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A
conversa foi longa, e podia ser muito mais. A platéia,
quer dizer, os entrevistadores ficou para usar o adjetivo
justo embevecida. Paulo Mendes da Rocha é o retrato
do arquiteto, o artista, aquele que une à técnica
uma visão cósmica, espiritual, política do
homem. E ele consegue expor esse pensamento com outra virtude
humana indispensável: o humor, e colocações
desconcertantes como a do título abaixo..
Sérgio de Souza - Dizem que o senhor gosta de ser chamado
de Paulinho, então, aproveitando o diminutivo carinhoso,
pediria que falasse da sua infância porque sempre procuramos
começar pela história do entrevistado.
Paulo Mendes da Rocha - A minha infância sempre foi muito
rica, devo a ela a minha formação. Hoje sei disso,
mas é uma coisa da qual você não tem consciência
logo, pouco a pouco a infância surge com muita força
na vida da gente. Nasci lá no Espírito Santo, na
cidade de Vitória, que é um porto de mar, na casa
da minha avó, mãe da minha mãe, casa do meu
avô Serafim Derenzi, um construtor de estradas. Era uma
família de dois homens e oito mulheres. Essas irmãs
da minha mãe casaram e a família expandiu de aventuras,
digamos assim, de notícias. Havia fazendeiros de cacau
e havia um tio médico que teve uma importância muito
grande na minha vida, um homem notável, um verdadeiro cientista.
Só pra você ter idéia, ele ensinava a gente
a empalhar. Uma vez, peguei um peixe extraordinário, um
baiacu de espinho, aquele maiorzão, de dois palmos, que
tem uns espinhos que só aparecem quando ele é ameaçado,
como o porco-espinho. Trouxemos pra casa e esse tio explicou uma
série de coisas sobre aquele fenômeno biológico
incrível, aquele peixe meio monstro, e nos fez empalhar
o peixe, ensinava como fazer aquilo. E meu pai era um grande engenheiro,
de família baiana, formado no Rio de Janeiro. Portanto,
fui criado vendo a engenhosidade do mundo, a possibilidade de
transformação das coisas de uma maneira hoje
eu compreendo que alimentou a minha visão sobre
a idéia de projeção, a relação
entre idéia e coisa, você pode fazer coisas
extraordinárias, um porto, um navio. Isso, em poucas
palavras, foi a minha infância. E vivi coisas extraordinárias.
Inclusive vivi coisas da história do Brasil necessariamente,
porque nasci em 1928 a crise de 1929, a revolução
em São Paulo em 1932. Meu pai foi preso aqui em 1932, estivemos
afastados quase cinco anos...
Mylton Severiano - Que posição ele tinha em 1932
para ser preso?
Paulo Mendes da Rocha - Em Vitória, ele ganhou um dinheirinho
com obras que foi fazendo, arranjou um sócio e fez uma
empresa exportadora de café, que na época era o
grande produto de exportação, mas perdeu tudo em
1929. Então foi para o Rio de Janeiro com a minha mãe,
eu e uma irmãzinha, para a casa do pai dele, que era, sabe
onde? Na ilha de Paquetá, na chamada Chácara das
Rosas, na frente da pedra da Moreninha, casa do meu avô,
Francisco Mendes da Rocha, militar, proclamou a República,
foi diretor da Biblioteca Nacional. Há ainda umas fotos
antigas, incríveis, de nós lá. Bom, a vida
piorou mais ainda e a minha mãe acho que não agüentou
essa família do meu pai com oito mulheres também,
voltou pra casa do pai dela e ele foi, como se diz em história,
correr mundo, e veio pra São Paulo, se enfiou
na revolução com os engenheiros colegas dele no
IPT, que eles inventaram coisas, até granadas. Meu pai
inventou uma autoclave de campanha. Acabou preso. Depois de 1932
ficamos anos sem nos ver, minha mãe foi presa em Vitória.
Mylton Severiano - Então ele estava contra o Getúlio?
Paulo Mendes da Rocha - É. Minha mãe foi presa lá
em Vitória pra dizer onde ele estava, mas ela mesmo não
sabia. Depois, o Getúlio venceu, pôs interventores
nos Estados, lá pôs um capitão do Exército,
capitão Bley até me lembro porque uma tia
minha costurava para a madame Bley, que era a primeira-dama do
Espírito Santo. Não sei se não levei uns
vestidinhos embrulhados em papel de seda com alfinete, que os
meninos faziam isso para as tias, né? Então vivi
muito assim. Meu pai enfrentou aquelas dificuldades todas, até
que um dia mandou nos chamar porque arranjou aqui alguma coisa
e viemos, nem foi buscar. Chegamos num trem da Central do Brasil,
na estação o trem entrava devagarinho e minha mãe,
eu e minha irmã, assim, na janela, eu vi um cidadão
com um chapeuzinho, minha mãe falou: Ó lá
seu pai. E viemos morar em pensão, imagina você.
A primeira, muito mambembe, na Liberdade, na rua da Liberdade,
depois ele melhorou se eu quisesse contar de outra maneira,
podia dizer: Vim morar na avenida Paulista ,
fomos para uma pensão da avenida Paulista de umas senhoras
espanholas que tinham fugido da Espanha. Lembrei delas porque
elas assinavam uma revista espanhola e eu acompanhei, como menino
de o que eu teria aí? 6 anos, a Revolução
de 1934 ou o preâmbulo daquilo na Espanha, lendo uma revista
que esqueci o nome, mas uma revista reacionária. E aí
entrei em colégios aqui em São Paulo e nunca mais
saímos daqui, meu pai fez concurso para a Escola Politécnica,
tornou-se professor da Escola Politécnica, muito querido,
muito ilustre, sempre trabalhou no serviço público.
Na Secretaria de Viação e Obras Públicas,
construiu o aeroporto de Congonhas, comandou todo o processo da
bacia Paraná-Uruguai, Urubupungá, Ilha Solteira,
grandes barragens no Brasil, no governo paulista de Lucas Nogueira
Garcez, que também era professor, da cadeira de hidráulica,
na Politécnica. Era a turma das águas,
que foi a especialidade do meu pai, ele tinha uma cadeira que
não existe mais, mas vale a pena dizer o nome da época
porque é uma maravilha, chamava-se navegação
interior, portos, rios e canais. Ele recebia material da França
e eu via aquilo tudo, aquelas gravuras com paixão; ele
tinha relações com a Holanda, com a Inglaterra,
com o pessoal das águas no mundo, e a minha formação
devo muito a isso. Quer dizer, sou um arquiteto que acredita na
técnica, na capacidade do homem de transformar a natureza,
essa é a memória de infância que tenho.
Sérgio de Souza - E o seu pai era comunista?
Paulo Mendes da Rocha - Acredito que não, nunca foi do
Partido Comunista. Eu é que fui cassado pelo AI-5 enquanto
uma pessoa de esquerda, porque, como todo estudante dessa época
e com toda a generosidade da nossa presença no universo,
tinha de ser de esquerda, digamos, desde o tempo de estudante.
Depois me formei no Mackenzie, não sei se tinha uma certa
prevenção contra a posição mais impostada
do ensino universitário, esses homens usavam beca. Inclusive,
estudei no Mackenzie por razões de colegas, coisas assim,
sempre fui um pouco relaxado, era muito atento, mas não
era muito estudioso. Bom, mas isso não interessa, estou
falando demais, você perguntou sobre a minha infância,
estou exagerando, aí já sou adolescente...
Mylton Severiano - Quando você entrou no Mackenzie já
existia esse tipo de posicionamento político dos estudantes,
existia a UNE, um diretório que protestava?
Paulo Mendes da Rocha - Sem dúvida. A minha esquerda, que
é pública, num certo sentido foi muito bem estruturada
como pensamento e visão. Dois anos depois de formado, 1959,
1960, fui convidado pelo João Batista Villanova Artigas,
um dos maiores arquitetos do país Afonso Eduardo
Reis, Oscar Niemeyer e Artigas são os três arquitetos
responsáveis pela formação de nós
todos, pelo menos até hoje...
Guto Lacaz - Por que que o Rino Levi não entra nesse
grupo?
Paulo Mendes da Rocha - Porque concentrei, digamos assim, nas
minhas emoções mais fortes. Nunca me emocionei com
as coisas do Rino Levi, a não ser mais tarde, quando comecei
a compreender em mais profundidade certos valores que estão
um pouco mais escondidos do que nas resoluções mais
evidentes de problemas de arquitetura. Mas, para não perder
o fio do que eu vinha dizendo depois vamos falar do Rino
Levi , o Artigas era uma liderança do Partido Comunista,
um grande intelectual e um magnífico professor, portanto
uma abertura com clareza para a questão crítica,
principalmente para quem fazia arquitetura, e eu já ganhava
a vida com isso, era a minha profissão. A dimensão
crítica materialista, dialética, marxista, sobre
a nossa existência é um esclarecimento absolutamente
extraordinário quanto à visão de deslocar
do plano do mistério aquilo que é fruto da observação
e do trabalho. Ou seja, nós somos a natureza, somos responsáveis
pela nossa existência. Somos, os vivos, ao mesmo tempo a
totalidade da história e do conhecimento. Imagine isso
como uma espécie de aula final logo depois de formado.
