| "Eu
não faço concessão nenhuma"
A entrevista começou com um não. “Com a revista
Caras eu não falo, não. Que me respeitem!”
Essa foi a resposta de Ariano Suassuna ao não entender
bem o recado deixado pela Caros Amigos em sua secretária
eletrônica. Desfeito o engano, o polêmico escritor
recebeu os jornalistas em seu casarão, um verdadeiro monumento
à cultura brasileira, no bairro de Casa Forte, às
margens do rio Capiberibe. Assim como seu engraçado personagem
Chicó, de O Auto da Compadecida, Ariano é um grande
contador de histórias, entremeando suas opiniões
com causos e contos populares. Apesar de toda a poesia nas entrelinhas,
ele diz tudo na bucha. Até porque, como ele mesmo gosta
de lembrar, não é “homem de ficar em cima
do muro”.
Entrevistadores: Mariana Camarotti, Diana Moura,
Marco Bahé, Inácio França, Miguel Falcão,
Samarone Lima. Fotos de Beto Figueirôa/Canal 03
Trecho 1
Mariana Camarotti - A gente sempre pede que o entrevistado comece
falando da sua infância, que faça assim um mergulho...
Você quer ir perguntando? Eu agradeço. Pra eu disparar
assim...
Marco Bahé - Qual é a recordação
mais antiga da sua infância?
A recordação mais antiga é eu muito menino,
dentro de uma rede e chorando, porque minha mãe, que estava
me balançando, tinha saído e sido substituída
por uma prima nossa, chamada Amélia. Eu era muito menino
mesmo. A segunda coisa de que me lembro é eu quebrando
o braço. E sei exatamente o dia, 19 de março de
1929, quer dizer, sou de 16 de junho de 1927, tinha 1 ano e poucos
meses. Sei que era o dia de São José porque minha
mãe me disse um dia. Então, ela ficou espantada
e falou: "Só acredito que você se lembra se
disser onde foi que consertaram seu braço". Aí
eu disse: "Foi em cima de uma mesa amarela". Aí
caiu o queixo dela mesmo. "E o que foi que você comeu?"
"Uma banana." Porque, quando terminou, o médico
mandou me dar uma banana pra ver se eu segurava e descascava a
banana. E eu segurei e descasquei a banana. Então, as duas
lembranças mais longínquas que tenho da infância
são essas.
Mariana Camarotti - E isso já foi em Taperoá?
Não, foi na Paraíba, porque nasci na Paraíba
(antigo nome da capital paraibana). Aliás...
Inácio França - Você nasceu no palácio,
não foi?
Foi, nasci no palácio por um acaso, porque meu pai governava
o Estado nesse ano. Estive lá recentemente. Uma irmã
mais velha me levou no quarto. Mas foi uma desmoralização!
Estava lá o quarto com uma mesa e um computador, no quarto
onde eu nasci! Isso é uma falta de respeito...
Inácio França - Soube que o senhor foi
convidado pelo governo da Paraíba para receber uma homenagem
lá em João Pessoa e...
Já sei a história que você quer contar. É
a história de que fui barrado...
Inácio França - Isso.
Não foi, não. Estava tendo um congresso de crítica
literária. Fui, como convidado, e apresentei um comentário
sobre José Lins do Rego, que era o tema central do congresso,
uma homenagem a Zé Lins, na terra dele, não é?
Bom, aí o governador da Paraíba, o doutor Pedro
Gondim, convidou os participantes do congresso para um almoço
no palácio. E eu fui. Aí quando fui entrando, o
guarda me proibiu. Disse: "O senhor não pode entrar,
não". Aí eu disse: "Por quê?"
"Porque está sem gravata." Aí digo: "Veja
como são as coisas. Esta é a segunda vez que estou
entrando neste palácio. A primeira vez entrei nu e ninguém
reclamou. E agora, só por causa de uma simples gravata...".
Aí, o guarda ficou espantado, olhando pra mim. Então,
o doutor Pedro Gondim disse: "Não, ele nasceu aqui,
por isso está dizendo que entrou nu". E realmente
entrei nu, porque todos nascemos nus, não é?
