
>Boletim da prisão
DIRETO DAS PENITENCIÁRIAS, 9 de agosto
A Caros Amigos Online segue cobrindo o que está acontecendo nas penitenciarias paulistas onde a situação é de calamidade desde as rebeliões de maio, quando presos as depredaram. O castigo imposto pelo governo de São Paulo desde então a todos os prisioneiros é extremo, como contam os próprios detentos ao repórter João de Barros. Ontem foram ouvidas as penitenciarias de Mirandópolis, Getulina e Itirapina.

João de Barros - Alô, oi Jorge.
Não. É o Carlos. O Jorge não pode atender.
É isso, Carlos.
Algum problema?
Não, nenhum problema. Eu queria saber como é que foi a entrada do choque aí na segunda feira? Pra gente atualizar o nosso bate papo semanal, não é isso?
Então, veja bem. O Jorge já havia dito pro senhor, é represália, certo? E sobre o que foi divulgado pela imprensa, a superlotação, o descaso, as barracas, a diretoria do presídio, após uma vistoria da tropa de choque, porque a tropa de choque só faz mesmo a segurança, quem esculacha nossos pertences, recolhe os lençóis, é o corpo de funcionários e a própria diretoria.
Como é que foi na segunda-feira?
Segunda-feira nós ficamos trancado das sete da manhã até as quatro da tarde num galpão, sem alimentação, todo mundo só de calção, descalços.
Enquanto isso a PM ia fazendo o pente fino?
Não exatamente a PM. Como dizia pro senhor, a PM faz somente a escolta, mas na parte do esculacho mesmo, não chega a ser um pente fino, é um esculacho, eles molham nossa roupa, jogam a roupa dentro do (incompreensível) sem contar que eles levaram todos os nossos lençóis em represália ao que foi divulgado pela imprensa, seu João.
Certo. E agora como está a situação de vocês?
A situação melhorou um por cento, mas é praticamente a mesma coisa: cadeia superlotada, descaso, punição, está entendendo? Falta de energia, água constante pra gente continua do mesmo jeito. De uma população de 1170 saíram apenas 85. Dá pra ver que todos continuam quase aqui ainda.
E a questão da água, como vocês fazem pra beber água, enfim, a água que vocês precisam todos os dias?
Veja bem. Tem quatro hidrantes, dois em cada galeria. A gente está usando o hidrante até mesmo pra tomar banho, porque na cela já não tem água, só nos hidrantes mesmo. Na galeria, uma falta de higiene... A gente vai até o hidrante com uma garrafa, um topwear mesmo, e pega um pouco de água.
E os dejetos como é que vocês fazem?
Olha, vou falar uma coisa, é muito descaso, um descaso à parte. Antes que eu fale que é muita falta de higiene, mas infelizmente é o único meio de sobrevivência. Tem duas celas, as duas primeiras celas, tanto da primeira galeria, como da Segunda, superior e inferior, estão funcionando como banheiro, como banheiro coletivo.
E o cheiro?
Isso ai é constante, aquele cheiro de urina, muitas vezes de fezes.
E a limpeza, como é feita aí dentro?
De manhã cedo, às seis horas, sete horas, é o horário que a caixa recarregou. Ou eles fazem isso de propósito. Daí libera mais água, onde a gente procura jogar uma água, um balde mesmo, no pátio, nas galerias, pra ver se consegue manter a aparência de higiene porque não tem como.
Uma boa parte de vocês fica acordada enquanto outros dormem, não é isso?
É, porque a gente é obrigado a fazer esse revezamento, porque não tem colchão para todos, não tem espaço para todos. Então, enquanto uns dormem outros ficam acordados. Assim a noite vai passando, o dia passando.
E como vocês matam o tempo aí?
Muitas vezes conversando um com o outro ou andando em volta da quadra.
E não acorda quem está na hora de dormir?
Ah, infelizmente, senhor. É sobrevivência de todos, cada um respeitando seu espaço. Não é porque tem dez, vinte dentro da barraca, que a gente vai deixar de falar ou até mesmo de andar, exercitar, no caso.
Trabalho?
No tem como. Trabalho aqui é coisa que quase não se ouve falar.
E a Pastoral Carcerária, esteve com vocês hoje?
Isso. Inclusive hoje, graças a Deus, o doutor Pedro, o defensor público que entrou com o pedido perante a juíza corregedora de remoção, esteve aqui. Se não me engano o doutor Celso, padre da pastoral também. Apresentamos provas de total descaso, de ameaça de morte constante, inclusive entregamos cartuchos para o doutor Pedro e para o senhor da Pastoral, quer dizer, a gente não está criando um caso aqui, o caso realmente existe e a gente infelizmente esta vivendo essa realidade aqui hoje.
E a direção do presídio, como age?
No meu ver são dois monstros, porque tudo que acontece aqui é com o consentimento deles, acredito que todos, não só eu mas a população mesmo culpamos a diretoria, por descaso, omissão de socorro à vida humana, e várias arbitrariedades, que essa diretoria vem cometendo ao longo desses poucos três ou quatro meses que ela está aqui nessa unidade.
Agora, há alguma previsão para as obras começarem?
Me parece, não é nada oficial, que está para começar, mas alguma coisa de concreto, colocando porta, ou fazendo isso, até agora nada, senhor.
Está certo, então Carlos, agradeço sua entrevista.
Não, não eu que agradeço, satisfação.
Alô
Alô
Boa noite
Boa noite
Com quem eu falo?
Com o AGL
Gostaria que você contasse o que ocorreu ai.
Aqui não ocorreu nada, simplesmente o diretor falou que ia dar uma blitz de rotina na penitenciaria, a policia entrou, bateu em todo mundo, cachorro mordeu todo mundo sem motivo nenhum e tem um companheiro aqui que teve derrame e ele já estava melhor, tomou umas pancadas na cabeça, que veio a piorar a situação que ele tava, a pergunta que a população carcerária faz aqui não é tanto para a diretoria mas para o governador, o que ele tem a dizer, disso que está ocorrendo, porque a gente está apanhando na penitenciaria sem nem saber o porquê, o que esta ocorrendo.
E quando foi essa blitz, AGL?
Semana passada, só para o senhor ver, deu blitz semana passada na penitenciaria, até hoje não teve assistência médica, os companheiros que foram mordidos pelos cachorros estão todos mordidos na penitenciária, sem um pedaço da carne, faltando pedaço e até hoje não obteve assistência médica.
Como vocês estão fazendo com esses feridos por cachorro?
A gente é solidário, a gente tem os remédios que a família manda, a gente está pedindo para eles tomarem, mas curativo não tem pra fazer, os meninos tem uns que não agüentam nem andar, tem uns que estão com febre, estão ruins, tem uns que se você olha, vê que a carne está podre onde o cachorro mordeu, precisa de um tratamento, um tratamento mais adequado, e não esta obtendo por parte da diretoria que fala que é ordem da Secretária (de Segurança Pública).
Falando que é ordem do secretario?
Falando que é ordem do secretário, agora para o senhor ver, daí o governador vai na telivisão, “ah, mas esta tendo atentado”, mas nóss estamos trancados, apanhando que nem bicho, nos vamos fazer o que, sem fazer nada, isso tudo começou porque, não é só aqui, Vescelau Um e Dois, Itirapina, Mirandópolis, Araraquara, Ribeirão e tem mais outras penitenciarias que todos os dias tropa de choque entra, bate, os companheiros estão comendo alimentação com vidro, comendo alimentação com laxante, ou até mesmo deixando sem alimentação e sem fazer nada.
Getulina não teve rebelião?
Não, não teve rebelião, não teve nada, a tv da cidade está ciente, não houve nada, era uma blitz normal, deu a blitz não acharam nada, pegaram simplesmente todo mundo, bateu, botaram os cachorros pra morder e foram embora, tanto que até hoje não veio nenhum dos órgãos competentes como diz o governador, que quer dinheiro pra comprar a penitenciária, onze mil reais, para poder um dia para andar o helicóptero por hora onze mil reais por que ele não pega o dinheiro e investe em educação para nos dentro da cadeia. Escola, serviço, que é o que estamos precisando, e não ficar mandando esculachar a gente bater, na gente sem motivo nenhum, porque se pedir na secretaria o papel o porquê ocorreu aquela blitz, vai falar que foi blitz de rotina, acharam alguma coisa? Não tem nada para justificar que acharam, não tem nada.
Agora, conta pra gente que está fora e não sabe direito, como os cachorros são atiçados, como é essa revista?
A revista é assim: nós moramos em nove numa cela, vieram oito policiais e um funcionário da casa, abriu a cela os policiais pediram pra descer correndo, porque tem uma galeria de cima e a de baixo, pediram para descer correndo à parte de baixo, na hora que chegou na escada já tinha um cachorro, ali já era borrachada, aí passa pelo pátio, atrás da cadeia tem outro pátio, nesse pátio foi onde ocorreu a maioria das agressões por que lá estava a maioria dos polícias, a maioria dos funcionários e o diretor da casa observando, a tropa de choque parada, todo mundo do pelotão parado, todo mundo que passava eles batiam e o cachorro do lado, três cachorros, um do lado outro do outro, se você desviasse de um cachorro um te mordia, se você desviasse do outro o outro te mordia, e assim sucessivamente sem contar o que nós apanhamos sem fazer nada.
E agora, como você acha que as coisas vão continuar?
