do Site
Correio
SEno Site
Palanque
Coluna do Leitor
Agenda
Novas
Links Amigos
Quem Somos
Fale Conosco
Loja Virtual

 

Gozações e revelações

Ao final da longa e
divertida entrevista,
combinamos com
Laerte que ele
inventaria,
com sua invejável
criatividade, uma
forma de ilustrar o
bate-papo.

Passados os dias,
ele liga para dizer que não estava
achando um
caminho, que era
melhor reproduzirmos desenhos dele já
publicados.

Insistimos, mais
alguns dias se
passaram e ele de
novo liga para dizer que a coisa não
saía. Conversa vai,
conversa vem, fica
dito que haverá uma última tentativa, ele mesmo se dá dois dias de prazo. Em 48 horas chegam as tiras. Sensacionais.



Entrevistadores: Marina Amaral, Natalia Viana, Flávia Castanheira, Sofia Amaral, Guto Lacaz, Mylton Severiano, Antonio Martinelli Jr., André Bertoluci, Rodolfo Torres, Sérgio de Souza.


Trecho 1

Marina Amaral - Então, Laerte, o nosso começo de praxe: como foi a sua infância, o início da sua vida até se tornar artista?

Não me considero um artista, essa é uma diferença interessante, faço histórias em quadrinhos, faço ficção, mas a idéia de que esteja fazendo arte ou tenha uma profissão é meio nebulosa pra mim, tanto quanto essa fronteira de infância e adolescência e idade madura, se é que estou maduro, é confusa, não é uma coisa muito clara. Eu nasci em São Paulo e a minha memória mais antiga é morar na rua Pamplona, morávamos num sobrado e depois, quando eu tinha uns 5 ou 6 anos, minha família se mudou para o Alto de Pinheiros. Era uma espécie de subúrbio à maneira americana, todas as casas com grandes gramados e cerquinha baixa na frente, meio que seguindo um padrão imobiliário...

Sérgio de Souza - Família rica, então?
Meu pai é professor universitário. Se aposentou. Professor de geologia, petrologista, e virou nome de pedra, um mineral descoberto há poucos meses foi batizado, em homenagem ao meu pai, de coutinhoita.

Mylton Severiano - Como é o nome completo do seu pai?
José Moacir Viana Coutinho.

Marina Amaral - Você tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho e duas irmãs mais novas.


Trecho 2

Sérgio de Souza - Se um garoto pensar “quero ser desenhista na vida”, o que tem no Brasil pra ele?

É uma boa pergunta. Não tem nada. No exterior tem, em alguns países, desenhar quadrinhos, desenhar humor são atividades tão consagradas e já cristalizadas que a elas correspondem cursos e existem centros onde funcionam escolas em que você pode ir e sair mais ou menos bem formado, por exemplo, em Angoulême, na França. Rolou uma idéia de construir isso em Piracicaba, a partir do Salão e do Museu de Humor, fazer uma espécie de escola lá. Mas é um projeto bem complicado.

Mylton Severiano - Como é o seu dia, o processo de criação, você tem disciplina?
Uma parte tem que ser disciplinada, porque estou trabalhando com jornal diário.

Rodolfo Torres - É só Folha de S. Paulo?
Não, a mesma tira que sai na Folha eu mando pra PacaTatu, uma agência lá no Rio de Janeiro que distribui pra mais dez jornais no Brasil, mais o Diário de Notícias, em Lisboa.


Trecho 3

Flávia Castanheira - Noto que você não trabalha muito em cima de acontecimentos, trabalha mais com o comportamento humano...

A última vez que tentei fazer charge foi num jornal de Manaus, chamado Jornal do Norte. Fiz charge durante um ano e tanto. Mas não é uma coisa confortável, não fico à vontade. Primeiro, desenhar caricatura, eu não pego direito a coisa. Segundo, é a idéia de emitir opinião política, sempre paro no meio e falo: será que é isso mesmo, será que eu tô falando bobagem?

Flávia Castanheira - Você tem medo de se arrepender no dia seguinte?
Fiquei dez anos fazendo o que se chamava de charge erradamente, na Gazeta Mercantil, sobre assuntos que até hoje não domino, não manjo. Não sei o que são debêntures até hoje... E o assunto do jornal era esse. Daí entrava Geisel, Shigeaki Ueki, Simonsen, e eu ali desenhando absolutamente sem referência, completamente nas nuvens.