Marco Bahé - A relação com a família
como era? Você tem muitos irmãos, não é?
Tenho. Sou o penúltimo de uma família de nove. Mas
na família de meu pai não éramos considerados
uma família grande, não, porque um irmão
dele deixou dezesseis filhos e um outro deixou 25. A contagem
nossa foi até modesta. E consegui para meus netos uma coisa
que acho que eles vão me ser muito gratos. A mim e aos
pais deles. Porque a minha casa, essa casa aqui, tinha um terreno
muito grande, ia até a outra rua. Então, no quintal,
três filhas construíram casas. De maneira que a minha
casa ficou cheia de netos, aqui estão convivendo atualmente
onze netos.
Diana Moura - Isso não lhe atrapalha, não,
para escrever o romance?
Não atrapalha nada. Em primeiro lugar, quem atrapalha são
os jornalistas. Não, não, estou brincando! Mas,
viu, eles não atrapalham, não. Já se habituaram
e respeitam a hora que trabalho. Eu mesmo já me habituei.
Me incomodo com barulho. Se você ligar um rádio ou
uma televisão não escrevo mais nada, mas barulho
de menino não me incomodo, não. A não ser
que seja briga, ou choro causado por queda, aí me incomodo,
mas aí está no normal. Além de escritor,
sou antes de tudo avô e pai.
Diana Moura - Você costuma trabalhar ouvindo alguma
música, que seja de sua escolha?
Não gosto, não. Gosto muito de música, e
a música me solicita. Não sei botar uma música
pra ficar fazendo pano de fundo. Ou presto atenção
à música ou presto atenção ao que
estou escrevendo.
Mariana Camarotti - E, pra escrever, você tem algum
escritório?
Tenho, sim. É esse quarto aí.
Mariana Camarotti - Se isola?
É.
Trecho
2
Marco Bahé - O senhor falou da figura mítica que
seria seu pai. Essa relação com ele como foi, o
que ficou no final?
Diana Moura - Complementando, o que tem dessa história
na sua literatura?
Pensei por várias vezes fazer uma biografia do meu pai,
mas não tive condições emocionais, me machucava
tanto que deixei pra lá. Aí tentei fazer um longo
poema sobre ele. Porque a poesia dá um distanciamento maior.
Um longo poema sobre ele chamado "O Cantar do Potro Castanho".
Mas também não consegui. Mexeu muito comigo. De
novo abandonei. Aí deixei isso pra lá e em 1958
comecei a tomar as notas para o livro que depois foi o Romance
da Pedra do Reino. Escrevi várias versões, como
sempre faço. Tenho uma irmã, Germana, cujo gosto
eu confio muito. Uma das versões que eu terminei levei
pra ela. Eu não sei se alguém aqui já leu
Pedra do Reino.
Inácio França - Já procurei muito,
mas não encontrei.
É um pouco culpa minha. Lá existe uma cena, é
o seguinte: Quaderna tem uma admiração muito grande
pelo padrinho dele que se chama dom Pedro Sebastião Garcia
Barreto. Quaderna é o narrador da Pedra do Reino. Aí,
esse padrinho dele um dia se descobre que morreu dentro de um
quarto. Assassinado. Dentro de um quarto onde ele entrou e trancou
por dentro.
Miguel Falcão - Olha o romance policial aí...
Pronto, exatamente. Vocês sabem quem é um jovem,
quer dizer, pra mim é jovem, não sei pra vocês,
um jovem escritor paraibano chamado Bráulio Tavares? Gosto
demais de Bráulio. É um entusiasta do romance policial.
E escreveu um trabalho sobre a presença do romance policial
na Pedra do Reino. E ele diz lá que a situação
é uma situação emblemática do romance
policial, que é a morte e crimes em quartos fechados. Tem
uma parte do livro em que o juiz corregedor diz: "Mas não
ficou nenhuma pista dos possíveis assassinos?" Aí
Quaderna diz: "Ah, com pista é brincadeira!"
Com pista só se parecia com romancezinhos estrangeiros
bestas. Com o meu, as histórias não têm pistas.
