
uma perspectiva melhor em sua vida. Hoje, após cinco anos,
ele está de malas prontas para voltar e traz na bagagem várias
habilitações: professor de educação
física, fisioterapia esportiva, recreação em
turismo. Ele diz terem sido anos duríssimos, de muita saudade,
já que não tinha dinheiro para vir para o Brasil durante
as férias, muito trabalho, sem dinheiro – pois cem
pesos cubanos para quem não tem libreta não dão
para quase nada – mas tem certeza de que sua vida agora será
diferente.
A mesma história se repete na Escola Latino-Americana de
Medicina (ELAM): jovens carentes de toda a América Latina
– os venezuelanos são maioria devido aos convênios
que Hugo Chávez tem feito com Cuba – têm a oportunidade
de se formar nessa que, no Brasil, é uma carreira das mais
elitistas. Do Brasil existem muitos jovens do MST e eu conheci um
rapaz da zona sul de São Paulo que era estudante de um cursinho
pré universitário comunitário que busca aumentar
o acesso dos negros aos centros universitários, o Educafro,
quando surgiu a chance de formar-se médico em Cuba. É
um rapaz como qualquer outro das nossas periferias, praticamente
sem nenhuma chance de entrar em uma universidade pública
brasileira, muito menos em medicina. Em dois ou três anos
ele estará de volta ao Brasil, formado nos níveis
de excelência das escolas médicas cubanas.
E quanto os governos dos países pagam por isso? Nada. As
pessoas podem dizer que isso é média do regime para
obter apoio internacional. Talvez seja, mas, entre nós, é
um belo e solidário método de se fazer média.
Outros preferem tanques e sanções econômicas
para conquistarem aliados.
Out-doors: a propaganda do regime nas ruas
Nas “carreteras”, nos muros das cidades, nas grandes
avenidas, por todos os lados é ostensiva a propagação
de frases de José Martí, Fidel Castro, Che Guevara
ou simplesmente frases de motivação e união
expressas em out-doors, cartazes ou grafites nos muros. Falam da
continuidade do processo revolucionário, acusam e explicam
para a população o bloqueio norte-americano e, em
menor número, exaltam os heróis da história
cubana. Nunca foi do meu agrado ouvir falar desse tipo de propaganda:
sempre me cheirou a doutrinação e culto à personalidade.
Mas se tem que fazer duas concessões e uma comparação.
Primeira concessão: as linguagens verbal e visual dos cartazes,
e digo isso do alto da minha ignorância em artes plásticas,
são de primeiríssima qualidade, são verdadeiros
poemas e obras de arte expostos ao ar livre, a despeito do príncipio
de enculcamento que obviamente elas possuem. Segunda concessão:
querendo ou não, o regime aproveitando-se disso ou não
para manter-se fechado, o fato é que Cuba é um país
oprimido e ameaçado pelo bloqueio norte-americano, fato que
traz sim restrições ao povo cubano. Então o
regime usa isso para unificar o povo e mostrar quem é o inimigo.
Agora a comparação, bem sucinta: tudo bem, todas aquelas
frases colocadas pelo governo ou pelos Centros de Defesa da Revolução
– que explicaremos o que são a seguir – são
ostensivas e só mostram um lado da moeda – mas e a
nossa publicidade comercial que, em uma cidade de São Paulo,
não permite um segundo de descanso para os olhos com seu
bombardeio luminoso incitando nossas mentes a estarem despertas
24 horas para o consumo? E o apelo erotizado das mensagens publicitárias
que cada vez mais nas novas gerações desfigura a sexualidade
ao invés de libertá-la? Desses “desvios”,
que na verdade são o curso natural do capitalismo, não
há notícias em Cuba. Fica a sugestão para os
“experts” em artes plásticas, literatura ou semiótica
fazerem um estudo mais apurado da propaganda oficial em Cuba, da
qual pode ser dito muito, menos que ela é simplista em suas
formas e conteúdos.