Mylton Severiano - Você fez charge na página 2 da Folha?
Não, nunca fiz. O Luis Gê chegou a fazer. O Spacca fez. Depois veio o Angeli, o Glauco...

Flávia Castanheira - E essa turminha, quando vocês se conheceram?
O Angeli eu conheci fazendo fanzine ainda. Ele era da turma da Casa Verde, com o Alci, o Jal. Nós éramos os boyzinhos de Pinheiros. Ainda na época da faculdade. Ele já estava trabalhando havia uns dois, três anos quando eu comecei. Depois disso, a gente conheceu o Glauco, num Salão de Piracicaba, uns anos depois, e nos apaixonamos pelo Glauco. Porque ele é uma figura encantadora e trazia um tipo de humor que a gente achou sensacional. Para sair da fase dos anos de chumbo, nada como o Glauco. Ele tinha um cartum que ficou famoso, que era um sujeito preso com correntes, o clássico cara preso com correntes na parede, e o clássico carrasco passando em frente e o cara cutucando a bunda do carrasco e dizendo: “Eh, bundão!” Era uma novidade na época. Era um tempo novo mesmo, tinha acabado a fase do Médici, estávamos no Geisel, os tempos eram outros e de certa forma se continuava produzindo muito o cartum de chumbo mesmo, aquela coisa pesada.


Trecho 4

Marina Amaral - O que você lê?

Romances, histórias, ficção. De uns tempos pra cá, tenho lido muito sobre religião, tenho me interessado pelo tema.

Sérgio de Souza - Por que será?
Não sei. Acho que é um momento mesmo. Coincidiu também com o ponto em que comecei a trabalhar o personagem Deus. Não me tornei religioso, não aderi a nenhuma religião, continuo naquele agnosticismo que sempre tive. Mas vejo religião com outros olhos, e me interesso, e curto, e procuro ter compaixão, quer dizer, você sentir a mesma coisa que as pessoas que têm religião sentem, o que as motiva. Não de uma forma sociológica e tal, tal, tal, mas tentar ver. Por exemplo, fui no daime (santo-daime) do Glauco nesse tipo de busca também. E foi bom porque recuperei o Glauco, foi um momento de entender o Glauco...

Mylton Severiano - Você tomou a aiauasca?
Tomei.


Trecho 5

Flávia Castanheira - Você gosta de futebol? Pra que time você torce?

Ah, não torço mais. Torcia pro São Paulo quando era criança, depois passei a torcer pelo Corinthians quando jovem...

Flávia Castanheira - Como é que alguém troca de time?
Namorada... Ela era corintiana. Depois parei de torcer por causa do Serginho Chulapa. Ele jogava no São Paulo, e era muito cruel com a torcida, a torcida odiava ele, queria comer o fígado dele. Ele fazia as provocações mais absurdas. Aí,o Corinthians contrata ele, no dia seguinte estava a torcida inteira: “Serginho, nosso rei!” E eu pensei: “Que coisa falsa! Não é possível!” Bom, aí isso também se somou à percepção de que futebol é isso mesmo, as pessoas compram esses jogadores que são artistas e estão ali atrás do salário, né? Não existe mais essa coisa de time, camisa e tal... Aí me desmotivei mesmo. E achei que aquela coisa da associação do Corinthians com a democracia e a luta pelo povo também era forçar um pouco a barra. Pensei: “Porra, por que só no Corinthians? Não tem caras legais na torcida do São Paulo, do Palmeiras e mesmo da Portuguesa? Claro que tem!”

Sérgio de Souza - Pra encerrar, você não tem nenhum “crime” pra confessar? Um furo jornalístico?
Já confessei. Essa história de ser preso, pelado, na USP, é a coisa mais grave que já fiz.



A íntegra dessa entrevista já está nas bancas, e, na próxima semana todas as tiras feitas por Laerte estarão nessa página. Não perca!


Pronto! Agora você pode ver as tiras criadas pelo Laerte especialmente para a Caros Amigos. Clique aqui.


da Revista
Edicao do Mes
Edicoes Anteriores
Edições Especiais
Grandes Entrevistas
Vale a pena ler de novo