Aí, ele disse: "Não tem pista nenhuma. Nem
vela dobrada, nem alfinete novo...". São dois livros
de Edgar Wallace e eu prestei homenagem: a pista do alfinete novo
e a pista da vela dobrada. A história foi a seguinte: o
assassino entrou, depois fechou a porta por fora e deixou a trava
de ferro com uma vela queimando, aí a vela foi queimando
e a trava fechou. Então, a única pista era essa
vela. Agora repare. O tio e padrinho de Quaderna, que é
o narrador da Pedra do Reino, é encontrado nesse quarto
fechado por dentro. Aí o camarada diz: "Mas não
foi suicídio?" O juiz diz: "A natureza dos ferimentos
afasta essa hipótese".
Miguel Falcão - E o crime fica sem solução?
Fica. Eu digo que vou decifrar, mas nunca terminei a Pedra do
Reino. Bom, quando eu dei a essa irmã para ler, ela olhou
pra mim e disse: "Ô, Ariano, você notou que isso
é a morte de João Dantas?" João Dantas
foi o assassino de João Pessoa, e morreu aqui na Detenção,
onde hoje é a Casa da Cultura. E vi que foi pelo fato de
João Dantas, primo legítimo da minha mãe,
ter matado João Pessoa que assassinaram meu pai. Então
veja, sem eu querer, foi uma coisa subconsciente, eu tinha colocado
a morte de João Dantas na Pedra do Reino. Quer dizer, a
Pedra do Reino era uma maneira ficcional de eu contar os acontecimentos
de 1930.
Trecho
3
Mariana Camarotti - Quando e como você começou a
escrever?
Comecei a escrever com 12 anos. Escrevi um conto. Um conto horroroso.
Meus irmãos até brincavam comigo - e era verdade
porque comecei mesmo no teatro a escrever tragédia, só
passei a escrever comédia a partir de 1951 -, meus irmãos
então diziam que no meu teatro morriam todas as personagens.
Eu tinha escrito uma peça e só escapava um. E ele
dizia: "Suicido-me por solidão!" Aí fui
prestar atenção e até nas minhas comédias,
na mais conhecida, o Auto da Compadecida, morre todo mundo.
Mariana Camarotti - Metade da peça se passa no
céu.
Eles diziam que era quando eu não sabia o que fazer...
Marco Bahé - Quando você se sentiu escritor?
Escrevi esse primeiro conto, depois escrevi poemas. Aos 17 anos
tentei escrever uma peça. Havia um médico de Taperoá,
muito culto, chamado Abdias Campos, e ele tinha as peças
de Ibsen. Me emprestou e me impressionei profundamente com as
peças de Ibsen. Tentei escrever aos 17 anos uma peça
sob influência de Ibsen. Mas, como você bem pode imaginar,
havia uma diferença muito grande do menino sertanejo...
porque o sertão tem muito pouca coisa em comum com a Noruega,
não é? Então, não sei se por causa
disso, não consegui terminar a peça.
Diana Moura - Não matou ninguém...
Não matei ninguém. Aí, continuei a escrever
poemas e, aos 18 anos, no colégio, tive um professor de
geografia que era interessado em literatura. Quando foi um dia,
ele passou uma prova lá e eu não estava preparado...
aí taquei literatura. Era uma prova sobre aspectos do relevo
brasileiro. Eu falei sobre Drummond, Aleijadinho, falei o diabo,
só não falei do relevo. Me lembro que tinha alguns
nomes como o rio São Francisco, o rio Amazonas, Planalto
Central e as coxilhas do Rio Grande do Sul... Então ele
foi entregando as provas e disse: "Essa aqui eu deixei pro
fim porque quero conhecer o autor, que pode não ser bom
em geografia, mas gosta de literatura". Eu disse: "Fui
eu". Aí ele pergunta se eu gosto de literatura e se
escrevo. Aí eu digo: "Escrevo". "Escreve
o quê?" "Escrevo poesia." Ele disse: "Me
traga um poema". Aí, na aula seguinte eu levei. Ele
pegou e disse: "Você pode me emprestar?" Eu digo:
"Posso". Rapaz, ele me fez uma surpresa... que alegria!
Quando foi no domingo, abri o Jornal do Commercio, estava publicado.