Então, vi de perto coisas, não que eu tenha aprendido,
essa é que é a dimensão magnífica
de ver a vida. Você vê com uma limpidez emocionante,
monumental, o que você já sabia, porque o espanto
não serve para nada. Não sei se não é
por isso que me detive tanto em alguns aspectos da minha infância
sobre a questão do porto, da engenharia, de confiar na
transformação é porque eis que um
raciocínio límpido e claro confirma tudo isso, como
quem diz: São coisas da nossa mente. A formação
da consciência e da linguagem, eis a razão da nossa
existência, essa concomitância, eu sei e te aviso,
você fala com o outro: invenção da linguagem.
Portanto, arquitetura passou a ser para mim, mais uma vez
não pela primeira vez , algo que compreendi porque
ela tinha esse poder de comunicação. A arquitetura
como discurso não é uma coisa que você pode
aprender e repetir. Ela é, em si, uma das formas mais comoventes
do discurso humano, porque se refere às instalações
humanas no planeta. A arquitetura como fato isolado, aquele ou
esse edifício, não tem a importância que se
costuma dar a ela no âmbito da propaganda. Que é
o produto para vender, então o produto onde estiver é
bom. Não. Um prédio mal colocado, apesar de ser
o prédio em si uma maravilha, o prédio vertical,
a mecânica do solo, a mecânica do comportamento dos
materiais, os elevadores, a mecânica dos fluidos
abrir uma torneira e lavar a roupa no vigésimo andar
é uma suprema maravilha. Entretanto essa maravilha pode
se tornar instrumento de destruição da cidade se
você faz dela um estafermo isolado, tido como ideal, e a
põe indevidamente no meio do caminho de passagem.
Carolina Arantes - Nesse sentido, São Paulo é caótica
ou não?
Paulo Mendes da Rocha - São Paulo é e não
tem nada de fenômeno urbano, ela metodicamente se torna
horrível pela especulação imobiliária,
pela exploração de tudo isso como mercadoria. Tudo
isso o quê? As virtudes da natureza. Você quer ver
uma evidente virtude da natureza destruída pelo mercado
e tida entre nós como supremo bem? O que a Light fez em
São Paulo. Construir uma barragem hidrelétrica de
700 metros sobre o mar, sugar a água do Tietê através
do Pinheiros, inverter tudo, jogar essa água lá
pra baixo para produzir 800.000 quilowatts é uma besteira
que não tem tamanho. Nós nunca faríamos isso.
Não se produz 1 quilowatt com uma água que não
seja para beber depois, porque senão é perder a
virtude da água. A graça é dizer que essa
água que você está bebendo já foi a
luzinha ou vai ser a luzinha de amanhã e a mesma
se joga no mar! Depois, essa Light botou um bonde, fez a linha
ir para os arrabaldes, que não valiam nada, comprou tudo,
loteou e vendeu esses bairros horríveis que se dizem exclusivamente
residenciais. Como se você pudesse exclusivamente residir.
O senhor está fazendo o quê? Estou
residindo... Não tem sentido nenhum. E a Light ainda
foi vendida para nós e disse que devemos a ela o desenvolvimento
de São Paulo. Urubupungá tem 6 milhões de
quilowatts, uma barragem de 800.000 quilowatts é o mínimo
que se pode fazer, jogando água fora, ainda por cima! Isso
eles não fazem no país deles, os canadenses, os
americanos, os ingleses. Portanto, somos uma conseqüência
dessa visão predadora do nosso território, que vem
desde a mentalidade colonial, e devíamos ser a suprema
crítica contemporânea sobre essas questões.
Mylton Severiano - Os arquitetos?
Paulo Mendes da Rocha - Nós, os americanos, porque temos
a peculiar experiência. É engraçada a história
dos americanos. Sou italiano por parte de mãe, sou baiano
por parte de pai, sou negro possivelmente, portanto não
é uma raça brasileira, somos um grupo que tem a
obrigação de ter uma reflexão peculiar, uma
experiência peculiar de inaugurar a questão do hábitat
humano num território em que estava uma população
pequena que foi destruída pelo colonialismo. Essa visão
crítica entre nós é indispensável.
Uma revisão crítica capaz de criar expectativas
de esperança e futuro, existir um peculiar traço
de uma experiência interessante quanto à ocupação
de território. O que se diz é o seguinte: uma cidade
existe antes que a construam, é um desejo nosso, e ela
é vista antes como se nós aqui, um grupo, estivéssemos
procurando um lugar aconteceu tantas vezes em grupos humanos
, e suponha que chegássemos por terra, não
sei de que modo, no Outeiro da Glória, no Rio de Janeiro.
Com certeza, iríamos parar e dizer assim: Vamos ficar
por aqui. Ali faremos o porto; lá embaixo tem muita inundação,
muito pernilongo, vamos morar um pouquinho nesse outeiro, aqui
as casas etc. etc.. Inclusive, você enfrenta uma adversidade
que não havia, que você cria. Os problemas nós
é que criamos. Se é boa a baía porque abriga
os navios, entretanto a terra ali não serve para habitar,
porque são baixios, mangues, vou ter que fazer uma muralha
de cais, aterrar esse baixio, construir novos territórios
e uma nova conformação geográfica. O Rio
de Janeiro é uma cidade que descreve com muita clareza
as virtudes dessa transformação, por exemplo, depois
que abriram a avenida Rio Branco. Sobrou um morrinho lá,
que é o famoso morro do Castelo, raro no Rio de Janeiro
por não conter granito, era só terra, e ele dividia
ou tolhia a visão da entrada da baía. Pra frente,
era aquilo que já estava lá, a baía do Flamengo
e, logo adiante, a ilha de Villegaignon, a 1 quilômetro,
800 metros, onde já estava instalada a Escola Naval. Fizeram
uma obra notável no Rio de Janeiro: o desmonte hidráulico
do morro, quer dizer, a jato de água, como você desmantela
um formigueiro com a mangueira de jardim. A engenharia faz isso.
Estabelece a tubulação toda e desmonta o morro de
terra a jato de água, transforma em lama. Essa lama é
conduzida nessa tubulação e vai ser depositada num
certo lugar. Que lugar? Um retângulo perfeito, um tanque
construído com pedras adequadas para enfrentar o mar, dentro
da água, inundado de água, um enrocamento de pedras
arrebentadas a dinamite das pedreiras e adequadamente depositadas
no mar. Essa lama jogada lá dentro decanta, sedimenta a
terra e aquilo que ficou é o aeroporto Santos Dumont. Você
transforma o território, isso é que é arquitetura,
para mim, e não pequenas coisas, uma varandinha, nada disso
e os edifícios são instrumentos de realização
dessa cidade onde todos querem morar.
Wagner Nabuco - Dessa sua visão sobre pensar o território
brasileiro, quanto tem da visão do Darcy Ribeiro, no sentido
de que podemos construir aqui uma quase civilização
tropical, e quanto também da produção e do
pensamento do professor Milton Santos, no caso do território?
Paulo Mendes da Rocha - A história do gênero humano
é indizível, claro, mas, se quiséssemos conversar,
poderíamos pensar, por exemplo, num dilema da nossa condição
humana, entre tantos. Um deles é a questão de uma
separação, que pode ser convocada para refletir,
entre ciências naturais que é toda ciência,
física, astronomia, mecânica celeste e essa
preocupação com nossas origens, que se estabeleceu
que chamamos de ciências humanas. Justamente o que fica
para as realizações de caráter político,
o que vamos fazer, o modo humano de existir, obrigatoriamente
esses âmbitos de conhecimento têm de andar juntos,
você só pode realmente avançar quando raciocina
com uma totalidade. Isso é da nossa época, vivemos
isso, que foi posto pelos artistas, os supremos inventores de
como pensarmos. No caso, um homem de teatro, Durrenmatt, escreveu
Os Físicos, a questão da descoberta da energia,
do átomo, da constituição da matéria
e a bomba atômica. Ora, tínhamos que dizer que nenhum
cientista inventou uma bomba, eles morreram todos de desgosto,
digamos assim, é o que está decantado em Galileu
Galilei, do Brecht, em Os Físicos, do Durrenmatt. A idéia
não é fazer uma bomba, a idéia é não
resistir a especular e acabar sabendo que certos códigos
revelam que são partes, partículas materiais, que
a luz é pedaço de coisas, e que tudo isso se equilibra
por força desse certo universo, ou seja, que somos feitos
da mesma matéria da qual é feita a luz das estrelas,
não existe outra matéria no universo, quarks, elétrons,
nêutrons, ela produz um fígado ou uma fagulha de
estrelas. Portanto, não é que sejam verdades, são
códigos que vão dando certo, códigos matemáticos,
você reproduz e vê que aquilo é isso. Mas a
idéia é realizar a nossa existência no universo.
Márcio Carvalho - Isso não é uma visão
de Deus?
Paulo Mendes da Rocha Eu
não sei qual é a visão de Deus, quem me dera.
Márcio Carvalho - Se luz cria gente...
Paulo Mendes da Rocha - Se fosse, nós não saberíamos.
Só faltava uma mesa como essa, dez amigos se reunirem e
falarem: Ah! Essa é a visão de Deus!
Deus não existe, não pode existir. Você pode
chamar de Deus qualquer coisa que você queira, aí
que entram o Milton Santos e o Darcy Ribeiro, principalmente o
Milton Santos enquanto geógrafo, um cientista, o que ele
disse da geografia é de uma dimensão humana incrível.