Um ônibus para Havana: Deus nos acuda
Fiquei uma semana alojado no “Campamento Internacional Julio
Antonio Mella”, a 35 quilômetros de Havana e o meu deslocamento
era normalmente feito nos ônibus do acampamento para seguir
uma programação estabelecida. Mas tínhamos
alguns dias livres, sem programação e aí o
jeito era se virar. Algumas pessoas do acampamento cotizavam em
quatro ou cinco um táxi por 15 ou 20 dólares até
Havana. Em um desses dias resolvi encarar o transporte públito
de Caimito, povoado vizinho ao acampamento, até a capital.
Os 35 quilômetros, pensava eu, deveriam ser percorridos em
uma hora e meia ou uma hora se tivesse sorte. Levei três horas
para chegar ao centro de Havana. Uma epopéia de três
conduções, difícil saber qual em piores condições.
Primeiro peguei uma carona em um micro-ônibus caindo aos pedaços,
que servia de transporte para lavradores da região. O chão
do ônibus tinha um buraco e o escapamento idem. Resultado:
fumaça bem para dentro do ônibus. Por sorte esse ônibus
estava vazio e o trajeto foi bem curto. Cheguei ao centro de Caimito,
me informei e fui para o ponto esperar a outra condução
até Havana. Demorou um pouco, o ponto de ônibus já
estava lotado e estacionou um caminhão. A multidão
ficou imóvel. O caminhão manobrou, encostou melhor
e alguém deu o sinal: “Para Havana”. Foi um Deus
nos acuda. Só pode me entender quem está acostumado
a pegar o metrô ou trem para a zona leste de São Paulo
em horário de pico. A diferença é que estávamos
subindo em um caminhão, disputando lugares com velhinhas
e crianças. Se parasse para ajudar alguém a subir,
com certeza teria que esperar o próximo. Era um caminhão
com uma lona cobrindo uma estrutura metálica e bancos apenas
nas laterais, com pouquíssimos lugares. Fiquei de pé
e uma hora depois, devagar, quase parando, chegamos, mas ainda não
estávamos dentro de Havana. Era hora de enfrentar o “camelo”.
É um ônibus que tem esse nome devido a aparência
de duas corcóvas em sua lataria. Deve ter no mínimo
o dobro da extensão dos nossos ônibus urbanos e uma
capacidade...bom, aqui é folclórico....cabem quantos
chegarem. As pessoas se amontoam para entrar e o cobrador repete
à exaustão a provavelmente universal frase “hay
espacio em un pasito”. Foram quase duas horas de “camelo”!
E é notável a tranqüilidade das pessoas. Tem-se
a impressão que existe até uma certa despreocupação
com o cumprimento dos horários devido à total precariedade
dos transportes públicos.
Para tentar minorar esse problema o governo criou um programa de
caronas. As pessoas que circulam sozinhas por Havana são
obrigadas, sob risco de serem multadas, a dar carona. E é
comum as pessoas pedirem e pegarem caronas com estranhos pelas ruas
da cidade. Como a violência é quase inexistente e até
a televisão fica passando no noticiário aquelas pessoas
flagradas recusando o pedido de carona, a tendência é
o programa surtir algum efeito. De qualquer forma as próprias
autoridades reconhecem que o transporte público e também
o de cargas é um dos problemas mais sérios do país
e essa obviamente é uma medida paliativa.
A “Libreta”
A caderneta de alimentos é um dos instrumentos usados para
gerar igualdade na distribuição de alimentos. Havia
a perspectiva de abolir a “libreta” com o aumento da
produção de alimentos e a geração de
abundância para todos. Lógico que esse sonho foi postergado
depois da crise dos anos 1990. A “libreta” funciona
da seguinte forma: todo cidadão cubano, ao nascer, recebe
uma “libreta” que vai acompanhá-lo por toda a
sua vida. Esteja ele empregado ou não, seja um bom trabalhador
ou não. Só quem está internado ou fora do país
deixa de poder comprar alimentos com esse instrumento. De acordo
com a idade, as pessoas podem comprar um tipo e uma quantidade de
alimentos nos armazéns específicos para isso. Não
há muitas filas, ao contrário do que dizem. Com a
“libreta” os alimentos são subsidiados, saem
quase de graça, centavos ou poucos pesos cubanos são
capazes de comprar os alimentos, o problema é que a quantidade
estipulada para cada pessoa é insuficiente para todo o mês.