Por nós vai continuar normal, a população carcerária continua normal, o que não pode acontecer é ocorrer esse tipo de situação sem a gente estar fazendo nada, a gente esta preso, a gente quer cumprir a nossa pena, mas a gente quer cumprir a nossa pena dignamente, não ser tratado como cachorro, não porque a gente esta pagando pelo que a gente fez, a gente é errado, nós na rua passamos necessidades, fizemos o que fizemos, estamos presos pagando pelo que a gente fez, só o que não é certo é o governador ficar querendo ganhar votos na eleição às custas do preso e o preso trancado, porque é fácil chegar aqui, um leão trancado, se o senhor chega lá num leão trancado e tacar uma pedra ele vai fazer o quê? Ele não vai fazer nada, é a mesma situação e a gente está.
Você acha que o governo tenta tirar algum proveito político dessa situação?
Sabe porque o governo tenta tirar proveito político, o porquê a gente está preso, o governador de São Paulo passa toda hora pedindo dinheiro, não, eu quero onze milhões pra construir penitenciaria”, não adianta nada eu mesmo se tivesse uma escola, se tivesse uma biblioteca, se tivesse um serviço não só eu como muitos que tem no sistema penitenciário, estaria todo mundo trabalhando e estudando, mas não tem, se o preso esta o dia inteiro sem fazer nada você acha que a mente do preso vai fazer o quê? Vai fazer alguma coisa, certo. Então não tem nada pra fazer, daí o governador vai na televisão e fala que é isso e que é aquilo, mas ninguém está vendo o que passa com a gente aqui, procurador passa na televisão falando “nós vamos cancelar a saidinha por que vai ter atentado”, então mostra onde vai ter os atentados que saiu todo mundo pra rua aí, que está todo mundo com medo porque a polícia está falando que vai matar família, família nossa, vai matar a gente, que a gente tem a ver com essa situação, a gente não tem a ver nada, a gente está preso, simplesmente é uma forma que está tendo de chamar atenção por que tudo que esta ocorrendo com a gente aqui lá fora ninguém esta sabendo, mas se viesse aqui na cadeia e todas essas penitenciárias que eu acabei de falar, entrar lá o promotor, entrar juiz, entrar o procurador e ver o estado, aí vai ver, porque está ocorrendo isso aqui, todo mundo machucado, mas não ocorreu coisa alguma da penitenciária não, simplesmente o que está acontecendo, eles estão fugindo da lei, se a gente foge da lei a gente é punido, eles não, estão fugindo da lei aí, ocorrendo o que esta ocorrendo não só aqui como em outras penitenciárias, e estão impunes.
Vocês têm visita?
Visitas? Tivemos
E vocês mostraram pra visitas esses presos?
Mostramos para as nossas visitas, a gente ia fazer uma manifestação, a gente não fez a manifestação com medo de represalha com os nossos familiares, como foi falado na televisão pra todo mundo ouvir, o ex-governador de São Paulo, junto com o governador que está hoje, o doutor Cláudio, disse na televisão que com preso não tinha conversa e muito menos com a família de bandido, então, quer dizer, a gente vai pôr nossa família para fazer uma passeata pacificamente ou até mesmo conversar com o Secretario de Segurança ou quem seja, os órgãos cabíveis, eles não dão atenção, entra por um ouvido e sai pelo outro.
Bom, está certo então AGL, eu agradeço sua participação aqui no site da revista e vamos continuar conversando
Senhor, inclusive a gente obtém varias fotos, varias situações, a gente tem um laudo policial de um rapaz que foi morto numa outra penitenciária que eu me encontrava, ele foi morto nas mãos dos funcionários, a funcionaria levou pra família dele, que ocorreu o quê? Que ele se matou, mas como o preso se matou, se ele apresentava marcas de algema, água no pulmão, uma perfuração de chave de fenda na nuca, marcas no corpo de espancamento e afundamento no crânio, na testa?
Está certo
A gente tem tudo isso na mão, isso aí o advogado já foi, correu atrás, só o que aconteceu, simplesmente eles cruzaram os braços, então, quer dizer, eles cruzam os braços e nós que somos presos somos culpados, nos somos os bichos, do mesmo jeito que eles batem eles estão ensinado a bater também, entendeu?
Você acha que isso revolta ainda mais a situação do preso, que sai daí ainda mais violento?
Logicamente não só aqui mas como outras penitenciárias que eu passei, tinha preso, “ô você esta preso por que?” “Fui preso por engano ”, a gente acredita porque a gente está preso no dia a dia, a gente sabe quem é ladrão verdadeiramente e quem não é, aí o cara vem pra a cadeia, não sabe nada, aí vem a polícia, bate, vem o diretor faz a pressão, corta a visita, faz isso, faz aquilo, não recebe carta, não recebe sedex, isso daí vai revoltando o preso. É desse jeito ai que eles querem reintegrar a gente para a sociedade? Desse jeito aí eles nunca vão conseguir, quem bate está ensinando a bater, existem várias formas de resolver essa situação que ocorre, só que a gente procura um diálogo antes de tudo isso aí que vocês estão vendo na televisão, é polícia morrendo, é atentado, antes de tudo isso aí a gente procura entrar numa linha de conversa, a gente não quer regalia dentro da prisão, a gente quer que cumpra a lei do jeito tem que tem que ser cumprida, eles não estão cumprindo do jeito que ser cumprida a gente não quer comer bem na prisão, a gente não quer andar bem na prisão, a gente quer simplesmente que cumpra a lei, e é o que não esta sendo cumprido.
E daí os ataques que estão acontecendo em São Paulo e no interior?
Como eu acabei de falar para o senhor, quem bate está ensinado a bater, como o governador de São Paulo gasta onze mil reais no vôo de um helicóptero por hora, para o senhor ver, por hora, por que ele não pega esse dinheiro e investe em estudo em trabalho que é o que a gente precisa? O senhor não sabe, mas toda semana a gente tem aqui um jornal da funap, é um jornal de todas as penitenciarias, e esse jornal fala tudo que ocorre, tem preso que está na penitenciaria, o preso constrói escola, o preso constrói hospital, o preso trabalho, o preso faz tudo, isso tudo, o preso estuda inglês, o preso faz de tudo, mas o jornal só mostra o que a gente faz de mal, mas o que tem que acontece em poucas penitenciárias não passa, eles sabem sim criticar, passa na televisão lá criticando, o preso é isso o preso é aquilo, a gente não quer na cadeia ter regalia, a gente quer que cumpra a lei que não está sendo cumprida.
Está certo.
Entendeu, doutor?
Está certo, AGL, eu agradeço bastante sua participação e espero voltar a falar com você na semana que vem para a gente continuar esse nosso diário da prisão.
Tá bom. Se o senhor precisar de toda essa situação de foto que a gente tem, de tudo que a gente tem, a gente procura enviar pra vocês aí, passa o endereço, a gente envia, dá um jeito de enviar, só que o que acontece não pode passar e não pode passar na televisão toda hora de que preso é o culpado, e que antes de ter ocorrido tudo isso ai, conversado antes, a gente não quer regalia, a gente quer que cumpra a lei.
E havia acerto antes, vocês conversavam na outra administração, você acha que endureceu, piorou, enfim, qual é a avaliação que o preso faz?
Todas as vezes é conversado, tem uma penitenciária, ou estão espaçando o preso, a gente procura a família pra família ir na Secretaria conversar, não pode estar acontecendo isso, tá bom, não pode estar acontecendo, mas o que acontece? A Secretaria recebe ordem do governador, o governador vai lá e fala “endurece o regime ”, isso aí não adianta, o que a gente quer é que se cumpra a lei da forma que deve ser cumprida, porque do jeito que está ai, não está sendo cumprida a lei.
Esta certo AGL, muito obrigado pela participação, até logo.
Alô, boa noite.
Boa noite.
Com quem eu falo?
É o Pedro
Pedro, aqui é João de Barros da revista Caros Amigos.
Boa noite.
Como está de noite aí, eu queria que você me contasse como está a situação de vocês ai?
A situação aqui é tensa, a situação aqui é a rotina do dia a dia, chega a noite a gente fica sem luz, sem água, eu acredito que pior que isso não existe, viu? O momento que eles começam a andar todos armados em cima da cadeia, então, quer dizer, é o momento da noite que vem a tensão, momento até de um confronto diretamente com a GIR. A gente fica até mais sem sair da cela
Mas vocês estão no pátio também?
É, no pátio, e alguns dentro da cela.
E você olhando pra cima, pros lados, enfim, eu queria que você me descrevesse um pouco qual é a sensação sem energia elétrica.
Eles estão deixando somente a luz do refletor ligada, colocaram duas televisão aqui, mas quando está passando alguma reportagem que diz respeito a alguma coisa de penitenciária eles vão logo e cortam a luz, entende? Então, quer dizer, duas horas de luz, olhando pra cima só o que eu vejo é polícia.
Você olhando pra cima agora você pode me descrever o que você vê?
Olhando pra cima agora a gente vê o pessoal da GIR
E quantos são, mais ou menos?
Cinco, é que tem duas casinhas deles, cinco de cada lado do pavilhão.
Eles têm a missão de tomar conta de vocês na noite escura, aí que vocês vão dormir ao relento?
A missão deles é de não deixar a gente puxar energia pra ter luz, é ficar vigiando a gente pra conter qualquer tipo de tumulto, a ordem deles é pra atirar, então, quer dizer, tem horas que eles começam a jogar piadinhas, é tenso, a situação aqui é tensa, como eu já disse e volto a repetir, é a desumanidade total, tem condições nenhuma aí, a gente é preso mas a gente não pode estár passando pelo que a gente está passando, não, ninguém pode pagar por um castigo tão grande que até mesmo a lei, ela não da esse castigo tão grande como a gente está indo pra dois meses já de castigo.