E o Darcy, um humanista mas com uma visão de ciência,
enquanto antropólogo, enorme, e tanto um como outro mostraram
a possibilidade de fazermos alguma coisa no sentido de corrigir
a rota do desastre, porque ela está aí. Nós
trabalhamos com erros e acertos, naturalmente com a esperança
de que é possível corrigir a rota do desastre. Portanto,
a arquitetura, o território, o lugar onde estamos é
muito importante, é fabricar o lugar de morar. O que é
uma disposição espacial e por que a vontade disso
tudo? Você não pode dizer que aquela turma de Copacabana,
aqueles meninos de praia foram obrigados a morar ali. Aquilo é
realização de um desejo que se tornou um mercado
fértil e os prédios foram feitos daquela maneira
horrível não há planejamento. Principalmente,
um erro fácil de compreender: que virtude é você
pôr todo mundo ali? Os meninos todos querem tomar banho
de mar, aquelas casinhas não resolvem nada, então
vamos juntar a turma toda ali. Cada edifício desse, tido
em princípio como uma maravilha em si, se você coloca
cada um em cima da casinha que havia antes, ou seja, na matriz
original daquele loteamento, só pode acontecer um desastre.
Já numa superquadra de Brasília é melhor,
porque, se você pega dez casinhas, mais dez... põe
tudo em dez andares, quatro apartamentos por andar, um predinho
de 20 por 20, 400 metros quadrados, dividido por quatro, 100 metros
para cada um. O que representam de território quarenta
casinhas? E o que é nesse território um predinho
só, com as mangueiras etc. etc.? Se você fizer casinhas
com jardim, nunca mais teremos uma mangueira, ou os jardins do
Burle Marx. Então, essa imaginação toda aparentemente
é só figurativa, formal e inconseqüente, de
um esteticismo que pode ser corrompido e deturpado como mercadoria:
Compre uma casa com jardim. Mas é um jardim
que só dá espada-de-são-jorge, se possível
enfileirada junto ao muro. Não dá uma mangueira.
Minhas jaqueiras, sapotizeiros, cajueiros da infância
que você perguntou , nunca mais.
João de Barros - Mas essa estética não
é incompatível com o mercado?
Paulo Mendes da Rocha - Não, o mercado é que é
incompatível com essa estética. O mercado como única
razão é que não presta. Se você tem
confiança no homem, pode dizer que o mercado não
existe por si. Podemos fazer um pacto: Do que nós
gostaríamos? De uma new left, quem sabe. A esperança
suprema é a consciência dos homens, o mercado não
pode construir o mundo.
Rafic Farah - Você não acha que a gente está
correndo o risco de ficar com saudade dos prédios de Copacabana
de hoje, do jeito que a gente tem saudade de quando o Rio de Janeiro
era horizontal, e plano e só tinham casas? Estamos correndo
risco de que essa rota do desastre continue avançando?
Paulo Mendes da Rocha - Se você tiver tempo pra ter saudade,
pode ser, mas acho que não vamos ter tempo pra ter saudade.
Eu nunca tive tempo pra ter saudade. Memória não
é saudade. A vida é curta.
Márcio Carvalho - Você falou que era de esquerda,
continua sendo?
Paulo Mendes da Rocha - Não sei se sou de esquerda, porque
essas presunções não adiantam muito. Prefiro
não ter um pensamento fechado sobre tudo isso, porque na
idéia de perspectiva, dessas indagações sobre
o futuro, é melhor não pensar só no Brasil
não vamos poder fazer nada sozinhos, muito menos
os arquitetos. Primeiro, você tem que procurar ter esperança,
senão não vive. E a esperança surge de uma
situação concreta: a formação de uma
consciência sobre essas questão de que somos a natureza,
de que tudo isso é um pequeno planeta que gira no universo,
que não vai ser sempre assim, é mutável,
e de que somos a população do planeta quando
falo em Brasil, como já falei América, não
é nenhuma idéia nacionalista, é o território
que conheço, mas o meu interesse é o planeta e o
gênero humano. Portanto, o que mais me interessa é
a solidariedade universal, ou seja, a universalização
dos problemas que parecem que só afligem a nós,
por exemplo, a miséria, ou o crescimento das cidades como
uma necessidade desejada. Você só consegue explorar
desejos autênticos da humanidade, por isso se explora o
edifício como mercadoria. Você não consegue
explorar nada que não seja realmente virtuoso. Essa idéia
de exploração, de especulação predatória
da condição humana feita a partir de virtudes é
que podíamos questionar de modo político para inverter
a rota do desastre. Quer ver uma coisa simples? Quem nega a virtude
de um avião? O avião levanta vôo do Galeão
para chegar em Londres, e lá dentro tem passageiros de
primeira classe e de segunda, como é possível? Um
sucesso entre categorias, todos chegamos em Londres... Eu cheguei
de primeira... E, se o avião cair, eu morri de primeira.
O que quero dizer é que freqüentamos já o supra-sumo
da ciência, deve ser cada vez mais fácil, para nós,
corrigir o que é desastre. Por exemplo, o transporte individual,
o automóvel na cidade. O automóvel já não
faz parte do desejo da cidade, engasga tudo. Outro dia fizeram
um cálculo estruturado do ponto de vista da técnica:
avaliar o prejuízo dos congestionamentos na cidade de São
Paulo. Dá mais de 2 bilhões de reais por ano de
prejuízo, contando o desperdício de combustível,
o tempo das pessoas, a ineficiência delas prisioneiras desse
troço etc. Ou seja, equivale a 150 quilômetros de
construção de metrô por ano. Voltando à
idéia de ciências humanas e ciências naturais,
não fica nem aqui nem ali, a formação da
consciência é uma totalidade, é a formação
de uma mentalidade educação é a questão
fundamental. Acho que nossas crianças têm um regime
escolar extremamente atrasado, que mistifica o conhecimento e
cria para o conhecimento uma idéia de barreiras que você
tem que transpor, quando o conhecimento é virtude pura.
É tudo malfeito, as escolas não possuem laboratórios.
Ninguém resiste a uma demonstração de fenômenos
de hidrologia, mecânica dos fluidos, coisas assim tão
simples...
Rafic Farah - Que são maravilhosos e despertam uma curiosidade
incrível.
Paulo Mendes da Rocha - Fiz uma escolinha, é pré-escola,
em São Bernardo do Campo. Entre outras coisas, metade do
edifício é todo em rampa porque serve para
teatro, e as águas pluviais da cobertura caem na parte
mais alta e descem por essa rampa, dentro da escola, num córrego,
e quando chove você pode fazer um moinho, ou botar um barco
que corre, ou uma roda que gira. Com essa visão fenomenológica
do mundo, você vê que o mundo não é
um dado dado, é um dado transformado. A natureza é
uma droga, não serve para nada, é um trambolho.
Ela só serve transformada pelas nossas mãos. Somos
muito engenhosos e temos que ter consciência dessa engenhosidade,
não achar que tudo está feito, que é assim
mesmo, que eu vou desfrutar e vou ter saudades da casinha. Não
pode ter saudades de nada. A experiência não deixa
saudades. Dá um ímpeto desgraçado para o
futuro. Você só pode ter saudades do futuro, o que
não há feito por nós é muito mais
do que o feito, portanto precisa ser muito tolo pra ter saudades
do que já viu.
Rafic Farah - Mas você vê alguma chance imediata de
a gente reverter o processo das cidades brasileiras?
Paulo Mendes da Rocha - Chance imediata? Não existe
essa figura.
Wagner Nabuco - Mas isso não significa vontade política?
Paulo Mendes da Rocha - Vontade política não é
propriamente uma chance imediata.
Wagner Nabuco - Na vontade política, pra que lado o
país vai? Vai pra Roseana? Vai pra onde?
Paulo Mendes da Rocha - Não sei se é oportuno falar
da eleição brasileira em termos de candidatos, porque
está sendo engendrado um processo que depende da votação
do povo e é melhor que se engendre esse processo. O que
podemos dizer desde já, com toda segurança, é
que vamos fazer tudo para não voltarem certas figuras que
estão ainda ou estavam até pouco tempo atrás
no apogeu da política brasileira: senadores, deputados,
figuras herdeiras da parte recente mais miserável pela
qual já passamos, que foi a ditadura militar. Se quiser
dizer nomes, pode dizer. Um homem posto pelo governo militar e
está aí mamando nas nossas tetas, nos nosso impostos,
como senador. Entretanto, o que se vê por aí é
que isso está desmoronando pouco a pouco, uma ação
do povo brasileiro. De modo democrático, queira ou não,
essas personalidades e os seus feitos, as suas mumunhas, muvucas
e matrocas têm que desmoronar de algum jeito diante da opinião
pública. A questão é tornar a opinião
instrumento público. Não adianta termos opiniões
fechadas, e não adianta berrar, não é isso
que torna nada público, esse carro enjoado amarelo-claro
que passa vendendo pamonha não está formando uma
opinião pública, portanto gritar asneira também
não adianta nada. Formar opinião pública
é formar uma força política, lá pelas
tantas, capaz de influir nos destinos do próximo governo.
Estamos nos encaminhando para uma eleição, portanto
uma opinião interessa se ela for frutificar. E, para deixar
que ela frutifique, às vezes é preciso regar, esperar
um pouco. Temos que construir isso, mesmo porque os movimentos
que têm uma origem mais comovente, mais legítima
podem degenerar também. Para mim, o grande perigo que corremos
nós, os brasileiros e latino-americanos é
a quebra da expectativa de construirmos a paz na América
Latina. O ingrediente fundamental para a nossa existência
é a paz, porque a desavença, a guerra, não
só como extermínio, mas como desajuste, fazem o
território passível de dominação e
colocar isso na América Latina é facílimo
com o pretexto da Amazônia, da mineração,
da droga na Colômbia, você intriga esse troço
aqui, jogando um país contra o outro. Estou convencido
de que a droga na Colômbia é mais ou menos posta
lá dentro para que possa haver essa dominação.