As crianças comem na escola, sendo só as menores de
7 anos que têm direito à leite. As de 7 a 14 tomam
um iogurte à base de soja. Os trabalhadores tem direito de
se alimentar nos centros de trabalho. E os alimentos que faltam
para fechar o mês, ou principalmente para os idosos ou pessoas
que não trabalham fora, donas-de-casa, por exemplo? Quando
faltam alimentos para todo o mês – e sempre falta, segundo
me relataram – os cubanos têm que comprar no chamado
mercado livre, que não deve ser confundido com o mercado
negro. O mercado livre é formado por agricultores, cooperativas,
padeiros, autônomos em geral que têm permissão
do governo para comerciar seus produtos a um preço bastante
alto para a média dos trabalhadores. Sim, a comida também
é um problema em Cuba. As pessoas não passam fome.
Mas quase todos passam com muito pouco, sem fartura. A carne de
frango, a mais popular no país, “o pollo” como
dizem, está longe de ser diária, apesar de ser a melhor
e mais encontrada opção para o turista. Ovos e derivados
de soja e de carne de porco ajudam a completar a dieta protéica
da população cubana.
Liberdade Religiosa: “algumas pessoas precisam de
consolo”
A frase entre aspas foi dita por um deputado da Assembléia
Nacional de Cuba a respeito da relação que o regime
socialista mantém com a religião. Incentivo não
há mas as igrejas estão abertas e as pessoas as freqüentam
livremente. Sinceramente não sei se o clima de liberdade
nesse aspecto tem alguma relação com a visita do papa
João Paulo II alguns anos atrás. Creio que não,
pois também as religiões de origem africana são
respeitadas e assisti a inúmeras apresentações
culturais que se utilizavam de elementos dessas religiões.
É óbvio que a maioria da população não
é praticante e facilmente você conversa com cubanos
que se declaram ateus. Mas isso deve ser mais fruto da educação
que recebem do que devido a alguma suposta repressão à
liberdade religiosa.
Os Centros de Defesa da Revolução (CDR)
Cada bairro da ilha possui um ou mais CDRs. Trata-se da organização
dos cubanos por todo o território. A adesão aos CDRs
é livre, pelo que eu pude observar. Pode ser que exista alguma
vantagem em participar de um CDR, mas isso não foi possível
constatar. Esses centros servem para difundir os ideais da revolução,
organizar a população para as manifestações
de apoio ao regime e fazem um trabalho social de verificar crianças
fora da escola, pessoas que abandonam o trabalho etc.
Em uma noite em Bayamo fomos recebidos por uma festa de rua promovida
pelos CRDs da cidade. Cada CDR montou uma barraquinha com alimentos
e bebidas. Os grupos de dança, música e poesia compostos
por crianças, adultos e idosos também foram para a
rua apresentar o que tinham de melhor e se confraternizarem conosco.
Foi um momento de grande alegria e irmandade.
A adesão aos CDRs parece ser maciça e feita com grande
paixão; foi o que percebi por meio de algumas pessoas que
conversei, principalmente as mais velhas. Uma professora de História
da arte da Universidade de Havana me disse que sua mãe, sua
irmã e ela própria foram presidentes do CDR do seu
bairro. Me falou dos Centros com paixão e muita convicção.
E, já que toquei no assunto das gerações vale
a pena um comentário: realmente tem-se a impressão
que os mais velhos defendem com mais paixão a revolução.
Ou porque participaram de alguma forma dela, ou ainda porque eles
ou seus pais conheceram o que era o país antes da revolução,
não sei, o fato é que se sente nas pessoas mais velhas
um brilho no olhar ao falar do socialismo e da revolução.
Os jovens, principalmente os muito jovens, nasceram no período
de crise mais forte, conheceram as restrições mais
pesadas e não viveram na pele a Cuba capitalista. Além
disso, são atraídos, pouco ou muito, pelo fascínio
do consumo das lojas para turistas com seus produtos vendidos em
pesos “convertibles”, inacessíveis para a maioria
dos cubanos. A sereia do capitalismo, encarnada nas mercadorias,
já começou a rivalizar com a educação
socialista na luta pelas mentes dos jovens cubanos.