Dois meses que vocês estão nessa situação?
Dois meses esse amotinado, mil cento e pouco, mil duzentos e pouco a última contagem, mas eles estão mandando o pessoal da ala do semiaberto aqui para dentro, então, quer dizer, pessoas que não têm nada a ver, que nem participou de rebelião eles estão colocando aqui dentro, se estão recebendo preso tem que sair também, não acha?
Não há “bonde ai”?
Não, o bonde que eles falam que tem aqui é de doente, daí sai três pessoas.
Quantos doentes tem ai?
Aqui a gente tem torno de 70 doentes, entre HIV, câncer, tuberculose, febre do do feno, catarata, todo tipo de doença tem aqui, a gente tem uma mini-enfermaria dentro do raio
E essa mini-enfermaria da conta de todos?
Não dá, porque é só um enfermeiro, que é da rua, e o restante a gente mesmo que improvisa para cuidar, dar os medicamentos, remédio controlado, são vários que tomam, só de HIV pra você ter idéia, aqui a gente tem 45 HIV confirmado e que toma remédio controlado e não está tendo a medicação necessária.
E quanto à situação de alimentação, vestuário como está?
A alimentação está tendo uma certa dificuldade nossa aí que está tendo, até um constrangimento da gente encontrar algum tipo de coisa aí no meio do alimento.
Vidro?
Já encontramos vidro, barata, todo tipo de coisa que você possa imaginar para que a pessoa não venha se alimentar.
E essa alimentação vem de onde?
Nos já até indagamos eles, perguntar da onde estava vindo essa alimentação, eles falaram que estava vindo de uma cidade próxima aqui, de um restaurante, alguma coisa parecida, mas não é não, viu? Não é não. Isso é alguém que está fazendo essa comida, porque com certeza se tivesse vindo de algum lugar que faz marmitex ele seria tão responsável e profissional no que faz, ele não estaria colocando vidro, e muito menos esses tipos aí de bicho, perna de barata, galho de arvore, esses galhos pequenos, então, quer dizer, é complicado.
E eles levam quando pra vocês o almoço e a janta?
O almoço vem em torno das onze horas, e a janta três e meia, quatro horas.
Eu ouvi a noticia de que vocês tinham que lavar o alimento antes de comer, é verdade?
È por causa dessa sujeira aí, a gente lava a comida pra ver se não tem cacos de vidro porque muitos não querem nem comer, muitos estão passando mal, sabe, e a gente faz um apelo pela humanidade, eu acredito na justiça aí de fora, na justiça do homem, porque a justiça divina nunca chega aqui, pra que venha dar uma olhada na real situação que está passando em Itirapina, e o próprio bandeco onde coloca a comida que é a marmitex, as pessoas usam para colocar as fezes dentro e jogar fora.
É questão de higiene, né?
È a questão da higiene, onde entra a questão da higiene, e a questão onde a gente já fica, eles entraram e quebraram todas as privadas, a gente não vai ficar cagando num buraco.
E ai vocês fazem as necessidades?
O pessoal fez assim, como não tão pagando nem papel higiênico já ficam preparadas essas marmitex, que são lavadas, tudo bonitinho, ai deixa dentro do banheiro vai colocando e jogando fora.
E vocês jogam fora onde?
A gente joga fora aqui mesmo atrás da penitenciária, pela janelinha, a gente joga fora por ali, joga fora ali que tem umas boquetas ate mesmo porque não tem condições eles quebraram os vasos, eles mesmos quebraram os vasos e deixaram a gente nessa situação, daí fica difícil, aonde entra a desumanidade, a falta de higiene é muito grande as pessoas para tomar banho, de vez em quando a água é racionada de vez enquando eles abrem de vez enquando não, a gente, sei lá, de vez em quando parece que está entrando no esquecimento, nossas famílias não sabem nem o que fazer.
Vocês se sentem numa ilha?
É, a gente se sente numa ilha, numa ilha perdida que quando passa um avião alguma coisa, a gente começa a acenar, ergue bandeira, ergue tudo, faixa, pra alguém ver a gente, pelo menos olhar e falar, “ olha como está aquilo lá ”, não tem condições nenhuma, numa cela onde cabe 3, 4 pessoas ter 20 22 23 pessoas, não tem condições, isso quando chove, né, porque daí entra todo mundo pra dentro da cela, apertado ou não a gente fica todos juntos.
E os ratos?
Exatamente, essa febre do feno que eu falei ela é causada pela urina do rato, esses 4 casos que tem aqui foram causados pela urina do rato, é chamada antiga febre do rato, já tem 3 casos aqui, ela dá na espinha e a pessoa paralisa tudo, a pessoa não consegue se movimentar, inclusive uma noite dessas ai o menino chegou a quarenta e cinco graus, quarenta e dois graus de febre, quase levado a entrar em coma, estava delirando, então a gente ta ai aberto pedindo para as pessoas estarem analisando, está certo nem todo mundo tem culpa nos somos cidadãos condenados a cumprir a nossa pena mas com o direito em cima da lei, lei da tortura do Brasil não existe, é isso ai que a gente tem que estár, a lei da tortura no Brasil não existe, e o que estão fazendo com a gente é a lei da tortura, a gente está sendo torturado até o ultimo, será que a gente está sendo algum tipo de massa política, estão mexendo com a gente para dar votos a certas pessoas que querem se candidatar as custas dos presos? Acredito que sim eu vejo tanta coisa que a gente vê e escuta falando, o político fulano de tal está fazendo isso e aquilo, daí o já vem, já faz outro, então, quer dizer, estão pressionando os presos porque toda época de eleição acontece o que está acontecendo agora, rebelião, atentado, essas coisas que todo mundo está vendo, então todo mundo está cego de saber que a gente virou marionete dos políticos.
Está certo Pedro, eu agradeço seu depoimento, a gente volta a conversar semana que vem.
A gente que agradece de coração em nome de toda a população carcerária de Itirapina Dois.
Muito obrigado.
Obrigado.
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Boletim da prisão, 4 de agosto - Jorge, preso na Penitenciária
de Mirandópolis, e João, preso na Penitenciária
de Itirapina, ambas no interior de São Paulo, falam como está
a situação nesses dois presídios superlotados
e convulsionados como os de Araraquara.

João de Barros - Com quem eu falo?
Oi, Jotabê, é o Jorge.
Oi, Jorge, você esta preso em que penitenciária?
Eu estou aqui em Mirandópolis 1
Como está a situação de vocês?
Eu estava conversando com uns amigos no telefone, e eu já falei com outros repórteres e eu vou passar a mesma situação que já tinha sido passada. Negligência médica, em primeiro lugar, com os que estão feridos, desde o dia da invasão, do motim, da rebelião. Muita gente que foi ferida por estilhaços de bomba que a tropa de choque jogou, doente mesmo de TB ( tuberculose ) soropositivo, então, quer dizer, em momento algum eles tiraram nenhum desses para nenhum tipo de atendimento médico, com enfermeiro que fosse. Então, está desse jeito, os senhores de idade até mesmo os doentes sem colchão para dormir, dormindo quase mil e cem todos desse jeito que você viu nas imagens no meio do pátio, debaixo de barracas, no relento mesmo.
E a situação de alimentação como está?
Agora a gente não está percebendo mais nenhum acontecimento desses, Mas, no principio, era caco de vidro que a gente cansou de encontrar, lâmina de gilete, objeto de metal, pedaço de fio, tudo isso que você pode imaginar. E a gente acredita que tenha sido sabotagem por parte dos agentes aqui da penitenciária. E também teve um caso de mais de 200 internos que passaram mal, inclusive eu que sofri de uma diarréia quase fiquei desnutrido. A gente acredita que houve envenenamento por parte deles na alimentação. Inclusive cheiro de urina no feijão.
Como está a relação de vocês com os agentes penitenciários? Na verdade tem algumas imagens, que você pode reparar ai nas fotos, que está citado no dossiê, que quando eles vêm trazer a alimentação eles vêm com aparato de armamentos com os funcionários da muralha mascarados, com arma em punho, espingarda calibre doze apontada pra gente. Você pode verificar que tem até imagem, foto disso aí. Então, é difícil, né? Às vezes os ânimos se alteram, a gente vai lá reivindicar alguma coisa que está faltando mas não tem acordo, nunca tem acordo.
Vocês são quantos numa ala só agora?
Quase mil e cem, mil e cem pra falar a verdade.
E na ala cabem quantos?
É para duzentos e sessenta internos.
Houve algum remanejamento de presos daí para outra unidade?
Houve sim, quarenta foram transferidos, mas a maior parte dos doentes se encontra aqui na unidade.
E vocês tem que tratar dos doentes ou tem alguma assistência do presídio?
Não, a gente na medida do possível vai tratando deles, dando uma assistência, dá prioridade pra dar colchão, cobertor, para os que estão doentes, Mas eles não ajudam em nada não, tudo o que você pede eles negam.
Como é a noite de vocês?
A noite é completamente escuro, no meio das trevas, não tem claridade nenhuma, só a luz da lua. A gente reivindica pra eles um bico de luz pelo menos para uma cela, para poder abrigar e cuidar dos doentes, recolher os remédios que restaram, que a gente já tinha antes da blitz, e poder dividir, passar para os doentes. Mas nem isso está sendo possível. Enquanto está de dia a gente está suportando, mas quando chega de noite, vou te contar uma coisa, é difícil sobreviver assim.