Tentaram isso em Cuba, dizendo que era passagem, houve episódios
terríveis recentes, mas Cuba se livrou disso.
Mylton Severiano - Eu gostei daquela história não
é nacionalismo, é o lugar onde eu moro, meu país.
Mas hoje ainda são Estados nacionais com governos que têm
as suas políticas. Então, retomando a pergunta sobre
para onde vai a política do Brasil...
Paulo Mendes da Rocha - Tenho a impressão de que o mundo
inteiro se interessa pela política do Brasil porque ela
é um por exemplo. A idéia de ações
exemplares interessa o mundo inteiro. Hoje, no quadro das nossas
cidades, por exemplo, esse crescimento que não é
feito por uma população que nasce e se desenvolve
nas cidades, mas que é uma espécie de realização
de um movimento no sentido da palavra moving de
populações que elegem a cidade como seu hábitat
de preferência, o possível, o único. O comércio,
hospitais, as escolas...
Rafic Farah - Diversão.
Paulo Mendes da Rocha - Diversão? Você quer diversão
maior do que estar vivo? Se você vê a cara de quem
dança certas danças populares que hoje são
muito filmadas, o bumba-meu-boi etc. o pessoal da televisão
descobriu isso , pequenos grupos não sei onde, a
cara deles não é de diversão. Tem um homem
que tem um boné, uma farda maluca azul e branca...
Rafic Farah - É um ritual.
Paulo Mendes da Rocha - Suam.
Dançam aquilo. É indispensável, mas não
é só uma diversão. Mesmo a gargalhada não
sei se é diversão, é um espasmo necessário.
Você não pode dizer que está se divertindo.
Já vi gente muito alegre chorar compulsivamente de prazer,
de emoção, beija o outro e chora e chora. E já
vi outro dar facada e rir, porque é um insano. Não
sou a favor da Disneylândia, em tese.
Sérgio de Souza - Acho que o Farah estava falando de
parques e espaços públicos.
Rafic Farah - Espaços de convivência mesmo.
Paulo Mendes da Rocha - A cidade por si é o lugar absoluto
para conviver. Havendo a cidade, você não precisa
destacar muito o que é praça, o que é parque.
O povo com sua ação inaugura o lugar.
Rafic Farah - Eu lembro muito aquela frase do Arnaldo Antunes:
A gente não quer só comida, a gente quer comida,
diversão e arte.
Paulo Mendes da Rocha - Só serve de instrumento de opressão
aquilo que era desejável e agora degenerado. Agora pegou
o verde. Se plantarem uma árvore no meio da
rua atrapalhando tudo, você não tira a árvore
porque depois vem um idiota qualquer e diz que não pode
tirar a árvore. É evidente que pode tirar a árvore,
deve plantar outra. Então, você perde a serra do
Mar, perde a Mata Atlântica, perde a Amazônia, mas
não perde o abacateiro que plantaram na esquina.
Wagner Nabuco - Você não acha polêmica essa
cultura? A Rede Globo vive fazendo campanhas de preservação
e ecologia. Nunca vi a Rede Globo entrar e falar: Vamos
aumentar o salário mínimo: apoio, Rede Globo.
Por que faz da ecologia e tal e não faz a do salário
mínimo?
Paulo Mendes da Rocha Porque, se você faz degenerar,
serve de instrumento de opressão. Praças enormes
e não sei o que, aí o pessoal fica lá na
praça e não sabe o que fazer, não é?
A minha idéia de dizer que a praça é do povo,
como o céu é do condor, é que ele ocupa a
praça quando quiser. Você não pode fazer uma
praça e dizer ao povo: a praça está à
sua disposição. Aí, ele passa três
dias sem aparecer na praça, você diz que o povo é
bobo. Os movimentos populares de São Paulo se deslocaram
para a avenida Paulista. O negócio é interromper
o trânsito ao fazer uma demonstração, não
é? É deixar o povo fazer. Como quem diz: pergunte
ao povo que ele sabe. Mas isso não quer dizer que você
tenha que perguntar com o microfone na mão. É outra
insídia. Você diz assim para o povo que não
tem casa: Você prefere morar num prédio de
apartamento ou numa casinha? Ele fala: Numa casinha.
Porque a mulher vai lavar roupa para fora, tem um tanque, o marido
é descendente de espanhol, monta lá umas vinte gaiolas
e cria coelhos. Ele está querendo sobreviver. Ele não
conhece as virtudes da cidade como um desenho possível
no sentido de desejo humano realizado plenamente, uma maravilha.
Então, essas coisas podem se tornar instrumentos de propaganda
malignos se não são discutidas. Você dizer
que faz bem cultivar o corpo porque é saúde, isso
e aquilo, você alimenta muito isso; quando perceber, está
enfiado num novo tipo de racismo nazista. O corpo pertence a nós
individualmente. Se não fizer mal ao outro, desde que não
seja moléstia transmissível ninguém tem nada
que ver com isso. Confiamos na consciência, ninguém
é bobo. É claro que sabemos da tragédia biológica
que somos carregar a mente num corpo que é um repolho.
A formação de uma consciência sobre isso,
possível, equilibrada, é difícil, não
nascemos humanos, nos tornamos humanos com grande dificuldade.
A idéia de escola é muito interessante de desenvolver,
o ensino deverá sofrer grandes transformações.
Mas eis que você tranca o ensino público, desfavorece
de verbas etc., procura torná-lo miserável e incompetente,
e incentiva o ensino pago, que virou um negócio da China.
Você aluga qualquer casa velha, pinta quatro listas, amarelo,
azul, vermelho e preto, na fachada, põe uma Mônica
ou um Pato Donald de isopor, escreve Centro de Educação
Infantil, diz para as crianças não gritarem,
para não incomodar os vizinhos, e enche a rua de automóvel,
porque as crianças são levadas em automóveis
particulares que param, engasga tudo, enfim, você está
educando um imbecil. Uma criança que vai para a escola
de automóvel só pode vir a ser um imbecil, porque
a grande escola é o caminho da escola. É o encontro
com os amigos. É transar figurinha na esquina no jogo do
abafa. A grande escola é a dimensão pública
da idéia de escola. É você sair da miséria
de uma pequena casa e ver, pela primeira vez, como se fazem, engendram
as coisas, as idéias em conjunto, em grupo entre seus pares.
Todo educador sabe disso e estamos nessa de desenvolver ensino
como negócio.
Guilherme Azevedo - Gostaria que você exemplificasse,
na sua experiência de arquiteto, a preocupação
com o público e o privado no espaço mesmo, que por
essência é público.
Paulo Mendes da Rocha - Eu podia dizer uma coisa que me põe
em perigo, que é o seguinte: o privado não existe.
Se é desejável, existirá, podemos fazer o
que quisermos, mas nem desejável é o estritamente
privado. Veja se não é verdade que o mais privado
que um de nós possa ter, e já tem de nascença,
é o próprio pensamento. E as palavras são
códigos humanos para exprimir o pensamento. E que coisa
eu vou fazer com essas idéias? E eis a questão política,
ideológica, o conjunto de idéias que deve alimentar
o nosso pensamento. No fundo, isso é uma ideologia, que
não é feita para ser cristalizada, ela se transforma
no tempo, a partir de um centro de idéias que, entre outras
coisas, daria no seguinte: todo conhecimento é patrimônio
universal. Ou pode-se tirar patente de uma descoberta? Isso é
uma estupidez. Portanto, a estupidez da especulação,
de modo geral, vai se mostrar na prática, vai se tornar
inviável, e acho que o mundo vai se esclarecer, o homem
vai pouco a pouco arrebentar essa estrutura, os conglomerados
que dominam o conhecimento, compram patentes, não faz sentido.
Rafic Farah - E o público e o privado?
Paulo Mendes da Rocha - Essa é uma questão mais
particular, porque tudo é público. A idéia
de espaço já envolve o público. Não
há espaço privado. O conceito de espaço contém
a dimensão pública, uma dimensão pública
de seja o que for. Você vê a casa da dona Zica, da
Mangueira, que fazia a feijoada. A casa dela se tornou pública.
Não há espaço privado, é público
se é espaço.
Rafic Farah - Esse negócio do público e privado,
não tem empresas que já são tão grandes...
Paulo Mendes da Rocha Tem,
sim, todo mundo sabe, tem empresas incríveis. Estamos falando
contra elas. Os grandes monopólios.
Rafic Farah - A coisa pública se deteriorou no Brasil
porque o Estado se tornou incompetente ou ele foi desmantelado
para as empresas tomarem conta da coisa pública?
Paulo Mendes da Rocha - O Estado não pode se tornar incompetente,
definitivamente, nunca. É mais fácil corrigir o
Estado do que corrigir uma massa de interesses comerciais predadores.
Como é que você vai controlar o lucro e a ganância?
É melhor controlar o Estado, nós elegemos nossos
representantes etc. O Estado é possível. O caos
não é possível. O Estado democrático
é uma construção, representantes, eleições.