Televisão
A imagem que eu tinha da televisão cubana, construída
em grande parte pela grande imprensa brasileira, era de uma série
interminável de discursos de Fidel entrecortados por novelas
brasileiras. A realidade é outra. Existem três canais
de televisão em Cuba. Obviamente que todos estatais. Dois
canais são dedicados inteiramente a cursos, de línguas
principalmente, inclusive de português. O outro canal é
de variedades: shows musicais, jornalismo e nossas novelas, claro.
Nos dias que estive lá só se falava nas “Siete
Mujeres”, que no Brasil passou com o nome de “Casa das
Sete Mulheres”, uma novela sobre a Guerra dos Farrapos. As
pessoas discutem nas ruas, perguntam aos brasileiros os motivos
da luta e envolvem-se, todos, inclusive intelectuais, na trama global.
Sabem de cor, qualquer cubano, o nome de quatro ou cinco novelas
brasileiras e não é raro, como ocorreu quando eu estava
lá, atores globais visitarem o país para promover
o produto brasileiro por excelência.
Mas, para mim, o grande destaque da televisão são
os noticiários, que, se mostram a visão governista
dos fatos –, tudo bem que 60 % da população
brasileira só tem a visão global dos fatos –
sabem noticiar com qualidade acontecimentos de Cuba e dão
enorme destaque para as notícias internacionais, que, como
eu já me referi, são de conhecimento de toda a população.
A televisão é vista em Cuba como um efetivo meio de
divulgação da cultura e do conhecimento, daí
toda sala de aula ter um aparelho e também as iniciativas
de educação à distância – que estão
muito longe das nossas tentativas de economizar com professor..
Música, Festas e Danças:
Visitei cinco províncias em Cuba e um número um pouco
maior de cidades, cruzando a ilha no sentido oeste-leste, de Havana
até Santiago de Cuba e, por onde passei, em qualquer praça
de qualquer “pueblo”, em qualquer botequim, a coisa
mais fácil de se encontrar é um grupo cantando, dançando.
A dança, sobretudo, é fator de unificação
nacional. Todos dançam: crianças, idosos e mulheres
e, apesar do todo o machismo que grassa pela ilha, os homens também
“bailam” para valer. Assim a música se espalha
pela ilha com extrema graça e facilidade. São grupos
de salsa, bolero, com destaque, na minha modesta opinião,
para dois grupos de Santiago de Cuba, cuja apresentação
assisti no Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP): um coral
de mulheres que, sem música de acompanhamento, entoaram uma
versão divina de “Garota de Ipanema”, e um grupo
de instrumentos de sopro, que tocou algo muito parecido com uma
mistura de jazz e blues que, segundo me disseram, é um som
fruto da miscigenação específica dessa província
oriental, que teve grande influência francesa. Miscigenação
parecida para um som também parecido com aquele de New Orleans,
nas origens do jazz.
Trabalho, desemprego e sindicatos
Primeiro ponto fundamental: o desemprego em Cuba gira em torno de
1 a 1,5%, e todos confirmam que não é difícil
arrumar um emprego e que para um trabalhador ser mandado embora
é praticamente impossível. Para as faltas simples
ou graves existem uma série de punições e multas.
Para os bons trabalhadores é dada uma série de prêmios
como folgas, bônus e estadias em “centros de campismos”,
algo parecido com nossos hotéis-fazendas.
O desemprego se restringe aos casos de alcoolismo, depressão,
etc. É o que chamam de desemprego voluntário.