Você tem algum companheiro de outra cadeia nesse papo com a gente ou está só você falando comigo?
Tem sim, está o João aqui de Itirapina.
Oi, João, você esta em Itirapina?
Isso.
Eu queria que você contasse pra gente como está a situação aí em Itirapina? E se o Jorge quiser ele pode participar da conversa, também pode bater um papo.
Aqui está semelhante aí. Estamos em mil e duzentos presos abrigados em apenas um raio, poucos colchões, cara dormindo no meio do pátio, passando frio. Toda vez que a tropa de choque vem aqui, baleia. Teve cara que perdeu a visão. A última vez que a tropa de choque veio aqui, a penúltima, corrigindo......
A penúltima quando foi?
Eu vou pegar a data precisa aqui, mas faz de 17 a 20 dias. Eles vieram e passaram a gente de um raio pro outro pelados, poucos de cueca. Depois que a tropa de choque foi embora falou que a gente ia ficar lá, jogou dez, quinze colchões lá, dez quinze mantas para 1200 presos, e falou “ vocês vão se virar essa noite, vão ficar desse jeito ”. E esse dia estava muito frio. Largaram a gente sem alimentação, sem nada. Teve cara que não agüentou a pressão psicológica e começou a chorar. Aí não agüentando o frio de madrugada fizeram um buraco na parede de um raio pro outro pra buscar as mantas, os agasalhos, porque tinha gente morrendo de frio, gente desmaiando. Aí, quando foi lá apenas no outro raio buscar essas peças fundamentais de agasalho, de manta, pra voltar pro raio, pra pelo menos não morrer de frio, foi quando no outro dia veio a tropa de choque, chegou baleando, jogando bomba. Tem vários caras aqui com estilhaço de bomba na perna, com tiro de borracha nas costas, tá entendendo?
Eu ouvi também algumas denuncias de que haveria até alguma coisa sexual com os
presos, molestando, é verdade?
Oi, Jotabê, aqui quem fala é o Jorge de Mirandópolis.
Fala, Jorge
Isso foi aqui na unidade. Inclusive foi numa outra vez que aconteceu isso. Daí teve um motim e eles tiraram seis ou sete detentos e levaram pra frente - o resto ficou trancado – e introduziram cabo de vassoura, cabo de madeira e espancaram primeiro, tem inclusive laudo médico que a gente não teve acesso mas deve estar incluído no dossiê também, que introduziram cabo de vassoura no anus do detento.
João, como vocês matam o tempo aí? Vocês também estão numa ala só?
Isso. Agora o que acontece? Eles estavam, em principio, revezando a gente, a cada três dias jogava a gente do raio dois para o raio três, e assim vice-versa. Cada três dias no máximo. Agora, o que eles fizeram? Passaram nós todos para o raio um, montaram aqui em cima da cadeia uma cobertura para os funcionários aqui do GIR ( Grupo de Intervenção Rápida ) ficarem em cima do telhado 24 horas vigiando, com as armas apontadas para nós.
O GIR que você fala é o grupo...
Não sei. É o grupo de funcionários que fica o dia inteiro vigiando a gente, mascarados, armados com doze, bombas na mão, metralhadora apontando para os presos vinte e quatro horas, ameaçando os presos aqui no meio do pátio. Não tem colchão : os colegas estão fazendo barraquinhas no meio do pátio, para dormir. Os caras ameaçam dar tiros para tirar as barracas do meio do pátio tá esse clima de pressão, de ameaça, vinte e quatro horas,1200 presos todos num raio só. Não tem colchão para todo mundo, não tem agasalho para todo mundo. Eles não estão deixando entrar nada por enquanto.
E como está a situação de higiene de vocês, banho, papel higiênico?
Isso daí é raridade. Às vezes eles liberam pra visita trazer. Quem traz, a gente divide o pouco que tem com alguém aqui. Água é precária. Nunca tem água. Uma, duas horas por dia. Eles alegam que tem muita gente no raio, que a caixa d´ água não comporta água para todo mundo. Então, geralmente, aqui não tem nada. A gente morre de sede, tem dia que não tem uma gota d´ água para beber o dia inteiro.
E como vocês passam o tempo aí?
Não tem jeito de matar o tempo aqui não, senhor. O tempo vai passando aqui. A gente vai conversando um com o outro e não tem jeito. O que fazer? A gente fica aqui é rezando pra Deus, pra sair o quanto antes desse lugar aqui, desse inferno que está a nossa vida
Agora rádio, televisão, jornais, livros?
Nada, nada. Eles liberaram aqui duas televisões, mas só que não fica duas horas de energia ligada por dia, então não tem muita serventia.
Não tem energia, né?
Não, energia não tem
E visitas?
Visitas sem previsão. Ele falou que vai começar a reformar. No mínimo são seis meses de reforma. Mas nem começaram a reformar. Ele falou que depois que começar a reformar tem o prazo de seis meses. Foi a posição que eles deram, para depois pensar em ter visitas. No momento não tem nem data de visita nesse lugar.
Está certo.
João, aqui é o Jorge de Mirandópolis. Eu queria deixar frisado também que você me perguntou sobre isso, como a gente passa o tempo. Antes eu queria te falar que houve outro caso de abuso sexual. No dia que a tropa de choque invadiu para a revista, que aliás nem havia necessidade de ter vindo aqui, um preso foi introduzido também. Houve um x na parte genital desse detento, e foi por parte do funcionário, do agente penitenciário, isso na presença do diretor, do seu Renan e do seu Paulo, que é diretor-geral aqui da unidade.
Certo, Jorge, eu agradeço a você, agradeço ao João e semana que vem a gente torna a conversar para ver se a gente consegue alguma melhoria para vocês, está certo?
Ô doutor, é o João aqui. Tudo que a gente falou aqui tem fotografado, está na mão de um advogado. Se o senhor quiser, se o senhor puder, eu passo o contato pro senhor. Tem tudo na mão : as fotos, até as condições de alimentação, tudo fotografado, tudo dos caras feridos aí, toda a situação precária que a gente fala que tem aqui. A gente tem provas do que a gente está falando, porque a gente não quer aumentar nem diminuir, a gente só quer a justiça. E que transfiram a gente para um lugar digno pra gente poder tirar nossa pena. Isso é a única coisa que a gente quer. Se o senhor quiser e puder, a gente vai pedir para o pessoal procurar você com essas provas todas na mão para o senhor analisar.
Quero sim. E também quero saber se vocês estão falando com algum jornal, rádio ou televisão sobre o assunto?
Não, no momento não estamos. Já foi passado para algumas emissoras aí, mas não foi dada a atenção devida, que precisava ser dada não, entendeu?
Me diga uma coisa, Jorge...
João, aqui a gente falou com quatro repórteres : um do programa da Ana Paula Padrão, do SBT, o Diário de São Paulo, O Estado de São Paulo e a Agência Brasil. Até mesmo com a Rede Record a gente falou, mas o que foi divulgado mais que a gente ficou sabendo foi no SBT.
Eu vou colocar essa gravação que a gente fez no site e a gente continua mantendo contato com vocês para ver quais os desdobramentos dos acontecimentos, está certo?
A gente queria agradecer em primeiro lugar essa atenção. O cuidado que o senhor vem tendo e a gente queria fazer um apelo para que possa haver uma ajuda por parte das autoridades. Se vocês tiverem a condição de chegar até eles, levar a informação para dar um jeito na nossa situação, porque está sem condições, está super desumano mesmo essa situação.
Está certo, Jorge, muito obrigado.
Obrigado você
Obrigado, João
Obrigado, muito obrigado pela atenção.

Direto da Penitenciária
Boletim da prisão – 24 de julho: O preso João, que parecia muito nervoso no curto depoimento de sexta-feira (21), dizendo temer represálias por narrar para a imprensa o dia a dia dos detentos ali em Araraquara, E, de novo, nesta segunda-feira falou rapidamente, mas um defeito na gravação não permitirá que você ouça o diálogo aqui reproduzido de memória:
João de Barros – João, como estão as coisas por aí?
Ih, seu João, aqui tá ruim. Eles acabaram de sair daqui....
Eles quem?
A PM deu uma blitz geral hoje de novo, a gente não tem mais sossego. Eles entraram e ficam os ninja lá em cima soltando bala na gente, feriu um companheiro nosso, entendeu? Já havia dois feridos na semana passada, que atiraram com bala de borracha na cara deles, entendeu? A gente tá aqui, sem médico, sem assistência nenhuma, na maior dificuldade...
Mas por que razão houve nova blitz?
Ah, a blitz é idéia deles, entendeu? A gente ficou só de cueca, entendeu? Que a blitz é assim, a gente fica só de cueca e eles reviram tudo, dão tiros na gente, assustam. Inclusive, ameaçaram de novo. Falaram que quem sair de “bonde” vai estar condenado a morrer. A gente está todo mundo com medo.
E a comida melhorou?
Melhorou nada. Tá igual: vem com vidro, sujeira. Olha, seu João, vou ter de desligar porque a gente tá quase sem bateria, se cair...
Mas a blitz não pegou o celular, né?
Não, não pegou. Mas a gente quase não tem pilha para carregar...
Como vocês escondem?
Ah, seu João, isso não vou falar, né?