Não havia órgãos internacionais. Hoje há
uma ONU, uma UNESCO, que pouco a pouco vão adquirindo importância.
A impressão é de que poderão terminar sendo
os órgãos mandantes, digamos assim, principais do
desenvolvimento do futuro, das decisões sobre as águas,
sobre o território e tudo isso. No fundo, é o combate
à miséria. Temos que combater a miséria.
Wagner Nabuco - O Fórum Social, por exemplo, esse de
Porto Alegre, como você vê isso, e o movimento dos
jovens na Europa?
Paulo Mendes da Rocha - São novas dimensões públicas
de pensamento e de grupos que se unem para fazer ouvir sua opinião.
Parece muito sadio isso, mas devem repercutir em órgãos
capazes de agir. O problema é ampliar a possibilidade de
influência objetiva desses movimentos, dessas organizações,
nas decisões.
Wagner Nabuco - Mas vamos ficar esperando que a ONU, a OEA
venham a resolver questões mais candentes?
Paulo Mendes da Rocha - Não se pode ficar esperando. Se
você estabelece um plenário, que não pode
ser incomensurável, seus representantes, os representantes
dos países têm que amparar legítimas aspirações
que fiquem configuradas publicamente.
Mylton Severiano Voltando à arquitetura: o que
você acha das críticas que fazem ao Niemeyer de que
os prédios dele não são funcionais, principalmente
Brasília?
Paulo Mendes da Rocha - A idéia de funcionalidade em arquitetura
é a maior besteira que você pode imaginar. É
mais um desses enganos que, tidos como verdades aparentemente
indiscutíveis, podem se tornar instrumentos de degenerescência.
A arquitetura não tem que ser funcional porque não
conhecemos bem nem as funções que queremos. Que
função? É como o outro que perguntou ao Niemeyer:
Como é que o senhor fez esse Senado sem janela?
Ele demorou um pouco e respondeu: Só de sacanagem.
Não há a idéia de funcionalidade em arquitetura.
Ela muito menos se tornará estritamente funcional, e na
sua disfunção pode se tornar belíssima como
discurso, lá pelas tantas, no prazer da vida e tudo isso.
Bom, uma coisa eu quero dizer quanto a isso da funcionalidade
para construir, você tem que usar, inevitavelmente,
uma instrumentação de rigor, que advém da
técnica, senão aquilo cai. Para colocar um prédio
num certo lugar, suponhamos na avenida Paulista, você tem
que considerar a carga do edifício, quanto pesa aquilo
sobre o território. Tem que examinar o território
com uma ciência bastante recente chamada mecânica
dos solos , especificamente por causa das fundações.
Você faz um furo no terreno e examina o estrato da terra,
para ver ao que ela resiste. O prédio tem tantas toneladas.
Avalia o peso do prédio, também é uma novidade
poder avaliar quanto pesa um prédio, distribui em tantos
pilares e redistribui na terra etc. etc., você tem que construir
o próprio prédio com máquinas. Hoje há
bombas de concreto armado. O elevador, que é um instrumento
absolutamente mecânico no sentido da palavra, da máquina,
só se move bem se o prumo for perfeito. Você tem
que construir um prumo perfeito, e assim por diante. Portanto,
tudo está enquadrado aparentemente de tal sorte que a arquitetura
não teria graça nenhuma. Aquilo é uma coisa
que obriga. Veja que interessante, eu recorro a esses estritos
e restritos códigos que conheço, os únicos
para construir aquilo, na presunção de que estou
aparando justamente a imprevisibilidade da vida de cada um. Porque,
uma vez você tomando um elevador nesse edifício,
ninguém pode saber o que você vai fazer. No quinto
andar é moda. No oitavo é o instituto de ginástica.
No primeiro é o escritório da Máfia, e assim
por diante. Quando você desce, ninguém pode dizer
o que você vai fazer. A graça do prédio, por
exemplo, é que lá você instala o que quiser.
Quando se vende um edifício comercial, não se diz
que é especialmente para isso ou para aquilo; pode ser
o que você quiser lá dentro, mas cada vez mais se
pretende um prédio em que as instalações
possam ser adaptadas para múltiplas atividades, isso ou
aquilo.
Guilherme Azevedo - E as habitações populares
como Cohab, Cingapura?
Paulo Mendes da Rocha - É a questão do popular no
Brasil, a casa do pobre é muito malcuidada, muito malfeita.
Mas a grande questão da casa você podia dizer que
é o endereço, não a casa em si. Em São
Paulo, morar ao lado do metrô, no centro da cidade, é
você, primeiro, não gastar roupa, ir trabalhar a
pé, as meninas trabalham no comércio, o outro vai
para a escola, o outro vai de metrô, portanto é o
endereço que interessa. Se você não aceita
e quer construir a casa dos mais pobres de modo que marque a pobreza
deles na periferia, aí vale tudo. E é engraçado
que mesmo quando você, inexoravelmente, por razões
políticas chega lá e faz a casa popular em edifício
vertical, dá a ele um ar de estafermo, pinta de cor de
abóbora, põe meio escanteado, como diz o outro,
não é?, fora de regra para parecer bem uma porcaria.
E constrói o apartamento do térreo, o que é
uma infâmia. Você não pode ter alguém
no terceiro andar e um no térreo. Ele abre a janela, tá
frito. Então, o que acontece, porque o povo não
é besta? Quem mora no térreo abre a janela e vende
empadinha, coxinha, fica comércio no térreo, porque,
se é na cidade, os rés-do-chão têm
que ser público. O prédio exemplar, para você
não pensar que são quimeras, feito em São
Paulo, seria o Conjunto Nacional, que realiza o espaço
do pedestre, livrarias, cinemas, teatros, cafés etc. O
Copan é habitação popular e também
embaixo é comércio, cinema, teatro etc., senão
você não realiza a cidade.
Márcio Carvalho - O Copan tem igreja embaixo.
Guto Lacaz - Era um grande cinema.
Paulo Mendes da Rocha - Tem igreja agora, já como sintoma
de decadência, porque era um belo cinema, e a igreja é
outro grande perigo da nossa época, esse ressurgimento
por estupor ou pavor diante dessa abertura que está aí
da natureza e tudo isso, então é fácil, pelo
pavor, alimentar religiões. Você funda uma igreja
da noite para o dia e fica milionário. É uma questão
muito delicada. Sei que a França proibiu a compra de um
certo edifício para fazer uma igreja de um bispo brasileiro,
não há de ser à toa, e o Chile proibiu também
que uma dessas igrejas entrasse lá. Porque são instrumentos
de engodo, de engano do povo e hoje, com televisão e tudo
isso, é muito perigoso. Porque pode levar o povo, os indivíduos
a se constituírem numa massa de destino dirigido, de vontades
dirigidas.
Felipe Lagnado Cremonese - Você projetou uma capela belíssima
em Campos do Jordão. Eu queria entender a visão
do ateu fazendo uma coisa tão bonita, que leva as pessoas
a olhar para a religião.
Paulo Mendes da Rocha - Você quer ver uma história
que considero engraçada? O Fernando Henrique Cardoso é
um sociólogo. Ele foi perguntado na televisão por
um jornalista se acreditava em Deus. A intenção
era expor a honestidade de um candidato que ele sabia e que ia
dizer que não, o que não é bom na véspera
de uma eleição, tanto que o Fernando Henrique perdeu.
Há um diálogo de personagens do Guimarães
Rosa, que é um magnífico exemplo para isso: dois
caboclos conversando e um diz para o outro: E Deus existe?
E o outro responde: Deus existe, mesmo quando não
há. Que é uma visão sábia. Porque
historicamente existe. Se você está numa população
que adora um certo deus e perguntarem você adora esse
deus?, você diz adoro, é claro,
senão te comem.
Mylton Severiano - Os comunistas estão chegando ao poder,
finalmente? Li na Folha de S. Paulo ontem que todo o staff do
Serra é egresso do PCB.
Paulo Mendes da Rocha - Não vi essa notícia.
Wagner Nabuco - O senhor chegou a militar no partido?
Paulo Mendes da Rocha - Não, nunca tive carteira do partido.
Wagner Nabuco - Porque o Vilanova Artigas era homem do partido.
Paulo Mendes da Rocha - Era. Fui
a muita reunião do PCB porque tinha e defendia idéias
comuns às de alguns amigos ilustres do partido, mas nunca
tive carteira nem fui militante, porque nunca quis. Mas passei
mal também, fui cassado duas vezes. Primeiro, numa lista,
demitido, da USP, aposentado pelo AI-5. E quinze dias depois fui
cassado de novo, quer dizer, saiu publicado no Diário Oficial,
pelo AI-5, com praticamente a mesma lista. Que dizia simplesmente
o seguinte: estaríamos proibidos de trabalhar para
o governo da República, de forma direta ou indireta, empregatícia
ou não. Era para ir embora do país, porque,
se você fosse arranjar emprego numa empresa e ela fosse
trabalhar para o governo, seria de forma empregatícia indireta.
Entre outras coisas, eu tinha cinco filhos, o que ia fazer, dar
aula em escolinha da França? Fiquei. Conversei com fulanos
e beltranos e meus amigos me protegeram, eu não assinava,
fui trabalhando, não sei como passei esse tempo todo até
a anistia, 1979. Houve vários episódios estranhos.