Foi em 7 de outubro de 1945. A partir daí, passei a publicar
lá. Aos 19 anos entrei para a Faculdade de Direito e conheci
Hermilo Borba Filho, que exerceu uma influência muito grande
em mim na parte de teatro. Ele leu meus poemas, que já
eram ligados ao romanceiro popular do Nordeste, e disse: "Você
precisa conhecer o teatro de García Lorca". E me colocou
nas mãos o teatro de García Lorca. E esse, sim,
desempenhou um papel muito importante na minha formação
de escritor, porque a região que ele descrevia parecia
com a minha, não é? Tinha cavalo, tinha boi, tinha
cigano do mesmo jeito que Taperoá. Muito diferente da Noruega...
Diana Moura - Qual o seu conceito de identidade cultural
brasileira?
Uma vez, eu discutindo com um professor aqui da universidade,
eu era professor de história da cultura brasileira e ele
queria mudar o nome da matéria que eu ensinava, porque
dizia que não existia cultura brasileira. Ele dizia: "A
cultura brasileira é apenas um episódio da cultura
ocidental, deveria ser história da cultura no Brasil".
Aí eu disse: "Olhe, que a cultura brasileira é
um episódio da cultura ocidental eu sei, estou de acordo.
Mas isso não quer dizer que não exista a cultura
brasileira. E vou lhe provar. Do mesmo jeito, a cultura espanhola
é um episódio da cultura ocidental, mas existe cultura
espanhola. Você ouve uma música espanhola e sabe
imediatamente que é espanhola. Quanto mais García
Lorca ou Cervantes, não é?" Quer dizer, o romanceiro
cigano, de García Lorca, só poderia ser escrito
na Espanha. Toda obra, para ser internacional, é local.
Mais do que nacional, ela é local, queira a pessoa ou não
queira, porque ela vai ter a marca da sua terra, o seu lugar de
origem. Então, quando García Lorca diz "Mi
soledad sin descanso! Ojos chicos de mi cuerpo / y grandes de
mi caballo / No se cierran por la noche/ Ni miran al otro lado/
donde se aleja tranquilo/ Un sueño de trece barcos...",
isso só podia ser escrito na Espanha, em lugar mais nenhum.
Então, quando você vê um poema meu, brasileiro
que se criou no sertão e mora no Recife...
Trecho
4
Mariana Camarotti - Não dá pra lhe entrevistar sem
falar do Movimento Armorial, de onde surgiu essa linguagem escrita,
pintada, cantada, dançada...
Como esse universo é ligado muito ao universo
do romanceiro, então fiz uma ligação com
o universo do folheto tanto da parte literária quanto da
parte pintada. É por isso que tem alguma coisa da gravura
popular. Outro dado da minha paixão pelo Brasil literário
e pelo Nordeste em particular é que comecei imediatamente
a me rebelar porque li num cartaz numa exposição
realizada em São Paulo que tinha assim: "Arte do Brasil".
Eles são adeptos da mesma idéia daquele professor
universitário, não existe arte brasileira, existe
arte do Brasil. Então dizia: "Arte do Brasil, uma
história de cinco séculos". Quer dizer, só
começou a arte quando os portugueses chegaram. Aí
eu digo, peraí, e a arte indígena, o teatro, a dança,
a cultura indígena? E comecei a me interessar pela cultura
rupestre. Se você olhar a Pedra do Reino, tem desenho baseado
na pintura rupestre. E muitos desses desenhos que você vê
aí são baseados na pintura rupestre. Quer dizer
que comecei a integrar no universo brasileiro essa pintura de
muitos anos antes de Cristo. As pessoas pensam que só me
interesso pela cultura ibérica, hoje mesmo recebi um recorte
do jornal Le Monde dizendo que só me interesso pela cultura
ibérica. Falo da importância da cultura ibérica,
mas falo também da japonesa. Gosto muito do cinema japonês,
acho que tem muito a ver com a gente. Agora, então, o Movimento
Armorial tinha duas preocupações. Em primeiro lugar,
lutar contra o processo de descaracterização e vulgarização
da cultura brasileira. Em segundo lugar, procurar uma arte erudita
brasileira baseada nas raízes populares da nossa cultura.