Só mais uma coisa: vocês estão sem energia elétrica à noite?
Estamos, estamos. É o maior breu aqui de noite, entendeu. E os ninja ficam ameaçando que vão atirar na gente, vão bagunçar. Nós estamos com medo, estamos na maior calma, mas eles querem bagunçar, ver se a gente vai na deles... ó, seu João, vai cair...
E as visitas no fim de semana?
Nós estamos sem visita, sem nada. Precisa entrar a imprensa aqui para ver o que eles estão aprontando, entendeu? Mas eles não... (ligação interrompida)

Boletim da Prisão, 21 de julho - Nosso entrevistado, João, parecia muito nervoso. Ele conta que os presos estão sendo ameaçados por estarem falando com a imprensa.

Natalia Viana - Tem gente aí, eu estou ouvindo voz de mulher...
Não, não, mulher não. É um menino contando um fato ali que hoje os polícia atirou no rosto de dois companheiros ali, os companheiros tá ferido e outro foi ferido no corpo todo. São três.
Quem, os ninjas? Eles atiraram quando?
Isso, os ninjas mesmo. Atiraram hoje. Se mandar a reportagem entrar aqui agora a senhora vê três feridos ali com tiro na cara, dois na cara e um ferido no corpo todo de bala.
Mas como assim, na cara?
Na cara, na cara, no rosto, no rosto.
Onde no rosto?
No rosto, senhora, deu um tiro no rosto dos companheiro ali, de dois, entendeu? Inclusive nós tamos tudo asssutado que eles já falaram que vai matar a gente que está dando reportagem pra vocês, por isso que nós estamos meio assutados de falar, entendeu?
Entendi...
E tem o problema da pilha também, pra poder carregar, entendeu?
Escuta, essas pessoas que levaram tiro no rosto, elas não morreram?
Não morreu, foi tiro, pegou na cara de dois assim, duas pessoas tomou tiro na cara assim, entendeu?
Mas foi de raspão.
Ó, eu sei que eles tomaram tiro, agora se foi de raspão eu não sei.
Você não viu.
Não, porque é ali do outro lado, no outro pavilhão, entendeu?
Você sabe se eles estão sendo atendidos?
Não, atendidos só por água e boa vontade de quem está lá. Fizeram isso e esvaziou a cúpula, a cúpula é uma janela de onde eles ficam olhando a gente. Eles fizeram vários furo na parede para colocar a boca das doze e atirar em nós.
Onde fica essa cúpula, ela fica em cima?
Isso, fica em cima, tipo a quase 4 metros de altura.
Foi de lá que eles atiraram?
De lá que eles atiram, entendeu, porque são quatro cúpulas, uma em cada pavilhão, entendeu, e na do lado de lá eles atiraram.
Como é que eles falam que vão matar vocês, eles gritam lá de cima da cúpula?
Dali de cima, isso mesmo, inclusive quem falou quer ia matar a gente foi o mascarado e o diretor estava presente, seu Rodrigo, entendeu?
Isso foi que hora?
Foi agora, há pouco tempo, uma hora e meia.
Falaram que iam matar porque vocês estavam dando entrevista?
Isso.
Como foi o choque ontem?
Ó, ontem foi daquela forma que eu falei pra senhora... Então, senhora, ontem eles entraram aqui foi pânico total, que nem eu falei pra senhora, entendeu, eles entram ameaçando todo mundo, é puro pânico.
Eles bateram em alguém, jogaram bomba de gás lacrimogêneo?
Não, graças a Deus ontem não, entendeu? Fizeram uma revista de praxe, só com os cachorros perto de nós, latindo, babando a gente, entendeu? Todo mundo assustado, em pânico.
E vocês ficaram quantas horas em posição de rendido?
Ah, ontem eles saíram daqui era umas três e meia, mais ou menos. ô senhora, a bateria está apitando, vai cair, entendeu, senhora? Estou falando o possível pra não deixar de dar atenção pra a senhora, mas vai acabar caindo a bateria, melhor desligar, tá bom, que eles estão tudo olhando pra cá, eles ali.
Eles estão olhando lá de cima?
Estão, estão olhando lá de cima e apontando com as doze pra cá, não sei nem se vão atirar.
Se acontecer alguma coisa você entra em contato, vocês têm o contato da gente, o telefone do João...?
Senhora, mas se um dia a gente for sair “de bonde ” aqui e eles ameaçarem a gente vocês vêm rapidinho aqui pra a aporta?
Deixa eu perguntar uma coisa. As pessoas que estão saindo “de bonde”, vocês estão sabendo se elas estão sendo ameaçadas, se elas estão sendo agredidas?
Ah, eu não sei, eu acredito que... a ameaça deles aqui é constante, é toda hora, entendeu? Agora quem tá saindo “de bonde” a gente não fica nem sabendo como que foi, pra onde que foi. A gente só vê eles escalando ali pela corda, saindo pra lá pra dentro, e depois nós sabe o que acontece.
Aí no seu pavilhão ninguém foi atingido de bala essa manhã?
Não, não.
Porquevocês estão com medo?
Porque eles não têm preparo pra estar armado, e eles atiram mesmo, entendeu?
Você está com medo de estar falando com a imprensa?
Tô sim, entendeu, por isso que inclusive eu não falo o meu nome, entendeu, por segurança.
Você acha que eles vão atrás das pessoas que estão falando com a imprensa?
Ah, acredito que sim, mas ô senhora, vai acabara a bateria, se desligar a senhora me desculpa, não é falta de educação não, é a pilha que está acabando.
Não tem problemanão, mas a gentenão pode conversar até cair a bateria?
Ó, não pode, porque se outra emissora ligar a gente tem que atender também, entendeu?
Tá bom, você tem alguma denúncia hoje pra fazer, tem três pessoas feridas, uma com várias balas no corpo, é isso?
Isso, um está com vários tiros e o outro foi cada um tomou um tiro no rosto, entendeu?
São três, vocênão sabe se essas pessoas morreram...
Denúncia que eu tenho a fazer é em nome de todos, nós estamos sendo ameaçados de morte e a gente tem que ser olhado por algum órgão competente.
Tá certo, deixaeuperguntar uma coisa: esse final de semana também não vai ter visita, né?
Não, não, ô dona Natalia, vai cair a bateria, dona Natalia.
A última pergunta.
Estou falando pra senhora pra não desligar, entendeu, estando no meio da conversa, dona Natalia.
Tá bom, deixa só eu fazer a última pergunta: vocês pretendem fazer alguma coisa se a situação não mudar durante o final de semana?
A gente pretende ser acolhido por alguém que dê atenção para nós e veja nossa situação. O que a gente quer não é nada fora do comum, é simplesmente um rádio, uma televisão, a visita, entendeu, um tratamento digno na população carcerária. Vai cair a bateria, dona Natalia.
Tá bom, obrigada viu, João.
Obrigado, tá bom?

Direto da Penitenciária de Araraquara
Boletim da Prisão -
dia 20/7.

Natalia Viana – Oi João, o João de Barros falou que eu ia ligar, né?
Falou, senhora, mas inclusive eu vou falar rápido hoje porque o choque está aqui.
Você estava dizendo que o choque está aí....
O choque está aqui dentro, entendeu? Inclusive ele está pra entrar nesse pavilhão aqui.
Como você sabe que o choque está aí dentro ?
Porque a gente viu eles passando ali numa galeria que tem ali, entendeu? Eles tudo armados, com bomba, cachorro, entendeu?
Você viu quantos homens eram?
Ah, era um monte, o dona Natalia, não dá pra especificar quantos são, mas é bastante.
E vocês estão ouvindo gritos, alguma cosia do outro lado? Vocês sabem por que o choque está aí?
Ô, dona Natalia, deve ser blitz de rotina, de praxe.
E você não está ouvindo nenhum movimento diferente...
Não, só dos cachorros latindo, assim, entendeu? E aquele negócio, uh! uh! uh!, tipo eles vindo.
E como é uma blitz de rotina ?
Ah, eles amontoam a gente nós todos ali só de, com todo respeito, de cueca ali, ficam apontando um monte de arma ali, quando eles não dão tiro, a senhora entendeu? Joga bomba de efeito moral, e gente fica tudo quieto, rendido num canto, cercado e enquadrado por armas de fogo.
Eles costumam jogar bomba de efeito moral ?
É, de gás lacrimogêneo, a senhora entendeu? De spray de pimenta...
Issomesmocomvocês rendidos.
Isso, com nós mesmo rendidos, entendeu? Às vezes eles ficam “abaixa a cabeça”, “pára de falar”, e ninguém nem tá falando, já tá todo mundo rendido, mas é o prazer de sarcasmo que eles têm, entendeu?
Desdeque houve a rebeliãonunca entrou o choqueaí?
Já, já sim.
Nesse último mês ?
Há, já entrou aqui umas três ou quatro vez, senhora.
Ah, é?
É.
E foi isso que aconteceu? Você pode me descrever a sua reação com as bombas de efeito moral...
Não só a minha como a de todos é de pânico total, de choque. Inclusive vários são baleados nessas blitz deles, a senhora entendeu? Só que graças a Deus os feridos já estão recuperados, a maioria que estava desde o princípio já foram pra os hospitais adequados, a senhora entendeu? E os que estão feridos aqui ainda são leves, ferimentos, graças a Deus, né?
Essas balas são balas de borracha ou balas mesmo ?