Fui cassado, publicado nos jornais, no mesmo dia em que ganhei
o concurso para fazer o Pavilhão do Brasil em Osaka, numa
feira internacional. Então, não poderia ir. Aí
o ministro, acho que da Indústria e Comércio, Fábio
Yassuda, que havia promovido aquilo tudo, pôs o cargo à
disposição do governo, criou um caso interno, ninguém
soube, jornal não publicou. Então disseram: está
bem, eu iria ao Japão, fazia o pavilhão e voltava,
porque era uma relação internacional já estabelecida.
E eu fui. Passei mal porque, imagina, me vieram com um passaporte
comum e eu disse para o Itamaraty: De jeito nenhum, vou
rasgar esse passaporte, só saio daqui com passaporte oficial,
porque senão eles me matam lá fora. E me deram
o passaporte azul, de missão oficial. E fui. Não
fizeram direito o pavilhão, que projetei com o Flávio
Mota, uma coisa lindíssima que falava da questão
da ocupação do território na América.
Aí me fizeram vir embora, deram para uma empresa qualquer
dessas que põem rede, cristal de rocha, tamanduá
empalhado, esse tipo de besteira.
Não adianta enfeitar
a cidade. A cidade
são eventos efetivos
da população: teatros, cinemas freqüentados...
Wagner Nabuco - Falando nisso,
nesta Bienal, você viu essa coisa de cinqüenta mulheres
nuas, o que você acha?
Paulo Mendes da Rocha - A minha primeira impressão é
horrível. Você vem para país atrasado e paga
essas coitadas para ficarem ali peladas. Não faz sentido
nenhum. Achei com ar nazista também. Não gostei.
Depois, não acho que seja obra de arte, porque é
o tal negócio da degenerescência, a partir de um
argumento que parece legítimo, o corpo.
Sérgio de Souza - Essa Bienal tem a ver com cidade, não
é isso?
Paulo Mendes da Rocha - É uma questão muito interessante,
vocês estão vendo? Não se faz mais nada cujo
tema não seja a cidade. A cidade virou mercadoria.
Carolina Arantes - Em arquitetura, você tem visto alguma
coisa, alguma corrente interessante surgindo?
Paulo Mendes da Rocha - A corrente interessante que há
na arquitetura é mesmo advinda dessa consciência
de que o espaço da cidade é a questão. Que
o edifício como coisa isolada em si pode destruir a cidade.
Sérgio de Souza - Ano passado, o Congresso aprovou o
Estatuto da Cidade, que diz o que vem a ser uma política
urbana. Vai funcionar?
Paulo Mendes da Rocha - Acredito que se devia olhar as razões
da cidade e principalmente a evidência dos malefícios
que produzem o seu desastre, por exemplo, a questão do
tráfego. E essa desorganização de bairros
exclusivamente residenciais que só revelam
justamente o que acho que é a manifestação
do horror. Assim que a liberdade e o espaço democrático
se estabelecem na cidade, a classe dominante foge. São
Paulo tem um exemplo muito claro na rua São Luís,
que é só prédio habitacional. Foi um pequeno
surto de civilização, que não durou cinco,
dez anos, porque os teatros e tudo isso esmoreceram da noite para
o dia. Quando o metrô entrou, o pessoal abandonou aquilo.
Portanto, a idéia de que a cidade degenera é porque
ela é abandonada, rejeitada. Você não constrói
uma cidade com arquiteturas... Não adianta
enfeitar a cidade. A cidade são eventos efetivos da população:
teatros, cinemas freqüentados etc. Quem não conhece
ou não aceita como virtude descer do elevador suponhamos,
para imaginar um espaço fisicamente configurado, a rua
São Luís e a pé vai ao teatro da Aliança
Francesa ou aos teatros do Bexiga ou ao teatro do Edifício
Itália, dez, vinte teatros a pé, depois escolhe
o restaurante onde quer jantar? Ou desce domingo e vai comprar
o jornal na banca? Ou você prefere ir morar num bairro estritamente
residencial, cercado de uma trupe de polícia particular
armada até os dentes e cachorros amestrados, para ficar
tomando banho na sua piscina particular, é uma coisa meio
idiota do ponto de vista do que seja civilização
contemporânea, você não estar com os outros?
Guilherme Azevedo - Parece que a própria elite não
tem nem noção de beleza, não é?
Paulo Mendes da Rocha A elite do dinheiro não tem
critério de beleza. É um raciocínio, inclusive,
que vi numa frase do Artigas: eles não têm critérios
de beleza. Ou você diz pela propaganda que isso é
ótimo e ele paga ou ele por si não sabe dizer. A
idéia de propaganda é muito perigosa, porque ela
forma opinião, mesmo com mentiras, se quiser. Propaganda
é algo acumulativo, repete, repete, acho que o campeão
da propaganda é o regime totalitário.
Sérgio de Souza - Gostaria de ver você fazer uma
consideração sobre os shopping centers.
Paulo Mendes da Rocha - É um desmantelamento. É
outro instrumento contra a cidade. Você tirar da cidade
a novidade do comércio. Você vê esses bairros
exclusivamente residenciais e a idéia de liberdade da cidade.
Se você se puser na esquina da avenida Ipiranga com a rua
São Luís e ficar o dia inteiro lá, depois
mesmo se sentar na sarjeta e ler um livro, não acontece
nada. Se você for lá para esses bairros tidos como
exclusivamente residenciais, no Morumbi e coisa assim e ficar
em pé na esquina dez minutos, vêm quatro jagunços
armados perguntar o que você está fazendo ali. E,
se você disser que não está fazendo nada,
o cara já pega um celular e acha que é um perigo
ao vivo o cara não estar fazendo nada... Parece bobagem,
mas é um absurdo incrível. A cidade é, por
si, ao se fazer, democrática. Ela não tem desenho
a não ser sendo democrática. Ela é de todos,
inclusive, numa desgraça sem dúvida nenhuma, você
vê que se pode dormir no meio da rua.
Sérgio de Souza - Já vi mesmo muita gente dormindo
no meio da rua, ali na Ipiranga com a São Luís.
Paulo Mendes da Rocha - E é
engraçado você considerar, aliás, não
é nada engraçado, mas, se você considerar
que grande parte de quem dorme na rua não é porque
não tem necessariamente nenhum outro lugar para dormir,
não é bem assim sempre. Muitas vezes, é uma
escolha como o melhor lugar, porque de manhã já
tem o que fazer. Dorme na cidade. Fiz um cenário no Teatro
Municipal e o meu escritório é a 300, 400 metros
do Municipal, e meu carro fica numa garagem ao lado do escritório
então, voltava do teatro a pé para pegar
o carro às 3 da manhã. E passava ali na rua 7 de
Abril. Na frente de um prédio que tem um pequeno recuo
e umas colunas, havia uma cordinha de proteção e
trinta pessoas dormindo. Às vezes, dois conversando, mas
os outros estavam dormindo. Um dia caí na asneira de tirar
um cigarro ali, e surgiu das sombras uma cara: Ô,
meu, tem um cigarro aí? Dei o cigarro, apareceram
mais uns três, acendi o deles, acendi o meu, boa noite e
fui embora. Aí que prestei atenção: aqueles
camaradas estão ali porque trabalham naquele comércio
dito informal, que é abastecido por magnatas, por gente
que tem o truste daquilo, distribui a mercadoria com peruas, e
os camaradas trabalham ali. Então ficam ali mesmo. Não
voltam, não sei para onde, porque moram onde? Não
têm nem dinheiro, nem condição de pegar três
horas de condução depois de passar o dia
vendendo bagulho na cidade para ir dormir na favela e voltar
cedo amanhã, porque às 7 horas já tem movimento
que interessa a eles. Têm que acordar às 5 da manhã,
então dormem ali. Portanto, a cidade expulsa a possibilidade
de trabalho. Não há nada que seja acessível
para você alugar e montar uma pequena birosca. Portanto,
essa malignidade toda é construída. Não existe
fenômeno urbano. É um engendramento objetivo que
acarreta esses quadros desastrados. E, naturalmente, é
uma miséria imensa no Brasil, em São Paulo, na América
Latina. Por alguma idiotice há questões, por outro
lado, apavorantes, se você pensar numa superpopulação
da qual o mundo não dá conta. Então, você
vê que não adianta também falar as coisas
assim como se fossem histórias da carochinha. Quero dizer
que a miséria não é só a falta de
comida. Temos uma condição miserável, se
não houver a hipótese de nos tornarmos humanos de
um modo que imaginamos que seja o modo humano desejado. Temos
que enfrentar essas questões e só podemos fazer
isso num espaço público, na dimensão pública
do discurso que adquire força política.
Realizar sonhos antigos é o que o homem tem
a fazer, e a cidade é um dos mais antigos sonhos do gênero
humano.
Guilherme Azevedo - Eu queria perguntar, não saindo
dessa parte que você está colocando, qual a sua relação,
na realização de uma obra, com os operários?
Paulo Mendes da Rocha - Bem, nós todos necessariamente
freqüentamos essa divisão bastante sórdida
até do ponto de uma extrema pobreza. Esse operário
da construção civil que chega às 7 horas
da manhã para trabalhar, você não sabe de
onde ele vem, porque construções estão em
toda parte. Onde está a obra, ele tem que se deslocar para
lá. É outra condição terrível
da indústria da construção. Mas não
há de ser só com medidas de caráter social
que você resolverá esse problema. Você também
tem técnica, máquinas, e vai melhorando pouco a
pouco a condição do operário. Até
outro dia, você construía carregando concreto, em
rampa de tábua, com carrinho de mão, hoje você
bombeia concreto etc. É uma condição que
está aí, mas o que dá lucro para a especulação
imobiliária, em grande parte, é o quanto é
barata a mão-de-obra, porque o operário da construção
civil não ganha nada. Então, a especulação
de tudo isso, no fundo, é uma prevalência da exploração
do homem pelo homem.