Era esse o programa do Movimento Armorial.
Mariana Camarotti - E o Movimento cumpriu esse papel
ou ainda falta muito?
Oxente! E eu é que vou dizer, é? Eu sou suspeito.
É melhor vocês dizerem. Acho que ajudei muito, que
ajudou muito. Veja bem, não tenho mania de grandeza, não,
mas isso que chamam a cena musical pernambucana moderna nasceu
com o Quinteto Armorial, não foi? Então, não
é à toa que Antônio Nóbrega tocava
rabeca e Siba toca também. Siba é do Mestre Ambrósio,
não é? Isso foi uma vitória do Movimento
Armorial, chamar a atenção para esse tipo de música.
A MPB brasileira era uma música feita não pelo povo,
mas pela classe média, não é? Os grandes
nomes da MPB são todos da classe média como nós.
Agora, chamar a atenção para os tocadores de rabeca
e de viola, quem chamou foi o Movimento Armorial.
Diana Moura - É possível viver nas grandes
cidades brasileiras e não se deixar influenciar por esse
bombardeio de referências da cultura de massa, e esse esforço
de não se influenciar pode gerar a cristalização
de uma cultura que se chama assim, folclórica, tipo maracatu
cristalizado, aquele caboclinho cristalizado, etc?
Eu não quero cristalizar coisa nenhuma e nem que eu quisesse
não se cristaliza não, porque a arte popular é
profundamente dinâmica. Juro que não faço
esforço nenhum para não ser influenciado, só
deixo me influenciar o que eu quero. Tem uma frase de Thomas Mann
que me tocou profundamente. Ele disse: ninguém pode sofrer
influência daquilo que lhe é estranho, que lhe é
alheio. Você só vai se influenciar por uma coisa
que você já tem dentro de si e que talvez você
não soubesse que ia se revelar. A arte popular é
profundamente dinâmica, é formidável nela
a capacidade de absorver elementos estranhos. Dou sempre esse
exemplo: quando o homem chegou à Lua pela primeira vez
eu não vi nada que se aproveitasse. Quando menino vi um
seriado chamado Flash Gordon no Planeta Mongo, que me deu muito
mais sensação de conquista do espaço do que
aquela porcaria. É um negócio feio, rapaz, horrível,
a roupa dos astronautas era horrorosa, uns sapatos de chumbo,
e eles andando tudo assim, com medo da falta de gravidade... um
negócio feio, desgraçado. Flash Gordon era 10 mil
vezes melhor. E a literatura que saiu? Nunca vi coisa pior não,
no mundo todo. Chegavam os jornais, aquela idiotice... Pois bem,
a única coisa boa que eu vi foi de um folhetista chamado
José Soares, que se assinava poeta-repórter. Ele
fez uma descrição - taí, isso é que
é a lição que os nossos artistas de classe
média deviam pegar, porque não há coisa mais
feia do que uma roupa de astronauta. E a descrição
dele da roupa era boa porque ele descreveu nos termos da cultura
dele. Era como se estivesse descrevendo uma roupa de vaqueiro
e de cangaceiro. Veja que coisa bonita, ele disse assim: "Os
astronautas trajavam calça, culote e colete/ No guarda-peito
de aço..." - guarda-peito é uma peça
do vaqueiro, não é verdade? Então "Os
astronautas trajavam calça, culote e colete/ No guarda-peito
de aço/ desenhado um ramalhete/ E cada um com uma estrela
de prata no capacete." A gente vê logo o chapéu
do cangaceiro. Foi a única coisa boa que eu vi. Outro dia
perguntaram a mim: "Mas você quer manter os cantadores
numa redoma?" "Eu não disse isso não."
"Mas você não acha que é bom pra eles
ver televisão?" Eu digo: "É. Televisão
eu vejo também. Agora, é preciso olhar com um olhar
crítico. Filtrar, saber o que pega dali e o que não
pega, porque se eles forem pegar eles se lascam, vão terminar
é fazendo Robocop, não é?"
Inácio França - Eu queria voltar à
universidade. Como surgiu a idéia da aula-espetáculo?