Não, nós aqui temos bala de chumbo guardadas, a senhora entendeu? Temos cacos de vidro, lagarta frita dentro da alimentação. A gente tem tudo como uma prova mas a gente não tem como enviar pra você, porque se nós pudéssemos nós enviaríamos, a gente não vamos dar na mão da própria polícia pra eles não pegar e dar fim, sendo que são únicas provas que a gente tem.
Me diz uma coisa, quantotempodemoraessetempo de revista do choque?
Ah, senhora, tem vezes que eles entram umas oito horas da manhã e sai umas cinco horas, a senhora entendeu?
Isso aconteceu nesse últimomês?
Isso, isso.
Qual é a sensação de todo mundo aí agora que o choque pode ser que entre a qualquer momento, qual é o sentimento de todo mundo?
Olha, é de pânico, total desespero, fica todo mundo ido pra lá e pra cá feito barata tonta sendo que só tem os quatro cantos e não tem pra onde a gente ir, nem se abrigar, entendeu? A gente tem que ficar aqui à mercê do perigo que a gente corre na mão deles.
Tá. Você poderia me descrever se aconteceu alguma coisa, o que aconteceu de ontem pra hoje?
Ah, de ontem pra hoje a única diferença que teve foi que deixaram entrar só da região aqui uma sacola com alimentação, entendeu? Peças de higiene pessoal e cinco e meia da manhã teve bonde aqui, entendeu? Essa foi a mudança da rotina da gente do dia-a-dia.
Você sabe quantos foram transferidos?
Não, não sei especificar. Mas eles estão tirando todo dia na base de trinta, vinte e poucos presos, a senhora entendeu?
Olha, só: a ordem do juiz corregedor é que se transfiram cem presos por semana. Se eles seguirem isso, daqui a 16 semanas eles vão conseguir esvaziarissotudo. Queria saber o que vocês acham disso, dessa previsão?
Ó, vou falar a verdade pra senhora: se eles mandar a gente pra um lugar que reeduque a gente, tenha um estudo, uma proposta de trabalho dentro da penitenciária mesmo com a Funap, a gente só tem a aplaudir as imprensas que ajudou a gente, deu audiência, e agradecer a quem está fazendo isso por nós, entendeu? Não falo só por aqui, mas como em geral toda a população carcerária que hoje vive momentos de pânico, entendeu, de perigo na mão de diretores, de policiais que entram na penitenciária, entendeu?
Mas você está com a expectativa de que vai ser transferido pra um lugar assim ou você está achando que vai acabar indo praumlugarpior, um RDD...
Ah, eu não sei, do jeito que eles são covardes e agem com covardia eu vou ser realista pra senhora, a gente espera de tudo. Mas ao mesmo tempo que a gente espera de tudo a gente tem esperança porque a ONU está sabendo do descaso total da população carcerária, que nem a própria reportagem que liga aqui pra gente, dá atenção pra gente falou, porque se não nós nem sabíamos, entendeu? E a gente conta muito com a ajuda da sociedade que olha o descaso da população carcerária. Não aqui, como geral, entendeu, senhora?
É geral, né?
Isso, em geral. Porque pelo que eu sei que a própria imprensa que liga aqui pra gente, faz a reportagem com a gente, fala que não só aqui como várias outras penitenciárias, várias outras populações carcerárias está passando por isso, entendeu? E a gente só vai ter a agradecer se tirarem a gente tanto daqui como em geral, a população carcerária, colocar num lugar digno, porque a gente não somos santo, não somos inocente, mas o que a gente cometeu a gente já está pagando, que nós estamos presos na mão na justiça mas a gente quer poder tirar cadeia dignamente como ser humano, entendeu?
Ô João, essa situação em que você está hoje em dia é a pior em que você já esteve durante o tempo que você está preso? Dentro do tempo que eu tô preso é sim, é das piores, foi uma injustiça o que fizeram não só aqui como em geral na população carcerária, a senhora entendeu? É um descaso, é desumano essa situação. A senhora vê que o senador vem aqui, senador de São Paulo, é o senhor Suplicy, né? Ele veio aqui, deu maior atenção, olhou pra gente, os olhos ficou até vermelho porque ele viu a situação como estava, era de caos total, entendeu? Todo mundo com short, poucas mantas, todo mundo desabrigado do calor, estávamos todos no frio, entendeu? Mostramos vidro, espinho pra ele, colhemos balas de verdade, de chumbo, demos na mão dele, a senhora entendeu? E falaram que ia providenciar nosso sedex, a energia que nós não tem, a senhora entendeu? Até mesmo visita e outras coisas mais, coisas que tudo isso foi prometido na frente do senador e no dia-a-dia não está sendo cumprido de forma alguma.
A quemvocê atribui a situaçãoemquevocês estão aí?
Quem eu acho que é o culpado?
Isso.
Ah, quem libera tropa de choque que no momento conduz a população carcerária, que é o governo, a senhora entendeu? Às vezes nem todos, mas alguns sim, que estão conduzindo no momento. È que nem, tem umas emissoras que a gente dá uma reportagem, ela passa tudinho certinho da forma que a gente conversa, agora tem umas que a parte que é pra poder mostrar o caos total na população carcerária é cortado, a senhora entendeu? Do mesmo jeito que tem governador sincero e justo, que põe a gente aqui pra gente se reeducar, aprender um estudo, pra se regenerar e se integrar á sociedade tem muitos que quer ver o sarcasmo, entendeu? Que é os que no momento estão conduzindo tropa de choque, tudo isso aí, a senhora entendeu?
Deixa eu fazer uma pergunta: você diz que essa foi a maior injustiça e a pior situação em que você já viveu. Você pode me descrever agora o que está acontecendo emvolta de você? Eu estou ouvindo um barulho muito grande, as pessoas me parecem que estão muito nervosas...
Isso aí é pra senhora ver que não é mentira, entendeu? A senhora escuta um zumzumzum. É os presos em pânico, indo pra lá e pra cá porque não sabe o que pode acontecer, entendeu? A gente sabe que é de praxe Ter uma blitz, é norma da casa eles darem uma geral, entendeu? Mas tudo isso por pessoas capacitadas pra fazer, entendeu? Agora, entra uma tropa despreparada que nem entra agora nesses últimos tempos, parece que são uma tropa só que entra em toda a população carcerária, porque o descaso é em geral, não é só aqui, entendeu? Mas no momento o caso aqui está grande, entendeu?
Eu queria saber com todo respeito, como vocês estão tomando banho, tem chuveiro aí?
Bom, tem uns buracos assim no teto que é onde é os canos, entendeu? Aí vem a água dali, graças a Deus algumas toalhas entrou e a gente divide tudo, entendeu? Toma banho um por vez e está desse jeito.
Onde vocês bebem água?
A gente bebe água num bebedouro, senhora, que eu vou falar com todo respeito, parece aqueles cocho de cavalo, que ele põe a cabeça assim pra beber água, mal dá pra encaixar a boca assim que a cabeça bate na parede. É aqui onde a gente bebe uma água, privada são entupidas, tudo isso.
Ainda tem pessoas doentes aí ou já foram todas transferidas?
Tem, mas levemente, os que estão mais adoentados assim é porque comeram caco de vidro na alimentação aí está obrando sangue, vomitando sangue, esse negócio assim, entendeu? Que eles falaram que iam dar atenção, inclusive a gente nem sabe se deu porque esse menino estava ali do outro lado, entendeu?
Ah, esse menino que estava obrando sangue você não sabe mais o que aconteceu comele?
Não, não. Eles falaram que iam vim tirar pra poder hospitalizar ele, mas a gente não sabe se tirou ou não, entendeu?
Entendi. Deixaver... Tem uma coisa: saiu no jornal de ontem que um preso aí da penitenciária de Araraquara disse que é do PCC e disse que as faixas que estão espalhadas pela cidade exigindo justiça pra os presos são do PCC. Você sabe dessa história?
Ô senhora, deixa eu falar um negócio pra senhora. Eu vou falar pra senhora, entendeu, independente se é do PCC ou não, isso vem a mostrar o problema da população carcerária, e a gente fica muito agradecido se for do PCC, entendeu? Porque... como eu posso falar pra senhora? É uma divulgação pacífica que está tentando mostrar o verdadeiro caos que está na população carcerária, entendeu? E no momento a gente não está pra julgar se é do PCC ou não é, é uma manifestação pacífica, a senhora entendeu? Que está querendo expor o problema da melhor forma, pacificamente. Porque eu não sei, as pessoas quer divulgar pacificamente as coisas, parece que tem outras que querem que os presos se rebelem, que faça algazarra, coisas que não está sendo feito, entendeu? Hoje em dia a senhora vê que não tem briga interna de preso com preso, a senhora entendeu? Muita coisa não acontece por quê? É graças até mesmo ao PCC. Porque hoje em dia a senhora entra pra uma cadeia, antigamente tinha inimigo, tinha que brigar, tinha que tal. Hoje em dia conversa, é tudo resolvido pacificamente, eu posso dizer assim, entendeu? É igualmente a essas faixas que estão sendo colocadas. Está tendo algazarra, está tendo alguma coisa? Não está. È uma manifestação pacífica. Que eles também não gostam que seja feito, entendeu? A gente não precisa só elogiar, se a gente quiser criticar todo mundo tem que ser aberto, dar um espaço pra uma crítica construtiva e boa quanto pra uma má crítica, entendeu?
Ó, sem querer te contradizer, é que também houve, queimaram ônibus, e tal...