Quanto ao trabalho, pelas instalações que visitei
e as pessoas que conversei, é cumprida uma jornada de trabalho
de 40 horas e as condições de trabalho não
são das piores. Agora, o que é preocupante é
a liberdade de associação dos trabalhadores. Não
obtive, por assim dizer, informações que eu considere
independentes sobre esse assunto. Em conversas com dirigentes da
única Central Sindical existente em Cuba, a Federação
dos Trabalhadores Cubanos, me foi dito que existe total liberdade
de associação nos centros de trabalho, independente
da central sindical e mesmo dos 19 sindicatos por ramos profissionais
que existem no país. Ainda segundo os dirigentes sindicais,
todas as reivindicações dos trabalhadores são
exaustivamente discutidas com os governos locais e, em caso de não
atendidas, elas são levadas para instâncias superiores.
Questionei então quais as formas de manifestação
e reivindicação se não se chegar a um acordo
entre governo e trabalhadores e a resposta foi simples, mas duvidosa:
isso nunca acontece e nunca houve necessidade de os trabalhadores
entrarem em greve, pois, ou seus reclamos são atendidos ou
a situação da empresa estatal ou do país é
exposta de forma aberta e transparente até o convencimento
dos empregados. Arriscar a dizer mais que isso seria especulação
já que não tive conversas mais apuradas com os trabalhadores
sobre tal assunto.
Cuba, sua história e seus heróis.
Os monumentos históricos estão espalhados por todo
o país, assim como não faltam museus e memoriais.
Que isso ocorresse em relação aos heróis da
revolução de 1959, do chamado Movimento 26 de Julho,
era de se esperar. Mas o mesmo se dá em relação
aos heróis da independência nacional. Carlos Manoel
Céspedes, um fazendeiro e dono de escravos, que foi o primeiro
a libertar seus cativos para enfrentar os espanhóis, mas,
principalmente, José Martí, são muito reverenciados.
Assim, o lugar onde tombou José Martí na luta contra
os espanhóis é simbolizado com um monumento; o cemitério
onde se encontram seus restos mortais possui um enorme sepulcro
e até guarda de honra com direito a uma pomposa troca de
guarda a cada meia-hora; estátuas e frases de Martí
estão em ruas e praças de todas as cidades.
Os feitos da Revolução de 1959 são lembrados
no Museu da Revolução em Havana, com a presença
majestosa do iate Granma, e a partir dos locais onde alguns fatos
importantes aconteceram: assim, o quartel “La Moncada”,
primeira ação armada do Movimento 26 de Julho, foi
transformado em Museu; o Memorial Che Guevara, extremamente rico
em objetos e fotos do revolucionário, foi construído
em Santa Clara, província central do país e local
onde o pelotão comandado por Che fez descarrilar um trem
do governo, cortando o suprimento das tropas governistas na Sierra
Maestra, uma ação decisiva para o triunfo dos rebeldes;
na cidade de Jiguany, uma pequena casa virou o Museu Célia
Sanchez, guerrilheira de primeira hora e, ao que dizem, o grande
amor da vida de Fidel; também o local onde desembarcou o
Granma, na província que hoje tem o mesmo nome, ganhou um
monumento e uma passarela que leva da terra firme até o mar,
passando por cima de um mangue que os 82 revolucionários
atravessaram sabe-se lá como.****
A memória histórica cumpre um forte papel de identificação
nacional, o que só é possível, ao meu ver,
devido a habilidade do regime, que sabe combinar a reverência
aos heróis guerrilheiros, mas também aponta para o
movimento da independência, capaz de aglutinar mesmo aqueles
que não são simpáticos à Revolução
de 1959. Portanto, ao lado de toda ação internacionalista
desenvolvida por Cuba – além das já citadas
vale destacar o envio de 10 mil médicos para Venezuela -,
o regime não descuida de criar laços de identidade
nacional suficientemente fortes para contrapor-se à propaganda
e ação imperialista.
O dia da volta
No dia da volta ao Brasil aconteceu um fato marcante. Nos ônibus
que levavam os 70 brasileiros ao aeroporto pegaram carona alguns
estudantes da Escola Latino-Americana de Medicina. Na conversa com
aqueles que estavam voltando, duas estudantes baianas se emocionaram
bastante ao lembrarem de seus familiares, amigos e das coisas de
suas casas, como a comida simples preparada pelo mãe. No
choro saudoso daquelas meninas pela longa estadia fora de casa –
volto a afirmar, os jovens brasileiros que estão estudando
medicina em Cuba nunca teriam essa oportunidade no Brasil –
explicita-se a incapacidade da sociedade brasileira em concretizar
os anseios e sonhos da maioria da sua população.