Márcio Carvalho - A arquitetura sobrevive às empreiteiras?
Paulo Mendes da Rocha - Do modo que as coisas estão hoje,
você podia dizer que não, porque a maioria das empreiteiras
visa só o lucro. Assim não dá. O empreendimento
humano tem que ser feito de forma solidária. Você
tem que imaginar que, quando se fez uma ponte como a Golden Gate,
queria-se fazer a mais bela ponte do mundo. Ali não entram
orçamento e concorrência. Para realizar esse feito
tecnológico que é uma maravilha, um cabo de aço
suspenso de forma adequada, com aqueles pendurais todos que, na
bruma, parece até não haver estrutura. Você
vê 1 quilômetro e tanto de tráfego passando
com luzes naquele vazio. É uma realização
extraordinária. Deve ter sido feita por algumas empreiteiras,
mas é um trabalho ideal. Essa idealização
dos feitos humanos é indispensável que se ponha
na frente dos empreendimentos. No caso de uma cidade como São
Paulo, viadutos, pontes, túneis, você vê que
eles não têm nenhuma vontade de beleza. É
uma estratégia puramente funcional, o tráfego passa
mais depressa e são obras mal projetadas, malfeitas, não
rendem nada. Túneis absurdos, porque é melhor entupir
tudo de automóvel, que eles não andem, do que fazer
um túnel. Era melhor fazer mais redes de metrô. Incentivar
o tráfego de automóvel, transformar a cidade num
autorama fantástico, não adianta nada. Depois, quanto
mais você imaginar o tráfego de automóvel
de modo expedito, por cima de construções de estruturas
urbanas antigas, mais você tem que pensar que o que fica
por baixo é um vazio, um desastre.
Rafic Farah - É um crime, não é?
Paulo Mendes da Rocha - Um crime. E quem passa deve ter destinos
longínquos, porque no meio do caminho não dá
para fazer nada. Portanto, diante do impasse do automóvel,
da regurgitação do tráfego, a pior coisa
que se pode fazer é duplicar as faixas carroçáveis
de automóvel com túneis e estruturas suspensas.
O melhor é constatar que o automóvel não
é o transporte adequado e arrumar outro tipo de transporte,
e também tentar não espalhar a cidade dessa maneira
idios-sincrática e tola de que a casa do pobre tem que
ficar no subúrbio, no arrabalde. Aparecem contradições
terríveis, que é a tal história do bom que
se transforma em mau. Você vê a idéia de autoconstrução.
Se o nosso objetivo é construir a cidade, é impossível
a autoconstrução. Não vou construir uma cidade
com a autoconstrução. São episódios
carregados de demagogia, de engodos para o povo, vai o pobre desgraçado
com a sogra e mais não sei quem fazer mutirão, o
diabo do tijolo cai no pé, e quem é que paga o seguro?
Não é para isso que a inteligência humana
foi feita, não vai dar certo. Você constrói
hoje com pré-fabricação, há usinas
que fabricam peças excelentes, um edifício em quatro,
cinco dias. É que essa casa tem que estar nas áreas
centrais, que já têm rede de esgoto, águas
pluviais, telefonia, iluminação, escolas, hospitais,
transportes e trabalho. No mundo inteiro há essa preocupação
e algumas iniciativas nessa direção: recuperar prédios
abandonados e velhos para habitação moderna, porque
toda habitação nós devíamos dizer
que é popular. Mais ou menos, todos moramos em habitação
popular. Porque precisa pensar o seguinte: não é
possível fazer uma água potável popular,
mais ou menos potável. Não é possível
fazer um quilowatt popular, já imaginou um quilowatt meio
mambembe, que pisca pra lá e pra cá, dá curto-circuito...
Não é possível fazer um avião mambembe,
um avião de segunda. Você consegue é comprimir
todo mundo doze horas amarrado, mas o avião é um
só. Portanto, o êxito do empreendimento é
que dá a qualidade do empreendimento. E, no caso da casa,
ela é necessariamente popular. Nem se imagina uma rede
de esgoto popular. É impossível. Então, é
tão grotesca essa diferenciação tola que
você acaba descobrindo que não é possível
distinguir desse modo as virtudes da técnica.
Wagner Nabuco - Você já construiu algum prédio
que tenha elevador social e elevador de serviço?
Paulo Mendes da Rocha - Todos os que eu fiz têm entrada
de serviço e entrada social separadas, é uma norma.
Mas não é lei, ao contrário, a lei obriga
você a não discriminar quem quer que seja
pode entrar em qualquer elevador. Quer dizer, essa coisa está
mudando. Portanto, acredito para voltar mais ou menos ao
fulcro da nossa conversa nessas transformações
que vão ser sempre mais na direção do desejo
do gênero humano do que contra, porque senão vamos
ser extintos. O que não é de prever. Há quantos
milhões de anos estamos aqui? Será que agora é
que vamos desaparecer? Não acredito. Agora, vai ser complicado,
inclusive não será nada para ver numa geração,
mas nós já vimos, a última geração
do século 20, transformações incríveis.
O Niemeyer vai fazer 100 anos, está com 94, 95 anos. Viu
um século todo. Olha quanta coisa. E esse artista, a dimensão
dessa visão artística não começou
de um modo para acabar de outro. As obras dele estão aí.
Realiza velhos e antigos sonhos. Realizar sonhos antigos é
o que o homem tem a fazer, e a cidade é um dos mais antigos
sonhos do gênero humano, um lugar para todos morarem de
modo igual, porque as águas, tudo isso não dá
para dividir em categorias. Mesmo elevador, tendo o de primeira
e de segunda, o pessoal começa a fazer besteira. É
engraçado ver a degenerescência dessa exigência:
você faz um elevador sem revestimento, de chapa de ferro,
um elevador de segunda, de serviço, pega o elevador, que
é uma máquina de suspender, calculando doze passageiros,
70 quilos por média, tantas toneladas, aí o cara
diz assim: Não, mas, no meu, o piso vai ser de granito.
Então, você constrói o elevador para levar
pedra de granito pra baixo e pra cima, para dizer que o piso é
de granito, mas é o mesmo elevador, porque o feito que
se pretende é subir e descer e parar em cada andar direitinho,
apertando o botão. Estamos mal acostumados a contrapor
arte e técnica.
Amâncio Chiodi - O elevador do Banco Safra é assim,
só que é mármore.
Paulo Mendes da Rocha Agora, você vê outra
coisa muito curiosa quanto a essa tolice, vamos dizer assim, com
todo o carinho, apesar de tudo, do povo, como nós somos
frágeis. Agora mesmo saiu nos jornais que um excelente
botânico, contratado pela prefeitura, transformou a rua
Vieira de Carvalho, cortou umas árvores, replantou outras,
como se faz nas cidades civilizadas do mundo. Houve uma grita,
chegaram a dizer em entrevista de jornal: Não, nessa
árvore que ele tirou morava um sabiá.... Como
se o sabiá não tivesse voado para outra árvore
na praça da República, porque ele não é
besta e demitiram o homem. Uma árvore. Mas, se você
fatiar, como se diz em linguagem de churrascaria, um maciço
cristalino rochoso, maravilhoso, para fazer placas de granito,
a turma não se importa, o granito pode. Pergunta se o carioca
vai deixar cortar o morro dos Dois Irmãos, ou a Pedra da
Gávea, ou a Pedra da Panela.
João de Barros - O morro do Elefante, da sua terra,
foi fatiado, lá no Espírito Santo.
Paulo Mendes da Rocha - É, granito que se vende por uma
fortuna, corta. Hoje se corta com jato de água, sabia?
Antigamente, pra pôr um piso de granito, tinha que ter uma
placa espessa, hoje se cortam 8 milímetros. Jato de água,
uma força terrível, vai fatiando mesmo a montanha,
não fica mais como as pedreiras antigas, aqueles escombros
que tiravam os grandes pedaços com dinamite, depois cortavam
com serra. Uma coisa incrível como se vai atrás
de técnicas e tecnologias para produzir uma besteira, pôr
granito fatiado no piso de shopping center, um horror. Aí
vem sapato de borracha pra não escorregar, aqueles que
guincham, podíamos ficar ricos inventando sapatos que não
derrapam e não guincham... Você tem que admitir que
a alegria da rua, inclusive, são as surpresas do mercado.
O shopping, o confinamento de qualquer tipo de atividade, do ponto
de vista da idéia da cidade, é negativo. Ele pressupõe,
favorece a discriminação, é fácil
você dizer quem entra e quem não entra num centro
de compras herme-ticamente fechado, com ar-condicionado e tudo
aquilo. Ao passo que a rua é do povo. A cidade do centro
de compras fechado é uma aberração. Outra
coisa que acho negativa, que atinge diretamente a própria
idéia de mercado, é a estupidez de que todas as
lojas se repetem, todos os shopping centers têm as mesmas
filiais das mesmas lojas. Vão acabar fazendo cidadelas
de mentira e você não precisa comprar, é leasing,
você aluga a roupa, passeia naquele lugar, todos fingem
que se cumprimentam, devolvem, entram em outro shopping, tudo
de mentira. E praça de alimentação? Se você
dissesse isso há tempos, o cara ia dizer: Mas eu
não sou gado.... Aí, o cara pega dois pedaços
de um pão que parece isopor, faz várias prateleiras
de coisas, oito prateleiras, cheeseburguer, chicken salad and
frango, e te dá umas garrafas de plástico,
uma vermelha e outra amarela, você enche aquilo, segura,
aperta, escorre tudo, entra na camisa e o cara tem que comer de
lado, porque a mandíbula já não agüenta.