Senhora, agora deixa eu ressaltar. Isso daí tem muitas pessoas que aproveitam os momentos pra tirar suas diferenças pessoal, pra badernar, pra fazer algazarra pública, entendeu? E isso acredito que não sai das pessoas que está sendo inteligente pra divulgar uma faixa, pra pôr numa escrita, pra quem está conversando pacificamente na imprensa. Eu acredito que essa baderna que tentam fazer pública aí já não parte de ninguém não, entendeu, assim. Porque eu acredito que se fosse pra fazer uma baderna não seria divulgada uma faixa com uma escrita pacificamente. Já que é badernar pra que por uma faixa? Eu acredito assim, entendeu? É que nem a gente aqui, eu acredito que muitos policiais, diretores, queriam que a gente fosse pelo que eles querem, que a gente quebrasse pra eles entrar e matar nós, fazer o que eles querem, entendeu, com nós, que é matar mesmo e isso daí nós já sabe, entendeu?
Entendi. Olha só, pra terminar eu queria voltar um pouquinho só na história do choque, eu queria que você me contasse... você pode me descrever como é quando o choque entra?
Senhora, quando o choque entra é isso aí que eu botei pra a senhora ouvir mais ou menos, escuta mais ou menos, ó. (...) A senhora está escutando, tipo pânico, tipo caos? È isso aí.
Quando foi a última vez que o choque entrou você pode mecontar o que aconteceu com você?
Comigo mesmo, graças a Deus foi efetuados vários disparos mas em mim, graças a Deus, não pegou em mim, entendeu? Mas pegou em vários outros amigos... Até mesmo quando estava no pátio aqui, jogando baralho ou dormindo, eles atiravam se fizesse um samba eles atiravam, jogasse uma capoeira eles atiravam entendeu? Estava assim, entendeu, desumano.
Mas isso aí não é o choque, são os ninjas....
Os ninjas, mas o choque também, no dia que foi choque de Araraquara foi eles que efetuaram esses disparos todos e deixaram ordem aí pra esses ninjas ficar brincando com nós aqui de tiro ao alvo.
Você ficou na posição de rendido por muitas horas?
Ah, quando eles vêm, senhora, é de oito horas da manhã a umas 4 horas, 4 e meia, às vezes até cinco horas ou mais.
Eu queria saber o que isso causa em você, se no final do tempo você sente cansado...
A senhora fala em respeito à saúde, assim: A gente fica tudo cansado, se sente humilhado, se sente um nada, sendo que a gente tem família, a família da gente paga imposto, tudo normal igual a todos os outros, entendeu? A gente se sente humilhado demais, acaba com a nossa moral, entendeu? Não é um tratamento pra recuperação, entendeu? Isso aqui é um tratamento pra desrecuperar alguém...
Tá certo, João. Tem mais alguma coisa que você quer dizer hoje pra os leitores que vão ler o que você está dizendo hoje?
Eu só peço aos senhores leitores que dêem mais uma atenção ao que diz respeito à população carcerária e antes de julgar eles avaliem a verdadeira situação, porque todo mundo, não só aqui como em geral, falando por RDDs, tudo, em geral, população carcerária, todo mundo tem que ter oportunidade de se reintegrar á sociedade, seja ela quantas vezes for, porque se quer ver o bem da pessoa tem que tentar recuperar, porque todo mundo tem recuperação, entendeu? A senhora vê que Jesus Cristo quando morreu, ele perdoou um ladrão que morreu do lado dele, que eu não lembro o nome dele. Mas a gente sabe que o todo-poderoso acima de nós todos, justiça da terra é Deus no céu.

Direto da Penitenciária de Araraquara
Boletim da Prisão dia 19/7
João de Barros – João, como foi de ontem para hoje aí ?
A rotina aqui, infelizmente, não mudou muito, entendeu? Como eu falei para o senhor ontem, torno a falar: é a mesma situação, entendeu? Aqui fizeram um remanejamento, dividiram em três pavilhões, 500 presos de cada lado. A única novidade que está tendo aqui é que está tendo um “bonde” (transferência de presos de Penitenciária). Ontem teve e hoje também, lá pelas 5 horas da manhã. Mas agora referente a alimentação, a visita, rádio, televisão, energia, isso a gente não tem. E estamos totalmente desinformados, entendeu? Está um descaso total. A comida continua vindo com caco de vidro, lagarta frita, espinho. Assistência médica então nem se fala. Aqui não tem nenhum preso que entenda de medicina. Então, tem alguns companheiros que continuam passando mal aqui, entendeu? Estão doentes, não estão tendo assistência médica, entendeu? E eles não dão retorno pra nós de nada. A única coisa que o diretor sabe é vir ali pra falar que quando a gente sair de “bonde”, eles vão matar a gente na faca, que nem aconteceu com os reeducandos lá de Ribeirão Preto, entendeu? Inclusive a gente está até precisando de ajuda da sociedade porque a situação carcerária, em geral, está precária demais, entendeu? Não está reeducando ninguém. O que eles sabem criar é RDD, esse Regime Disciplinar Diferenciado aí, que não reeduca ninguém, entendeu? Sendo que os presos precisam é de escolaridade, de um trabalho honesto pra tentar se reeducar pra a sociedade. O que acontece é totalmente o contrário. Porque se o senhor parar para ver a vida do senhor Medina (diretor do Presídio), desse senhor Rodrigo (da diretoria do presídio), todas as penitenciárias que eles passaram teve desavenças, teve turbulência, entendeu? Porque eles são ditadores. Eles seguem a rima do Hitler, entendeu? Eles não reeducam ninguém. O objetivo deles é desreeducar, entendeu? Inclusive hoje é dia que libera uma sacolinha, mas só pra região. Porque Campinas, Capital, Baixada Santista, não pode vir. Inclusive os parentes dos presos que estão aqui na região, quando vem trazer uma sacolinha, eles estão causando tumulto. Como? Vem cinco sabonetes, pô, o preso fica um monte de dias sem receber artigo de higiene pessoal, roupa, fora que roupa e outras coisas não podem entrar, só higiene. E mesmo assim quando vem é racionado. Foi liberado umas bolachas, agora uma alimentação. Eles estão racionando, não estão deixando entrar tudo que as famílias trazem, sendo que todo mundo sabe que, no rigor da casa, eles dão uma blitz de praxe lá pra poder estar liberando pra suprir as necessidades do preso. Nem isso eles estão cumprindo. Eles que dizem que são a lei e não cumprem a lei, entendeu?
Me explique como foi o bonde desta manhã?
O bonde desta manhã continua da mesma forma. Por ali onde desce a alimentação, uns quatro metros, quatro metros e meio mais ou menos, por onde descem os tambores de alimentação arrastando pela corda na parede, caindo tinta da parede dentro, é por onde eles estão remanejando os presos de “bonde”. Eles mandam o preso subir pela corda, entendeu? Cinco e meia da manhã, o preso meio tonto de sono, entendeu? Não pode levar pertence, não pode levar foto familiar, entendeu? Um descaso, uma desumanidade total.
Quantos presos foram no “bonde”?
Não posso especificar para o senhor assim, concreto, porque nós estamos em três pavilhões aqui. Como eu falei para o senhor, eles remanejaram, um remanejamento que parece que estão remanejando gado: um vai para o matadouro, outro vai tomar injeção, aqui está assim, entendeu? O que eu posso falar para o senhor, assim, por alto mais ou menos, acredito que tenha ido uns 25, 30 presos, acho.
Qual o perfil desses presos que estão saindo daí, são os mais violentos? Qual é o critério?
Não, não, deixa eu falar um negócio para o senhor: não tem negócio de preso violento, entendeu? Todos os presos são iguais. Estão lutando por um só ideal, que é a liberdade, conseguir ver seus parentes na rua, poder estar abraçando e beijando seus parentes em liberdade. Aqui, se o senhor for analisar, puxar na pasta, tem muita gente, a maioria, é pai de família. Tem pessoas que estão presas e são inocentes, o senhor entendeu? E esses “bondes” que estão tendo, eles estão tirando aos poucos. Mas não tem esse negócio de preso perigoso, assim. Aqui é todo mundo igual. Todo mundo luta por um objetivo só, que é a liberdade e uma melhora para poder se reintegrar à sociedade, o senhor entendeu? Coisa que não acontece.
João, eu pergunto pra saber qual é o critério que a Secretaria está usando pra transferir os presos. Por exemplo: por que transferiram o preso A e não transferiram você?
Aí a gente não pode explicar nem especificar, entendeu? Porque essas tramóias só quem entende são eles mesmos. Isso daí eu não posso falar para o senhor, entendeu? É uma pergunta que eu não tenho como responder. Porque eu não sei se isso daí vem da Secretaria ou vem deles, entendeu? Eu sei que tudo eles jogam a culpa na Secretaria. Como não ter visita, não ter rádio, televisão, eles jogam a responsabilidade pra cima da Secretaria (de Segurança), os carrascos aqui, o senhor Medina e o senhor Rodrigo.
O senhor Medina e o senhor Rodrigo, você disse que eles são conhecidos no sistema penitenciário...
São sim, são sim, e eu não posso falar para o senhor porque, certo, podem falar que o preso tem raiva do diretor. Agora, o senhor pede pra a imprensa procurar o passado dele, na penitenciária que ele passou, entendeu?
Quais as penitenciárias que o senhor Medina já passou?
Ah, são várias, são várias, entendeu? Em todas que ele passou houve descaso, entendeu?
Mas você sabe citar quais foram?