Conclusão
Depois desses quinze dias em Cuba pude desfazer a imagem, muito
difundida entre nós, de um povo totalmente abatido e desiludido
com a revolução, de um povo que não se move
nas ruas sem ser cerceado pelo regime – e com isso não
estou negando a existência de censura, da falta da liberdade
de expressão e organização. Foi possível
ver, por exemplo, uma imagem que na minha mente seria impossível:
vi em três momentos diferentes pessoas circulando tranquilamente
pelas ruas com adereços com a bandeira norte-americana –
bandanas na cabeça e cinto, o que para mim só pode
ser um sinal de evidente protesto contra o regime. Nas ruas algumas
pessoas reclamam às claras das dificuldades do dia-a-dia,
que não são poucas.
Por outro lado, porém, pude ver um povo consciente das suas
dificuldades, sejam aquelas pessoas pró ou contra o regime.
O povo cubano é por demais politizado e dá a sensação
que as necessárias reformas democratizantes e também
aquelas que assegurem a continuidade do socialismo poderão
vir, mas de maneira alguma impostas por alguma cruzada pela liberdade
vinda do Exterior. Acredito que o próprio povo cubano saberá
encontrar um caminho que faça sua sociedade manter conquistas
que nós brasileiros estamos ainda a décadas de obter
e que saibam conquistar as liberdades necessárias para o
pleno desenvolvimento das pessoas e do país, sem ceder à
tentação de uma volta ao passado de ser apenas um
solar e uma casa de jogos para o regalo dos irmãos do norte.
* Essa viagem foi realizada com um grupo de mais ou menos 200 pessoas
de toda a América do Sul, em grande parte integrantes de
associações de apoio e solidariedade à Cuba,
apesar de eu não integrar nenhuma delas. Ficamos 7 dias em
um acampamento a 35 quilômetros de Havana e 7 dias andando
pela ilha, quando percorremos, ida e volta do acampamento, por volta
de 2.500 quilômetros. Apesar da minha escolha em escrever
o texto em primeira pessoa, não poderia deixar de citar como
co-responsáveis por ele as pessoas que me acompanharam durante
toda a viagem, que participaram de muitas das conversas com a população
citada no texto e contribuíram com muitas das observações
aí contidas.
** O governo cubano, na tentativa de barrar a livre circulação
de moeda estrangeira – dólar, e euro, principalmente
– criou uma segunda moeda que circula entre turistas e aqueles
cubanos que comerciam com estrangeiros. Quem chega com moeda estrangeira
no país tem que trocar pelo peso convertible e, para escapar
da moeda norte-americana, pois o governo cubano acusa os EUA de
prejudicarem suas transações financeiras internacionais
- o governo também impõe um deságio de 10%
na cotação do dia se a moeda for o dólar. O
euro é trocado na cotação normal do dia. A
cotação das moedas estrangeiras quando eu estava lá
era a seguinte: 1 dólar = 0,90 pesos convertibles; 1 euro
= 1,28 convertibles.
*** Outra adaptação do regime para enfrentar o “Período
Especial” foram as “joint-ventures” para a criação
de “Tiendas” de importados mas principalmente para a
construção e operação de grandes hotéis.
Nessas ações cooperadas entre o governo cubano e grandes
redes hoteleiras, firma-se um contrato no qual as grandes redes
hoteleiras investem o capital, administram em conjunto com o governo
e após um determindado período – me disseram
que é em torno de 10 anos – o hotel passa a ser exclusivamente
estatal, podendo a rede hoteleira arrendá-lo desembolsando
mais uma quantia de capital.
**** Só uma curiosidade para quem ainda não sabe:
o iate Granma é de origem norte-americana e foi comprado
através de doações obtidas por Fidel e outros
em andanças e palestras pelos próprios Estados Unidos.
E o seu nome é uma corruptela de “Granmother”,
avó.
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