E a turma tá na praça da alimentação,
tudo tranqüilo ali, só falta cacarejar. Nós
somos muito bobos.
Wagner Nabuco - Você não acha que isso é
sintoma de uma doença das cidades, essa coisa de Alphaville,
shoppings, que isso vai dar errado?
Paulo Mendes da Rocha - Já deu errado. Em relação
à Castelo Branco, acabaram com a estrada, aí fizeram
um caminho lateral, mas que tem pedágio. Então,
o que a turma faz? Não vou pagar pedágio,
entra na outra. É uma coisa idiota, custa muito caro essa
vida, tem que pagar guarda, segurança, condomínio,
uma coisa idiota, e desmantela com a idéia da cidade, mas
principalmente produz gerações de imbecis. Acho
que os meninos que vivem, estudam, se formam e crescem nesses
lugares vão acabar comendo em praça de alimentação
distribuída por caminhões com favos de aveia, de
sucrilhos, granola...
Rafic Farah - Favos de granola...
Paulo Mendes da Rocha - E cadê o bar? A alegria dos homens...
A grande questão que também está envolvida
em tudo isso, nessa má disposição espacial,
é reproduzir e manter a aflição da população,
porque é mais fácil dominar, submeter uma população
aflita. O camarada que sabe que vai levar duas horas para voltar
pra casa sai do trabalho como um cachorro correndo pra entrar
nas filas, é diferente do camarada que desce e diz: Bom,
de cinco em cinco minutos, passa o metrô, vou até
a esquina encontrar com meus amigos, e tomo um chope. E
conversa, troca idéias, a cidade é o lugar da serenidade
da troca de idéias, que é a dimensão pública
justamente da experiência tornada projeto. Ele não
volta pra casa, telefona, chama a mulher pra jantar ali e, depois,
vão ao cinema, voltam no último metrô, coisas
assim. Você fica dono do seu espaço, cria novos espaços
porque é dono do seu tempo.
Sérgio de Souza - Mas
ele vai perder a Casa dos Artistas...
Paulo Mendes da Rocha - É, espiar como se comportam quatro
panacas trancados, é uma coisa bem maluca isso aí.
Eu tinha um amigo que dizia: Não se preocupe com
louco, louco às vezes é interessante. O problema
é se a sociedade toda ficar louca. E está
mais ou menos acontecendo isso, o desespero. Tudo isso deve ter
sido tirado de experiência fascista.
Rafic Farah - Ou seja, o cara vem até o shopping, compra
no shopping, volta pra Alphaville, de carro com vidro blindado.
Paulo Mendes da Rocha - Quem faz isso?
Rafic Farah - Esse povo que vive assim, em ambientes fechados,
apavorado, atravessa a faixa no sinal de trânsito e vê
aquelas pessoas que estão no carro, eles fecham o vidro,
é um mundo de terror, eles vivem em cápsulas, parece
coisa de filme de ficção científica.
Paulo Mendes da Rocha - Já é ficção.
Felipe Lagnado Cremonese - Você acredita que a sua formação,
desde que começou a atuar, mudou a ponto de mudar a sua
arquitetura, as suas convicções?
Paulo Mendes da Rocha - Sobre essas questões básicas
acho que não, ao contrário, não tive tempo
de fazer nada ainda do que poderia ter feito, gostaria muito que
não tivessem feito. Gostaria que tivessem verticalizado
aqui áreas em que seria o caso de revitalizar ou transformar
dentro da rede de metrô. Mesmo este bairro, o metrô
vai passar aqui, os intelectuais estão apaixonados por
essas casinhas, todo mundo quer morar na Vila Madalena, vai ter
que verticalizar isso daqui, porque o metrô vem pra cá
e a turma quer morar aqui, não vamos ficar de casinha em
casinha, porque gostamos do verde, nem que seja vertical no muro,
não resolve nada!
Rafic Farah - E isso é considerado área verde. Se
você falar em área verde, é um gramadinho
assim.
Paulo Mendes da Rocha - Então temos que ser coerentes,
a saudade é com o futuro, que é um desejo, e não
fizemos nada, o tanto que podíamos fazer vamos fazer agora?
Então é assim, derruba tudo, acaba. Veja a área
asfaltada que essa companhia City fez no Alto de Pinheiros, dá
várias vezes a volta ao mundo. Só a praça
Pan-Americana, pôxa, cabe o prédio das Nações
Unidas ali, e parece um autorama, os carros engasgam tudo para
ir para a USP. A própria USP se chama Cidade Universitária,
olha as contradições. Por que diabo foram lá
pro meio do mato fazer aqueles pavilhões, botar os estudantes
como se estivessem na invernada, completamente afastados da vida
pública, nunca mais estudante pôde fazer movimento
político nem coisa nenhuma, e se chamou Cidade Universitária.
Que contradição, mas sabem os que tem que ser na
cidade, que não se vai estudar no mato. Agora teremos enormes
problemas para abrir estes espaços para a verdadeira cidade.?
Rafic Farah - Uma degenerescência é a transformação
da cultura e do indivíduo também, porque Alphaville
é fruto do medo, o shopping é fruto do medo e da
individualidade, uma coisa de nenhuma solidariedade, é
só pensando no indivíduo.
Paulo Mendes da Rocha - Vê o seguinte: o dia em que o metrô
passou na porta da escola Caetano de Campos, o que o governo fez?
Desativou a escola, transformou num centro burocrático.
Tirou as crianças do centro da cidade agora, que você
podia ir para uma escola exemplar, que era uma escola modelo,
de formação de professores inclusive. Nesse instante
que o metrô passou na porta, tirou as crianças, por
quê? Quanto mais tivermos que tomar conta das crianças,
melhor, não é? E uma escola modelo incentiva as
outras. Já havia muitas, até ali no largo Coração
de Jesus, nos Campos Elísios, tinha uma escola belíssima,
a Escola de Comércio Álvares Penteado. A Faculdade
de Direito. A Faculdade de Medicina. Então, você
faz essas coisas por desejo. Quais as razões para você
fazer as coisas que faz, no sentido de fabricá-las e engendrá-las?
São desejos. Pode-se discutir se está correto ou
não, se vai render esses ou aqueles frutos, porque a grande
escola que se pretende é a cidade, ela é a grande
escola. Agora, você põe os meninos lá no mato,
eles estão dissociados de tudo, já vão para
a invernada deles, não tem bar, não tem nada; comem
na lanchonete, porque geralmente a universidade não quer
se responsabilizar...
Mylton Severiano - Terceiriza.
Paulo Mendes da Rocha - Exatamente, eu ia dizer isso. Não
vai para a escola de higiene, ou alimentação, e
lá podia ter nutri-cionistas, pra ver qual é a refeição
ideal para os estudantes, sucos, isso ou aquilo. Nada, entrega
para concessionários que ficam vendendo essas porcarias
podres, e depois diz que a escola paga, a particular, é
que pode ser a escola brilhante do futuro. Nunca deviam ter feito
isso, mudar para a Cidade Universitária. Porque antigamente
era o contrário, você fundava as cidades em torno
das universidades. Agora, você vê bibliotecas, microscópios
eletrônicos, instrumentos de laboratórios, isso tudo
não é pra enfiar debaixo de barracão. A escola
tem que exprimir a beleza de tudo isso, não adianta fazer
escola barracão, isso o jesuíta já fez para
o índio e produziu o desastre que produziu, porque é
o que o jesuíta queria: conquistar e dominar. A nossa política
é muito frágil, a gente sempre fala como se fosse
o outro, mas somos nós mesmos, uma intelectualidade que
se considera privilegiada, que arrota grandes idéias, mas
espera que o povo saia na rua, morrer com bandeira. E é
a sopa no mel pra quem quer futricar a América Latina e
transformar tudo isso em movimentos de guerrilhas ou coisa que
o valha. É o que quem está por cima deseja
que isso aqui se transforme em um campo de batalha de desencontros,
de desarmonia. O continente vazio.
Principais trabalhos e prêmios:
Museu de Arte de Campinas, na Unicamp, SP.
Museu de Arte Comtemporânea, com Jorge Wilheim, SP.
Museu Brasileiro de Arquitetura, SP.
Centro Cultural da Fiesp, SP.
Pinacoteca do Estado, Renovação, SP.
Ginásio do Clube Atlético Paulistano, SP.
Terminal Rodoviário de Goiânia, GO.
Estádio Serra Dourada, GO.
Terminal Rodoviário de Cuiabá, GO.
Pavilhão do Brasil na Exposição Mundial de
Osaka, Japão.
Prêmios:
Bienal Ibero-Americana de Madri (Trajetória Profissional).
Museu Nacional de Belas-Artes (Prêmio Vitrúvio).
Arquitetura Latino-Americana (Prêmio Mies van der Rohe).
Bienal Internacional de São Paulo (Ginásio do Clube
Paulistano).
Paulo Mendes Da Rocha
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