Uma que eu sei é Iaras, entendeu? E outras, muitas mais: Bernardes, entendeu? Matou preso no cano de ferro, entendeu? Vários acontecimentos eles já fizeram. Eu só não sei porque pra eles não tem justiça e pra nós tem, entendeu? Porque reeducar mesmo, eles não reeducam ninguém. O que eles fazem? Criam esse Regime Diferenciado que não instrui ninguém a melhorar. Se eu falar pro senhor, no zoológico o animal é mais bem tratado. Porque tem hora de lazer, tem tudo. E o preso que está nesse Regime nem uma visita pode receber.
E a questão das visitas como está?
Senhor, eu vou falar a verdade para o senhor, entendeu? Nem atenção eles dão pra gente. A gente pede uma compreensão para ter um diálogo, mas sabe como eles estão tratando e gente aqui: como se a gente fosse bicho, como se a cadeia estivesse em rebelião, coisa que já não está, a rebelião já tem mais de um mês, entendeu? Estão totalmente disciplinados os presos. Quer dizer, estão contando com uma esperança de ter uma melhora, uma visita, ou receber um rádio, uma televisão, pra gente ter uma informação, entendeu? E nada disso a gente tem.
Você me disse que a alimentação continua vindo com caco de vidro, espinho e outras coisas. Você me disse ontem que havia uma pessoa doente, vomitando sangue...
E obrando, obrando. Com todo respeito, sem querer estar desrespeitando o senhor, é fazendo cocô.
Certo. Como está esse seu companheiro, qual o nome dele?
O senhor, por segurança nossa mesmo, o nome não vai ser especificado, entendeu? Mas o que eu estou falando para o senhor é a realidade. A gente não tem precisão de inventar doença. Porque a gente sabe que, independente de qualquer coisa, mentir é uma coisa feia. E uma coisa boa que o preso tem é que ele não mente. Preso não é mentiroso, entendeu? Isso na ética nossa, do preso, é proibido ser mentiroso.
Mas como está a situação desse seu companheiro hoje?
O companheiro está meio ruim. Aí, devido a gente ter insistido muito numa atenção, os diretores mesmo não vieram, mas veio um funcionário e a gente falou da situação, que ele estava ruim. E eles falaram que iam vir buscar, só que até agora não veio.
Esses presos que saíram hoje de “bonde” estavam de cueca?
Saíram todos sem objeto nenhum, senhor. Nem carta, nem foto, não pode levar nada.
Mas eles sobem na corda só de cueca?
Isso, sobe pela corda de cueca. Às vezes nós conseguimos conversar com o funcionário e aí parece que estão liberando ir com uma bermuda, entendeu?
Mas vocês, no dia a dia aí, estão de uniforme?
Bom, a gente está com um uniforme amarelo. Alguns com o que restou lá dentro do pavilhão, eles pagaram uma roupa, uma camisa, uma manta, entendeu? Mas precário, entendeu? Porque eles pagam, mas na hora de ir de “bonde”, eles não deixam levar, entendeu?
Tem algum preso nas celas do castigo?
Não, não tem nada, seu João. A Penitenciária eram quatro pavilhões. Cabiam mais ou menos duzentas e poucas pessoas. Aqui, eles amontoaram 500 em cada pavilhão do CDP, que tem capacidade para 120 presos.
Toda cadeia tem uma ala de seguro...
O seu João, só um minutinho, não lhe interrompendo nunca, jamais. Deixa eu retificar uma caminhada para o senhor, referente à alimentação com vidro, espinho, lagarta frita, a gente tem tudo isso como prova aqui na mão, entendeu? Inclusive essas celas que tem aqui, são 14 celinhas aqui, não dá pra cobrir as necessidades de todos os presos estarem dormindo dentro. Então, quer dizer, continuam presos dormindo alguns no pátio, nos cantos. E ali tem uma galeria que tem vários vitrôs com os vidros quebrados. Sabe o que eles fazem ali de noite, os ninjas de preto ali que atiram a esmo em nós aqui? Eles batem com o cano da 12 assim, os vidros caem tudo na cabeça dos companheiros dormindo, ou no corpo, o senhor entendeu? Inclusive hoje o preso veio com um pedação de vidro pra mostrar que caiu nele. Só que, graças a Deus, não pegou. O vidro bateu de lado na pele dele. Porque a ponta que tinha aquele vidro, se cai de ponta, da altura que cai, de uns quatro metros, quatro metros e meio, aquilo ali ia fazer um rasgo, se não furasse, entendeu?
Os peemes estão entrando aí no pavilhão de vocês ou não?
Não, não, a porta está soldada e quem toma conta aqui são uns mascarados, tudo de preto, que a gente não sabe identificar o que eles são, entendeu? Se são justiceiros, se são esquadrão da morte, se eles são militares, civis. Eles são de preto, não tem identificação e são mascarados. Nem o olho deles o senhor vê direito.
Esses são os que vocês chamam de ninjas?
É, é.
E vocês não têm idéia de quem sejam essas pessoas?
A gente nem imagina, senhor. Quando a gente vai chamar um guarda ali pra dar uma atenção pra gente, eles apontam é a 12, mandando a gente voltar. Inclusive tem preso aqui que ainda tem buraco dos tiros, o senhor entendeu? Tem raspão na cabeça. Tem várias provas aqui, entendeu? Só que eles são tão anti-lei, que eles não deixam a reportagem entrar aqui pra ver o verdadeiro descaso que está acontecendo aqui dentro. Graças a Deus que o que está tendo, que está modificando um pouco a situação, são esses “bondes”, entendeu?
Todo presídio tem uma ala de seguro (presos jurados de morte por outros presos) dos presos. Aí não existe uma ala de seguro?
Não, aqui não existe seguro, esses negócios aqui não tem, entendeu? Aqui todo mundo vive em harmonia. Se um tiver problema com o outro procura conversar, pra cada um tirar a sua cadeia da melhor forma. O senhor veja como tem disciplina dentro da cadeia, que isso aí não existe mais na cadeia, a ala de seguro, o senhor entendeu? Os presos às vezes têm um conflito, uma confusão, às vezes até mesmo já se conhecem da rua e aí não se dá bem um com o outro, chega aqui conversa, troca uma idéia civilizada pra cada um tirar sua cadeia, porque o objetivo de todos é conseguir a liberdade, entendeu? E eles ficam fazendo essa má imagem nossa pra imprensa. Porque muitas coisas não são verdade, que da maioria, 100 por cento, 90 por cento eles têm antipatia dos presos. Porque alguns presos passam a forma com que eles agem, quem eles são de verdade, o senhor entendeu? Porque quem coordena a gente aqui, controla a gente, são eles, entendeu? Então, a gente pode falar como eles tratam e a forma que eles tratam, o senhor entendeu?
Outra coisa: material de higiene. O Estado fornece pra vocês ou a visita é que tem de mandar?
Ô seu João, a gente não tem visita. Eles liberaram o dia de quarta-feira, hoje inclusive está pagando, é quando vem material de higiene e eles estão racionando. Porque devido o muito tempo que tem, às vezes a família fala, pô, vou levar 10 sabonetes, 10 pastas de dente, porque tem muita visita que é solidária. O pessoal pobrezinho toca no coração delas, que sabem que tem muitos presos que não tem visita já mesmo devido à situação, aí ela leva para o parente dela 10 sabonetes, 10 pastas de dentes, até mesmo o preso que é parente dela dá uma pasta e um sabonete pra um outro que não tem, pra suprir entre nós mesmos, já que eles não dão nada.
O presídio não fornece nada?
Nada. Nada
Papel higiênico também não?
Nada, nada, nada, seu João. A não ser bala, ignorância e falta de atenção, eles não fornecem nada. 
Direto da Penitenciária de Araraquara
Boletim da Prisão 18/7

João de Barros – Bom, João, como é que foi de ontem para hoje?
Olha, de ontem para hoje aqui, de anormal, o que aconteceu foi de madrugada, umas 4 e meia da manhã, 5 horas, eles chamaram uns bondes (presos que são transferidos de unidade penitenciária) e saíram uns bondes. Com isso, houve um desafogamento, porque ficou uns quinhentos presos em cada pavilhão. Mas o senhor veja as condições que estão tirando os reeducandos de bonde: eles puxam lá pela corda onde descem os caldeirões de comida, entendeu? E eu não entendo como um diretor desse aí, causador de tantos problemas, porque, se a reportagem ou a sociedade parar para analisar, todas as cadeias que esse cara passou, tudo teve baderna, bagunça, entendeu? Porque ele é causador de tudo isso, viu?
Ele quem?
Ele, o senhor Medina, o senhor Medina, entendeu? Agora, quem está no lugar dele é o senhor Rodrigo, mas tudo que o senhor Rodrigo faz é a mando dele. O senhor vê que até para ir de bonde é desumano o tratamento, que sobe pela corda onde desce a comida.
Quantas pessoas saíram de bonde nesta madrugada?
Devido estar os presos divididos aqui entre os pavilhões, estavam quinhentos em cada, daqui saíram mais ou menos uns quinze. Agora, dos outros pavilhões eu não sei, mas devem ter tirado também.
E essas pessoas eram retiradas pela corda, de madrugada...
Isso. Pela corda, às 4 e meia, 5 horas da manhã. Puxados pela corda. Por onde desce a alimentação, eles puxaram os presos, entendeu?
Dá para você descrever um pouco melhor para a gente. Porque a gente só pode imaginar como é a si |