Quando fui seu aluno, era uma ampliação do seu universo
de sala de aula e o senhor ganhou o Brasil todo com um público
universitário como se fossem seus alunos.
Quando completei 70 anos, o Jornal do Commercio fez um caderno
e uma professora universitária chamada Nely Carvalho disse
que eu, na universidade, já dava aula-espetáculo.
Mas comecei a dar as aulas-espetáculo como programa quando
me tornei secretário.
Inácio França - E a aula-espetáculo
virou uma marca sua, não é?
Pela importância para a cultura brasileira.
Inácio
França - Em meio a um bombardeio de informações,
o que leva os estudantes a lotarem as suas aulas-espetáculo?
É porque eu falo a verdade. E eles sabem que não
estou mentindo. Eles podem até discordar, mas sabem que
aquilo é aquilo. Acho que a primeira coisa que faz os estudantes
não terem raiva de mim é isso. Eles já estão
cansados de ver velho mentindo.
Miguel Falcão - Qual o palpite para o jogo de
hoje, Sport e Atlético?
Ah, eu vou lhe contar uma história de Capiba. Capiba era
torcedor do Santa Cruz e era meu amigo demais. E o único
dia que a gente se estremeceu foi por causa de futebol. Foi uma
coisa até engraçada porque o Santa Cruz tinha ganho
o título chamado "supercampeonato" e de repente
ele fez uma provocação.
Os desenhos de Suassuna são inspirados no cancioneiro popular,
na cultura do sertão. Eles ilustram um poema para sua mulher,
Zélia.
Porque era assim, ele me respeitava, eu respeitava a ele, nós
éramos adversários, mas aí perdi a paciência
e disse a ele que supercampeonato era um campeonato ganho apenas
com mais dificuldade. E era mesmo. Aí não prestou,
não. Ele zangou-se, saiu daqui de casa e foi pra casa dele.
Aí eu disse, mas é danado, eu arengar com Capiba
por causa de besteira de futebol... Aí peguei um táxi
e fui parar na casa dele pra pedir desculpa. Quando cheguei lá,
ele tinha vindo pra cá pra pedir desculpa. Mas ele tem
uma história ótima. Ia ter um grande jogo do Santa
Cruz no domingo e, na sexta-feira, um repórter esportivo
do jornal telefonou pra ele, entrevistou ele como torcedor, perguntou
sobre o jogo, sobre isso e aquilo... aí perguntou: "Capiba,
e qual vai ser o placar?" Aí ele disse: "Me telefone
segunda-feira que eu lhe digo...
"Samarone Lima - Uma vez, li no Diario de Pernambuco
que surgiu uma grande obra de Brennand ali no Centro, sobre a
Batalha dos Guararapes, e ele disse que a obra que ele queria
que ficasse para a lembrança dele era aquela. Qual você
gostaria que ficasse, qual seria a sua grande obra?
A próxima... Estou brincando. Olhe, se eu tivesse que escolher,
escolheria a Pedra do Reino, porque foi onde percebi uma definição
mais aproximada do meu universo. Mas, se Deus quiser, vou acabar
esse. E aí, se eu terminar, vai ser esse. Quero dar o máximo
de mim e, pra isso, preciso de tempo.
Obras
Teatro
Uma Mulher Vestida de Sol, 1947
Cantam as Harpas de Sião ou O Desertor e a Princesa, 1948
Os Homens de Barro, 1949
Auto de João da Cruz, 1950
Torturas de um Coração, 1951
O Arco Desolado, 1952
O Castigo da Soberba, 1953
O Rico Avarento, 1954
O Auto da Compadecida, 1955
O Casamento Suspeitoso, 1957
O Santo e a Porca, 1957
O Homem da Vaca e o Poder da Fortuna, 1958
A Pena e a Lei, 1959
Farsa da Boa Preguiça, 1960
A Caseira e a Catarina, 1962
As Conchamblanças de Quaderna, 1987
Prosa de Ficção
A História do Amor de Fernando e Isaura, 1956
O Sedutor do Sertão, 1962
Romance d'A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta,
1971
Histórias d'O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão:
ao Sol da Onça Caetana, 1976
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